Eu
conheci um poeta transmontano que demandava, amiúde, um lugar ermo. Havia por lá
penedias com letras, a explicar, há dois mil anos, como se devia desenvolver o
sagrado ritual, até atingir o êxtase, lá no derradeiro penhasco, subindo os
degraus, em comunhão com o génio do lugar. «Soletro com a devoção que posso a
linguagem religiosa dos nossos avós, gravada nestas fragas sagradas»…
Eu
soube de legados imperiais romanos que não resistiram ao feitiço de vir, peregrinos,
até àquele promontório sobranceiro à foz do rio de Colares, honrar o Sol e a
Lua e extasiarem-se, também eles, a ver o deus mergulhar no Oceano, infinito para
eles inexplicável…
Eu
tive um vizinho que, espreguiçando-se num bocejo alto, abria a janela a saudar o
amanhecer.
Eu
tive um professor-poeta, trasmontano ele também, mestre que morreu novo há mais
de 50 anos e eu ainda sei de cor estes seus versos:
Janela,
abre-te assim de par em par
Deixa-me entrar a luz, a madrugada
A aurora fresca, a rixa combinada
Dos melros no lameiro a assobiar!
Eu
tenho cravos-do-ar no meu jardim e, ali recostado nos começos de tarde, gosto
de os admirar, assim pendurados, sem raízes, a viverem do ar, a recordarem-me
aquela frase do longínquo e sempre presente Sermão da Montanha: «Olhai os lírios
do campo! Como eles se vestem – e não semeiam nem colhem!»…
Eu
sei de um poeta a quem deram uma melodia e ele foi até à orla marítima de
Cascais ao Guincho e o marulhar das ondas, encavalitado na brisa, num ápice,
logo ali lhe trouxe inspiração…
Eu
conheço este poeta, que, um dia, depois de muitos dias, uma semana após muitas semanas,
caiu em si, abriu serenamente a janela, recusou-se a ouvir o compassado
tiquetaque do relógio, virou decididamente as costas ao frenesim quotidiano em
que se lhe gastavam os dias e… viu!
E
foram momentos – andamentos? – que transformou em prelúdios, qual Chopin, num
antegozo de maravilhas que, de repente, parece que se deu conta de que jamais
devidamente as apreciara: o pardal que saltita; o pinheiro sagrado; o castanheiro,
génio tutelar; a roseira que se enlaça na vida; as cigarras exuberantes; o gato
que passa, silencioso…
Outro
olhar assim surgiu, a verberar o corrupio da Grande Lisboa, que não faz caso de
belezas verdadeiras, as das plantas e dos animais que por elas bem
despreocupadamente se passeiam… E assim se perde a Vida!
«Que
somos nós, se não ganhamos o tempo de viver a poesia das coisas belas?
Que
luz, que inocência, que ternura nos escapa ao sermos tomados pelo mercado dos
interesses?»
Urge,
pois, proclamar que, «hoje, o Homem é de lugar nenhum. Vai a todo o lado sem
enraizar. Vive virtualmente. […] Passa por tudo sem possuir nada».
Há-de,
pois, regressar-se à serenidade que nos falta:
Entre
a tília o pinheiro e a oliveira
Os pássaros volteiam.
E nada há que me encha
De maior tranquilidade
Do que estes voos saltitantes
A entrelaçarem a manhã
De sonho e de verdade (p. 19)
«Prelúdios»
são apenas 25 poemas. Curtíssimos. Só dois com duas páginas. Alguns de quatro
versos, mas não são quadras – que a rima só aparece de quando em quando, assim
como quem não quer coisa, natural, espontânea.
Debruçado
na janela, o Poeta agarra a ideia; mas depois vem outra e encavalita-se na
primeira, volta atrás e dá um salto para a frente. É a riqueza que absorve a determinar
esse alternar, como o do pardalito além. Quadros vários, pinceladas vigorosas. E
as gravuras negras de João Alves Antunes, manchas que sugerem e espicaçam, a condizer
com a volúpia de… irmos por aí!...
Um
hino à serenidade de que se precisa. Por isso, Prelúdios, de Carlos Carranca, não é livro para se ler de afogadilho.
Ou melhor, não se consegue resistir à tentação de o ler de afogadilho, mais um,
mais um e mais um… Depois, porém, tu sentes a necessidade de voltar atrás, a reler
um a um, a saborear, a ler por detrás das palavras, a dar largas à imaginação…
Sem peias. Na vontade enorme de contrariar o nosso dia-a-dia virtual.
Enraizando-nos, de facto.
Mui
eloquente libelo contra a desumanização da nossa vida esta humanização da
paisagem da sua Lousã!
José d'Encarnação
Coimbra Taberna, 20-02-2016
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Na apresentação do livro «Prelúdios», de Carlos Carranca
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