Deu,
porém, um largo passo atrás e decerto desataria a fugir se o companheiro o não
parasse. É que, da ferida, começara a escorrer um líquido leitoso, sangue, como
se a árvore fosse um ser humano que duende antigo nele o houvesse transformado!
‒
É um dragão, só pode ser! O melhor é voltarmos já para a praia!
Assim
imagino eu o primeiro encontro, no século XV, dos portugueses com a singular
árvore do dragoeiro, ao penetrarem um pouco mais na vegetação da ilha da
Madeira, tão estranha é, de facto, a sua configuração.
Pouco
a pouco, porém, os colonos que foram povoando a ilha, terão perdido o receio e arriscaram-se
a observá-la mais de perto. Deitava um sangue bem vermelho; pelo estranho
aspecto, parecia, de facto, poderoso dragão – daí o nome que lhe puseram. Tingia
as mãos e as roupas, mas, afinal, não fazia mal nenhum. Antes pelo contrário!
Por isso, o sangue do dragão, sanguis draconis, depressa começou, sem grande alarde, a ser usado em tinturaria
e, até, em fármacos (ainda será possível, quiçá, encontrar em farmácias muito
antigas um frasco com esse rótulo). Considera-se, por tal motivo, uma árvore
protegida, por correr risco de extinção.
Na
Madeira, os últimos temporais (mormente os do Outono de 1982 e Fevereiro de
2010), arrancaram os dois exemplares seculares selvagens que haviam resistido à
acção devastadora dos homens e das intempéries. Há-os nos Açores e nas
Canárias, onde o dragoeiro chegou a constituir a árvore sagrada do povo
guanche, assinalando os locais onde deveriam ser realizados, de preferência, os
tradicionais rituais religiosos; é, também por isso, aliás, o símbolo da ilha
de Tenerife
Uma mata desprotegida
Pelo seu clima,
Cascais assume-se como território propício à propagação do dragoeiro. Que eu
saiba, existe um no jardim duma das vivendas do Bairro das Chetainhas, na
Charneca; há outro, secular, na cerca do Hospital de Sant’Ana, na Parede; a
Associação de Moradores da Quinta da Carreira (S. João do Estoril) adoptou-o
como logótipo, por na Quinta existir um, vetusto também.
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| Dragoeiro da Quinta da Carreira (S.João do Estoril) |
Já
aqui tive ocasião de me referir à mata de dragoeiros, que há à entrada do
Parque Palmela. É a maior do País e será, porventura, uma das mais desconhecidas,
inclusive das autoridades que pela sua preservação deveriam zelar.
Explico-me.
Vasco Manuel Almeida da Silva, do
Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves” (Instituto Superior de
Agronomia), escreveu, numa revista especializada espanhola (Borteloua, 21, 2015, p. 123-133), o
artigo «A mata de dragoeiros do Parque Palmela em Cascais (Portugal),
contributos para a sua valorização. Aliás, já em nota inserida no Jornal de Cascais (28-03-2012, p. 4), eu
me congratulara com o facto de ter sido, então, esse conjunto classificado como
“de interesse nacional” pela Autoridade Nacional Florestal (Aviso n.º 5/2012).
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| Recanto da mata de dragoeiros do Parque Palmela |
Ora
acontece que, apesar de havermos insistido, ainda se não deu à mata a atenção
devida e não se logrou arranjar outra colocação para o painel publicitário que a
oculta. Nesse sentido, enviou-me Vasco da Silva mais um alerta, a 19 de Janeiro
último:
«Quando
passava no carro pelo Parque ia avistando intervenções na Mata e romanticamente
visualizava uma pedra a ser arrumada no trilho, um pinheiro a ser desbastado em
favor de um dragoeiro, a amontoa de terra no pé das eufórbias para sustentar o
seu porte...
Na
realidade houve um corte (e bem!) de um pinheiro, mas de mais duas eufórbias
que passaram a cepos... e os arranjos resumem-se ao cimentar das estruturas em
pedra, paisagismo digno da década de 80...
Tanta
ignorância, Cascais! Quem acode ao seu património?».
Entre os dragoeiros, havia, na
verdade, quatro exemplares de Euphorbia piscatoria (Aiton), cuja classificação como ‘de
interesse nacional’ também já fora proposta, dada a sua raridade; tem o nome
comum de figueira-do-inferno e curiosas
flores; agora, são cepos!…
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| Um painel publicitário que poderia mudar de lugar... |
E
assim, por detrás de um painel publicitário que teima em ficar, vai escorrendo,
ingloriamente, por Cascais, o precioso sangue do dragão!...
José d’Encarnação
Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 177, 09-03-2017, p. 6.










