sábado, 16 de julho de 2016

Eu sou… o quê?...

            Escrevo ainda na euforia da vitória de Portugal sobre a França, porque não me é possível deixar de sublinhar o imenso carácter inventivo do nosso Povo. Hoje, segunda, 11, chovem a cada segundo os ditos, os chistes, os cartuns, cada um mais original que o outro, de nos fazer rir a bandeiras despregadas, perante o mau perder dos Franceses (nem sei se deveria escrever com maiúscula – o que é que diz o Novo Acordo Ortográfico?).
            O que se inventou para explicar porque é que a Torre Eiffel, primeiro iluminada com as cores gaulesas e não com as portuguesas e, pouco depois, ficara imersa na escuridão não lembraria a ninguém – e não se fala mais no assunto. Mas, claro, ficou-nos de emenda, porque ainda temos bem presentes as imagens de quantos portugueses (e foram milhares!...) não hesitaram em pôr no seu perfil do Facebook: «Je suis Charlie» ou, com a bandeira francesa por fundo, «La France sommes nous». Pois…
            Quando visitou a Expo’98, o presidente Jacques Chirac admirou-se de não ver aí o francês como língua oficial. Explicou-se-lhe que já pouca gente compreendia. E quando, a 3 de Maio de 2001, num seminário ao mais alto nível no Instituto Franco-Português, em Lisboa, se debatia o decréscimo do uso da língua francesa, eu perguntei a quem representava, na ocasião, o departamento de promoção da língua que receitas nos trazia de Paris.
            – Nenhumas! São os senhores que devem pensar nisso! – respondeu-me.
            Pois não pensámos.
            São inúmeros os livros e os filmes sobre a emigração portuguesa para França, a salto, nas décadas de 50 e 60, e rara será a família que não tenha parentes em França, de várias gerações já. Foi, porém, Júlia Néry uma das primeiras a tratar literariamente o tema. O seu livro «Pouca terra… poucá terra…» (Edições Rolim, 1984) termina desta forma, que ora, 32 anos depois, obviamente, dadas as circunstâncias, me dispenso de comentar:
            « – Quando o desemprego se vislumbrar, muitos franceses começarão a ver o emigrante com maus olhos… quererão pô-lo na fronteira… poderá começar uma nova forma de racismo… E depois?
            […] Só quando o comboio parara em Vilar Formoso, Leonor encontrara dentro de si a resposta a dar a Cathy:
            – E depois muitos filhos de portugueses nasceram já em França e alguns optam pela nacionalidade francesa.
            E depois, minha amiga Francesa, nós entraremos pelo vosso sangue, pela vossa Língua, pela vossa História, pelos vossos hábitos, que o português é semente que em qualquer terra dá fruto…» (p. 161).         
                                                                          José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 689, 15-07-2016, p. 11.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Uma conversa agachados na vinha…

            Então, avô, a vinha não é sua? Porque é que estamos assim meio escondidos a apanhar esse cachinho de uvas para mim?
            Sabes, eu tenho a vinha de guarda e se o senhor me visse aqui a apanhar uvas, quando eu lhe dissesse que me andavam a roubar, caso isso acontecesse, ele respondia-me logo: «Pois foi vossemeceia que andou lá e agora culpa-me!?».
Joaquim Encarnação Pereira (1887-1977)
Jaqueta e colete que foram de seu uso

            É curioso: quando me lembro de meu avô é este o primeiro episódio que surge. Creio que me terei sentido deveras importante, pois eu era seu cúmplice na transgressão!...
            Só depois é que vêm à lembrança as idas para a campina à alfarroba, o varejar das amêndoas e o saborear dos figos. E o porco. E a casa-de-banho sobre a pocilga…
            Alto, seco de carnes (diria hoje), sempre de barrete ou de chapéu preto na cabeça, lenço ao pescoço, colete, cachimbo invariavelmente na boca protegida pelo bigode… Vejo-o a irradiar serenidade, não me recordo de alguma vez o ter ouvido gritar.
            Hoje, que os meninos chegam a ter quatro avôs (os adoptados, às vezes, melhores do que os de sangue…), não se imagina o que é ter, como eu, apenas um (o outro morreu quando eu era de berço). Estava com ele nas férias grandes, uma semana ou duas. E era uma festa, era… «o meu avô!».
            Uma coisa eu nunca cheguei a perceber: porque é que minha avó tinha um quarto e o meu avô outro. Fazia-me espécie, mas achava que devia ser por mor do ressonar, do dar muitas voltas na cama. Quando meus pais passaram, também eles, a dormir em camas separadas, já compreendi melhor.
            Meu pai foi, de todos os filhos, aquele que mais se lhe pareceu. Até no cachimbo e no beijo matinal à garrafinha de medronho. Um dia, até me recitou os versos que o Aleixo dedicara ao Joaquim da Encarnação. Escrevi-os e enviei-os para Loulé – meu avô ia lá à feira – a fim de se incorporarem em nova antologia do poeta. Cometi a asneira de não ficar com cópia. Perderam-se; mas fica-me o orgulho de saber que também meu avô lhe merecera atenção!

                                                                        José d’Encarnação

            Publicado in SANCHO (Emanuel) e LOURENÇO (Ana Bela) [coord.], As Engrenagens do Tempo (Visão social da história de 30 anos de São Brás de Alportel – 1900-1930), Casa da Cultura António Bentes / Museu do Traje, S. Brás de Alportel, Junho de 2016, p. 35. [ISBN: 978-989-99341-3-9].

sábado, 9 de julho de 2016

No Museu do Traje de S. Brás de Alportel, uma exposição a não perder!

            Amiúde nos sai da pena – neste caso, do teclado do computador – esta expressão: «a não perder!». Manifesta a opinião do cronista, a dar conta de que o facto, o evento, o livro, a oportunidade que aí vem ou está, não deve, em seu entender, ser desaproveitada, por ser única, digna, valorizadora. Saiu-me, naturalmente, e ia colocá-la no final desta nota, quando se me afigurou que deveria começar por aí.
            É que estamos habituados a ver salientadas na Comunicação Social escrita, falada e televisiva, as iniciativas dos museus nacionais. E são sempre únicas, dignas de visita, excelentes, imperdíveis! E, na maior parte das vezes são-no, de facto! Não vou utilizar esses adjectivos para a exposição de que vou falar e do catálogo que a acompanha: o leitor, se tiver oportunidade de a ver ou a hipótese de ler o catálogo há-de dizer-me os qualificativos de que «As Engrenagens do Tempo» é merecedora.
            Trata-se da exposição, inaugurada no passado dia 3 de Junho, no Museu do Traje de S. Brás de Alportel, que proporciona, sob essa designação, a «visão social de 30 anos da história» da vila, ou seja, desde 1900 a 1930.
            A base é, naturalmente, o espólio mui cuidadosamente guardado e tratado no museu, fruto de doações e, até, de aquisições. E esse, para além de ser mostrado realmente nas salas da exposição (e até o edifício do Museu é digno de visita, diga-se!), vem reproduzido nas mais de 300 páginas do catálogo coordenado por Emanuel Sancho e Ana Bela Lourenço, com requintado design gráfico de Tiago Ferreira.
            Resulta, claro, de um trabalho de equipa, mas nunca será de mais salientar o dinamismo de Emanuel Sancho e a extrema dedicação do Padre Afonso Cunha, coadjuvado, naturalmente, pelo irmão, o prior Padre José da Cunha Duarte, a quem a iniciativa é dedicada, na sua qualidade de «fundador e impulsionador do Museu do Traje de São Brás de Alportel até à actualidade».
            É o seguinte o percurso da exposição: «A Valsa do Tempo», «Tempo Antigo (1900-1910)», «Tempos Revoltos (1910-1914)», «No Tempo das Trincheiras (1914-1918)», «Tempos de Esperança e Incerteza (1918-1928)». Conclui o percurso a sala 7, a que se deu o nome de «Sala de Projecto» e onde, mui sugestivamente, se apresentam esboços de José Brito referentes ao desenvolvimento do projecto da exposição.
O manequim e... a realidade d'outrora!...
            Aludi ao catálogo; omiti, de propósito, tudo o que se refere à ficha técnica da exposição, cujos elementos merecem por igual o maior encómio; mas foi propositada a omissão, porque… a exposição é para ser vista, saboreada in loco e o catálogo leva-se para casa, porque, além de servir de apoio à compreensão do conteúdo das salas, disponibiliza textos de índole histórica, elaborados por especialistas, que requerem o aconchego do lar para saboreio maior! E sobre eles há que falar, ainda que em pinceladas largas:
            ‒ Artur Ângelo Barracosa Mendonça escreve sobre Manuel Dias Sancho (falecido, em Lisboa, a 15-11-1959) e o relevante papel que desempenhou, em S. Brás de Alportel, a sua Casa Bancária (p. 102-125).
Modelos desenhados por Roberto Nobre
            ‒ Afonso da Cunha Duarte aponta Roberto Nobre como o «primeiro desenhador de moda português» (p. 126-135); e dá minuciosa conta, logo a seguir (p. 136-165), de quem foram e como se notabilizaram os sacerdotes que, desde o último quartel do século XIX até 1930, estiveram à frente da paróquia de S. Brás.
            ‒ Coube a Luís Guerreiro historiar um dos temas mais candentes da S. Brás dos finais do século XIX e mesmo primórdios do século XX. Em «O Caminho de Ferro para São Brás – Atribulações de uma Vontade Colectiva» (p. 166-189), se mostra esse querer de um povo. Lê-se nomeadamente em Ecos do Sul, de 25 de Setembro de 1926, em título a toda a largura da 1ª página: «O caminho de ferro em S. Brás – O povo de S. Brás de Alportel, numa étape gloriosa, que honra suas tradições, manifestou exuberantemente que quere progredir, que quere viver». E, a dado passo, no corpo do artigo, se sublinha que clamou «num grito altissonante e patriota, o cumprimento dum melhoramento local, a que a terra tem direito e que foi sempre o seu sonho doirado – a criação dum ramal de caminho de ferro para aqui». (Que se me perdoe o parêntesis: hoje, reclama-se insistentemente a melhoria da EN 2 – leu bem, Amigo, é a Estrada Nacional Nº 2! – entre S. Brás e Estoi, com ligação, portanto, à Via do Infante e também esse continua a ser brado no deserto!...).
            ‒ Glória Maria Marreiros recorda, por sua vez, «mulheres são-brasenses e outras algarvias dos primórdios da República Portuguesa» (p. 190-213).
            ‒ João Nobre evoca (p. 214-234) «o retrato dum mecenas são-brasense», António Rosa Brito (1871-1942), um paladino da instrução pública, que à sua custa exemplarmente fomentou e manteve.
            ‒ «Sociabilidade e práticas culturais em São Brás na I República» foi o alvo da investigação levada a efeito por Paulo Pires: os bailes, as récitas, as representações teatrais… tudo é passado a pente fino e bem documentado com ilustrações únicas (p. 235-279).
            ‒ S. Brás tornou-se vila independente de Faro a 1 de Junho de 1914; justificava-se, por isso, que João Vargues nos explicasse «Faro e o tempo republicano: ideologia e práticas na sociedade farense de início do século XX» (p. 280-311).
            Perguntar-se-á porque divulgo agora, com entusiasmo e algum pormenor, uma iniciativa levada a efeito no Barrocal algarvio. Muito simples é a resposta: porque preconizo que português que vá de férias ao Algarve se deve convencer, de uma vez por todas, que Algarve não é só o litoral. O Algarve é o litoral, é o Barrocal, é a Serra: do litoral todos falam; da possibilidade de caminhadas na Serra, de bem amplos horizontes e mui inesperadas paisagens, poucos terão noção; mas muitos talvez se não lembrem que, por exemplo, Silves, Loulé, S. Brás de Alportel se situam num barrocal de características paisagísticas ímpares, com iniciativas culturais que não temem confronto com o que de melhor se faz no País. Por isso, renunciar a um ou dois dias de férias balneares para vir conhecer essoutros Algarves constituirá, não tenho dúvida, uma experiência inolvidável – porque até a gastronomia, acredite, aí ganha outro sabor!

                        Cascais, 9 de Julho de 2016  

                                                           José d’Encarnação

Os ecos e os conselhos

            Ousei incitar os leitores, na passada edição, a servirem-se do jornal local para darem notícias e, até, a comentarem os sempre saborosos e oportunos textos que Noticias de S. Braz veicule, nomeadamente sobre a história e os costumes de antanho.
            Fiquei, por conseguinte, contente por também a Josélia Viegas ter agradado a evocação que Manuel Brito Guerreiro fizera, na edição de Março, do hábito de armar aos pássaros, uma evocação a que eu próprio tivera ensejo de me referir na edição seguinte (de Abril), mas, essa, Josélia Viegas já não leu. Por sinal, até foi bom, porque o cotejo dos três depoimentos mostra a sua complementaridade.
            E, dentro desse espírito, não posso deixar de comentar o poema de Tito Olívio (olá, Amigo!), onde o Poeta proclama que doravante se recusará a dar conselhos, «pois quem ouve só mostra obstinação». Acha que o valor do conselho depende da ‘nomeada’ de quem o dá; aliás, conclui, a alternativa pode ser vender conselhos e não dá-los, pois só ao que é vendido se atribui valor.
            Como professor, tenho a sensação (posso estar enganado, claro!) de que os meus «conselhos» (não dou conselhos, prefiro apresentar sugestões) são habitualmente acatados. Todavia, as sugestões dadas como cidadão caem, a maior parte das vezes, em saco roto e nem obtêm resposta!
            De facto, amigo Tito Olívio, sou forçado a dar-lhe razão: é melhor vender que dar!

                                                       José d´Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 235, 20-06-2016, p. 11.

Post-scriptum: A Universidade da Experiência
Cumpre-me, no momento em que divulgo aqui esta breve crónica, saudar a memória de Manuel Brito Guerreiro, que mui recentemente nos deixou. Segundo o provérbio indiano muito conhecido, atribuído a Tierno Bokar, «um velho que morre é uma biblioteca que arde»; a Brito Guerreiro se pode aplicar bem este axioma, embora ele tenha tido sempre a disponibilidade de nada guardar para si das recordações de antanho e nos ter traçado, nas crónicas que foi publicando - e outras estão ainda por publicar -, o que a sua experiência lhe foi ditando ao longo da vida. Ficamos-lhe muito gratos. E não será despropósito contar o que soube, no passado fim-de-semana (2 e 3 de Julho de 2016), em conversa com uma amiga espanhola: está a considerar-se cada vez mais a hipótese de se deixarem de parte as designações «Universidade Sénior» ou «Universidade da 3ª Idade» para se preferir «Universidade da Experiência». Na verdade, nada mais oportuno: ali se trocam experiências, ali mutuamente nos enriquecemos na partilha de conhecimentos! Que descanse em paz, Manuel Brito Guerreiro! Estamos-lhe gratos pelas experiências que tão amavelmente não hesitou em connosco partilhar! - 2016.07.09

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Vai um passinho de dança?

            Começou o calor e, com ele, por estas bandas ocidentais cascalenses, a nortada faz-se sentir. Venta que se farta! Dei comigo, outro dia, recostado no jardim após o almoço, a admirar como bailavam as ramagens do ficus do meu vizinho Carlos: parecia que se desengonçavam todas, mas era esse o estratagema que tinham para não partirem. Em contrapartida, o alto cipreste, arrogante, bandeava um pouco o tronco esguio e as pernadas ensaiavam, calmas, um ritmo descompassado, sereno…
            Novo é o ramalhudo ficus; ancião, o cipreste, de uns trinta metros de altura. Danças de novos, danças de velhos… A dança, aliás, sempre presente no nosso quotidiano e nas nossas vidas.

A coreógrafa do Euro
            Recordei as “Coreografias de Grupo" de que Teresa Meira se serve, por exemplo, no Centro Engº Álvaro de Sousa, Estoril, para manter activos os seniores. Vi que também nesse domínio da coreografia (que jovem ousaria dizer aqui há uns dez anos «quero ser coreógrafo»?...), há portugueses que se notabilizam por esse mundo fora. Margarida Martins, de 30 anos, é uma das coreógrafas assistentes no Euro'2016; formada em Ciências do Desporto, Margarida e os colegas têm de coreografar cerca de 400 pessoas, em ensaios que «vão desde as duas da tarde às dez da noite», para nos encantarem antes dos jogos e, até, nos intervalos.
            Coreografar, um verbo que poderá, à primeira vista, parecer estranho: é estudar os movimentos mais adequados de uma porção de gente, nomeadamente num bailado ou numa peça de teatro: «para onde é que vou agora?»… E todos os movimentos, em conjunto, têm um sentido estético e intencional. Na peça ora em cena no TEC, Carlos Avilez fez questão em chamar para junto de si a multigalardoada Olga Roriz, de renome internacional e uma das nossas melhores profissionais neste domínio. «Tempestade», de Shakespeare, com tantos actores em palco, precisava, na verdade, de uma movimentação específica excepcional.

O espectáculo da EDAM
            Também se coreografa, naturalmente, na Escola de Dança Ana Mangericão, sita no Buzano, ali paredes-meias com S. Domingos de Rana e Parede. No domingo, 3, no Auditório Olga Cadaval, em Sintra, mais uma esplendorosa apresentação do trabalho desenvolvido ao longo do ano lectivo. E, desta vez, de novo Ana Mangericão optou por um esquema deveras aliciante: em lugar de apresentar classes de bailado clássico, de dança contemporânea e assim por diante, adaptou e coreografou uma história: «Charlie e a Fábrica de Chocolate».
            Trata-se do conhecido conto infantil do escritor galês Roadl Dahl (1916-1990), publicado em 1954, que, pela sua linguagem simples e espontânea, mereceu adaptações cinematográficas de êxito e, agora, esta adaptação ao bailado: Charlie «procura o bem de todos, incluindo o dos mais velhos», explica Ana Cristina Mangericão, a directora pedagógica da EDAM, «sendo essa a sua recompensa e felicidade e não a recompensa fácil por que as nossas crianças tanto anseiam e que não as fará mais felizes; pelo contrário, torná-las-á mais vulneráveis à frustração e ao desânimo». Uma adaptação que vem, por conseguinte, na linha dos objectivos que a EDAM pretende inculcar nos seus estudantes: «que os valores, os saberes e a sabedoria sejam mais fundamentados e a sociedade mais harmoniosa».
            Naquela aldeia, a fábrica de chocolate era como que o paraíso que se deseja alcançar. Quando, por via de um sorteio, alguns dos meninos, entre os quais Charlie (quase por milagre!), são convidados a ir visitá-la, são confrontados, em cada sala, com uma prescrição a cumprir. Há sempre, porém, quem prefira arriscar – e é expulso. Charlie será, pois, o que melhor se comportará e demonstrará, no final, que a família constitui um valor fundamental, de que ele não prescinde.
            Dos maiores aos mais pequeninos, envergando figurinos criados por Ana Mangericão, Emília Silva e Vera Rosa, as personagens vão recriando as cenas, que Rodrigo Saraiva, narrando, vai tornando mais explícitas.
            A história é de uma ternura imensa; mas a ternura que os dançarinos lhe emprestam consegue ser ainda maior e penetrante.
            Parabéns – a reforçar os fartos aplausos do público (familiares e amigos) que encheram o Olga Cadaval!
            E fica-me sempre uma mágoa, todos os anos: era tão bom que se conseguissem meios para que tão deliciosa representação se repetisse!
 
José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 147, 04-07-2016, p. 6.
                                             




Fotos retiradas, com a devida vénia, do programa apresentado.
 
 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Fizeram da língua uma coisa estuporada!

                       Acabo de ler, de rompante, o livro «o eu desconhecido», de Carlos Carranca. 76 páginas, cada uma com 3 linhas apenas, em jeito de máxima que te obriga a reflectir. Ou seja, primeiro fazes como eu e lês tudo duma assentada, um terceto atrás do outro, sem parar. Chegas ao fim, anotas que leste e… ficas com a ideia clara de que, de facto, não leste. Porque ler implica assimilar, ver o que está por detrás da palavra. Por exemplo, umas das frases (o autor deve chamar-lhe ‘poema’ e poema será decerto), uma das frases reza assim
                           Na tua morada
                           sabes quem lá mora
                           ou habitas sozinho?
            Ora bolas! Eu tenho mesmo de parar. Que morada é essa? E quem é que está a teu lado? Sabes mesmo? Tens consciência disso?
            Engraçado! Creio que vou parar um pouco todos os dias e agarro numa frase para meditação.
            Mais engraçado ainda é que demorei menos tempo a ler o livro inteiro do que a saborear a redacção de português que fingidamente Teolinda Gersão fez para os netos, e que está acessível na Internet. Estavam atrapalhados os mocinhos – que iam chumbar a Língua Portuguesa porque também a professora já não conseguia entender-se com as regras:
            «Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais?»
            Eu nunca fui bom a Filosofia. Sempre achei que Filosofia era uma disciplina que apenas nos ensinava a pensar e que, para isso, serviam as palavras. As do Carranca servem. Agora o que Teolinda Gersão nos conta, aparvalhada também ela, só podiam ter sido inventadas por «filósofos» despudorados, tolhidos em tenebrosa teia de mui estranhos conceitos.
            E eu que ando sempre a falar em substantivo próprio e comum, concreto e abstracto, em adjectivo… Pelos vistos, um atrasado mental no que aos novos paradigmas diz respeito. E agora percebo porque se quer o Inglês! É que, ali, é tudo fácil e não há «polaridade negativa» nem «verbos epistémicos» nem nada que se lhes pareça!... É down para baixo e up para cima – e já está!

                                                                       José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 688, 01-07-2016, p. 12.

 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

A gala de fado no Casino: modernidade e tradição

            Celebrou-se, na noite do passado dia 21, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril a 15ª Grande Gala do Fado Carlos Zel.
            Foi Carlos Zel, recorde-se, um fadista cascalense que a morte precocemente arrebatou (1950-2002) e que, precisamente no Casino, se propusera apostar na evocação do que havia sido a grande tradição fadista cascalense, nomeadamente dos anos 50 e 60, em que por aqui o fado se cantava a desoras e fora das portas da capital. Eram essas umas quartas-feiras em ambiente intimista, na sala que fora do wonder-bar, quase em jeito de casa de fado («quem é que vem agora cantar?»…).
            Quis, pois, a Estoril-Sol – pela mão sempre atenta do Dr. Mário Assis Ferreira – fazer anualmente essa justa homenagem, independentemente de, no grande espaço central do Casino, também às quartas-feiras, o programa musical incluir fado, tanto da nova como da antiga geração.
            Nesta 15ª Gala, a modernidade veio irmanada com a tradição. E justo é sublinhar que começou com uma Senhora: Celeste Rodrigues, irmã da Amália, que, com os seus 93 anos, logrou fazer-nos sonhar com tempos de antanho. De longo vestido negro, começou com «Ponto Final», de David Mourão Ferreira, música de Joaquim Campos, que Carlos Zel interpretava, pois para ele mesmo fora feito: «Agora tudo mudou / Eu sou de novo quem sou / Ela é na mesma quem era». De seguida, a sua criação: «Meu nome baila no vento / Na tempestade do mar / Vai-me na voz o lamento / Que o vento anda a espalhar». E deixou-nos no ar, a terminar, dois dos tópicos frequentes no fado de Lisboa: «a minha roupa mais fria», «a minha casa vazia»… Desventura, sim, mas numa voz ainda quente, bem timbrada, a perpetuar tradição.
            Seguiu-se Nathalie, a modernidade. Luso-americana, esguia, de negro, voz bem timbrada, o reencontro da jovem geração com as temáticas de sempre.
            Ricardo Ribeiro já não necessita de apresentações, pois se está a guindar, seguro, no panorama fadista português. Sempre muito aplaudido o fado «A Entrega», de Pedro Homem de Melo, que faz impreterivelmente parte do seu repertório. Uma voz potente – que os técnicos poderiam ter amaciado, porque fado quer-se íntimo, não é?...
            Gisela João cantou sentada a maior parte do tempo, de minivestido. Nunca nos cansamos de a ouvir e terminou com a nova versão, que nos encanta, da Casa da Mariquinhas, naquele seu jeito de dizer e de cantar, numa voz quente já inconfundível.
            De Camané, Raquel Tavares (que trouxe, com orgulho, o xaile de Beatriz da Conceição!) e Carlos do Carmo… que se há-de escrever?! É o Fado! São o Fado! Brilhantes!
            Mas, se é óbvio que os fadistas deram a voz, os músicos foram sublimes: José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, merece os maiores elogios, pelo seu enorme virtuosismo. Foi acompanhado por Carlos Manuel Proença, na viola de fado, e por Daniel Pinto (Didi), na viola baixo. Um trio incomparável, para que também não regateámos aplausos.
            E injustos seríamos se não tivéssemos uma palavra para o requintado jantar, condimentado, como vem sendo hábito, com designações fagueiras: «salada de camarão com frutas e balsâmico de toranja», «tornedó de novilho corado com redução de Vinho do Porto» e, à sobremesa, «dôme de morango com coco e amêndoa». A preciosa preparação gustativa, a abrir o apetite para os 21 fados que tivemos a dita de escutar, precedidos, naturalmente, por uma ‘guitarrada’ que ainda mais contribuiu para criar o necessário ambiente.
            Cumpriu-se a tradição. Saudou-se a tradição. Abriram-se alas para a modernidade!

                                                                   José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal 24-06-2016:
http://www.cyberjornal.net/cultura/cultura/musica/a-gala-de-fado-no-casino-modernidade-e-tradicao

[Fotos gentilmente cedidas pela Gabinete de Imprensa do Casino Estoril].