quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Da imaginação e da gulodice!

             Descobriu-se compulsivamente o ‘património gastronómico’. Há quem diga que não deveria chamar-se assim, porque ‘gastro’ leva logo a pensar no estômago – gastrites, sucos gástricos, endoscopias e mazelas afins. O melhor era mesmo falara de culinária, de «culina», palavra latina que significa «cozinha» e é, no fundo, a cozinha o manancial de todo esse património e é aí que se dá rédea larga a todas as fantasias e se atiçam todas as gulodices!
            Uma gulodice veio revestida de estrangeirismo. Tinha que ser! Gourmet! Gourmet é, em francês, o substantivo que designa o bom apreciador de vinhos. Depressa, porém, o termo ganhou outros matizes para, adjectivamente, significar qualidade, excelência… Comer um prato gourmet, menino, é deveras chique e, habitualmente, dispendioso! Podes ficar com fome, porque a graça está no empratar, ou seja, na apresentação, um toque disto, uma cor daquilo, que, senhores, os olhos também comem! Às vezes, são só os olhos, mas paciência, fez-se o gosto ao dedo, que não ao dente!
            E, vai daí, as ementas começaram a ter, também elas, um ar da sua graça, de forma que o melhor é sempre perguntares o que é que ‘aquilo’, de facto, significa. Não, «gambas à la guilho» não careces de perguntar: sabes o que é, mas… não saberás, porventura, que se trata de mui grosseira tradução do castelhano «gambas al ajillo»; se traduzisses à letra por «gambas com alhinho», era capaz de parecer amaricado e o melhor é mesmo pôr guilho nisso, que guilho tem força para quebrar pedra e, portanto, também te mata a fome de certeza.
            Almocei, a 18 de Setembro de 2015, na Adeguilla, em Mérida. E fiquei encantado, não apenas pelo serviço, malta jovem, muito prestável, curso da Escola Hoteleira e, sobretudo, educação, sorriso. Exacto: muito sorrimos! Ora veja-se:
            Escolho entre os primeiros pratos: «Espectaculares croquetas caseras de pollo y huevo frito al estilo del chef Don Pedro León Gutiérrez»; ou: «Cremoso y original salmorejo cordobés com jamón ibérico y huevo de gallina de campo de los de Otília, la mujer que vive en frente de la puerta falsa de mi madre»! Não é um espanto?
            Dos segundos: «Anillas de calamares frescos de la Bahia de Cadiz a la andaluza con ensalada de la huerta de Doña Sole».
            O prazer da boa mesa caseira (da Otília, da Doña Sole…) aliado ao humor – que, sobretudo à mesa, tristezas não pagam dívidas!
                                                        
                                                             José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 692, 15-09-2016, p. 11.

Deliciar-se na praia

            Creio poder afirmar que, este ano, me deliciei na praia.
            Escolhi a Praia das Moitas, em frente daquelas arquitectónicas caixas cinzentas soberbamente implantadas no bem bonito ajardinamento vegetal que nos encanta.
            Punha-se a viatura no parque explorado pela Cascais Próxima, para evitar a gananciosa argúcia dos vermelhos sempre à cata de prazos ultrapassados. Poderia ser um tudo-nada mais barato, o parque, mas, enfim, é o que temos!
            Percorria-se com o olhar os sempre magníficos azulejos do Nadir Afonso que embelezam o túnel e, mais umas passadas no paredão, lá se estava na prainha que a marina, por ter alterado as correntes, mui gostosamente nos veio proporcionar.
            Tem muitas rochas, de facto; não se consegue nadar na vazante, mas vêem-se os peixes; e nada-se na enchente e nos intervalos, que é um regalo!

O entretenimento
            Lembrei-me de falar da época estival, porque, ali, as águas estavam limpas. O pessoal entretinha-se a apanhar conchinhas com as crianças; de quando em vez, lá aparecia uma estrela-do-mar; alforrecas raras...
            E, de pequeninos camaroeiros em punho, tentava-se apanhar desprevenidos pequeninos camarões ou algum dos muitos peixinhos que ali passeavam em cardume. Sim, os grandes também os havia, mas não valia a pena tentar…
            Chegámos a ter no balde uma babosa pachorrenta, de olhos salientes e barbatanas como leques, os dois buraquinhos das guelras a abrir e a fechar compassadamente… Devido ao seu extraordinário mimetismo, mal se distinguia do fundo arenoso.
            Claro, no final, tudo voltava, ritualmente, ao habitat natural!

Os salvados
            O mais giro foram os salvados: três pares de óculos achou a Noémia; eu, uma prótese dentária (!) e uma moeda de um cêntimo; houve uma roda de bicicleta e uma bola de futebol, esta já em mau estado de conservação.
            Nada de plásticos, porém, e isso me consolou, ao lembrar uma notícia que em tempos recortara e que rezava assim:
            «A foto mostra uma imensa baleia, que morreu após ingerir mais de 17 quilos de diferentes tipos de plástico. A autópsia mostrou ainda que o material era proveniente de estufas do Sul de Almeria e Granada, em Espanha. Agricultores que produzem tomates atiram as embalagens ao mar.
            Apesar das suas 50 toneladas e dos seus 14 metros de comprimento, poucos quilos de plástico foram suficientes para a matar».
Baleia morta por asfixia, devido aos plásticos ingeridos...
As tatuagens
            Direi, todavia, que – isto de ser jornalista tem o seu quê!... – um dos meus passatempos favoritos, para além, claro, do nadar e do caminhar à beira-mar, foi observar os banhistas, por causa da grande novidade: as tatuagens!
            Não foi moda deste ano, bem no sei; contudo, notabilizou-se este Verão de 2016 pela enorme variedade de estilos, de motivos e de localizações (sim, porque se estava de fato-de-banho e mínima porção do corpo ficava tapada…). Vimos, por exemplo, uma família que falava francês (aliás, também nos encantou o facto de a língua francesa ter recomeçado a ser ouvida entre nós…), onde toda a minha gente estava profusamente tatuada em todas as partes visíveis do corpo, desde o avô, a avó, o pai, a mãe, as filhas e creio até que uma das netinhas já tinha um desenhinho qualquer.
            Sempre me intrigaram os grafitos que, de vez em quando, surgem nas nossas paredes. Soam-me a mensagens esotéricas, passíveis apenas de serem compreendidas pelos «do grupo». Agora, esoterismo, esoterismo foi o que eu mais depreendi das tatuagens que me foi dado ver de relance na Praia das Moitas! De borboletas, lagartos, flores, cobras, génios alados, personagens dos desenhos animados, vá que não vá, a gente entende! Agora, ele havia grafismos de tal modo abstractos e estranhos, que – tal como os arqueólogos dizem quando não entendem bem o significado de um objecto… – aquilo deve ser religião estranha, mística do outro mundo!...
            Enfim, momentos bem passados estes, num Verão que, felizmente para os cascalenses, decorreu sem catástrofes e bem recheadinho de turistas!...

                                                                     José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 155, 14-09-2016, p. 6.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Assoa-te, môce!

            Ums das aprendizagens mais difíceis para a criança de mui tenra idade é assoar-se! Precisa de fazer força, os adultos bem exemplificam, mas… não há meio! E a pior vergonha é o bebé de nariz sujo, aquela mucosa gelatinosa a querer escorrer… Os pais bem se esforçam:
            ‒ Assoa-te, môce! Não tens um lenço?
            Dizem-me que a palavra «assoar» virá do Latim: ‘ad + sonare’; ou seja, a preposição ‘a’ com o verbo ‘soar’. Tem lógica, se pensarmos que é acto habitualmente ruidoso, e bem ruidoso por vezes. Contudo, o que se limpa é o ranho, vocábulo exclusivamente galaico-português que os dicionários apontam como plebeísmo e eu gostava de saber se só os plebeus a usam e como é que os ‘outros’ lhe chamam: mucosidade nasal?
            Agora pergunto eu: donde é que a palavra virá? Não encontro explicação e quer-me parecer que será mais uma daquelas, com significação concreta, que nós herdámos do árabe. Os arabistas que o deslindem!
            Para já, esclareça-se que não há ovelha ‘ranhosa’, mas sim ‘ronhosa’, de ronha, matreirice… Esse adjectivo tem, porém, aplicações no dia-a-dia:
            ‒ Eles são todos uns ranhosos!
            Para significar reles, maltrapilhos, a juntar a aparência física (do ranho) a uma realidade psicológica de baixo jaez que obrigatoriamente lhe estará subjacente.
            ‒ Olha lá, que não quero uma coisa ranhosa!
            Aqui: de aspecto desagradável, sem jeito, de má qualidade.
            Fruto de montagem ou real, a imagem do menino sírio Omran – além do que se quis simbolizar como vítima de guerra fratricida – ocorreu-me naturalmente, ao ousar discretear aqui (que me perdoem!) sobre o ranho e os ranhosos. Queiramos ou não, ambos existem – e ambos precisam de um lenço. Branco, de preferência!
 
                                                           José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 212, Setembro de 2016, p. 10.

 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Escangalhei-me a rir!

            Escangalhei-me a rir! Dir-se-á que não há motivo para tamanho escangalho; que, se calhar, era mesmo de se desconjuntar era em choro pegado; ou então, nem uma atitude nem outra se deveria assumir, quando tantos outros motivos sérios há de mui doloroso tormento ou de bem estuante hilaridade.
            Direi que dessoutros, à vista de todos e repetidamente propalados pela Comunicação Social, haverá sempre quem fale, se amofine ou, até, mandando às urtigas convencionais condicionalismos, ouse incitar à rebelião. Agora, pegar no Dicionário da nossa vetusta e digna Academia das Ciências de Lisboa – à qual, aliás, tenho a honra de pertencer – e topar lá motivo de escangalho não é para todos e nem para mim seria, se para tal me não houvessem chamado a atenção.
            Aclare-se, antes de mais, que tal Dicionário se apresentou, em 2001, como «da Língua Portuguesa Contemporânea», ou seja, reflexo da vida falada ou… vivida! Daí que os seus ilustres mentores hajam optado por exemplificar a acepção de determinado vocábulo com frase extraída preferencialmente (digo eu!...) não dos clássicos mas das revistas da society (perdoe-se-me o anglicismo, que é, porém, o que melhor aqui se adapta). E assim, para mostrar no concreto a terceira significação do vocábulo juízo – «maturidade intelectual aliada a um comportamento responsável ≈ bom-senso ≈ sensatez ≈ siso ≈ tino» – nada melhor do rapar de frase, por sinal sem autor nem data, da revista «Máxima» nº 60, que reza assim:
            «Nunca mais me hei-de esquecer de um encontro memorável com um rapazinho que já tinha idade para ter juízo».
            Escangalhei-me, porque – mente perversa me confesso! – imaginei a cena e também eu fiquei sem juízo nenhum: a senhora (uma senhora, claro, para a história ter mais pique!…) topou com um menino no café, palavra puxa palavra, que fazes, que é que não fazes, eu tenho uns CDs giros lá em casa de que vais gostar… E pronto: o puto acabou por não ter juízo nenhum! Ou teve, sabe-se lá, na óptica dele!...
            Com que então, bem avançadinhos no seu tempo os senhores do Dicionário, hein?! Claro que, assim, ficamos com a noção exacta do significado completo da palavra «juízo». Oh! Se se fica!...
            Aliás, a mim quando alguém me recomenda juízo, eu respondo invariavelmente: «Vou ter! Mas olha: se te apetecer a ti não ter, chama-me que eu também quero!».
 
                                                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 691, 01-09-2016, p. 12.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A tempestade somos nós!

            Ainda que já tenham acabado as representações – que perduraram pelo mês de Julho, no Teatro Municipal Mirita Casimiro – acho que merece ainda uma referência a peça A Tempestade, de Shakespeare, encenada por Carlos Avilez, na intenção de servir como Prova de Aptidão Profissional dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais.
            Anabela Gonçalves teve a gentileza de nos enviar a versão integral do texto, em tradução de Fátima Vieira, a ficha técnica do espectáculo e uma sinopse.
            Li o texto e pensei de mim para comigo: como é que Carlos Avilez irá pôr em cena algo tão arrevesado, tão longe de nós, tão complicado?
            Conta a sinopse:
Próspero e Ariel, em conluio...
            «Uma ilha é habitada por Próspero, duque de Milão, mago de amplos poderes, e sua filha Miranda, que para lá foram levados à força, num acto de traição política. Próspero tem a seu serviço Caliban, um escravo em terra, homem adulto e disforme, e Ariel, o espírito servil e assexuado que pode metamorfosear-se em ar, água ou fogo. Os poderes eruditos e mágicos de Próspero e Ariel combinam-se e, depois de criar um naufrágio, Próspero coloca na ilha seus desafectos (no intuito de os levar à insanidade mental) e um príncipe, noivo em potencial para a filha».
            Acrescenta-se que «o amor acontece entre os dois jovens», «a vingança de Próspero é bem sucedida», «Caliban modifica-se quando conhece os poderes inebriantes do vinho». Enfim, «uma história de dor e reconciliação».

Minimalismo e pedagogia
            E assim foi posto à prova o engenho do encenador e dos seus mais directos colaboradores – Fernando Alvarez (cenografia e figurinos), Rui Rebelo (música original), a coreógrafa Olga Roriz e Miguel Graça (dramaturgia).
            Como se simula uma ilha? Como vai representar-se Ariel? Como será a tempestade e o naufrágio? E é na resposta a perguntas deste género, mormente tendo em conta que se trata de pôr em cena actores consagrados ao lado de finalistas de uma Escola de Teatro que estão a prestar provas, é aqui que se manifesta, de facto, toda a longa experiência acumulada.
            A opção foi minimalista: mais sugerir – pelo gesto, pelo som, pelas luzes, pela coreografia… – do que efectivamente mostrar no concreto, pois o espectador deve entrar no jogo da imaginação e deixar-se inebriar pelo entrecho. Por isso, o cenário é mínimo e o guarda-roupa sem preocupações de rigor histórico, uma tentação em que se poderia cair, atendendo a que o enredo – escrito na primeira década do século XVII – retrata lutas e intrigas entre nobres mercadores da Itália do século XVI, dividida então em prósperas repúblicas rivais.
            Assim, esquecem-se os séculos e até somos capazes de transpor essas rivalidades e tramóias, numa escala ainda maior, para estes primórdios do belicoso século XXI. O minimalismo serve às mil maravilhas!
            E a pedagogia. Confidenciava-me José Raposo, o protagonista, que estava a ser para ele experiência ímpar contracenar com jovens que estavam a dar tudo para se embrenharem nos diversos papéis a desempenhar. Situações criadas para que os alunos a elas se adaptassem, «dançando» quer ao fragor da ondulação quer ao sabor de mui suave melodia…
Cena da tempestade, um teste à capacidade de expressão corporal
Dualidade: a tempestade somos nós!
            Escreve-se no texto que nos foi remetido que estamos perante «uma história de vingança e amor», «de conspirações oportunistas», que contrapõe os instintos animais do homem às suas mais altas aspirações, como «o desejo de liberdade e a lealdade grata e servil».
            Assim é; contudo, Ariel é como o génio da lâmpada de Aladino, como a Sininho do Peter Pan… O homem nas suas duas dimensões: a concreta e a «outra», a do desejo, que, ao ser fortemente vivido, acaba por se concretizar – ou nós gostaríamos que no dia-a-dia se concretizasse. O não-poder e o «outro» poder, o da mente, capaz de superar todos os obstáculos ou de os criar; capaz, enfim, de obter reconciliações tidas como impossíveis. Uma dualidade – o real e o imaginado – que tão bem se tem retratado na Literatura (recordo o realismo mágico de O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge, e que não deixa de estar presente também em alguns dos contos de Cal, de José Luís Peixoto, só para citar dois exemplos).
            Um retrato que, reflexão feita, se revela bem real.
 
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 153, 31-08-2016, p. 6.
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A cidade romana de Tongobriga em exposição permanente

            Vale a pena visitar a exposição permanente que visa complementar uma visita às ruínas da cidade romana de Tongobriga (Freixo, Marco de Canaveses).
            Dir-se-á, para já, que o catálogo, coordenado pelo actual responsável pelo sítio, Dr. António Manuel Lima, merece demorada leitura e constitui, aliás, um deleite para os olhos também.
            Sob o mote Mudar de Vida, escalonam-se os capítulos em que se retratam as fases da vida humana: nascer (o princípio da vida), sobreviver (assegurar a vida), viver (organizar a vida), desfrutar (exaltar a vida), orar (pensar a vida), morrer (para além da vida)… António Manuel S. P. Silva assina o capítulo que foca a transição - «do galaico ao romano» - e os capítulos seguintes, a introduzir cada conjunto exposto, são da responsabilidade de António Manuel Lima, Virgílio Hipólito Correia, Rui Morais, Maria Pilar Reis, José d’Encarnação e Filipa Cortesão Silva, respectivamente.
            Mui excelente apresentação gráfica, nomeadamente as ilustrações, de rara beleza. Logo na capa, um medalhão monetário – um aureus do imperador Galieno; depois, fíbulas anulares de bronze, decoradas; a pedra de anel de Valéria, que serviu de sinete também; outra pedra de anel, de cornalina, ostentando Apolo com sua cítara… Enfim, um regalo!
            160 páginas em bom papel couché. Concepção e design editorial de Rui Mendonça, com a colaboração de Noémia Guarda. Edição da Direcção Regional de Cultura do Norte, apoiada nomeadamente pela Câmara Municipal de Marco de Canaveses. ISBN: 978-989-20-6864-0.
            Transcreva-se, pelo seu significado como «guião» que presidiu à elaboração deste roteiro, o texto da pág. 5:
            «Para uns, o romano seria uma fonte de admiração. Transformar-se num deles seria uma legítima aspiração pessoal. Para outros, uma inaceitável negação da sua identidade. Para outros ainda, apenas uma estranha forma de vida. Para todos, em duas ou três gerações, seria uma realidade. E, menos de um século, todas as resistências e inércias seriam vencidas, E, do nascimento à morte, todas as etapas da vida estariam impregnadas de romanidade».
            Um entrecruzar de culturas que, hoje, mercê do instantâneo contacto que a todo o momento temos a nível global, muito melhor logramos compreender do que o indígena peninsular postado perante novas ideologias, novos trajares, novas formas de encarar a existência.
 
                                                                               José d’Encarnação
 
                   Fotos retiradas, com a devida vénia, do catálogo em apreço.
Pedra de anel: Apolo com sua cítara
A pedra de anel de Valeria



              
           

A inscrição da pedra de anel, após impressão

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Miradouros dos três sentidos!

             Franziram o sobrolho os meus estudantes de Política Cultural Autárquica, quando, pela primeira vez, há largos anos, lhes falei dos miradouros, no quadro da valorização do património paisagístico. Claro, a palavra não lhes era estranha, até porque já tinham estado em alguns; mas não haviam consciencializado a sério o significado que o miradouro deve ter.
            A palavra formou-se a partir do verbo mirar, que, por sua vez, vem do latim mirari, que significa admirar-se, ficar assombrado, surpreendido. Por conseguinte, essa a função do miradouro: surpreender.
            Diria que, no miradouro, há três sentidos que devem estar bem alerta: a visão – para se apreciar o panorama; o ouvido – para nos apercebermos dos sons naturais que nos envolvem (é crime de leso património ir a um miradouro de auscultadores nos ouvidos!...); e o olfacto – para sorvermos a longos haustos o que ali é natural.
            Cientes da relevância que os miradouros detêm, as autarquias começaram a dar, nos últimos anos, maior atenção a esses sedutores pontos-chave oferecidos pela paisagem. Guardei, por exemplo, o convite que o Presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel me endereçou para participar na cerimónia de inauguração do Miradouro da Cabeça de Velho, no começo da tarde de 24 de Março de 2007. Também nesse aspecto, a nossa autarquia tem sido precursora.
            O miradouro será, pois, naturalmente, o transmissor de um sentimento positivo, de bem-estar, de descoberta, de comunhão com a Natureza. A deixarmo-nos embeber de tudo aquilo que de bom derredor nos pode ser transmitido. Fotografar? – Sim, mas selectivamente e só depois dos tais longos momentos de saboreio, para não nos acontecer como aquele oriental a quem perguntaram se tinha gostado da viagem e ele respondeu:
            – Ainda não sei bem, porque ainda não vi as fotografias todas!...                       

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 237, 20-08-2016, p. 11.