Foi-me chamada a atenção para o facto de nem todos os leitores terem possibilidade de comentar, quando amiúde gostariam de o fazer, por haver restrições ao acesso.
Confesso que de tal não me apercebera; ou melhor, pensei que o procedimento que se estava a ter seria o normal. Acabo de verificar que tenho a possibilidade de gerir esse acesso; e, por isso, a partir deste momento, foi accionada a permissão de comentar sem qualquer restrição.
Aproveito o ensejo para agradecer a quantos têm a gentileza de me ler, esperando que possa estar a ser útil. Aceito, claro, todas as sugestões - como foi esta - a fim de melhorar e intensificar a comunicação.
E é com agrado que dou conta de que se publicaram 801 mensagens desde 11 de Janeiro de 2010 - data em que este blogue se iniciou; houve 466 comentários; e, até há momentos, haviam-se registado 91777 visualizações.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
A perpetuar as pessoas
Não
é invulgar afirmar-se: «Foi el-rei D. Afonso III que fez a conquista definitiva
do Algarve aos Mouros». Ou atribuir uma obra de relevo municipal a este ou
àquele presidente da Câmara.
Para
caracterizar essa atitude até já se inventou um termo: «fulanizar». Que é como
quem diz: «Isto é de fulano, foi ele que fez!».
Por
oposição , surge-nos de imediato a
célebre frase do pensador inglês John Donne (1572-1631): «Nenhum homem é uma
ilha» – a relembrar não apenas que é cada um de nós fruto também do ambiente
que nos rodeia do nascimento até à morte, mas que, por si sós, difícil se torna
levar a cabo obra grandiosa.
Valorizar
as pessoas tem sido lema deveras actuante nos últimos anos da vida são-brasense.
Dois dos livros publicados no âmbito das comemorações do centenário – 100 Anos 100 Biografias (Figuras do Passado
São-Brasense), de Joaquim Manuel Dias, e Desafiando o Destino – a história da minha vida, de David Martins
Dias – são disso prova evidente, como o são as evocações que colaboradores do Noticias de S. Braz aqui continuam a
fazer de vultos que fizeram história, que «deixaram rasto», para usarmos da
expressão de Escrivá
de Balaguer.
Por
isso, de igual modo se aplaude a clarividência com que os respons áveis pela nossa agenda cultural S. Brás Acontece sistematicamente dedicam espaço àqueles que, nas
artes e mesteres, foram – e são! – nomes a perpetuar. A rubrica que ora mui significativamente
se chama «Vales da Memória» merece, pois, o maior aplauso. Na agenda de
Janeiro, por exemplo, foi a vez de Júlio Negrão, cabeleireiro, republicano até
à medula, também ele já quase uma lenda são-brasense.
E,
para além do que se escreve em papel, há o que se escreve na pedra, não fôssemos
nós terra de canteiros!... A toponímia, para além de consagrar em lápides os
nomes por que, na tradição , eram
conhecidos caminhos, veredas e ruas, constitui igualmente uma forma de honrar
quem, pelos seus actos, enobreceu S. Brás de Alportel.
Aliás,
se até há algum tempo só de quando em quando se ouvia alguém dizer «sou de S.
Brás», hoje não haverá são-brasense que, onde quer que esteja, no Canadá ou nos
confins da Argentina, na Alemanha ou em Marrocos, não sinta orgulho em
proclamar a sua naturalidade, envolto porventura na saudade das suas
amendoeiras floridas, a sorrir por entre o verde das encostas…
José d’Encarnação
Publicado em Noticias de S.
Braz nº 231, 20-02-2016, p. 11.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Eu conheci um poeta…
Eu
conheci um poeta transmontano que demandava, amiúde, um lugar ermo. Havia por lá
penedias com letras, a explicar, há dois mil anos, como se devia desenvolver o
sagrado ritual, até atingir o êxtase, lá no derradeiro penhasco, subindo os
degraus, em comunhão com o génio do lugar. «Soletro com a devoção que posso a
linguagem religiosa dos nossos avós, gravada nestas fragas sagradas»…
Eu
soube de legados imperiais romanos que não resistiram ao feitiço de vir, peregrinos,
até àquele promontório sobranceiro à foz do rio de Colares, honrar o Sol e a
Lua e extasiarem-se, também eles, a ver o deus mergulhar no Oceano, infinito para
eles inexplicável…
Eu
tive um vizinho que, espreguiçando-se num bocejo alto, abria a janela a saudar o
amanhecer.
Eu
tive um professor-poeta, trasmontano ele também, mestre que morreu novo há mais
de 50 anos e eu ainda sei de cor estes seus versos:
Janela,
abre-te assim de par em par
Deixa-me entrar a luz, a madrugada
A aurora fresca, a rixa combinada
Dos melros no lameiro a assobiar!
Eu
tenho cravos-do-ar no meu jardim e, ali recostado nos começos de tarde, gosto
de os admirar, assim pendurados, sem raízes, a viverem do ar, a recordarem-me
aquela frase do longínquo e sempre presente Sermão da Montanha: «Olhai os lírios
do campo! Como eles se vestem – e não semeiam nem colhem!»…
Eu
sei de um poeta a quem deram uma melodia e ele foi até à orla marítima de
Cascais ao Guincho e o marulhar das ondas, encavalitado na brisa, num ápice,
logo ali lhe trouxe inspiração…
Eu
conheço este poeta, que, um dia, depois de muitos dias, uma semana após muitas semanas,
caiu em si, abriu serenamente a janela, recusou-se a ouvir o compassado
tiquetaque do relógio, virou decididamente as costas ao frenesim quotidiano em
que se lhe gastavam os dias e… viu!
E
foram momentos – andamentos? – que transformou em prelúdios, qual Chopin, num
antegozo de maravilhas que, de repente, parece que se deu conta de que jamais
devidamente as apreciara: o pardal que saltita; o pinheiro sagrado; o castanheiro,
génio tutelar; a roseira que se enlaça na vida; as cigarras exuberantes; o gato
que passa, silencioso…
Outro
olhar assim surgiu, a verberar o corrupio da Grande Lisboa, que não faz caso de
belezas verdadeiras, as das plantas e dos animais que por elas bem
despreocupadamente se passeiam… E assim se perde a Vida!
«Que
somos nós, se não ganhamos o tempo de viver a poesia das coisas belas?
Que
luz, que inocência, que ternura nos escapa ao sermos tomados pelo mercado dos
interesses?»
Urge,
pois, proclamar que, «hoje, o Homem é de lugar nenhum. Vai a todo o lado sem
enraizar. Vive virtualmente. […] Passa por tudo sem possuir nada».
Há-de,
pois, regressar-se à serenidade que nos falta:
Entre
a tília o pinheiro e a oliveira
Os pássaros volteiam.
E nada há que me encha
De maior tranquilidade
Do que estes voos saltitantes
A entrelaçarem a manhã
De sonho e de verdade (p. 19)
«Prelúdios»
são apenas 25 poemas. Curtíssimos. Só dois com duas páginas. Alguns de quatro
versos, mas não são quadras – que a rima só aparece de quando em quando, assim
como quem não quer coisa, natural, espontânea.
Debruçado
na janela, o Poeta agarra a ideia; mas depois vem outra e encavalita-se na
primeira, volta atrás e dá um salto para a frente. É a riqueza que absorve a determinar
esse alternar, como o do pardalito além. Quadros vários, pinceladas vigorosas. E
as gravuras negras de João Alves Antunes, manchas que sugerem e espicaçam, a condizer
com a volúpia de… irmos por aí!...
Um
hino à serenidade de que se precisa. Por isso, Prelúdios, de Carlos Carranca, não é livro para se ler de afogadilho.
Ou melhor, não se consegue resistir à tentação de o ler de afogadilho, mais um,
mais um e mais um… Depois, porém, tu sentes a necessidade de voltar atrás, a reler
um a um, a saborear, a ler por detrás das palavras, a dar largas à imaginação…
Sem peias. Na vontade enorme de contrariar o nosso dia-a-dia virtual.
Enraizando-nos, de facto.
Mui
eloquente libelo contra a desumanização da nossa vida esta humanização da
paisagem da sua Lousã!
José d'Encarnação
Coimbra Taberna, 20-02-2016![]() |
| Na apresentação do livro «Prelúdios», de Carlos Carranca |
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Estudada a villa romana de Freiria
O
estudo arqueológico da villa romana
de Freiria, em S. Domingos de Rana, foi apresentado, no passado dia 25 de
Janeiro, na Universidade da Extremadura (Cáceres), como tese de doutoramento de
Guilherme Cardoso, e mereceu aprovação ,
por unanimidade, com a nota de «sobresaliente» (muito bom).
Antes de se instalar, o
chefe da família que achou o local adequado para viver – atendendo à qualidade
do solo, às boas condições climatéricas e, de modo especial, ao ribeiro de
águas perenes que lhe passava ao pé – fez a sua prece à divindade que, em seu
entender, o protegia. E foi essa uma das primeiras surpresas dos arqueólogos: o
altar por ele – Tito Curiácio Rufino – dedicado, como ex-voto, a Triborunnis, uma
divindade que não pertencia ao panteão romano, mas sim, naturalmente, ao panteão
dos indígenas que por ali habitavam.
O
segundo é um quadrante solar de pedra, que foi expressamente feito para o
local. Servia para regular as horas do dia. E se esta afirmação pode ser vista como banal e desnecessária, não o
é na verdade, porque a sensibilidade ao tempo – que ora obrigatoriamente nos
está ‘na pele’ – não é assim tão frequente em eras recuadas e, no que diz
respeito aos Romanos, o achado de quadrantes não é comum. Era, pois, intenção dos proprietários da ‘villa’ que houvesse já uma
organização – e também este é um bom
sintoma de assaz significativo índice cultural.
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 127, 17-02-2016, p. 6.
Regozijamo-nos,
naturalmente, com o facto de, assim, passarem a estar disponíveis para a
comunidade científica, designadamente para os que se dedicam ao estudo dos tempos
romanos neste Ocidente europeu, os resultados de largos anos de investigação num sítio deveras notável.
As
campanhas de escavação em Freiria iniciaram-se
em 1985 e continuaram, anualmente, durante uma quinzena no Verão, até ao ano de
2002. Desde esse ano que os trabalhos arqueológicos propriamente ditos estão
suspensos, porque se aguarda a concretização ,
por parte da Câmara, do Plano de Pormenor superiormente aprovado. No Orçamento Participativo
de 2015 foi incluída uma proposta que visava, além de cuidada limpeza das
estruturas, a execução de medidas
que viessem a proporcionar à população
(designadamente à escolar) melhor usufruto e compreensão do significado
daquelas pedras (sem dúvida, estranho para a maioria das pessoas). Não houve
votação bastante para ser aprovado e,
por conseguinte, aguardam-se melhores dias.
O significado das pedras
A investigação de Guilherme Cardoso mostrou quanto esta casa de
campo romana detinha de singular no conjunto de estruturas idênticas
encontradas no território português.
O
sítio foi lavrado durante séculos e, por isso, o que nos resta constitui a
parte desses muros que ficavam mais fundo e o arado não destruiu. A experiência
dos arqueólogos logra, contudo, como não podia deixar de ser, identificar
funcionalidades e, por isso, sabe-se que, além da casa do senhor, disposta em
torno de um agradável pátio com refrescantes espelhos de água, se identificou o
lagar de azeite, balneários, o celeiro (este, um achado excepcional!) e, até,
do outro lado do ribeiro, a necrópole com as suas sepulturas… Enfim, se
compararmos com um monte alentejano, ali está tudo aquilo de que necessitava
uma importante exploração rural.
E,
claro, para além das estruturas arquitectónicas, como ali viveram pessoas
durante quase cinco séculos, há fragmentos de objectos – de cerâmica, de osso,
de metal… – que, devidamente estudados, dão conta de como ali se vivia há dois
mil anos.
Sintomas de bom índice cultural
Antes de se instalar, o
chefe da família que achou o local adequado para viver – atendendo à qualidade
do solo, às boas condições climatéricas e, de modo especial, ao ribeiro de
águas perenes que lhe passava ao pé – fez a sua prece à divindade que, em seu
entender, o protegia. E foi essa uma das primeiras surpresas dos arqueólogos: o
altar por ele – Tito Curiácio Rufino – dedicado, como ex-voto, a Triborunnis, uma
divindade que não pertencia ao panteão romano, mas sim, naturalmente, ao panteão
dos indígenas que por ali habitavam.
Hoje,
30 anos passados sobre a descoberta, este altar é citado em todos os livros que
tratam da religião indígena peninsular, pela sua singularidade e por o
dedicante ostentar nomes que denotam a sua origem itálica. Quiçá este aspecto
bastasse para que Freiria fosse mais considerada entre nós!...
Há,
no entanto, dois outros achados que mostram a cultura das gentes que viveram em
Freiria.
O
primeiro, uma estranha escultura de pedra que mostra a cabeça de um animal. Os
investigadores que sobre ela se têm debruçado consideram-na passível de se
atribuir ao estrato populacional (digamos assim) que precedeu a vinda dos
Romanos, nos últimos tempos da Pré-História. E coincidem em atribuir-lhe, pela
forma, a função de representar
protecção , pois poderia ter sido
colocada em eventual portão da ‘villa’.
O
segundo é um quadrante solar de pedra, que foi expressamente feito para o
local. Servia para regular as horas do dia. E se esta afirma
José d’Encarnação
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 127, 17-02-2016, p. 6.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Qualquer coisa
«Em que estás a
pensar?» – esta pergunta, logo na abertura da página de cada um de nós no facebook, é natural que, algum dia, nos
tenha feito pensar: «Sim, em que é que eu estou a pensar?». Para logo
rematarmos: «Oh! Se eu escrevesse o que estou a pensar!...». Um misto, quiçá,
de vergonha ou de cobardia ou de indiferença, que é como quem diz: «Que
interessa aos outros saber o que eu penso?»…
De
tantas vezes a lermos, a pergunta soará, porventura, banal e já lhe não
ligaremos grande importância. No entanto, a mesma pergunta feita, quase à queima-roupa,
pelo marido ou pela namorada ou, simplesmente, pelo amigo, é capaz de, amiúde,
nos deixar perplexos, atrapalhados e… a ela tenhamos maquinalmente respondido:
–
Nada! Não estava a pensar em nada de especial!
Claro:
não é possível não estar a pensar em nada! E das duas uma: ou não queremos
partilhar o pensamento ou, apanhados de surpresa, não conseguimos consciencializar
de imediato e verbalizar aquilo em que se nos iam os pensamentos… E talvez
valesse a pena o esforço!
Duas
notas, há pois, a sublinhar desde já:
1ª
– O pensamento é o nosso lugar secreto, o único completamente nosso; só entra
nesse jardim quem nós quisermos. E podemos optar por orquídeas ou cardos espinhosos
… Por isso escreveu Emmet Fox: «Tudo o que nos acontece na vida não é, em realidade,
senão a expressão do nosso pensar». (Le Sermon
sur la Montagne, Paris, 1974, p. 18-19).
2ª
– Será que não conseguimos dominar o que pensamos? E nos deixamos levar como
que ao sabor do vento, desaproveitando momentos que não voltarão mais?
E,
de repente, surgiram-me outras cenas em idêntico cenário de inoportuna indefinição :
–
Mas o que é que gostaria mesmo de fazer? – pergunta o técnico do Departamento
de Pessoal ao candidato.
–
Qualquer coisa me serve!...
–
E o que é que te apetece comer hoje? Tens aí a lista.
–
Qualquer coisa me serve. E tu, que vais escolher?
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 679, 15-02-2016, p. 12.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
A espeteira
Andamos meio azoinados
com estas inesperadas mudanças de clima e de temperatura. As branduras da manhã
e da noite exigem gorros na cabeça e nas orelhas e só apetece estar, como os
gatos, enroscados junto ao borralho. Os que temos o privilégio de o poder
fazer!...
Pois
estava eu a atiçar o fogo no lenho da alfarrobeira velha na chaminé, quando
adreguei olhar para a espeteira que já vem do tempo de minha avó Bia dos
Santos. Lá se mostram, impantes, os tachos de esmalte pintado, ao lado dos
cobres que minha tia Chica traz sempre areados, num brinquinho…
«Espeteira»?
Há ‘séculos’ que a palavra não me ocorria e fui ver o que é que o Torrinha
dizia. Lá estava: «Gancho nos tabuados das cozinhas, louceiros, etc., para pendurar
carne, vasilhas e outras coisas». Não é bem a mesma coisa, acho eu, pois para
nós a espeteira tem ganchos, mas é assim como que uma estante, só que não dá
para os livros e tem uma ripa em cada prateleira, para segurar o trem da
cozinha (Uau!... Esta do ‘trem’ está bem vista!...). E nada de pendurar lá a
carne, se já se viu!...
Escreveu
Fialho de Almeida, n’Os Gatos: «Um
povo que defende os seus pratos nacionais defende o território. A invasão
armada começa pela cozinha». Orgulha-se São Brás de ser paladino da chamada dieta
mediterrânica e de ter no seu Museu e também no pólo de Alportel a
reconstituição da cozinha tradicional. De facto, neste tempo em que tudo,
vertiginosamente, corre à nossa volta, apetece mais o quente e sereno aconchego
desse recanto familiar – com a espeteira, cordão umbilical das nossas memórias…
José d’Encarnação
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 205, Fevereiro de 2016, p. 10.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Faleceu o «Carola», poeta popular
Faleceu no passado
dia 25 de Janeiro, poucos dias antes de completar 85 anos, Manuel Afonso
Gaspar, o «Carola». Nascera a 6 de Fevereiro de 1931, em Santo Aleixo da
Restauração, concelho de Moura.
«Filho
do sector rural, famílias de fracos recursos, completou a quarta classe da
instrução primária no dia 22 de Junho de 1942, com aproveitamento. Como todas
as crianças daqueles tempos, seguiu para o campo para guardar gado».
![]() |
| Capa do livro «O Alentejano» |
Estas,
algumas das linhas com que desejou apresentar-se, em jeito de mui sintética
autobiografia (p. 111-112), no livro de poemas O Alentejano, publicado pela Associação Cultural de Cascais, com o
apoio das juntas de freguesia de S. Domingos de Rana e de Santo Aleixo da
Restauração, assim como da Câmara Municipal de Oeiras, concelho onde residia.
Aí,
depois de dar conta dos empregos que foi tendo (na agricultura pelo Alentejo,
na Fundição de Oeiras e na Autosil) até se desempregar e ir para a reforma em
Novembro de 1991, confessa:
«Sempre
sonhei com poesia e na perspectiva de que a minha obra não ficasse fechada numa
gaveta»… essas «rimas com que fui espairecendo vida fora».
O
livro O Alentejano cumpriu, pois, em
parte, esse desejo e também em Cinzelar
as Palavras como as Pedras… em S. Domingos de Rana (Cascais, 2009) acabámos
por incluir mais alguns dos seus poemas (p. 53-67), todos eles eivados deste
fresco sabor alentejano, que olha a realidade com olhos de ver:
Só
tenho a quarta classe
No meio onde fui criado
Para que mais longe chegasse
Não pude ser educado.
Mas:
Há
por esse mundo inteiro
Que nem dá para os contar
Tanto burro em engenheiro
E tanto sábio a mendigar. (p.
112 de O Alentejano)
| 14-07-2000. Apresentação do livro «O Alentejano». Manuel Afonso Gaspar trajado à moda do grupo Estrelas do Guadiana |
A
apresentação do primeiro livro realizou-se com solenidade no auditório da Junta
de Freguesia de S. Domingos de Rana, ao final da tarde de 14 de Julho de 2000,
tendo contado com a actuação do Coral Alentejano «Estrelas do Guadiana », em que Manuel Afonso Gaspar se integrava. A apresentação
esteve a cargo do Dr. Carlos Carranca, que realçou o interesse genuíno dos
versos do Carola. Por feliz coincidência, estava então patente nesse auditório uma
exposição documental sobre a colecção de Michel Giacometti, o homem que tanto
se empenhou também para salvaguardar as lídimas manifestações dos cantares do nosso
Povo.
Realce-se
que o Jornal da Região, na sua edição
de Oeiras de 12 de Outubro de 2000, incluiu Manuel Afonso Gaspar na rubrica
«Pessoas»: «Veio viver para Oeiras há 36 anos e empregou-se como metalúrgico,
só se começando a dedicar mais a sério à poesia quando chegou a altura da
reforma. No entanto, já antes tinha obtido um primeiro lugar num concurso de quadras
populares, em Aljustrel. No passado mês de Julho, viu concretizado o seu sonho,
com a publicação do seu primeiro livro de poemas».
Escrevi,
no final da Apresentação do livro: «Manuel Afonso Gaspar conta como foi e como
é. No jeito simples de quem, na adiafa, atira rimas ao ar – dolorosamente
pensadas, genuinamente vividas» (p. 5).
Aos
85 anos, o coração achou que devia deixar de bater – e o Carola partiu, pouco
mais de duas semanas de ter visto partir sua filha de apenas 50 anos, o que
deveras o abalou. Fica-nos, porém, o encanto das suas rimas:
Andei
descalço na vida,
Sem possuir um vintém.
Sempre de cabeça erguida,
Não devo nada a ninguém! (p. 43)
Que
descanse em paz! Ao filho, Luís, ao seu genro e nora e demais família apresentamos
sentidos pêsames, na certeza de que, mui provavelmente, Santo Aleixo da
Restauração também o não esquecerá:
Não
sou poeta afamado
Dos que há em Portugal,
Mas sempre serei lembrado
Na minha terra natal. (p. 51)
José d’Encarnação
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