quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Quão admirável foi o tributo!

       A Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana levou a efeito, na noite do passado dia 29 de Janeiro, nas instalações da Associação de Beneficência Manancial de Águas Vivas (Polima), um concerto de «tributo a Carlos Paião».
      Não carece de apresentações a figura ímpar deste músico, cujas composições continuam hoje a ser cantadas e trauteadas por toda a gente, desde as crianças de mui tenra idade aos seniores de oitenta ou mais anos. Não há quem não se emocione com a ternura de «Cinderela» ou não se divirta com o enorme gozo de «Playback»! E serão, porventura, estes os dois pólos em que se movimentou a imensa criação artística de Carlos Paião: de um lado, a emoção do dia-a-dia; do outro, um olhar perspicaz sobre uma realidade a que não se podia ficar alheio e era preciso, mesmo em jeito de brincadeira, escalpelizar, para dela tomarmos consciência.
      Mas se a sua fugaz existência – nasceu em Coimbra («por acaso», escreve-se sempre…) a 1 de Novembro de 1957 e faleceu em Rio Maior, vítima de acidente, a 26 de Agosto de 1988 – é do domínio comum, talvez se não conheçam suficientemente três aspectos devidamente realçados nesta sessão do dia 29: residiu a maior parte da sua vida em S. Domingos de Rana; era de uma afabilidade extrema; e, como compositor «impulsivo» (diríamos, porque compor música estava-lhe na massa do sangue…), poucos serão os artistas que não cantaram ou não cantam composições de sua lavra, boa parte delas feitas expressamente para eles. A título de exemplo, muitos dos êxitos de Herman José («Vamos lá cambada!», «Serafim, Serafim aos molhos»…) têm assinatura de Carlos Paião, a demonstrar precisamente a característica de alguém que, atento ao que o rodeia, sabe rir e fazer rir.
      «Imortal» foi, portanto, uma das palavras que mais se ouviu, ou intuiu, no decorrer de um espectáculo emotivo, tocante, invulgar, admirável. Várias vezes se frisou «Que pena não haver aqui nenhuma televisão a gravar o que de tão extraordinário se está a passar aqui!», num salão repleto, com uma assistência de mais de 800 pessoas que não arredaram té quase às duas da madrugada!...
      A apresentação esteve a cargo de dois dos nossos maiores comunicadores: Atónio Sala (também ele residente em S. Domingos), e Júlio Isidro, que tiveram ambos, aliás, oportunidade de acompanhar bem de perto a trajectória de Carlos Paião e a quem os unia laços de mui profunda amizade. E, para além do grupo coral Vox Laci, sediado em S. Domingos, e do Coral Infantil de Carcavelos, passaram pelo palco, fazendo anteceder sempre a sua actuação com um testemunho emotivo do seu relacionamento com o homenageado, artistas como Ana, Henrique Feist, Nuno da Câmara Pereira e Lenita Gentil. Impossibilitado de estar fisicamente presente, Herman José não quis deixar de dar, também ele, o seu testemunho, gravado em vídeo e apresentado já no final da sessão.
      Aos agradecimentos, Maria Fernanda Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia, acentuou que um tributo com esta envergadura não poderia ser levado a cabo sem o entusiasmo de toda uma vasta equipa e a entusiasmada colaboração de todos os intervenientes.
      Dos familiares estiveram presentes a viúva (Dra. Zaida) e os pais, a quem foi entregue a medalha de mérito com que a Junta de Freguesia deliberara agraciar, a título póstumo, o artista, assim como, para eles, a medalha da freguesia.
      Três iniciativas visaram – ou visam – honrar a memória de quem tanto nos legou. Foi a primeira a trasladação dos seus restos mortais para a terra natal dos pais, Ílhavo; esta, em Polima, era a segunda. A terceira será a concretização – ainda se não sabe onde – de um ‘museu’ que perpetue a vida e obra de Carlos Paião. Aliás, no dia seguinte, sábado, a partir das 18 horas, inaugurou-se, na sede da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana (e pode visitar-se, até ao próximo sábado, dia 6), uma tocante exposição que dá emotiva conta da vida e obra de Carlos Paião. Objectos pessoais desde bebé à idade adulta, testemunhos, fotografias… tudo ali pode ser observado – e a visita vale a pena, embora (diga-se já) seja difícil visitar sem sair de lá emocionado com alguém que tanto fez e tão cedo nos deixou!...
      Perdoar-se-me-á se confesso ter sido – também esta! – para mim uma evocação cativante, porque, no livro Cascais – Paisagem com Pessoas dentro, eu decidi incluir, no final (p. 208-215), a entrevista que fizera a Carlos Paião publicada no Jornal da Costa do Sol a 10 de Junho de 1981. Na verdade, de todas as pessoas que resolvera incluir na obra, Carlos Paião deixara-me uma impressão tão relevante que… não resisti a evocá-lo!
Carlos Paião, em entrevista a 23-05-1981
      Foi, recordo, uma conversa inteiramente despreocupada na sua casa de Rana, de coração aberto, em que, inclusive, tocou para nós (Guilherme Cardoso acompanhou-me para fazer as fotografias) alguns dos seus êxitos, em jeito de apontamento. Pedi-lhe uma mensagem para os leitores. E foi esta:
      «Acho que as pessoas devem tentar fazer o melhor possível para se entenderem, darem-se bem umas com as outras, em espírito de franca convivência. Não é assim tão difícil e, a partir daí, tudo se resolve. Enquanto as pessoas tiverem a mania de se verem como inimigas, isso não dá!».

                                    José d’Encarnação
 
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 125, 03-01-2016, p. 6.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

É salesiano o novo bispo de Díli

            O Papa Francisco acaba de nomear Bispo de Díli o Padre Virgílio do Carmo da Silva, que exercia as funções de provincial dos Salesianos em Timor-leste.
O Padre Virgílio do Carmo da Silva,
que recentemente esteve em Lisboa.
            O novo bispo, que passou recentemente por Lisboa, nasceu a 27 de Novembro de 1967 em Venilale, na diocese timorense de Baucau. Frequentou o ensino primário e secundário nas escolas salesianas de Fatumaca e ingressou na Congregação Salesiana a 31 de Maio de 1990, tendo feito a profissão perpétua, ou seja, tomou a decisão definitiva de permanecer salesiano a 19 de Março de 1997. Fez em Manila os seus estudos de Filosofia e Teologia e foi ordenado sacerdote a 18 de Dezembro de 1998.
            Ocupou de seguida as mais diversas funções, em Timor-leste e não só, porque, de 2005 a 2007, frequentou, em Roma, a Pontificia Università Salesiana, aí obtendo a Licenciatura em Espiritualidade. Foi, ainda, de 2009 a 2014, director da Casa dos Salesianos e dirigiu a Don Bosco Tecnnical High School, em Fatumaca. Fora nomeado provincial o ano passado.
            Ao novel bispo auguramos o maior êxito nas suas novas funções.

                                            José d'Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 1-2-2016:

Histórias de professores…

            Surpreendeu-me (confesso) a repercussão que teve a crónica anterior sobre o menosprezo das escolas (nomeadamente as universitárias) em relação aos seus docentes aposentados ou jubilados: informações de casos idênticos e partilha de atitudes a louvar. Para além dos leitores habituais do Renascimento, ultrapassaram as 800 as visualizações e a meia centena os comentários à crónica de 15 de Janeiro atrás incluída «Os aposentados são para deitar fora?».
            Surpreenderam-me também algumas das histórias:
            «Lembro-me de que, passados três meses de ter sido aposentada, fui à escola e os alunos de uma turma, que tinha deixado, ao verem-me, pediram à Professora para sair um pouco da sala para me virem cumprimentar e a minha Colega autorizou. Foram não mais que cinco minutos, muito doces. Incrível! Essa Colega contou-me, estupefacta, quando me encontrou, que tinha sido chamada à atenção pela direcção, para não repetir tão condenável atitude!».
            «Em 1998, contava-me o grande classicista Hellmut Flashar, recém-jubilado da Universidade de Munique, que um 'fedelho' acabado de subir à cátedra lhe comunicou que, para utilizar a sala de professores (já que tinha ficado, no dia da jubilação, sem as mordomias do Ordinarius alemão: gabinete, secretária, tarefeiros), ainda que fosse para orientação dos doutorandos que ainda tinha, havia que cumprir os horários destinados a cada um, caso contrário perturbava».
            Felizmente, que também aí se contam mui louváveis deferências e compromissos. Contudo, o facto de haver, como igualmente se assinalou, «Professores e professores», como, de resto, acontece em todas as profissões, leva-me a realçar os depoimentos que vão no sentido de que, mais do que as atitudes administrativas dos «funcionários» das instituições (e ponho a palavra entre aspas para os distinguir dos funcionários-pessoas), o que conta, na vida de um docente, são as sementes que lançou. Por isso, me confortou uma das mensagens que, neste âmbito, recebi de Roma, de um velho amigo:
            «Atendendo à minha idade, isso já não me afecta; confortam-me muito, porém, a estima e o afecto que continuo a receber de colegas, próximos e afastados, e de ex-alunos e de alunos de alunos. Para mim, é esta a Universidade que conta e, enquanto aguardo a verdadeira e definitiva despedida, isso me basta!».
            Esse constitui, de facto, o mundo de afectos a que importa dar relevo!

                                                                        José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 678, 01-02-2016, p. 12.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Ourique – O Lugar Controverso

            O Professor Jorge de Alarcão acaba de publicar um ensaio de 80 páginas (Livraria Figueirinhas – Porto) intitulado Ourique – O Lugar Controverso.
            Começa por salientar que a batalha de Ourique constitui «um dos pontos mais incertos e falíveis da História de Portugal», não no que concerne à (naturalmente forjada) lenda do aparecimento de Cristo a el-rei Afonso mas a três outros pontos: o local do recontro, o significado da expressão «cinco reis mouros» e, também, a dimensão dos exércitos que terão estado frente a frente.
            Analisa o Autor, um a um, os testemunhos que se têm aduzido para resolver as questões em apreço.
            Assim, no que se refere ao sítio onde a batalha se travou contesta a sua localização no Baixo Alentejo e sugere como hipótese mais viável a região de Leiria, podendo mesmo imaginar-se essa batalha como «um episódio da reconquista de Leiria» (p. 60). Os argumentos aduzidos, ainda que não ‘decisivos’, como o próprio Autor concede, devem doravante ser tidos em consideração, ou seja, «a hipótese de a batalha de Ourique se ter travado perto de Leiria é pelo menos tão verosímil quanto a de o prélio ter tido lugar no Baixo Alentejo. Talvez seja mesmo mais verosímil» (p. 64).
            A relevância dada à vitória poderá ter justificação no facto de, assim, Coimbra ter ficado mais imune aos ataques mouros e, daí, a assunção, por parte de Afonso, do título de rei, regressado a Coimbra e ovacionado após a refrega. É natural, no entanto, que a população não tivesse tido de imediato uma percepção exacta do significado futuro dessa vitória, até porque, por outro lado, no quatro da historiografia alcobacense, seria «bem mais gloriosa para o rei seu protector» uma vitória obtida lá mais para sul, em terras infiéis (p. 67).
            Este ensaio vale, pois, de modo especial, pela reanálise da documentação em presença, em que se lança mão de todos os dados ora disponíveis, inclusive – é um exemplo – o dos caminhos que, na época, os exércitos poderiam ter palmilhado, com base no que se sabe, mormente da rede viária medieval, decalcada, em muitos locais, da rede viária traçada pelos Romanos. Traz, no final, exaustiva bibliografia.
            «Tantos argumentos que apresentámos não conduzem a segura conclusão mas apenas reforçam dúvidas: ainda está por vir uma definitiva prova que nos permita uma certeza quanto ao local da batalha», escreve Jorge de Alarcão, a concluir. Contudo, o facto de se haver disponibilizado a rever, densamente, a documentação e a complementá-la com novos dados merece o maior encómio.             
                                                                                              José d’Encarnação

Publicado em archport, a 22-01-2016:

Celebrou-se a Beleza!

            Ao saudar o público que por completo enchia o Salão Preto e Prata do Casino Estoril, no passado dia 16, o maestro Nikolay Lalov lançou o mote: o repertório encolhido para esse concerto de Ano Novo pela Orquestra Sinfónica de Cascais tinha por objectivo celebrar a beleza. No fundo, a ideia a transmitir era esta: andamos tão apressados que não paramos para contemplar o nascer do Sol (diria Charles Chaplin: «É maravilhoso o espectáculo do Sol ao nascer e, mesmo assim, a maior parte das pessoas continua a dormir»…) ou para nos deliciarmos com o cheiro do amanhecer.
            Tivemos, pois, valsas e árias de ópera (pela soprano Teresa Cardoso de Menezes), sempre explicadas previamente pelo maestro, nomeadamente associando-as a pequenas histórias com elas relacionadas. Apreciaram-se trechos de Schubert, Mozart, Gounod, Verdi e, de modo especial, dos filhos de Strauss: Johann Strauss II, Josef Strauss e Eduard Strauss.
Teresa Cardoso de Menezes, num brinde!
            Alunas de dança do Conservatório de Música de Cascais trouxeram também agradáveis apontamentos coreográficos a sublinhar as melodias e Teresa Cardoso de Menezes vestiu bem as personagens que interpretou: ao calor da voz somou a oportunidade dos gestos.
            Foi, por conseguinte, um concerto que nos deu ânimo para olhar 2016 com mais entusiasmo, ainda que – permita-se-me o aparte – nós estejamos tão habituados ao suave aconchego do Auditório da Boa Nova, pois, apesar de todo o seu encanto e magia, o Salão Preto e Prata acabou por ser grande de mais e roubou-nos a intimidade requerida para nos envolvermos na beleza que a Sinfónica nos quis transmitir.
                                                              José d´Encarnação
Publicado em Cyberjornal, 22-01-2016:

                       

 
 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Matam-nos por dentro!

             É triste dizê-lo, mas o dia-a-dia confirma: as entidades já não nos merecem crédito. O cidadão começa a não ter confiança nas instituições que pareciam merecê-la.

1. Seguradoras
            Os seguros, por exemplo. Para que servem? Temo-los a maior parte das vezes porque são obrigatórios, pois, no momento da desgraça, é raro que não inventem s mil e um pretextos para pouco ou nada desembolsarem.
            O João teve uma fuga de gás em casa. Felizmente, deu por ela a tempo. Para a resolverem, os técnicos precisaram de escavar a calçada do jardim por onde passava a conduta. O seguro não paga a reparação da calçada, porque está no jardim. E explicaram:
            «Se tivesse havido uma explosão e as paredes tivessem ido pelos ares, sim, teriam direito a indemnização».
            Felizmente, conseguira-se evitar a explosão; e também se não ‘explodiu’ contra a seguradora; mas… todos ficaram cientes de como é que essas entidades trabalham… com as tais letras miudinhas. 

2. Bancos
            Se tens mais de 5000 euros em depósitos a prazo ou aplicados, a tua conta à ordem permanece incólume, nem lhe beliscam. Se, ao invés, puseste a prazo apenas umas economiazinhas para fazer face a eventual momento de aflição, está descansado: todos os meses, invariavelmente no dia 2, sacam-te dois euros de «despesas de manutenção» acrescidas de 0,08 cêntimos de um imposto.
            Claro, o cidadão que anda sempre à coca da bomba de gasolina que vende o combustível a uns míseros dez ou vinte cêntimos a menos para poupar, começa a deitar contas à vida: 208 cêntimos por mês com despesas de manutenção? Mas… o meu dinheiro no banco dá-lhe despesa? Ainda se me enviassem extractos mensais por via postal para casa, eu compreendia: gastam papel, gastam tempo… Agora, que somos nós que até fazemos tudo via Internet ou na caixa multibanco!...
            Conclusão: o cidadão tira o dinheiro do banco.
            Mas espera lá: põe lá os 5000 euros! Porque é que não pões? Primeiro, porque não os tenho; depois, porque correria o risco de o banco falir e eu não vejo o que aconteceu com aqueloutro que era uma referência e mais o outro e agora o outro ainda?...
            E eu penso, de modo muito especial, nos pobres dos pensionistas que recebem misérias e que também assim são espoliados…

3. A ‘senhora’
            Já agora, que estou em maré de aludir a quem nos merece – ou deveria merecer – confiança, não posso deixar de contar outra cena, passada na quadra natalícia, mais precisamente às 11,57 h do dia 24 de Dezembro, diante de pastelaria famosa e mui bem frequentada.
            A senhora sai do carro. Não é topo de gama, daqueles com que uns senhores governantes, em dia de utópica euforia, quiseram aliciar-nos como sendo o máximo da ambição do contribuinte; mas é carrinho bem apessoado. Também o casaco comprido é de marca, assim como a mala vistosa; botas altas; elegante penteado. Saca do maço de cigarros por encetar; tira-lhe a película plástica protectora e deita-a, naturalmente, para o chão; tira o cigarro, o isqueiro brilha ao sol e encaminha-se, passo lento, para a pastelaria, pois carece de fumar até lá nem que seja só metade.
            Estive vai-não-vai para sair do carro e correr: «Minha senhora, desculpe, deixou cair isto!». Não me atrevi, porque imaginei – plebeu como sou – que receberia um ar de desdém e «Olha o estúpido do homem!» contaria ela, à noite, ao jantar… Preferi continuar estúpido, sentado no meu utilitário de mais de vinte anos. E recordei, instintivamente, a imagem que, dias antes, me haviam enviado: a foto de Chris Jordan, da Foundation for Deep Ecology, a mostrar o esqueleto do albatroz estendido numa praia do nosso planeta; por entre as ossadas e as penas, vêem-se dezenas de objectos de plástico, que o pobrezinho engolira na esperança de lhe poderem matar a fome. Não lhe mataram a fome; mataram-no a ele.
ooo
            Estou triste, hoje. Que o leitor me perdoe, inclusive por ser esta a primeira crónica de um ano bissexto, em que gostaríamos de depositar todas as nossas esperanças. Estou triste, porque me apetece chamar de «plástico» às três ‘personagens’ de que atrás falei. Acreditamos que podem vir em nosso auxílio em tempos de aflição. Não vêm. E matam-nos por dentro! Como ao albatroz!

                                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 123, 20-01-2016, p. 6.

 

A notícia que eu não gostaria de dar

            Gostei de ver, na RTP 1, circunstanciada reportagem sobre a abertura das novas acessibilidades. Itinerários na vila por onde pausadamente se circule – não fora S. Brás uma slowcity, convite a caminhada serena, à apreciação da Natureza e a dois dedos de conversa com a vizinha «Olá, como vai ? E a sua gente?».
            Gostei de saber que a nossa dinâmica empresária da cortiça está – felizmente! – de vento em popa e eu até tenho bolsa de cortiça para o telemóvel, a fim de fazer publicidades às nossas produções!
            Gosto da intenção de se arranjarem os caminhos vicinais e da ideia de se pensar em, oficialmente, se lhes dar nomes quer tornando oficiais os que são de tradição quer outros de eventual homenagem a tantas personalidades são-brasenses que, por exemplo, a investigação levada a cabo por ocasião do centenário soube trazer à luz da ribalta.
            Não gostava, porém, de saber que S. Brás de Alportel aspirasse, um dia, a ser cidade, embarcando, de olhos vendados, nesse vapor do novo-riquismo ambulante. Um dos partidos concorrentes às autárquicas chegou a pôr essa intenção no programa, mas soube desistir a tempo. Cascais não é cidade nem quer ser; Sintra não é cidade nem quer ser; Oeiras não é cidade nem quer ser; Madrid – a mui nobre ‘villa de Madrid’ (o seu ayuntamiento diz-se ‘de la villa de Madrid’!...) – só teve de ser cidade porque os bispos, vindos da vizinha Alcalá de Henares, acharam que deviam ir contra a tradição, não fossem os seus privilégios ser desdoirados… Entre nós, Almada é cidade, Amadora é cidade, Loures é cidade!...
                                                               José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 230, 20-01-2016, p. 11.