terça-feira, 25 de outubro de 2016

A pitoresca história do 1º marquês de Cascais em livro

            «Creio que o leitor não foi enganado quando lhe prometi contar a alegre história da romanesca embaixada do marquês de Cascais, e o excêntrico termo da existência do famoso embaixador» – assim conclui Alberto Pimentel o seu livro «Um Português Derretido – A Pitoresca História de D. Álvaro Pires de Castro, 1º Marquês de Cascais».
            E é que não se sai da leitura enganado, não. É mesmo uma história pitoresca, para não dizer picaresca, a deste senhor, que viria a falecer «cristãmente, com todos os sacramentos da Igreja, nos primeiros dias de Agosto de 1674».
            Há algum tempo que se andava para dar à estampa esta obra de 60 páginas, que poderia muito bem integrar a série «Memória de Cascais» de que a Câmara Municipal deu à estampa pelo menos oito breves volumes, um dos quais, o 8º, é também de Alberto Pimentel e tem por título «Cascaes In Sem Passar a Fronteira», publicado no ano 2000.
            As diligências não tiveram êxito e, por isso, a dinâmica editora Apenas Livros, dirigida pela incansável Fernanda Frazão – que a esta edição quis agregar, mui gentilmente, a Associação Cultural de Cascais – acaba de dar à estampa a obra, integrada, com o nº 30, na colecção «Ofiúsa – páginas de história portuguesa».
            Congratulamo-nos vivamente com a iniciativa. É mais uma bonita árvore na floresta – já vasta – de livros sobre a riquíssima história cascalense.
            Contactos da Apenas Livros: apenaslivros2@gmail.com e tel. 21 758 22 85.             

                                                                   José d’Encarnação

Publicado em cyberjornal, edição de 25-10-2016:

sábado, 22 de outubro de 2016

Aplausos para uma política ímpar de integração

             Não é a primeira vez que me congratulo com o facto de S. Brás de Alportel ter logrado uma integração ímpar dos estrangeiros aqui residentes.
            Ocorre-me amiúde a imagem da ida às Baamas, onde, estrangeiros e bem estranhos que éramos, sempre nos saudava com um largo sorriso – «you welcome!» – quem connosco se cruzava. Esse sentimento tenho em S. Brás, ao verificar como os estrangeiros por aqui se movimentam como se na sua terra natal se encontrassem. Aliás, tal atitude ficou bem patente na adesão enorme dada pela ‘colónia’ estrangeira às comemorações do centenário: também eles se incorporaram a rigor no cortejo evocativo.
            Fiquei, por isso, muito satisfeito ao verificar que esse exemplo já ultrapassou as fronteiras do Algarve e teve eco pelo País. Refiro-me ao facto de, em boa hora, Notícias de S. Braz ter transcrito com todo o relevo, que se aplaude, na página 24 da edição de Setembro, a reportagem que o jornal Público publicara: «Estrangeiros estão a mudar a vida cultural de São Brás de Alportel – Cultura tem mais adeptos que o futebol».
            Tudo isso se deve, claro, ao carácter hospitaleiro do nosso povo e, de modo especial, à clarividência demonstrada pelas diversas entidades que operam no concelho, privadas e públicas, sendo de realçar, nesse aspecto, naturalmente, tanto a Câmara Municipal como, de modo muito especial, o Museu do Trajo, ponto de encontro preferencial quer para manifestações musicais quer para exposições de artes plásticas.
            Aproveitava, porém, esse aplauso para uma chamada de atenção, que não é novidade nenhuma e estou certo de que os responsáveis têm disso plena consciência: há os que nos procuraram e acolhemos e há os naturais, boa parte deles envelhecidos e sem grandes possibilidades de deslocação. Exemplifico, puxando a brasa à minha sardinha: quem vive no Corotelo ou na Fonte da Murta ou mesmo nos Vilarinhos onde é que, a pé, pode ir comprar leite ou pão?
 
                                   José d’Encarnação
Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 239, 20-10-2016, p. 11.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A loucura institucionalizada

             Peço desculpa por me atrever a abordar um tema cujos actores podem, porventura, ser alheios ao seu quotidiano. Ou talvez não, porque se me afigura que esta loucura é assim como aquelas ervas daninhas dotadas de enorme capacidade de propagação e não há herbicida capaz de as exterminar ou, pelo menos, de lhes suster o avanço.
            Um exemplo: vais participar, em capital estrangeira, numa reunião da tua especialidade e a tua expectativa, longamente acarinhada, será: vou aí reencontrar amigos de décadas, que há alguns anos não vejo e com os quais apenas mantenho contacto, de vez em quando, através de correio electrónico. Daremos aquele abraço real tanta vez repetido virtualmente; tomaremos um café ou, à hora da refeição ou na pausa-café, dirás da tua vida, saberás das deles, de filhos e de netos, e transmitirás, olhos nos olhos, aquilo que o correio electrónico é incapaz de fazer. Sim, poderias ter comunicado também por skype ou pelo messenger; mas… não é a mesma coisa!
            Puro engano!
            A maior parte desses teus amigos apareceram meia hora antes do horário previsto para a sua intervenção e, na pausa-café, é «olá e adeus!», porque devem partir de seguida para outra reunião que, aproveitando o ensejo, fora previamente agendada para a mesma cidade. Ou, então, necessitam de ir apanhar o comboio porque, noutro local ou no seu próprio local de emprego, outra actividade os espera!
            Uma correria!
            Por detrás dessas vidas a correr está o sistema instituído por entidades superiores, que determinaram objectivos rígidos a cumprir, sob pena de não se avançar na carreira, de se ficar a marcar passo ou, simplesmente, de, sem aviso prévio, não se ver renovado o contrato.
            Pensava – sei agora que ingenuamente – que essas «entidades superiores» eram presididas por pessoas, que também tinham família, que gostavam de ter momentos de pausa, que apreciavam o cultivo da amizade… Não! Presidem-nas autómatos, ligados a computadores cheios de gráficos, que lhes chegam através da internet de outros países com características completamente diferentes do seu, mas que, apesar disso, eles vão procurar introduzir, porque… «vem de fora!» e tem, por isso, de ser bom.
            «Indignai-vos!», proclama Stéphane Hessel. Indignação precisa-se! Contra esta loucura institucionalizada que, obviamente, não leva a sítio nenhum!

                                                  José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 694, 15-10-2016, p. 12.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um espectáculo chamado Ney Matogrosso

              Desta vez, tive curiosidade e fui ao sítio oficial do cantor, para me inteirar um pouco mais do seu percurso. Recordava-o de há muitos anos atrás, não sei quantos, na altura em que ele não podia deixar de dar nas vistas, mesmo ainda integrado no conjunto «Secos e Molhados», pela forma extravagante como se exibia – e a gente gostava ou detestava, não havia meio termo.
            E apreciei deveras a forma como, a maior parte das vezes na primeira pessoa, em autobiografia, Ney Matogrosso (Ney de Souza Pereira, de seu verdadeiro nome, nascido a 1 de Agosto de 1941, em Mato Grosso do Sul, no Brasil) vai apresentando as várias fases da sua vida:
            «Ainda pequeno, escolheu o caminho do questionamento das reticências do mundo adulto, inconformando-se com seus preconceitos e incoerências». «Teve a infância e a adolescência marcadas pela solidão, em parte voluntária – gostava de passar horas seguidas no mato, acompanhado somente por seus cachorros – e por outra parte forçada, pelas constantes mudanças da família, decorrentes das transferências de seu pai militar». «Desembarcou no Rio de Janeiro em 1966, onde passou a viver da confecção e venda de peças de artesanato em couro. Ney adoptou completamente a filosofia de vida hippie».
            Trabalhou com a irreverente Ruth Escobar; viveu os tempos da censura no Brasil e valerá a pena recortar também esta passagem:
            «Na temporada do Rio de Janeiro, no Teatro Tereza Rachel, durante um mês convivi com uma censora permanente, dentro do meu camarim. Ela chegava junto connosco no teatro e ficava no meu camarim até o show acabar. Eu tirava a roupa na frente dela, com a maior naturalidade, e não sabia o que ela fazia ali. […] Tínhamos que fazer shows duas vezes. Uma para a censura. Fazer show para a censura era como ensaiar marcação de teatro. Três passos para cá, três para lá. Eu não podia me pintar daquele jeito, não podia usar rabo-de-cavalo, não podia requebrar. Chegaram a querer censurar o meu olhar. Mas o Secos e Molhados nunca foi proibido, porque era um fenómeno brasileiro. Até as crianças gostavam. Tive mais problemas com a censura depois que me lancei em carreira solo».
            A cena me fez lembrar os tempos heróicos do Teatro Experimental de Cascais, aqui, onde também a PIDE assistia ao ensaio geral… «Três passos para cá, três para lá»...

Um espectáculo
            «O Bandoleiro» (1976) e «Rosa de Hiroshima» (1979) são, seguramente, os temas que de imediato nos ocorrem quando falamos de Ney Matogrosso, para além da sua enorme extravagância no modo de se apresentar em público.
            Assim foi, de facto, na gala em que, no passado dia 4, nos presenteou com os temas do seu novo álbum «Atento aos Sinais». Um privilégio, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, repleto de vultos conhecidos da nossa sociedade.
            Ney Matogrosso foi… um espectáculo! E a palavra não assume, aqui, o tom habitual, jocoso, popularizado por Fernando Mendes. Não. Quero dizer mesmo isso: o artista, mudando amiúde, no palco, de vestimenta, mostrando mais ou menos do seu corpo, acentuadas de propósito as curvas e as partes pudendas mediante roupa cingida, foi sensual, foi cantor, foi bailarino, foi… Artista! Ao vê-lo assim movimentar-se, requebrando-se, como atrás se referia, comentávamos: «Muito ginásio, hein, para quem tem 75 anos e bem se sabe cuidar fisicamente!». Também nesse aspecto um exemplo!
            Seria injusto, porém, se não acentuasse o facto de o «espectáculo», centrado, sim, no artista, ter beneficiado de muito cuidada técnica envolvente: os jogos de luz, os vídeos que, de vez em quando, sublinhavam os temas e, de modo especial, o brilhantismo dos seus músicos: Sacha Amback (direcção musical e teclado), Marcos Suzano e Felipe Roseno (percussão), Dunga  (baixo), André Valle (guitarra), Aquiles Moraes (trompete) e Everson Moraes (trombone de varas). Exímios, todos eles; contudo, não pôde passar despercebida a dupla dos ‘metálicos’, que sublinharam com muita oportunidade e saber os momentos mais significativos da actuação.
            Ocorre-me a expressão «animal de palco», que poderá parecer ofensiva; no entanto, essa foi, sem dúvida, a sensação de todos nós: Ney Matogrosso é isso mesmo!                  
                                               José d’Encarnação
             Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 159, 12-10-2016, p. 6.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O baraço

            Enviei um livro por via postal. Fiz o embrulho com papel pardo e atei-o com um baraço. Regozijou-se o destinatário e agradeceu-mo (e peço desculpa por manter a frase em castelhano, que bem se compreenderá) «porque entre tantas bolsas autosellantes y acolchadas, el papel de estraza y el cáñamo trae recuerdos no muy lejanos pero ciertamente pasados». Eu nem pensara nisso – e fiquei naturalmente contente!
            E, claro, achei que baraço era bom termo para uma conversa, até porque me recordo da admiração que tive, quando uma colega minha, espanhola também, anunciou, toda contente, que estava… «embarazada», grávida! Filhos são um dom; mas lá diz o ditado «Quem tem filhos tem cadilhos» – e lá estamos nós, de novo, no campo da fiação, e não da filiação – que esses, os filhos, nós queremos é que sejam… desembaraçados!
            Baraço é mais uma das palavras concretas que pertence à nossa herança árabe: «maras», assim se diz em árabe. E não é que ao vocábulo está ligada, de modo específico, uma conotação violenta? Diz-se que é «laço para estrangular»; e, por isso, lá pelas idades médias, se contava que havia uns senhores «de baraço e cutelo», ou seja, que podiam dispor, a seu bel-prazer, da vida dos súbditos, enforcando-os ou cortando-lhes a cabeça! Se já se viu?!...
            Pela minha parte, enquanto os tiver, prefiro atar com baraços as encomendas que vou enviando…
                                                              José d’Encarnação
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 213, Outubro de 2016, p. 10.
 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Psicologia das Multidões

            O título não é meu. Copiei-o de um livro que Gustave Le Bon (1841-1931), médico e sociólogo francês, publicou em 1895. Identifico-o facilmente na minha estante dos livros de bolso de Publicações Europa-América, onde tem o nº 365 (nem sempre me recordo…), porque é o único a que pus capa, tantas são as vezes que me apetece consultá-lo.
            Lembrei-me dele agora, a propósito dos incêndios, imagine-se! E porquê? Porque há nele um capítulo sobre as multidões eleitorais, em que se diz, a dado passo: o programa verbal de um político nunca é exagerado, «podem prometer-se sem receio as mais amplas reformas. No momento, os exageros produzem bastante efeito e não comprometem o futuro. O eleitor não se preocupa nada em saber se o eleito obedeceu à profissão de fé aplaudida e à qual deve a vitória». Não se prometeram, agora, mundos e fundos? Que tudo seria sanado, que se fariam reuniões para criar consensos, que se destinariam verbas específicas para…?
            De vez em quando, há um jornalista malandreco que vai remexer papéis ou gravações áudio ou vídeos e traz essas promessas prá ribalta. E é, então, um coçar de cabeça, um desembrulhar de desculpas, que não era bem assim, que as circunstâncias, afinal, mudaram muito…
            Claro que há também aquele outro jornalista inocente: «Porque é que há mais fogos em Agosto?». O interlocutor lá tenta arranjar uma resposta minimamente viável, e resiste a declarar a pergunta improcedente… E será que é totalmente improcedente? Não há aí um Agosto todos os anos? Não há aquelas leis que, em Agosto, se prometem fazer e que, depois, se baralham todas umas às outras, porque não se pode roçar o mato agora por causa das cobras, nem cortar ramos por causa dos ninhos, nem abater aquela porque é espécie protegida… E o cidadão anda de Anás para Caifás e cada qual interpreta a lei à sua maneira e as Câmaras é que deviam obrigar… Mas se elas próprias nem limpam o que lhes pertence!... E, por outro lado, sabem lá quem é o proprietário, pois o terreno está no nome dum trisavô que tem uma catrefada de descendentes e nem eles sabem que aquilo lhes pertence!...
            Por isso, eu gosto do Gustave Le Bon:
            «O candidato – leia-se ‘o político’ – que consegue descobrir uma fórmula nova, bastante destituída de significado preciso e, por consequência, adaptável às mais diversas aspirações, obtém um sucesso infalível»!
            E diz o Povo: «Como ele fala bem!».
 
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 693, 01-10-2016, p. 11.

sábado, 1 de outubro de 2016

«Olhos de coruja, olhos de gato bravo»

            O filme de Ivo M. Ferreira, «Cartas da Guerra», baseada no livro «D'este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra», de António Lobo Antunes, trouxe de novo à ribalta a literatura que, de há uns 20/30 anos a esta parte, dá conta das experiências vividas no Ultramar. Antes e durante a guerra, sobretudo.
            Guiné, Angola e Moçambique, os palcos preferidos, porque os mais sangrentos e lancinantes. Houve, porém, uma outra «província», perdida lá nos confins do Extremo Oriente, que só de tempos a tempos, e pelos piores motivos, foi alvo de atenção.

Timor
            O escritor timorense Luís Cardoso, residente em Oeiras, consagra-se como um dos poucos que, paulatinamente e com base na experiência e na investigação, vai passando a escrito as tradições milenares de um povo, ou melhor, de uns povos, para nós, ocidentais, envoltos em mui estranhas concepções.
            O seu segundo livro, «Olhos de coruja, olhos de gato bravo» (Publicações Dom Quixote, 2002) pode ser encarado como um retrato do Timor aí pelos finais da década de 60. Propositadamente, não há referências cronológicas. Apenas quase no fim se alude à Revolução de Abril e se dá a entender que a organização em partidos das várias tendências políticas vigentes poderá vir a alterar profundamente o frágil equilíbrio dos poderes até então alicerçados nas famílias tradicionais e na riqueza em terras e em animais.
            O relevante papel da Igreja Católica. Nada se faz sem a opinião de Padre Santa, influente junto dos poderes políticos e eclesiásticos, suspeita-se que não apenas da metrópole mas até da Cúria. Personagem de enorme influência a todos os níveis. Secunda-o o catequista, pai de dois gémeos (Mateus e Matias) e da protagonista, que, após longas discussões, receberá o nome de uma antepassada, Beatriz. Um nascimento tardio, que até parece ter apanhado o pai desprevenido, atendendo às suas inúmeras andanças em prol dos catecúmenos, espalhados pelo território, mormente para presidir a cerimónias fúnebres…

Uma narrativa intrigante
            Retratam-se em pormenor os complexos rituais que rodeiam o nascimento. E o facto de a criança ter nascido (dizem!) com olhos grandes – nunca se chega a perceber qual o problema… – determina que lhe ponham, de imediato, uma venda, que a irá acompanhar até à última página, em que se consuma o seu casamento com um oficial de olhos de gato, o derradeiro administrador do território nomeado pelo Governo de Lisboa. Mistério!...
            Não é, por conseguinte, livro de leitura fácil, nas suas 150 páginas, de raríssimos parágrafos, períodos curtos, letra miudinha. E em que se contam, porventura, pelos dedos das duas mãos as frases em discurso directo.
            As intrigas familiares, as reacções psicológicas, os conflitos latentes. Romance psicológico e de costumes, desgarrado de uma paisagem concreta identificável ou, mesmo, de um período histórico cronologicamente balizável. A venda negra nos olhos – que dizem ter formato dos da coruja… – parece assumir-se, de facto, como estratagema para que nem tudo se veja, ainda que, paradoxalmente, a menina-da-venda-nos-olhos seja a narradora e veja mais do que muitos que, aparentemente, vendas não têm.
            Romance intrigante, a trazer alguma luz – como outros do mesmo autor – sobre um território ainda hoje dificilmente compreensível para quem nunca por lá passou. E, mesmo para esses, os que por lá passaram, muitos dos mitos e da realidade estarão para todo o sempre ocultos sob densa penumbra. Trata-se de um romance, bem no sei, e não um documento etnográfico e o escritor segue a sua filosofia; mesmo sabendo que o livro vai destinar-se primordialmente a um público português. Não seria, por isso, despiciendo ter-se incluído um apêndice explicativo de termos, de lugares, de circunstâncias, porque ali há etnografia, há história, há vocábulos próprios…
            «Padre Santa tinha dito que eu já tinha visto tudo. Não era verdade. Faltava-me ver os olhos dele. Eram verdes como de um gato bravo. Com a mão fechei os olhos dele. Depois disso não vi mais nada. Como se tivesse fechado os meus próprios olhos».
            Assim termina.
            Na antinomia entre o ver e o não-ver. Uma protagonista que nunca viu com os olhos e muito soube e um apaixonado que dela se enamorou e que às suas mãos vem a sucumbir por amor, de alfinete de ouro espetado no coração. Um drama romântico ou o drama de um povo? Afinal, de quem era a cegueira? E quem a tão enigmática Beatriz?
                                                                                  José d’Encarnação
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 157, 28-09-2016, p. 6.