Não
carece de apresentações a figura ímpar deste músico, cujas composições continuam
hoje a ser cantadas e trauteadas por toda a gente, desde as crianças de mui tenra
idade aos seniores de oitenta ou mais anos. Não há quem não se emocione com a ternura
de «Cinderela» ou não se divirta com o enorme gozo de «Playback»! E serão, porventura,
estes os dois pólos em que se movimentou a imensa criação
artística de Carlos Paião: de um lado, a emoção
do dia-a-dia; do outro, um olhar perspicaz sobre uma realidade a que não se
podia ficar alheio e era preciso, mesmo em jeito de brincadeira, escalpelizar,
para dela tomarmos consciência.
Mas
se a sua fugaz existência – nasceu em Coimbra («por acaso», escreve-se sempre…)
a 1 de Novembro de 1957 e faleceu em Rio Maior, vítima de acidente, a 26 de
Agosto de 1988 – é do domínio comum, talvez se não conheçam suficientemente
três aspectos devidamente realçados nesta sessão do dia 29: residiu a maior
parte da sua vida em S. Domingos de Rana; era de uma afabilidade extrema; e,
como compositor «impulsivo» (diríamos, porque compor música estava-lhe na massa
do sangue…), poucos serão os artistas que não cantaram ou não cantam composições
de sua lavra, boa parte delas feitas expressamente para eles. A título de
exemplo, muitos dos êxitos de Herman José («Vamos lá cambada!», «Serafim, Serafim
aos molhos»…) têm assinatura de Carlos Paião, a demonstrar precisamente a
característica de alguém que, atento ao que o rodeia, sabe rir e fazer rir.
«Imortal»
foi, portanto, uma das palavras que mais se ouviu, ou intuiu, no decorrer de um
espectáculo emotivo, tocante, invulgar, admirável. Várias vezes se frisou «Que
pena não haver aqui nenhuma televisão a gravar o que de tão extraordinário se
está a passar aqui!», num salão repleto, com uma assistência de mais de 800
pessoas que não arredaram té quase às duas da madrugada!...
A
apresentação esteve a cargo de dois
dos nossos maiores comunicadores: Atónio Sala (também ele residente em S. Domingos),
e Júlio Isidro, que tiveram ambos, aliás, oportunidade de acompanhar bem de
perto a trajectória de Carlos Paião e a quem os unia laços de mui profunda
amizade. E, para além do grupo coral Vox Laci, sediado em S. Domingos, e do
Coral Infantil de Carcavelos, passaram pelo palco, fazendo anteceder sempre a
sua actuação com um testemunho
emotivo do seu relacionamento com o homenageado, artistas como Ana, Henrique Feist, Nuno da Câmara Pereira e Lenita
Gentil. Impossibilitado de estar fisicamente presente, Herman José não quis
deixar de dar, também ele, o seu testemunho, gravado em vídeo e apresentado já
no final da sessão.
Aos
agradecimentos, Maria Fernanda Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia, acentuou
que um tributo com esta envergadura não poderia ser levado a cabo sem o
entusiasmo de toda uma vasta equipa e a entusiasmada colaboração de todos os intervenientes.
Dos
familiares estiveram presentes a viúva (Dra. Zaida) e os pais, a quem foi
entregue a medalha de mérito com que a Junta de Freguesia deliberara agraciar, a
título póstumo, o artista, assim como, para eles, a medalha da freguesia.
Três
iniciativas visaram – ou visam – honrar a memória de quem tanto nos legou. Foi
a primeira a trasladação dos seus restos
mortais para a terra natal dos pais, Ílhavo; esta, em Polima, era a segunda. A
terceira será a concretização –
ainda se não sabe onde – de um ‘museu’ que perpetue a vida e obra de Carlos
Paião. Aliás, no dia seguinte, sábado, a partir das 18 horas, inaugurou-se, na
sede da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana (e pode visitar-se, até ao
próximo sábado, dia 6), uma tocante exposição
que dá emotiva conta da vida e obra de Carlos Paião. Objectos pessoais desde
bebé à idade adulta, testemunhos, fotografias… tudo ali pode ser observado – e
a visita vale a pena, embora (diga-se já) seja difícil visitar sem sair de lá
emocionado com alguém que tanto fez e tão cedo nos deixou!...
Perdoar-se-me-á
se confesso ter sido – também esta! – para mim uma evocação
cativante, porque, no livro Cascais –
Paisagem com Pessoas dentro, eu decidi incluir, no final (p. 208-215), a
entrevista que fizera a Carlos Paião publicada no Jornal da Costa do Sol a 10 de Junho de 1981. Na verdade, de todas
as pessoas que resolvera incluir na obra, Carlos Paião deixara-me uma impressão
tão relevante que… não resisti a evocá-lo!
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| Carlos Paião, em entrevista a 23-05-1981 |
Foi,
recordo, uma conversa inteiramente despreocupada na sua casa de Rana, de coração aberto, em que, inclusive, tocou para nós
(Guilherme Cardoso acompanhou-me para fazer as fotografias) alguns dos seus êxitos,
em jeito de apontamento. Pedi-lhe uma mensagem para os leitores. E foi esta:
«Acho
que as pessoas devem tentar fazer o melhor possível para se entenderem,
darem-se bem umas com as outras, em espírito de franca convivência. Não é assim
tão difícil e, a partir daí, tudo se resolve. Enquanto as pessoas tiverem a mania
de se verem como inimigas, isso não dá!».
José d’Encarnação
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 125, 03-01-2016, p. 6.




