sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Um Natal difícil

 
‒ Ó mãe, eu não percebo! O Menino Jesus não é filho de Deus Pai Todo-poderoso?
‒ É. Foi isso que aprendeste na escola, não foi?
‒ Foi. E é por isso que não eu não percebo.
‒ Mas não percebes o quê?
‒ Deus Pai não é Todo-poderoso?
‒ É. O senhor dos Céus e da Terra, como nós costumamos dizer.
‒ Então, se é o senhor disso tudo, é rico, quer dizer, tem dinheiro, tem casas grandes…
‒ Bem, a riqueza de Deus não é assim como a nossa. Ele tem poder, mas o poder d’Ele não se manifesta na posse de coisas terrenas, como ter dinheiro no banco, possuir iates ou casas de fim-de-semana.
‒ Ah!...
‒ Mas, desculpa lá, Matilde. Porque é que estás a perguntar-me isso?
‒ Porque não percebo o Natal.
‒ Não percebes o Natal?
‒ Não. O Menino Jesus, que é filho de Deus Pai Todo-poderoso, não nasceu numa cabana e os pais não se viram aflitos porque não havia sequer lugar numa estalagem, que é como se diz, embora eu julgue que se deveria pensar era num hospital, numa maternidade ou mesmo na casa duns amigos…? Agora, numa cabana, eu não entendo!
‒ Senta-te aqui ao pé de mim, Matilde. E o pai também vai ajudar-me a explicar. O nascimento de Jesus aconteceu há mais de 2000 anos, compreendes? Não havia hospitais, nem maternidades nem comboios nem, muito menos, telemóveis para chamar uma ambulância.
‒ Ah! Eu já ouvi dizer que houve meninos que nasceram em ambulâncias.
‒ Ora aí está! ‒ atalhou o pai. – E porque é que nasceram na ambulância?... Porque não houve tempo para chegar ao hospital! Ora, nesse tempo, há 2000 anos, Maria e José tiveram de ir a Jerusalém recensear-se.
‒ Recensear-se? O que é isso de recensear-se?
‒ Tu já viste que nós, de vez em quando, vamos votar a uma escola ou a um pavilhão desportivo para escolher o presidente da República.
‒ Ah! Agora, como quando escolheram o presidente Marcelo?
‒ Sim. Saímos de casa e fomos até ao lugar do voto. Assim aconteceu com Maria e José: tiveram que sair da sua terra e lá foram, num burrinho – nessa altura não havia automóveis ‒ a caminho de Jerusalém. Ora, no caminho, Maria começou a ter as dores do parto e José, aflito, procurou aqui e ali e ninguém os acolheu e eles tiveram que ir para uma cabana!
‒ Uma cabana onde há animais e tudo?
‒ Bem, isso é uma maneira de dizer. Naquele tempo, aproveitavam-se as grutas naturais e as pessoas faziam aí a sua casa.
‒ Como os sem-abrigo que estão debaixo das pontes ou nos vãos das escadas?
‒ Sim e não. Porque isso era normal. Um dia, nós levamos-te, por exemplo, a Matmata, na Tunísia, e verás como, ainda hoje, há pessoas que vivem bem nessas grutas. Nos arredores duma cidade tão bonita como é Granada, em Espanha, também é assim.
‒ Ah! Então não era assim tão mau! Mas… não se diz que Nossa Senhora pôs o menino na manjedoura?
‒ Isso é uma maneira de dizer, para que se entenda melhor. Sabes, às vezes, para explicar as coisas, a gente usa as ideias de agora.
‒ Mas, ó pai, e depois não apareceram pastores com prendas e o burrinho e a vaca não aqueceram a gruta para o Menino não ter frio?
‒ Cá está o que eu te dizia. A história foi contada assim para as pessoas entenderem melhor. Claro que, nessa altura, o povo vivia da pastorícia, ou seja, tinha ovelhas e cordeirinhos e era essa a riqueza que tinham. Por isso, nada mais natural do que, ao saberem que uma senhora dera à luz um menino ali, desconfortado, lhe fossem dar presentes. Hoje, a gente, quando uma amiga nossa tem um filhote, não vamos vê-la e não lhe levamos um presente? Nessa altura, não havia fraldas descartáveis nem biberões e, por isso, um cordeirinho era óptimo para ajudar nas refeições dos primeiros dias e dar força a Nossa Senhora para tratar do Menino.
‒ Ó pai, mas se Deus é Todo-poderoso não podia ter feito nascer o Menino assim no Verão, num dia quente e não quase à meia-noite duma noite de Inverno?
‒ Essa é uma boa questão, Matilde. Nesse tempo não havia calendário como nós temos nem relógios. Era tudo mais ou menos! Do nascer ao pôr-do-sol. Por isso, muitos anos mais tarde, quando foi necessário pensar em que dia teria sido, acharam que o melhor era pôr assim mesmo no começo do Inverno, até porque já havia entre os Romanos, nessa altura, a festa do nascimento do Sol Invencível. Ora, não era o Menino Jesus como um Sol Invencível? Era, pois! Estão substituíram a festa dos Romanos pela dos Cristãos.
‒ Mas, ó mãe, tu sabes quem é a Dolores, aquela minha amiga espanhola.
‒ Sim, sei.
‒ Eles, em Espanha, a festa é no Dia de Reis, a 6 de Janeiro.
‒ Boa questão, Matilde. É que o nascimento do Menino Jesus já se esperava há muito tempo e havia sábios que estudavam os astros (por sinal, onde hoje está tudo em guerra, lá na Síria) e sabiam que, um dia, quando nascesse esse Salvador, eles teriam um sinal no céu. Ou foi um cometa ou dois planetas cuja luz se juntou e foi mais intensa do que o habitual. Era o sinal! E, como viviam no deserto, montaram-se nos camelos e, guiados por essa «estrela» (como se diz), lá foram até Belém e ofereceram ao Menino presentes.
‒ Mas são presentes esquisitos, pai! Ouro, incenso e… mirra!
‒ Isso eu não sei bem explicar, mas acho que também é uma coisa que se inventou para ser simbólica, assim como uma lição de vida, assim como tu ofereceres uma rosa à mamã para lhe dizeres que gostas dela. O ouro são as riquezas; o incenso é – creio eu – o símbolo do louvor, da necessidade que todos temos de apreciar o que os outros fazem de bom e a mirra…
‒ Já percebi, Interessa-me é a história dos presentes. Já pensaram no que me vão dar este ano? Claro, não é para mim, é em honra do Menino Jesus!...
 
            Cascais, 14-10-2016                                                  
                                                                           José d’Encarnação
[Integrado nas pp. 31-34 da antologia Histórias e Contos de Natal, editada pela Externato Rainha D. Amélia, de Lisboa, Dezembro de 2016].

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mais uma injecçãozinha, vá lá!

             Achei piada. O ecrã estava dividido em quatro. Na parte de cima à esquerda, a foto de um instantâneo do jogo mudava de vez em quando. Por baixo, um vídeo, sempre o mesmo, a mostrar o treinador de uma das equipas a andar, nervoso, de um lado para o outro; dava uma impressão de realidade (mas já fora e repetia-se, repetia-se...) Em cima, à direita, a locutora ia relatando o embate (não tinha o canal direitos de transmissão directa). Por baixo, o painel de comentadores, que iam reagindo às jogadas.
            O que mais me chamou a atenção foi esse truque de mostrarem sempre a mesma sequência dos passos do treinador para o adjunto e do adjunto para o banco, irrequieto. E lembrou-me, de imediato, «the best video you will ever see», que me haviam enviado não há muito e já tinha 22 milhões de visualizações e 427 506 partilhas: chama-se «Shrimp: the disgusting truth» (camarão: a verdade repugnante) e foi distribuído pela gary-tv.com, um canal que pugna pela defesa da vida animal. Vê-se ali o senhor num suposto laboratório do Vietname (um dos 5 maiores exportadores de camarões!…) a dar sucessivas injecções, três em cada camarão que lhe passam. Injecta-lhes uma mistura de glicose, gelatina e CMC (carboxymethyl cellulose), tudo para os tornar mais… apetecíveis!...
            Recebi, há tempos, um outro vídeo, em que se mostrava, também num país do Extremo Oriente, como se fazia couve lombarda a partir de substâncias químicas, exactamente com o mesmo aspecto e o mesmo gosto das cultivadas no campo…
            Recordo as brilhantes lições do Prof. Jorge Paiva – já lá vão trinta anos! – a contar-nos das manipulações genéticas dos cereais e como, por detrás do milho híbrido (se não erro o exemplo), estava todo um processo que lhe alterava por completo as propriedades.
            Todos nos apercebemos da diferença entre a laranja que colhemos no nosso quintal e a que compramos no supermercado: esta última, dois dias depois, já não se pode comer. E o pão? Minha avó cozia pão uma vez por semana, para nós e para os vizinhos, e chegava aos oito dias com a mesma frescura e qualidade. Hoje? Compras num dia e dois dias depois tem bolor!...
            Por isso – e, claro, por outros factores mais que se acumulam –, a senhora de 41 anos começa, de repente, a ter formigueiros nos pés, depois nas mãos, depois no peito e vai de urgência para o hospital com todos os músculos sem força alguma e fica paralisada por completo, perante a estupefacção de todos. Ou o amigo, que nós víamos a vender saúde e começa, de um momento para o outro, a sentir-se cansado, cansado, sem motivo aparente e… já está a fazer químio e aguarda transplante de medula…
            É triste falar disto em vésperas de Natal; importa, porém, que também a pausa da quadra natalícia se aproveite – com serenidade e tempo – para uma reflexão sobre nós, os nossos e aquilo que nos rodeia. A recuperar forças para o testemunho que precisamos de dar!
                                                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 698, 15-12-2016, p. 16.
 
 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Da homenagem a Jorge Miranda

              Já nestas colunas do Cyberjornal se deu conta, na edição do passado dia 9, do programa que, durante dois dias, 10 e 11 do corrente, foi levado a efeito, por iniciativa da Espaço e Memória – Associação Cultural de Oeiras, no Auditório César Batalha, em Oeiras, de homenagem ao Dr. Jorge Miranda.
            Serão, mui provavelmente, publicadas essas intervenções, centradas todas elas, por especialistas, na história local e regional de ambos os concelhos, Oeiras e Cascais. Os mais variados aspectos foram, pois, apresentados, a mostrar a riqueza histórico-patrimonial de que dispomos e de que nem sempre sabemos usufruir.
            Estava também prevista para essas jornadas a apresentação do livro do homenageado «Do Património Histórico de Oeiras» (salvo erro, é este o título), a primeira compilação de uma longa série de bem suculentos artigos que Jorge Miranda foi publicando, nomeadamente no Jornal da Região, quando o então director desse jornal, Dr. Albérico Fernandes, teve a clarividência, há 16 anos, de reservar a temas de História e de Património uma página inteira desse que foi o primeiro jornal local a ser distribuído gratuitamente
            Cascalense de gema, oeirense por adopção, Jorge Miranda fez o seu curso de História na Faculdade de Letras de Lisboa, como estudante-trabalhador, quando já investigava há muito o passado de Cascais e de Oeiras, investigação de cujos resultados ia dando conta nos textos que, em Cascais, o «Jornal da Costa do Sol», de cuja equipa de redacção fazia parte, regularmente publicava.
            Desse livro – ou melhor, dessa série – se falará; por agora, interessa aplaudir o entusiasmo, a perseverança e o saber com que, ao longo de mais de quatro décadas, tem revelado, em textos e em conferências, o muito que logrou descobrir acerca das personalidades, dos factos, das casas e da paisagem de Oeiras e de Cascais. Foi, pois, inteiramente merecida a homenagem que ora se lhe prestou – e da melhor maneira, chamando especialistas a falarem do que ele gosta de ouvir.

                                               José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 14-12-2016:

Um diálogo que encantou e mereceu mui fartos aplausos


             Realizou-se, no passado sábado, dia 10, no Auditório Senhora da Boa Nova (Galiza, S. João do Estoril), o Concerto de Inverno da Orquestra Sinfónica de Cascais, sob a habitual direcção do maestro Nikolay Lalov.
            Arriscou o maestro duas peças que mesmo um leigo compreende serem de mui difícil execução, pela extrema variedade das intervenções que cordas e os metais são chamados a ter no segundo exacto, para se calarem segundos depois e logo intervirem de novo.
Lilia Donkova
            Rezava o programa que iríamos ouvir «duas das mais emblemáticas obras do repertório sinfónico de Viena». Uma, a Sinfonia “Grande” D. 944, sinfonia nº 9, em dó maior, de Franz Schubert (1797-1828), datada precisamente do ano da sua morte e considerada por muitos como a precursora do que viriam a ser as grandes obras de Mahler (1860-1911) e de Anton Bruckner (1824 -1896). A outra, o concerto – que também pelo estilo, poderia também entrar no género das sinfonias – do compositor alemão Johannes Brahms (nasceu em Hamburgo, em 1833, e viria a falecer em Viena em Abril de 1897), o concerto para violino e violoncelo em lá menor (op. 102), datado de 1887, a última obra que Bramhs viria a escrever para orquestra.
Anastasia Kobekina
            Longamente aplaudimos a segunda parte do espectáculo, a excelente interpretação da sinfonia nº 9 do incomparável Schubert, soberbamente executada; mas os aplausos foram ainda mais longos, de pé, no final da primeira, porque a búlgara Lilia Donkova, no violino, e a russa Anastasia Kobekina, no violoncelo, estabeleceram entre si, como solistas, um diálogo, que, como sói dizer-se, só visto e ouvido – pela alegria, pela entrega, pelo virtuosismo, pelo imenso saber!... Até nos pareceu que o resto da orquestra ficava assim lá no fundo, discreta, a deixar inebriar-se pelo que Lilia e Anastasia tocavam!...
            Lilia Donkova é já nossa conhecida, porque é concertino na Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, uma figura sempre de primeira plana nos concertos, e é professora de violino no Conservatório de Música de Cascais. E do extremo virtuosismo de Anastasia não nos poderemos admirar se soubermos que nasceu numa família de músicos, começou a aprender violoncelo aos 4 anos e toca hoje num violoncelo fabricado, em 1743, por  Giovanni Baptista Guadagnini (1711-1786), o mais célebre construtor de violinos da 2ª metade do século XVIII.
            Mais uma vez não resisto a dizer que saímos do Boa Nova com a alma cheia! Músicos e maestro estão de parabéns e nós imensamente gratos pelo privilégio de os termos ouvido interpretar com entusiasmo e enorme saber duas peças de antologia! E temos a certeza de que todos os músicos hão-de ter já anotado esta data no seu currículo, dado o privilégio – sem dúvida, raro! – de haverem tocado com estas duas extraordinárias intérpretes como solistas.
                                                            José d’Encarnação
Publicado em Cyberjornal, 14-12-2016:

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

No dia 5, a Solidariedade ganhou no Casino Estoril!

             O elenco que ia actuar era assaz convidativo; contudo, mais aliciante ainda era a razão que nos poderia levar ao Salão Preto e Prata do Casino estoril: a receita obtida destinava-se a ajudar nas despesas de tratamento do Salvador, «um menino de cinco anos a quem foi diagnosticado um neuroblastoma, doença de prognóstico muito reservado, mas que, neste caso, ainda, permite alimentar alguma esperança de cura».
            Em torno do caso se gerou, pois, amplo movimento de solidariedade, quer de amigos quer, neste caso, da própria Estoril-Sol e dos artistas que não hesitaram em dizer «sim!» e proporcionaram um belíssimo espectáculo a quantos, acorrendo à chamada, encheram por completo o salão.
            Apresentou o espectáculo, na segunda-feira, dia 5, a partir das 21h45, Ricardo Carriço.
            Começou por actuar Ângelo Freire, fadista e guitarrista que habitualmente acompanha Ana Moura. O seu enorme virtuosismo foi saudado com fartos aplausos.
            Seguiu-se António Zambujo, naquele seu jeito tímido de, sentado, quase pedir licença para nos contar histórias, cantando; e terminou, claro, com o já popularíssimo «Pica do 7», que os assistentes não hesitaram em acompanhar no refrão.
            A azougada Ana Bacalhau trouxe a costumada boa disposição dos Deolinda, com aquelas «modas» (como se diz no Alentejo) em que, como quem não quer a coisa, se vão atirando, a rir, certeiras críticas ao quotidiano que os «Grandes» nos obrigam a viver.
            Ah! E depois a esguia, a bonita, a simpática, a sempre cativante Ana Moura! O fado que nos enche a alma e que de boa mente acompanhamos cantando e batendo palmas quando para isso solicitados. Terminou, como não podia deixei de ser com… Desfado: «Ai que saudade / Que eu tenho de ter saudade / Saudades de ter alguém / Que aqui está e não existe! / Sentir-me triste / Só por me sentir tão bem / E alegre sentir-me bem / Só por eu andar tão triste!».
            A meio leiloaram-se dois quadros contendo, um, uma camisola autografada do Benfica e, outro, uma do Sporting. Ambas renderam 650 euros cada; e, também aqui, embora os adeptos do Benfica estivessem claramente em maior número, houve imparcialidade, até porque foi um sportinguista quem arrematou a do «rival»!...
            Tudo isto para dizer que se viveu intensa noite de solidariedade, numa verdadeira e mui intensa comunhão entre artistas e público, numa demonstração cabal que, em ocasiões como esta, o Português sabe dizer: «Presente!».
            Fazemos votos para que tudo corra o melhor possível para o pequeno Salvador, cujos pais estiveram presentes e tiveram palavras de sentido agradecimento. Aproveita-se, aliás, para referir que foi criada no BCP a conta IBAN PT50 0033 0000 45487228016 05, destinada «exclusivamente, a custear todas as despesas que venham a revelar-se necessárias à sua recuperação, devendo o remanescente, caso venha a existir, ser doado para ajudar outra criança com o mesmo problema do Salvador ou entregue a uma instituição de beneficência».

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 12-12-2016:

domingo, 11 de dezembro de 2016

Poemas ocasionais, de Fernando Miguel Bernardes

            Está em distribuição o livro poemas ocasionais, de Fernando Miguel Bernardes, numa edição de Mar da Palavra (coimbra, mardapalavra@gmail.com ), editora de que Vitalino José Santos é o grande dinamizador.
            Natural de Gândara dos Olivais (Leiria), onde nasceu a 14 de Dezembro de 1929, formou-se o autor como engenheiro geógrafo, mas será, sem dúvida, a poesia que o imortalizará, uma vez que poemas seus foram musicados e gravados por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Jorge Letria, José Carlos Ary dos Santos. Um poeta, pois, da resistência.
            Tive ocasião de apresentar, a 27-05-2009, na Biblioteca Municipal das Galveias (Lisboa), o seu livro «O Fio das Harpas»; prefaciei «Notas de viagens – Ritmos e Mitos» (Coimbra, 2015); e tive igualmente o gosto de fazer o prefácio para estes «poemas ocasionais»:
            O meu texto – que me seja perdoada a insolência – começa assim
            “Dizem-se «ocasionais». De ocasião. Como suspiro d’alma que se dá, de quando em vez, perante o inusitado, ao ler uma frase sentida, ou, mesmo, diante do rumo ziguezagueante de uma Humanidade ora, cada vez mais, a desmerecer inicial maiúscula.
            Voz a ecoar pelas quebradas. Um rio. Já o imperador romano Marco Aurélio escrevia ser a vida qual rio torrentoso: mal acabas de ver a folhinha flutuante, ei-la que já lá vai e, em seu lugar, outra vem, em jeito de abalada.”
            É que, se não errei, assim se poderia compendiar a mensagem que Fernando Miguel Bernardes nos quer transmitir. Como quem não quer a coisa, lá vai lançando a sua certeira seta contra os «montes maninhos», «as verduras transgénicas», «frutas maduras de intervenções polémicas» (p. 61). Poderíamos alargar-nos em dissertações técnicas sobre a manipulação dos alimentos, mas… estes dois versos «frutas maduras de intervenções polémicas» carecem, acaso, de mais explicação?
            «Eleito a falsas promessas, este no comando agora – ai, ai, Coriolano!... – eis, por fim, tudo às avessas, os cidadãos ao engano!» (p. 81). Que mais é preciso dizer para verberar quem promete mundos e fundos para ser eleito e, depois, faz exactamente o contrário do prometido?
            E se nos sentássemos ao relento com um sem-abrigo – se é que tínhamos coragem para conversar com ele.. – que lhe ouviríamos dizer? E Fernando Miguel Bernardes, em singela pincelada diz tudo:

                        «Tu tens uma cama quente
                        a mim o que me ajuda
                        é um trago de aguardente!». (p. 14).

            Não resisto a transcrever, pela sublime acutilância que os dois tercetos do poema «parasitas» encerram, retrato fiel de como, na escolha certa das palavras, se desnuda um estado d’alma, se brada forte um grito de revolta:

                        vérmina – disse o doutor
                        ao ser pelo doente
                        consultado
 
                        vermes – disse o eleitor
                        ao ser pelos que elegeu
                        parasitado      (p. 90).

            Um livro para meditar!
                                                           José d’Encarnação

Publicado em cyberjornal,  edição de 10-12-2016:

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A mais antiga farmácia e o maior medo da minha vida

             Teve Raul Cornélio – que julgo não conhecer pessoalmente – a amabilidade de me esclarecer que errei, ao escrever, na p. 93, de «Cascais e os Seus Cantinhos» que a Farmácia Cordeiro «foi a única durante muito tempo em Cascais»:
            «Antes houve duas: a da Misericórdia e a do Sr. Lopes e, quando veio o Dr. Cordeiro, pelo menos a da Misericórdia havia, sob a responsabilidade do Sr. Antunes e, mais tarde, do Sr. João Galamas. Repito: a Farmácia da Misericórdia sempre existiu, antes e depois do Dr. Cordeiro».
            Agradeço a Raul Cornélio a gentil explicação, que veio em momento oportuno, porque alguém me perguntou outro dia se se fizera já a história dos estabelecimentos comerciais da vila de Cascais. Eu acho que não – e haja aí quem meta mãos à obra!

O meu maior medo
            Mas essa evocação das farmácias fez-me recordar o maior medo que tive na minha vida – quanto me lembre agora.
            No dia em que fiz oito anos, morávamos num casebre em Birre, minha mãe precisou de um remédio e mandou-me ir à Farmácia Cordeiro, aí pelas quatro da tarde. Teria tempo de vir depois para cima, com um amigo que trabalhava na vila. Estávamos em meados de Dezembro. Comprei o remédio e procurei o amigo, que não encontrei. Começou o lusco-fusco e não estive com meias-medidas: pela Torre não dava jeito ir, que a estrada era, se não erro, de mau piso e não tinha luz; depois, teria que passar pelo Pinhal do Cigarro, que era a divisória entre a Torre e Birre e o sítio era escuso de mais. Não. O melhor era subir pelo Jardim Visconde da Luz, passar pela Estrela do Norte, benzer-me diante do cemitério (onde fizeram depois o edifício das Águas), passar pelo Bonito Velho, Depósito d’Água, Bairro Operário, Barraca de Pau… Podia ter ido à taberna do Ti Zé Martins e pedir que me acompanhassem, porque já estava escuro que nem breu e as lâmpadas dos postes só iluminavam a espaços e da Barraca de Pau até às Quatro Estradas (o cruzamento para Birre), aquilo só eram mulatas grandes dum lado e doutro. Tive vergonha e não fui. Já não recordo se me encomendei a algum santinho ou não. Sei é que logo pensei que nunca mais esqueceria essa noite de aniversário. Terá passado um carro ou outro, mas até me parece que não; só a luz mortiça das lâmpadas por entre as franças altas das mulatas. Lembrei-me, de certeza, das histórias que minha avó contava, dos lobisomens nas encruzilhadas. De passo estugado, só queria era chegar à estrada para Birre e ver adiante o Alto do Zé Florindo, que bastava depois descer até ao pontão do ribeiro, passar rente ao muro do Soares (hoje, a Escolinha da Tia Ló) e, assim que chegasse à porta da garagem dele, que estava na esquina, o nosso casebre (ainda hoje existe como quando eu lá morei, casinha saloia térrea típica) era logo ali e eu estaria a salvo.
            Estava eu nestes pensamentos quando, do outro lado do passeio, já na estrada para Birre, sinto que vai uma senhora. A estrada não tina luz. Calo-me muito caladinho (não sei se pelo caminho, eu teria cantado algum dos fados que ouvia a meu pai, para afastar o medo) e continuo.
            ‒ Zé Manel! Ó filho!
            Estava salvo! Minha mãe tirara-se de cuidados, afeleada até mais não, e pusera-se a caminho. Creio que nunca mais tive um abraço tão quentinho e tão bom!...
            Bem haja, pois, amigo Raul Cornélio, por me haver proporcionado esta evocação de lugares que hoje já não são assim ermos; poucos os conheceram com os nomes que lhes dávamos…
            Uma Cascais antiga, de estradas poeirentas, percorridas a largos espaços pelas carreiras brancas da Palhinha. As canastras do peixe, as alcovas das compras e outros apetrechos iam lá em cima, no tejadilho, a que se acedia por uma escada nas traseiras… E havia desdobramentos quando, em dia de praça, a afluência de passageiros era grande e uma camioneta ia até à Aldeia de Juso ou à Malveira e só a da frente seguia para Sintra…
            Valerá a pena fazer essa história dos anos 50?
            Até as covas das pedreiras eles entulharam agora, como para esquecer esse passado, em que ainda não era o turismo a riqueza, mas sim a exploração do azulino cascalense, os roseirais dos Cartaxos, as hortas e os pomares dos saloios que tinham lugar no mercado da vila… E que bem sabia, quase ao cair da tarde, na véspera da ida à «praça», receber de prenda uma rosa príncipe negro, oloroso vermelho aveludado envolto numa ternura!…

     José d’Encarnação

            Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 167, 07-12-2016, p. 6.