quinta-feira, 3 de março de 2016

Craveiros-do-ar

             Não me canso. Por mais que diariamente os remire e acaricie, a sua vida deixa-me perplexo. Como logram sobreviver assim pendurados, sem terra nem água de rega?!... Sempre viçosos, já lhes roubámos filhotes, olham serenamente para o céu. Deixam-se baloiçar tranquilos, ao bafejar das brisas e, uma vez por ano, brindam-nos, sorridentes, com mimosas flores minúsculas…
            Que milagre vos sustenta, craveiros-do-ar?
            «Olhai os lírios do campo! Como eles crescem! Não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles!...» (Mateus, 6, 28-29) – soa-me inevitável, o eco dessa Voz vinda do fundo dos tempos!...
            Por mim, eu ousaria sugerir:
            ‒ Mestre, fale dos craveiros-do-ar! Não são tão efémeros como os lírios e a lição seria mais eloquente ainda, Senhor!
            Transcorremos as jornadas em lufa-lufa constante, água a esgueirar-se-nos por entre os dedos, «Vamos, depressa, não há tempo a perder, mexe-te!»…
            E os craveiros-do-ar, imperturbáveis, vivendo do ar, vêem a nossa correria e nada precisam de dizer. A sua presença basta para nos recordar outra Presença, paterna, eficaz, a instilar confiança – imperturbável também!
                                                              José d'Encarnação

Publicado em Boletim Salesiano, mar/abr 2016, p. 34
Craveiro-do-ar em floração

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quarta-feira, 2 de março de 2016

Teatro, palco da vida

             Realizou-se, em 2001, o III Festival de Teatro de Tema Clássico, de que a Liga de Amigos de Conimbriga (muitos dos espectáculos ocorreram nessa cidade romana) editou um catálogo, de 36 páginas, com textos de António dos Santos Queirós e José Ribeiro Ferreira. Destinado, de modo especial, ao público escolar, o festival mostrou como as angústias e o pensar de outrora continuam, afinal, bem vivos no nosso quotidiano.
Conimbriga, Maio de 2001, uma cena d'«As Troianas», pelo Grupo «Balbo» de Cádis
            Uma das peças representadas foi «As Troianas», de Eurípedes, interpretada pelo Grupo «Balbo» de Cádis, peça que exalta «os grandes sofrimentos que viveram, como já dizia Homero, “as mulheres de belas tranças”». E dela, além da «distribuição das figuras», apresenta-se no catálogo um resumo do argumento, explicitando que «as mulheres dos troianos mortos na guerra aguardam para ver que destino as espera, enquanto a sua cidade está prestes a consumir-se nas chamas». A figura principal é a rainha-mãe, Hécuba, a quem um mensageiro vai trazendo as novidades: os chefes do exército inimigo cometem atrocidades umas atrás das outras, até que ele próprio executa a ordem de morte do netinho de Hécuba, «despenhando-o das torres de Tróia». O choro desesperado de Hécuba junta-se, pois, no final, ao estrépito dos edifícios a desmoronarem-se.

«As Troianas» em Cascais
            Esta tragédia, clássica, foi também levada à cena pela companhia Palco 13, no Auditório Fernando Lopes Graça, em Cascais; por isso a ela me quis referir, pois tive ensejo de assistir ao último espectáculo, a 20 de Dezembro, p. p. A encenação coube a um ex-aluno da Escola Profissional de Teatro de Cascais e o elenco era constituído maioritariamente, se bem compreendi, por colegas seus.
            Apreciei o espectáculo, quer do ponto de vista teatral no seu conjunto (encenação, interpretação, movimentação de actores, cenografia…), quer no que respeita à sua acutilante oportunidade, uma vez que as sangrentas guerras que estão a travar-se – por sinal, num ambiente geográfico muito próximo do que foi o da Tróia antiga – provocam cenas tão ou mais lancinantes do que aquelas que Eurípedes imaginou, até porque, hoje, a atrocidade é ainda maior.
            Mas eu escrevi «se bem compreendi». É que se me afigura que poderia ter sido facultada aos espectadores uma só folhinha que fosse, com uma síntese do argumento e, também, com a distribuição dos papéis – para que constassem os nomes de quantos tão briosamente ali puseram de pé uma peça nada fácil pelo enorme dramatismo que encerra. E todos andaram muito bem. Só não sei quem eles eram. E, se não tivesse um mínimo de informação sobre Eurípedes e sobre a Guerra de Tróia, tudo aquilo poderia ter sido para mim algo de inexplicável.
            Dir-se-á: tudo é feito com pouquíssimos recursos. De acordo. E posso estar errado; creio, porém, que, apresentado o projecto dessa folha a uma entidade pública ou privada, a troco de publicidade aí inserida (mais não fosse do género «a edição desta folha só foi possível graças ao apoio de…» e vinha o logótipo!), certamente se disponibilizariam os parcos euros que tal iria custar.

O Teatro Maria Helena Torrado
            Sob a alçada do Bairro dos Museus, o Auditório Fernando Lopes Graça tem acolhido estas propostas, nomeadamente da companhia Palco 13. Louve-se a iniciativa, ainda que, a meu ver, maior promoção há de requerer-se, para que as sessões continuem a estar esgotadas sempre que nova peça volte a estar em cena.
            E essa preocupação em fomentar o gosto pelo teatro levou-me a recordar outra sala de Cascais, até porque me saltou, outro dia, do meio dos papéis, um recorte do Jornal da Região de 9-7-2003, em que vem a foto de Ricardo Carriço e de Maria Helena Torrado, aquando da sua tomada de posse como membros da Academia de Letras e Artes. Criaram ambos, na Rua Freitas Reis, um espaço, que tem hoje o nome de Helena Torrado, em homenagem à escritora que tão cedo nos deixou. Aí tive ocasião de ver, em Junho de 2012, a peça musical infantil «Mãe Natureza», um original da própria Helena, representado pelo Grupo de Teatro Confluência. Que se prevê agora para lá?
            É o teatro, palco da vida, a Vida em palco. Uma forma de mais facilmente consciencializarmos o que nos está a acontecer. Por isso, mais teatro… precisa-se!

                                                                      José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 129, 02-03-2016, p. 6.

Post-scriptum (a 3 de Março às 19:18 h, incluído como comentário infra): Chamaram-me a atenção - e bem - para um lapso: o espectáculo «As Troianas» não foi da companhia Palco 13. Cá está a falta de informação de que eu me queixo no texto. Se tivesse, porém, ido à página da CMC, teria visto - e para ela, mui gentilmente, me remeteram e eu remeto agora, com um agradecimento aos responsáveis da Palco 13 pelo esclarecimento: http://www.cascais.pt/evento/troianas-choro-de-uma-guerra .

terça-feira, 1 de março de 2016

Os Charcos, o Lince, Camarões & Cia.

             Uma pedrada no charco! Usa-se a expressão, como é sabido, para explicar que algo de novo surgiu, inesperado, a mexer a normal quietude dos charcos, onde apenas as libelinhas vão, mui rápidas, ao de leve poisando, as rãs passam o dia pachorrento ao sol e só de quando em quando, e apenas nalguns mais duradouros, se enxerga esquiva cobrinha coleante…
            Não gostam de pedradas os poderes constituídos e, se de charcos perguntarmos aos nossos amigos, são capazes de também torcer o nariz, que logo se pensa em ‘mosquitame’ e bichezas do género...
Triops vicentinus
            Eu cá gosto dos charcos – pela sua quietude e por suspeitar de vidas inúmeras lá dentro… Já gostava, mas agora passei a gostar mais, depois de, no programa da Antena 1 “José Candeias – Hà Conversa”, de 11 de Fevereiro, Artur Lagartinho ter dado conta do que era o projecto Life Charcos, que, com o apoio de programas europeus, a Liga de Protecção da Natureza (LPN), em colaboração com algumas autarquias, está a levar a cabo na costa sudoeste, desde Sines a Sagres. A ideia é consciencializar as populações da importância dos charcos temporários mediterrânicos, pois são o habitat de muitas espécies. Referiu-se, de modo especial, à existência aí do «triops vicentinus», uma espécie de camarão girino, crustáceo que apenas existe nos charcos desde Vila do Bispo até Faro e que sobrevive enterrado 7 anos sem água! No fundo, a preservação desses charcos contribui para a biodiversidade.
A lince Myrtilis acabada de soltar, em Fevereiro de 2016
            Eu divulgara, no dia 8, a notícia de que «Myrtilis», uma lince fêmea, fora largada nos arredores de Mértola, no âmbito do programa de preservação desta espécie. E logo Eugénio Sequeira, da LPN, comentou:
            – Depois de solto, tem que haver ecossistemas que sejam próprios.
            Assim, em 2011, o projecto “Recuperação do Habitat do Lince Ibérico no Sítio Moura/Barrancos” (2006/2009) foi distinguido, por isso mesmo, pela Comissão Europeia como um dos 6 “Melhores entre os Melhores Projectos LIFE da Europa”. E para que continuemos a ter abetardas, falcões e outras espécies, importa combater a desertificação e, por estranho que pareça, manter os charcos, também eles alfobre da indispensável biodiversidade!
            É por isso que me sinto cada vez mais contente quando vejo melros, toutinegras, pardais e rolas saltitarem de ramo em ramo na cameleira, na romãzeira, na buganvília, no ficus, no aloés e no pitósporo do meu jardim…
                                                                     José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 680, 01-03-2016, p. 12.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A propósito de comentários neste blogue

          Foi-me chamada a atenção para o facto de nem todos os leitores terem possibilidade de comentar, quando amiúde gostariam de o fazer, por haver restrições ao acesso.
          Confesso que de tal não me apercebera; ou melhor, pensei que o procedimento que se estava a ter seria o normal. Acabo de verificar que tenho a possibilidade de gerir esse acesso; e, por isso, a partir deste momento, foi accionada a permissão de comentar sem qualquer restrição.
          Aproveito o ensejo para agradecer a quantos têm a gentileza de me ler, esperando que possa estar a ser útil. Aceito, claro, todas as sugestões - como foi esta - a fim de melhorar e intensificar a comunicação.
         E é com agrado que dou conta de que se publicaram 801 mensagens desde 11 de Janeiro de 2010 - data em que este blogue se iniciou; houve 466 comentários; e, até há momentos, haviam-se registado 91777 visualizações.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A perpetuar as pessoas

       Não é invulgar afirmar-se: «Foi el-rei D. Afonso III que fez a conquista definitiva do Algarve aos Mouros». Ou atribuir uma obra de relevo municipal a este ou àquele presidente da Câmara.
      Para caracterizar essa atitude até já se inventou um termo: «fulanizar». Que é como quem diz: «Isto é de fulano, foi ele que fez!».
      Por oposição, surge-nos de imediato a célebre frase do pensador inglês John Donne (1572-1631): «Nenhum homem é uma ilha» – a relembrar não apenas que é cada um de nós fruto também do ambiente que nos rodeia do nascimento até à morte, mas que, por si sós, difícil se torna levar a cabo obra grandiosa.
      Valorizar as pessoas tem sido lema deveras actuante nos últimos anos da vida são-brasense. Dois dos livros publicados no âmbito das comemorações do centenário – 100 Anos 100 Biografias (Figuras do Passado São-Brasense), de Joaquim Manuel Dias, e Desafiando o Destino – a história da minha vida, de David Martins Dias – são disso prova evidente, como o são as evocações que colaboradores do Noticias de S. Braz aqui continuam a fazer de vultos que fizeram história, que «deixaram rasto», para usarmos da expressão de Escrivá de Balaguer.
      Por isso, de igual modo se aplaude a clarividência com que os responsáveis pela nossa agenda cultural S. Brás Acontece sistematicamente dedicam espaço àqueles que, nas artes e mesteres, foram – e são! – nomes a perpetuar. A rubrica que ora mui significativamente se chama «Vales da Memória» merece, pois, o maior aplauso. Na agenda de Janeiro, por exemplo, foi a vez de Júlio Negrão, cabeleireiro, republicano até à medula, também ele já quase uma lenda são-brasense.
      E, para além do que se escreve em papel, há o que se escreve na pedra, não fôssemos nós terra de canteiros!... A toponímia, para além de consagrar em lápides os nomes por que, na tradição, eram conhecidos caminhos, veredas e ruas, constitui igualmente uma forma de honrar quem, pelos seus actos, enobreceu S. Brás de Alportel.
      Aliás, se até há algum tempo só de quando em quando se ouvia alguém dizer «sou de S. Brás», hoje não haverá são-brasense que, onde quer que esteja, no Canadá ou nos confins da Argentina, na Alemanha ou em Marrocos, não sinta orgulho em proclamar a sua naturalidade, envolto porventura na saudade das suas amendoeiras floridas, a sorrir por entre o verde das encostas…

                                          José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz nº 231, 20-02-2016, p. 11.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Eu conheci um poeta…

            Eu conheci um poeta transmontano que demandava, amiúde, um lugar ermo. Havia por lá penedias com letras, a explicar, há dois mil anos, como se devia desenvolver o sagrado ritual, até atingir o êxtase, lá no derradeiro penhasco, subindo os degraus, em comunhão com o génio do lugar. «Soletro com a devoção que posso a linguagem religiosa dos nossos avós, gravada nestas fragas sagradas»…
            Eu soube de legados imperiais romanos que não resistiram ao feitiço de vir, peregrinos, até àquele promontório sobranceiro à foz do rio de Colares, honrar o Sol e a Lua e extasiarem-se, também eles, a ver o deus mergulhar no Oceano, infinito para eles inexplicável…
            Eu tive um vizinho que, espreguiçando-se num bocejo alto, abria a janela a saudar o amanhecer.
            Eu tive um professor-poeta, trasmontano ele também, mestre que morreu novo há mais de 50 anos e eu ainda sei de cor estes seus versos:
 
                        Janela, abre-te assim de par em par
                        Deixa-me entrar a luz, a madrugada
                        A aurora fresca, a rixa combinada
                        Dos melros no lameiro a assobiar!

            Eu tenho cravos-do-ar no meu jardim e, ali recostado nos começos de tarde, gosto de os admirar, assim pendurados, sem raízes, a viverem do ar, a recordarem-me aquela frase do longínquo e sempre presente Sermão da Montanha: «Olhai os lírios do campo! Como eles se vestem – e não semeiam nem colhem!»…
            Eu sei de um poeta a quem deram uma melodia e ele foi até à orla marítima de Cascais ao Guincho e o marulhar das ondas, encavalitado na brisa, num ápice, logo ali lhe trouxe inspiração…
            Eu conheço este poeta, que, um dia, depois de muitos dias, uma semana após muitas semanas, caiu em si, abriu serenamente a janela, recusou-se a ouvir o compassado tiquetaque do relógio, virou decididamente as costas ao frenesim quotidiano em que se lhe gastavam os dias e… viu!
            E foram momentos – andamentos? – que transformou em prelúdios, qual Chopin, num antegozo de maravilhas que, de repente, parece que se deu conta de que jamais devidamente as apreciara: o pardal que saltita; o pinheiro sagrado; o castanheiro, génio tutelar; a roseira que se enlaça na vida; as cigarras exuberantes; o gato que passa, silencioso…
            Outro olhar assim surgiu, a verberar o corrupio da Grande Lisboa, que não faz caso de belezas verdadeiras, as das plantas e dos animais que por elas bem despreocupadamente se passeiam… E assim se perde a Vida!
 
            «Que somos nós, se não ganhamos o tempo de viver a poesia das coisas belas?
            Que luz, que inocência, que ternura nos escapa ao sermos tomados pelo mercado dos interesses?»

            Urge, pois, proclamar que, «hoje, o Homem é de lugar nenhum. Vai a todo o lado sem enraizar. Vive virtualmente. […] Passa por tudo sem possuir nada».
            Há-de, pois, regressar-se à serenidade que nos falta:

                        Entre a tília o pinheiro e a oliveira
                        Os pássaros volteiam.
                        E nada há que me encha
                        De maior tranquilidade
                        Do que estes voos saltitantes
                        A entrelaçarem a manhã
                        De sonho e de verdade              (p. 19)

            «Prelúdios» são apenas 25 poemas. Curtíssimos. Só dois com duas páginas. Alguns de quatro versos, mas não são quadras – que a rima só aparece de quando em quando, assim como quem não quer coisa, natural, espontânea.
            Debruçado na janela, o Poeta agarra a ideia; mas depois vem outra e encavalita-se na primeira, volta atrás e dá um salto para a frente. É a riqueza que absorve a determinar esse alternar, como o do pardalito além. Quadros vários, pinceladas vigorosas. E as gravuras negras de João Alves Antunes, manchas que sugerem e espicaçam, a condizer com a volúpia de… irmos por aí!...
            Um hino à serenidade de que se precisa. Por isso, Prelúdios, de Carlos Carranca, não é livro para se ler de afogadilho. Ou melhor, não se consegue resistir à tentação de o ler de afogadilho, mais um, mais um e mais um… Depois, porém, tu sentes a necessidade de voltar atrás, a reler um a um, a saborear, a ler por detrás das palavras, a dar largas à imaginação… Sem peias. Na vontade enorme de contrariar o nosso dia-a-dia virtual. Enraizando-nos, de facto.
            Mui eloquente libelo contra a desumanização da nossa vida esta humanização da paisagem da sua Lousã!
                                                     José d'Encarnação
Coimbra Taberna, 20-02-2016
Na apresentação do livro «Prelúdios», de Carlos Carranca
 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Estudada a villa romana de Freiria

       O estudo arqueológico da villa romana de Freiria, em S. Domingos de Rana, foi apresentado, no passado dia 25 de Janeiro, na Universidade da Extremadura (Cáceres), como tese de doutoramento de Guilherme Cardoso, e mereceu aprovação, por unanimidade, com a nota de «sobresaliente» (muito bom).
      Regozijamo-nos, naturalmente, com o facto de, assim, passarem a estar disponíveis para a comunidade científica, designadamente para os que se dedicam ao estudo dos tempos romanos neste Ocidente europeu, os resultados de largos anos de investigação num sítio deveras notável.
      As campanhas de escavação em Freiria iniciaram-se em 1985 e continuaram, anualmente, durante uma quinzena no Verão, até ao ano de 2002. Desde esse ano que os trabalhos arqueológicos propriamente ditos estão suspensos, porque se aguarda a concretização, por parte da Câmara, do Plano de Pormenor superiormente aprovado. No Orçamento Participativo de 2015 foi incluída uma proposta que visava, além de cuidada limpeza das estruturas, a execução de medidas que viessem a proporcionar à população (designadamente à escolar) melhor usufruto e compreensão do significado daquelas pedras (sem dúvida, estranho para a maioria das pessoas). Não houve votação bastante para ser aprovado e, por conseguinte, aguardam-se melhores dias.

O significado das pedras
      A investigação de Guilherme Cardoso mostrou quanto esta casa de campo romana detinha de singular no conjunto de estruturas idênticas encontradas no território português.
      O sítio foi lavrado durante séculos e, por isso, o que nos resta constitui a parte desses muros que ficavam mais fundo e o arado não destruiu. A experiência dos arqueólogos logra, contudo, como não podia deixar de ser, identificar funcionalidades e, por isso, sabe-se que, além da casa do senhor, disposta em torno de um agradável pátio com refrescantes espelhos de água, se identificou o lagar de azeite, balneários, o celeiro (este, um achado excepcional!) e, até, do outro lado do ribeiro, a necrópole com as suas sepulturas… Enfim, se compararmos com um monte alentejano, ali está tudo aquilo de que necessitava uma importante exploração rural.
      E, claro, para além das estruturas arquitectónicas, como ali viveram pessoas durante quase cinco séculos, há fragmentos de objectos – de cerâmica, de osso, de metal… – que, devidamente estudados, dão conta de como ali se vivia há dois mil anos.

Sintomas de bom índice cultural
      Antes de se instalar, o chefe da família que achou o local adequado para viver – atendendo à qualidade do solo, às boas condições climatéricas e, de modo especial, ao ribeiro de águas perenes que lhe passava ao pé – fez a sua prece à divindade que, em seu entender, o protegia. E foi essa uma das primeiras surpresas dos arqueólogos: o altar por ele – Tito Curiácio Rufino – dedicado, como ex-voto, a Triborunnis, uma divindade que não pertencia ao panteão romano, mas sim, naturalmente, ao panteão dos indígenas que por ali habitavam.
      Hoje, 30 anos passados sobre a descoberta, este altar é citado em todos os livros que tratam da religião indígena peninsular, pela sua singularidade e por o dedicante ostentar nomes que denotam a sua origem itálica. Quiçá este aspecto bastasse para que Freiria fosse mais considerada entre nós!...
      Há, no entanto, dois outros achados que mostram a cultura das gentes que viveram em Freiria.
     O primeiro, uma estranha escultura de pedra que mostra a cabeça de um animal. Os investigadores que sobre ela se têm debruçado consideram-na passível de se atribuir ao estrato populacional (digamos assim) que precedeu a vinda dos Romanos, nos últimos tempos da Pré-História. E coincidem em atribuir-lhe, pela forma, a função de representar protecção, pois poderia ter sido colocada em eventual portão da ‘villa’.
      O segundo é um quadrante solar de pedra, que foi expressamente feito para o local. Servia para regular as horas do dia. E se esta afirmação pode ser vista como banal e desnecessária, não o é na verdade, porque a sensibilidade ao tempo – que ora obrigatoriamente nos está ‘na pele’ – não é assim tão frequente em eras recuadas e, no que diz respeito aos Romanos, o achado de quadrantes não é comum. Era, pois, intenção dos proprietários da ‘villa’ que houvesse já uma organização – e também este é um bom sintoma de assaz significativo índice cultural.

                         José d’Encarnação


Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 127, 17-02-2016, p. 6.