sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Todo encorcado…

            – Toma lá uma escaidinha de uvas, homem, para te animares! E olha que estas não estão abolecidas e até te ajudam a espairecer! Estás-me praí todo encorcado, que até me pareces um cocharro!...
            – Nem sei que tenho, moço, com este tempo que nunca mais se ajeita às estações e varia como cata-vento em dia de temporal! Anda-me aqui uma pontada nas costas, que eu até desconfio que será mancha nos pulmões!... Mas venha lá essa esgalhinha, que sempre me entretenho a comer!
            Conversa de anciãos, em que as maleitas não podem deixar de ser tema, quer faça sol ou nos entre um gelo pelos ossos adentro…
            E chamou-me a atenção o «encorcado». Reza um dos meus dicionários que é provincianismo algarvio e que deriva do verbo ‘corcar’, aí apresentado, por sinal, como termo da construção em Lisboa e que Leite de Vasconcelos (possivelmente ele, eu não consegui aceder ao volume) terá registado na Revista Lusitana, volume VII (1902), p. 116. E o significado de corcar é ‘empenar’, ‘entortar’. Equivaleria, pois, a dizer: «Estás praí todo empenado», «todo torto» – e esse é, de facto, o sentido com que se usa.
            Não hesitaria, por conseguinte, a ver aqui mais uma relação entre o Algarve e a zona de Lisboa, através de gente que de cá foi para lá, a trabalhar na construção. E, nesses tempos, andar encorcado sob o peso dos baldes de massa, por exemplo, seria posição habitual!… Oh se era!...

                                                    José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 204, Janeiro de 2016, p. 10.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Dançar, dançar, dançar!...

             Sob o título «Natural é dançar», decorreu, no passado dia 9 de Janeiro, em três sessões, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, o tradicional espectáculo das Academias do Ai!aDança (Sintra I, II e III – Loures I e II – Pontinha – Santa Iria I e II).
            Do programa constava o nome de 710 (!) participantes; na 1ª sessão, 27 quadros, 29 nas outras duas. Ballet, dança contemporânea, hip hop, dança oriental, dança criativa, kizomba, dança espanhola, salsa cubana, flamenco, zumba – foram as modalidades apresentadas, nos mais diversos níveis etários. Citam-se na ficha técnica 20 professores; Joana Rodrigues foi a directora de cena; Sara Correia, Carina Leiria e Carla Raimundo geriram os bastidores; Luísa Santos, Maria João Madeira e Otília Santos, as figurinistas; Pedro Rua, o director técnico; Rui Braga, o técnico de luz. O espectáculo teve o apoio da Câmara Municipal de Sintra e da União de Freguesias de Santa Maria e S. Miguel. Todas as sessões esgotaram.
            Estranhar-se-á, porventura, a preocupação de referir estes nomes todos, podendo muito bem eu ter-me cingido a dizer que por detrás de tudo isto está o génio e o inigualável dinamismo de Lucília Bahleixo. Seria errado. Primeiro, porque a própria Lucília quis deixar bem claro no final (eu assisti à 3ª sessão) que um espectáculo assim não podia ser erguido sem a colaboração de toda uma equipa; depois, porque, na verdade, imaginar pôr em cena, numa ininterrupta sucessão de quadros, tanta gente, em que todos os pormenores (a luz, o cenário, a marcação…) têm de ser calculados quase ao milímetro e ao segundo implica dedicação extrema de muitos.
            Temos acompanhado, com todo o gosto, os espectáculos das Academias do Ai!aDança e garanto, sem medo de errar, que, neste dealbar de 2016, o espectáculo nos encheu as medidas, não apenas por se ter verificado mui sensível subida de nível das actuações de conjunto e individuais (há pequenitas e pequenitos que nos deslumbram de tal modo que – os outros no-lo perdoem!... – nós ficamos grudados neles!), mas também pela variedade dos temas e das bem originais coreografias. Sentíamos, por vezes, que a dança espanhola – não fosse ela a preferida de Lucília Bahleixo!... – era repetitiva; ora, este ano, ainda que o flamenco e as sevilhanas não tivessem faltado, deu-se-lhes a volta, mudaram-se os passos e tudo resultou muito mais fluido e encantador.
            Há quatro aspectos que não posso deixar de realçar.
            O deslumbrante ‘realismo’ – tão próximo de nós – das projecções multimédia. Recordar-se-á, sem dúvida, logo do início, aquelas vagas que parecem rebentar à nossa frente e como a dança nelas perfeitamente se enquadra. E depois, já quase no final, o comovente hino à família! Numa época em que os velhos surgem, amiúde, como um problema e não há ternura que se lhes chegue no doloroso leito a que estão presos, as imagens que nos mostraram, mesmo ali ao alcance da mão (pareciam!...), condimentadas por uma coreografia adequada e fundo musical a condizer, ficarão, sem dúvida, na retina de quantos, emotivamente, as puderam contemplar.
            O segundo aspecto, que já é recorrente mas que sempre importa assinalar: a dança constitui também – pode e deve constituir! – um meio de integração. Não há idade para se frequentar aulas de dança! Ali estão as mães e os filhos. Ali está a sexagenária e o menino de cinco anos. A menina que não tem todas as capacidades que seria suposto ter, mas que pode ser mimada pelos demais. «Natural é dançar» proclama-se! Por isso, aquela professora, em final de gravidez, não teve receio de mostrar a maternal barriga e actuou por diversas vezes, mexendo-se com desenvoltura. Aplaudimos e… acredite, Amiga, com essa barrigona, a mensagem não passou despercebida! Parabéns!
            Terceiro: há de se admirar o entusiasmo com que todos se entregaram ao papel que lhes coubera. Sentia-se que os meninos, os jovens, as mulheres e as senhoras estavam plenamente satisfeitos com os progressos feitos, mostrando invejável à-vontade em palco. Um entusiasmo conseguido – afirme-se – através de trabalho persistente, de muitas horas roubadas a outras actividades que menos exigiriam de cada um. E, desta vez, eu tive a visão de um bocadinho dos bastidores e fixei-me, a dado passo, naquele menino dos seus dez anitos, se tanto, que se preparava para entrar (ia numa de hip hop…) e, antes, treinava sozinho os gestos que iria fazer… Apreciei, compreendi-o!
            Finalmente: ouvimos, a cada passo, nos noticiários, que chovem dificuldades para o ensino artístico. Não pagam aos professores, não há apoios… Claro, a vontade tudo pode superar; contudo, impunha-se que, cada vez mais, as entidades competentes compreendessem que riqueza não se obtém só com negócios. É que, por detrás dos ‘negócios’, têm de estar as pessoas, pessoas felizes, serenas, que sabem dominar-se (que é a dança senão esse equilíbrio entre o corpo e o espírito?...), que sabem agir no minuto certo. E as Artes (sim, com maiúscula) têm – devem ter, urge que tenham! – um lugar tão cimeiro quanto as Ciências e as Letras!
                                                                              José d’Encarnação

domingo, 10 de janeiro de 2016

Morreu um bufo-real!


            Dir-se-á que não é título que se ponha em crónica nem notícia que valha a pena dar. Por conseguinte, o desafio que me pus a mim próprio foi o de provar o contrário a quem eventualmente me leia, até porque essa morte tem uma história para contar e, em meu entender, vale a pena conhecê-la.
            Conta uma amiga minha, moradora no Estoril:
            «No dia 8 de Dezembro, à noite, vimos uma coisa escura a boiar na piscina em casa dos meus pais. No dia seguinte, dia 9, fomos ver o que era e percebemos que era um mocho. Removemo-lo e tirámos fotografias. Contactei então um colega que trabalha na Câmara de Cascais, que me indicou que deveria falar para a Cascais Ambiente, para o Dr. João Melo. Seriam, então, 11 horas da manhã ou meio-dia. Falei para a Cascais Ambiente e fiquei algum tempo à espera em linha (5 a 10 minutos), mas não atenderam. Assim, entendi que deveria contactá-los por e-mail, pois pensei que poderiam querer estudar o mocho antes que entrasse em decomposição.
            No dia 10 de Janeiro, recebi a seguinte resposta: «Acusamos a recepção da sua comunicação e de acordo com o N/Departamento de Estrutura Ecológica disponibilizamos o seguinte contacto para os devidos efeitos: PNSC (ICNF) – Tel.: 219 247 200».
            Contactei de imediato o PNSC, tendo falado com o Dr. Luís Roma Castro, que me perguntou de imediato se já tinha enterrado o mocho (já o tínhamos enterrado, porque começava a entrar em decomposição e a cheirar mal). Perguntou-me então se tinha tirado algumas fotografias e se lhas poderia enviar. Enviei de imediato as fotografias para pnsc@icnf.pt, ao cuidado do Dr. Luís Roma Castro, que me respondeu:
            «Venho, por este meio e na qualidade de biólogo que monitorizo as espécies de fauna ameaçadas do Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC), agradecer-lhe a sua comunicação e fotografias, informando-nos da observação de um bufo-real na sua residência, no dia 08.12.2015. Devido a ser uma das espécies que acompanhamos e para registo técnico, solicito-lhe o favor de me fornecer a sua morada ou alguma fotografia aérea do local em causa.
            Pelo facto de estar a escrever um relatório sobre a fauna do PNSC, a sua resposta torna-se urgente. Muito obrigado».
            Aqui está a história e vai em anexo uma das fotografias.
            E porque se conta a história?
            Para que se saiba doravante que assuntos deste teor não são da alçada da Câmara nem da Cascais Ambiente, mas sim do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. E que para quem mora na região de Sintra e Cascais, as comunicações em circunstâncias parecidas, devem ser feitas de imediato para:
            Departamento de Conservação da Natureza e Florestas de Lisboa e Vale do Tejo
            Av. Movimento das Forças Armadas, 8
            Portela de Sintra
            Apartado 25 - EC Sintra
            2711-901 SINTRA
            T: 219247211
            pnsc@icnf.pt
            Aliás, estando cada vez mais ameaçadas espécies que, no nosso ambiente, são fora do comum, constitui, na minha opinião, dever de cidadania colaborar com as entidades competentes, sempre que se avistem animais fora do comum. De preferência, os vivos; mas também, como se viu, também os mortos interessam!
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 09-01-2016:

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Um quarto de século a doutrinar-nos!

            «Este é o meu 25º cartão. ¼ de século a enviá-los (cerca de 2000 por ano). Dispendioso, mas valeu a pena, pois alguns dos textos estão em livros de Ensino e há professores que os utilizam como material didáctico».
            A mensagem vem, manuscrita em letra miudinha, num post-it amarelo, sobre a versão inglesa do postal de Boas Festas deste ano, que tem por tema «Longevidade: plantas e animais».
            Já lá vamos ao tema, mas importa, antes disso, saborear a consolação do Cientista e do Professor de Coimbra que, ano após ano, numa cruzada ímpar, nunca desistiu de dar testemunho em prol de um planeta melhor. Água mole em pedra dura… e é verdade! O facto de os seus textos estarem em livros de Ensino e serem comentados nas aulas constitui a vitória de um esforço hercúleo, sereno, sem alardes, mas firme e rigoroso. Por isso, a primeira expressão tem de ser: «Bem haja, Professor Jorge Paiva, pelo que nos tem ensinado e pelo enorme exemplo que nos dá! Eu sou, com orgulho, um desses 2000 privilegiados e é com devoção que religiosamente guardo, desde há bastantes anos, os seus cartões!».
O cartão de Boas Festas 2015 do Prof. Jorge Paiva
            Mui oportuno – como não poderia deixar de ser! – o tema deste ano, em que Jorge Paiva explica, por exemplo, como é que plantas e animais se alimentam e como conseguem, alguns deles, vida longa. Há diferenças e há semelhanças: se animais e plantas precisam de alimentos, as plantas não comem, «porque são seres vivos capazes de os sintetizar», enquanto os animais – entre os quais, o próprio homem – comem plantas e outros animais: «As plantas são, pois, produtoras de biomassa; os animais são consumidores».
            Explica depois Jorge Paiva por que mecanismos se consegue (ou não) manter a vida e porque, não tendo acidentes vasculares (a não ser os provocados por agentes externos), «as plantas têm vida muito mais longa do que os animais». E ficamos com duas curiosidades: «a árvore mais velha que se conhece é um pinheiro […] que tem cerca de 5065 anos», nos Estados Unidos; e se nenhum animal vive mais do que 300 anos, sabe-se que morreu, em Março de 2006, uma tartaruga de Aldabra com 255!
            Moral da história, que é, no fundo, como nas fábulas, o apelo mais importante:
            «Que a época festiva do final do ano ilumine a consciência humana e não se derrubem árvores, produtoras de biomassa, despoluidoras e fábricas de oxigénio».

                                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 676, 01-01-2016, p. 16.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Pelo mundo das tipografias

Os dois Valentins
            Passaram quase sete meses sobre o falecimento do Padre Valentim Marques. A notícia veio no jornal de Coimbra O Campeão das Províncias. Abriu na 1ª página da edição de 5 de Junho p. p.:
            «O padre Valentim Marques – que, durante décadas, foi gerente da Gráfica de Coimbra, propriedade da Diocese – morreu, hoje, aos 78 anos de idade».
            Acrescentava-se que o vitimara um acidente vascular cerebral e assinalava-se, desde logo, que fora substituído, em Março de 2012, na gerência da Gráfica pelo padre Manuel Carvalheiro Dias.
            Nas páginas interiores da edição, em artigo assinado por Rui Avelar Duarte intitulado «Baixa entre os apoiantes da liberdade de expressão», não foi esquecido o facto de, no período quente da revolução portuguesa, o PREC, o padre Valentim não ter hesitado em imprimir o jornal «A Luta», que se propunha substituir o «República», dirigido então por Raul Rego e Victor Direito e cuja publicação os revolucionários tinham proibido! Nenhuma tipografia ousara fazê-lo!
            E acrescenta o jornalista:
            «O ex-gestor, conceituado no meio empresarial, esteve no centro das transformações por que passou a Gráfica de Coimbra, um baluarte no seu sector de actividade até acabar por falir».
            Com ele trabalhei durante quase quatro décadas e permita-se-me que a ele associe um outro Valentim, o Morais, o grande obreiro de Mirandela & Cia, de Lisboa, um visionário também ele! Na Mirandela se fazia o Jornal da Costa do Sol, que, mui orgulhosamente, foi, a partir do nº 202, datado de 2 de Março de 1968, «o primeiro jornal português impresso em offset»! Com a Gráfica de Coimbra trabalhei também porque lá se faziam todas as publicações do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras de Coimbra. Pioneiros, ambos, a raiar a ousadia, pois não iam a uma feira de artes gráficas que não trouxessem de lá o «último grito» em maquinaria. A Mirandela acabou por soçobrar na viragem do descalabro económico geral; a Gráfica, vítima de uma concorrência feroz…
            Muito aprendi com ambos e com os seus operários e custa-me ver como tão nobre arte se deixa, amiúde, descarrilar! Tantas gralhas, tantos erros ortográficos e sintácticos, tanta maquetização a trouxe-mouxe!...
O papel pioneiro dos Salesianos
            Custa-me, sobretudo, porque, antes dos Valentins, eu convivera intensamente, como professor, no ano lectivo de 1963-1964, na Escola Profissional de Santo António, em Izeda, com a monotype, os caracteres de chumbo, o prelo, os linguados, a revisão de provas… Uma escola onde, à noite, os irmãos salesianos tipógrafos precisavam de beber bastante leite para se desintoxicarem de uma jornada em ambiente saturado de chumbo…
            Estava, de facto, a Escola – que era de correcção, dependente dos Serviços Tutelares de Menores – confiada aos Salesianos e, tal como acontecia no mesmo âmbito, em Vila do Conde, outra escola profissional e de correcção que lhes fora entregue, um dos meios de integração dos ‘correços’ na sociedade era a aprendizagem de um ofício. As artes gráficas ocupavam nessa linha um lugar cimeiro.
            S. João Bosco (1815-1888), o fundador da congregação, cedo se apercebeu de quão importante era o ensino profissional, nomeadamente, na altura, o que se prendia com as artes gráficas, pelo que elas podiam proporcionar: os folhetos, os livrinhos, os jornais constituíam veículos únicos para a educação da juventude e da população, em geral, uma população desenraizada, vinda do campo para a cidade, em plena era industrial, na ânsia de uma vida melhor.
            A obra de D. Bosco floresceu e as escolas tipográficas multiplicaram-se por todos os países onde os Padres Salesianos foram aceites.
            Entre nós, pelas Oficinas de S. José, em Lisboa, por exemplo, passaram gerações de tipógrafos. Aliás, Joaquim Antunes evocava no Boletim Informativo de Dezembro/Janeiro, editado pelos Salesianos, o que fora, nos anos 50, a enorme homenagem feita, precisamente em Lisboa, ao salesiano Achiles Marchetti, um dos que, vindos de Itália, fora mestre de muitos dos que rapidamente se espalharam pelas tipografias do País. Uma das muitas "histórias‎ que fizeram História"…
            Por isso, ao recordar a memória do Padre Valentim Marques – amigo e confidente de Miguel Torga, que na Gráfica passava amiúde para rever ou entregar as provas dos seus Diários… – e ao saudar a obra que Valentim Morais mui ousadamente empreendeu, não posso deixar de saudar também quantos, ainda hoje, preferem sentir nas mãos o contacto do papel. Saúdo os livreiros que acarinham a língua portuguesa e terminantemente exigem qualidade e revisão dos textos. Saúdo os que, apesar de tudo, ainda acham que um jornal palpável (não meramente virtual) merece a pena. Bem sei que, para isso, há mais árvores que se abatem; mas… esse abate, desde que racional e programado, acaba por trazer, afinal, um benefício maior!
                                                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Cyberjornal, edição de 31-12-2015:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1967:pelo-mundo-das-tipografias-os-dois-valentins&catid=91:quem-e-quem&Itemid=30

Um alerta sobre o Paço Real de Caxias

            Sob o título «Palácio sob tutela militar vandalizado e a cair aos bocados em Caxias», publicou José António Cerejo, na edição do passado dia 22 do jornal Público, uma reportagem que vem na sequência de o movimento cívico denominado Fórum Cidadania Lisboa, ao tomar conhecimento da situação, não ter hesitado em enviar, no dia anterior, ao ministro da Defesa, Azeredo Lopes, uma carta a pedir esclarecimentos e a perguntar se já se pensou no assunto.
            Claro que o senhor ministro, recém-empossado, terá respondido que o seu ministério estava agora a estudar esse e outros casos pendentes, uma vez que a hipótese, que se pusera em 2012, de alienação do imóvel ficara sem consequências práticas.
            Classificado, em 1953, como imóvel de interesse público, esse «pequeno palácio» «mandado construir por D. Francisco de Bragança, irmão de D. João V» é, agora, continua o articulista, «um casebre imundo, abandonado, vandalizado, saqueado, à beira da ruína».
            «Convivi» com o palácio em 1971, quando prestei serviço militar no Centro de Estudos Psicotécnicos do Exército ali ao lado; lembrava-me de, após a recuperação dos jardins do paço levada a efeito, em 1986, pela Câmara de Oeiras, ali ter assistido a um bem agradável jantar que terminou por bonita girândola pirotécnica numa das fontes (salvo o erro); e porque sabia estar o meu colega e amigo Carlos Beloto ligado, de certo modo, ao local, quis saber a sua opinião a esse respeito.
            Respondeu-me que «longe de discordar da necessidade de se recuperar o património e, em particular, a Quinta Real de Caxias na qual se integra o Paço Real», poderia aproveitar o ensejo para me dar alguns esclarecimentos acerca da história da Quinta, o que muito lhe agradeço.
            Assim:
            1. Os jardins e cascata foram iniciados, em 1775, pelo príncipe D. Pedro de Bragança, mais tarde D. Pedro III pelo casamento com D. Maria I. O citado D. Francisco de Bragança havia morrido em 1742.
            2. O Paço começou a ser construído em Agosto de 1785. É, portanto, uma obra 30 anos posterior ao terramoto de 1755.
            3. O Paço serviu para apoio à Família Real nas suas deslocações a Caxias, quer para assistir à partida dos grandes barcos para a Índia ou Brasil, quer para assistir às vindimas ou aos muitos jantares, lanches e festas de que temos notícia. Depois do regresso da Corte do Brasil, o Paço passou a ser residência temporária dalguns personagens ligados à Corte, como, por exemplo, a Imperatriz (mulher de D. Pedro IV), a sua filha, o próprio rei D. Luís, enquanto o Palácio da Ajuda não ficou habitável.
            4. Quanto à classificação, é bom referir que só foram classificadas duas salas do piso intermédio, ou seja, o salão nobre e o quarto da Imperatriz.
            5. Acrescente-se que foram feitos, a partir de 2007, estudos e investigações que permitiram descobrir as telas pintadas das duas dependências classificadas, que, a expensas da Câmara Municipal, se fotografaram em alta resolução, material que se encontra pronto para publicação.
            6. Simultaneamente, um grupo de voluntários coordenados pelo próprio Carlos Beloto procedeu ao levantamento de todo o edifício em autocad.
            7. Embora, de facto, o aspecto geral do interior seja deprimente, a estrutura do imóvel mantém-se em bom estado de conservação, graças à reparação total do telhado, executada nos anos 70 do século passado.
            8. Tem-se consciência de que a documentação que era importante se conseguiu salvar e estão, de facto, a ser equacionadas propostas de programa em colaboração com a Câmara Municipal de Oeiras; contudo, enquanto se mantiver pendente a questão da posse do edifício, eventualmente para o Município, não são muito largas as passadas que é possível dar.
            Por isso, todos os alertas não são de somenos a fim de as entidades competentes se consciencializarem da realidade e venham a adoptar medidas para se preservar e valorizar um património arquitectónico e artístico que enobrece Caxias.

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 31-12-2015:

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Doze badaladas diferentes!

            Há lugares que assumem um halo singular, dificilmente explicável. Na Costa do Estoril – a Costa do Sol d’outrora – o Casino Estoril é um deles.
            Se reflectirmos pausadamente, motivos haverá a apontar; diversos, consoante as pessoas e os seus interesses e hábitos. Contudo, se aos mais novos os concertos de livre acesso levados a cabo por artistas de seu agrado no espaço central (que foi, antes, Jardim de Inverno e depois Du-Arte Garden e, agora, Lounge D – designação mais ajustada ao internacional linguajar), aqueles que ao espelho penteiam as cãs lembrar-se-ão sempre do que significa esse reencontro de amigos no aconchego do Salão Preto e Parta, antes de soarem as doze badaladas do 31 de Dezembro, nos momentos doces que se lhes seguem e no entusiasmo proporcionado pelo artista convidado a saudar a entrada do novo ano.
            Assim será, nesta passagem de 2015 para o bissexto 2016. No voto de que, sendo mais longo, mais breve seja nas mágoas de um quotidiano que ora se deseja venha a ser mais promissor.
            Tripla será a ementa.
            Primeiro, a do jantar (esse lavagante do Atlântico deitado em cama de espargos selvagens!...); a da ceia (seu porquinho ibérico a jazer em pão de caco madeirense…); e a das altas horas, a lembrar idas d’outrora até ao cacau quente da Ribeira!...
            E a Ribeira traz-nos outros tempos, que a azougada Fafá de Belém (de Belém do Pará, entenda-se, brasileirinha de gema!...) ora vem fazer reviver. A presença de Fafá como que nos fará regressar à década de 80, onde amiúde alegrou Carnavais e passagens de ano. Um elo de ligação entre o passado e o presente:
            «São 30 anos de parceria com o Casino Estoril e um caso de amor com Portugal. Agradeço ao Grupo Estoril-Sol ter aberto as portas desta minha segunda casa, assim como o carinho e afecto que me deram ao longo destes anos» – fez questão de confessar.
            Terceiro ‘prato’ da ementa: a actuação de Paulo Gonzo «cá fora», no Lounge. Com um genuíno ambiente festivo, Paulo Gonzo dará um concerto especial, com que deseja celebrar os seus 40 anos de carreira! E, aqui, a entrada é livre!
            Poderia não assinalar o condimento geral destas três ementas, por ser evidente: mas cumpre fazê-lo! É que, este ano, numa altura em que as entidades públicas cascalenses, inteiramente submergidas nas delícias da impessoal (e fácil!) informática, parecem esquecer-se das pessoas – por mais que diversamente o proclamem! – a Administração do Casino fez questão em mostrar, de forma mui cordial, que, na verdade, são mesmo as pessoas que contam e sem a colaboração das pessoas nada se poderia fazer nem 2016 – mesmo com um dia a mais! – se poderia antojar esperançoso, alfobre de vida melhor!
            Saúdem-se, pois, os cantares que o novo e bom ano querem anunciar!
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 28-12-2015: