segunda-feira, 13 de março de 2017

Canteiros de S. Brás de Alportel

«Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão…» – assim o Padre António Vieira; assim, os canteiros de S. Brás.
Sentiram, desde cedo, o apelo do seu calcário e deixaram-se seduzir, numa relação amorosa que lhe aguçou o engenho e os tornou peritos na arte de afeiçoar a pedra a seu bel-prazer. Demandaram Marrocos e foram famosos. Demandaram, nas décadas de 40 e 50, Cascais e outras terras da Grande Lisboa, onde imponentes obras os chamaram. E, na sua terra, esmeraram-se nas esculturas, no baixo-relevo, no requinte do pormenor daquele lintel de porta ou na perfeição arquitectónica daquele jazigo.
Mestres numa arte deveras imorredoira, levaram bem longe o nome de S. Brás. Merecem, pois, que os imortalizemos também.
 
                                                                  José d'Encarnação

              Nota: Foi este texto, subordinado ao título «Circular no presente pelas histórias do passado… Rotunda dos canteiros», inserido na agenda cultural São Brás Acontece, Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, Março 2017, p. 16. Precedeu-a a seguinte explicação, da autoria da coordenadora da edição, Dra. Marlene Guerreiro:
                «À rotunda da Variante Sul que dá acesso, para norte, ao sítio da Calçada; e, para sul, ao sítio dos Funchais, terra rica em rocha calcária, onde ainda se localizam algumas das pedreiras do concelho, foi atribuída a simbólica designação de Rotunda dos Canteiros num convite a conhecer melhor este ofício que marcou a história de gerações…».

quinta-feira, 9 de março de 2017

O sangue do dragão escorre em Cascais…

            ‒ E olha aquela árvore ali! Só tem ramos lá em cima, parecem longos dedos, não vês? Coisa do outro mundo deve ser! Vou cortar um!...
            Deu, porém, um largo passo atrás e decerto desataria a fugir se o companheiro o não parasse. É que, da ferida, começara a escorrer um líquido leitoso, sangue, como se a árvore fosse um ser humano que duende antigo nele o houvesse transformado!
            ‒ É um dragão, só pode ser! O melhor é voltarmos já para a praia!
            Assim imagino eu o primeiro encontro, no século XV, dos portugueses com a singular árvore do dragoeiro, ao penetrarem um pouco mais na vegetação da ilha da Madeira, tão estranha é, de facto, a sua configuração.
            Pouco a pouco, porém, os colonos que foram povoando a ilha, terão perdido o receio e arriscaram-se a observá-la mais de perto. Deitava um sangue bem vermelho; pelo estranho aspecto, parecia, de facto, poderoso dragão – daí o nome que lhe puseram. Tingia as mãos e as roupas, mas, afinal, não fazia mal nenhum. Antes pelo contrário! Por isso, o sangue do dragão, sanguis draconis, depressa começou, sem grande alarde, a ser usado em tinturaria e, até, em fármacos (ainda será possível, quiçá, encontrar em farmácias muito antigas um frasco com esse rótulo). Considera-se, por tal motivo, uma árvore protegida, por correr risco de extinção.
            Na Madeira, os últimos temporais (mormente os do Outono de 1982 e Fevereiro de 2010), arrancaram os dois exemplares seculares selvagens que haviam resistido à acção devastadora dos homens e das intempéries. Há-os nos Açores e nas Canárias, onde o dragoeiro chegou a constituir a árvore sagrada do povo guanche, assinalando os locais onde deveriam ser realizados, de preferência, os tradicionais rituais religiosos; é, também por isso, aliás, o símbolo da ilha de Tenerife

Uma mata desprotegida
            Pelo seu clima, Cascais assume-se como território propício à propagação do dragoeiro. Que eu saiba, existe um no jardim duma das vivendas do Bairro das Chetainhas, na Charneca; há outro, secular, na cerca do Hospital de Sant’Ana, na Parede; a Associação de Moradores da Quinta da Carreira (S. João do Estoril) adoptou-o como logótipo, por na Quinta existir um, vetusto também.
Dragoeiro da Quinta da Carreira (S.João do Estoril)
            Já aqui tive ocasião de me referir à mata de dragoeiros, que há à entrada do Parque Palmela. É a maior do País e será, porventura, uma das mais desconhecidas, inclusive das autoridades que pela sua preservação deveriam zelar.
            Explico-me.
            Vasco Manuel Almeida da Silva, do Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves” (Instituto Superior de Agronomia), escreveu, numa revista especializada espanhola (Borteloua, 21, 2015, p. 123-133), o artigo «A mata de dragoeiros do Parque Palmela em Cascais (Portugal), contributos para a sua valorização. Aliás, já em nota inserida no Jornal de Cascais (28-03-2012, p. 4), eu me congratulara com o facto de ter sido, então, esse conjunto classificado como “de interesse nacional” pela Autoridade Nacional Florestal (Aviso n.º 5/2012).
Recanto da mata de dragoeiros do Parque Palmela
            Ora acontece que, apesar de havermos insistido, ainda se não deu à mata a atenção devida e não se logrou arranjar outra colocação para o painel publicitário que a oculta. Nesse sentido, enviou-me Vasco da Silva mais um alerta, a 19 de Janeiro último:
            «Quando passava no carro pelo Parque ia avistando intervenções na Mata e romanticamente visualizava uma pedra a ser arrumada no trilho, um pinheiro a ser desbastado em favor de um dragoeiro, a amontoa de terra no pé das eufórbias para sustentar o seu porte...
            Na realidade houve um corte (e bem!) de um pinheiro, mas de mais duas eufórbias que passaram a cepos... e os arranjos resumem-se ao cimentar das estruturas em pedra, paisagismo digno da década de 80...
            Tanta ignorância, Cascais! Quem acode ao seu património?».
            Entre os dragoeiros, havia, na verdade, quatro exemplares de Euphorbia piscatoria (Aiton), cuja classificação como ‘de interesse nacional’ também já fora proposta, dada a sua raridade; tem o nome comum de figueira-do-inferno e curiosas flores; agora, são cepos!…
Um painel publicitário que poderia mudar de lugar...
            E assim, por detrás de um painel publicitário que teima em ficar, vai escorrendo, ingloriamente, por Cascais, o precioso sangue do dragão!...

                                                                     José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 177, 09-03-2017, p. 6.

 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Escarafunchar

            ‒ Ó Ruizinho, deixa o nariz! Sempre a escarafunchar, sempre a escarafunchar!...
            A Rosária tem, além doutros, dois problemas: o neto, o Ruizinho, o môce pequeno que teima em tirar as cocas do nariz, e o pai, já de 80 anos, não é môce pequeno, mas que, vai não vai, se põe a remexer as gavetas.
            ‒ Ó pai, não escarafunche mais aí! O seu relógio está na mesinha-de-cabeceira! Deixe as gavetas! Vossemecê atamanca-me tudo, senhor! Mexe-me num moitão de coisas, que até me causa engulhos! O relógio está ali!
            Escarafunchar.
            Reza um dos dicionários que escarafunchar vem do latim scariphunculare; será, porém, latim popular, decerto, porque, nos dicionários normais, esse termo não aparece. Há é o verbo «scariphare», do grego σκαριφάομαι, «esfolar», e a «scariphatio» é… a esfoladura.
            Claro, nem o Ruizinho se esfola, decerto; nem o ancião fica com escaras por causa de escarafunchar nas gavetas; contudo, é curioso verificar que «escara», a crosta de uma ferida, é da mesma raiz etimológica e existe no latim: «eschara». E que também há um outro termo que lhes é aparentado: furúnculo (do latim, «furunculus»).
            Pronto, já sei: escarafunchar não é palavra só do Algarve e não precisava, amigo, de nos vir com essa história agora! Tem razão: não devia ter escarafunchado; mas quero contar-lhe um segredo: o que eu vejo mais agora é gente a escarafunchar! E sai de lá depois cada novidade, que os tribunais até gostavam que se não escarafunchasse tanto!...
            ‒ Tira o dedo do nariz, Ruizinho! Malvado do môce pequeno!

                                                    José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 218, Março de 2017, p. 10.

quinta-feira, 2 de março de 2017

O espremedor de sumos

       Já percebi que me não posso dar ao luxo de ter tudo à mão de semear. É bonito ter os vários dicionários a jeito para só virar a cadeira e pegas num e fica a dúvida resolvida. Ou então, já tens prática de ir ao Google, sabes usá-lo com perícia e são critério e tens tudo à distância de um clique. Podes, por conseguinte, passar a manhãzinha sentado diante do ecrã do computador (já mudaste de óculos, para não cansar a vista…), sem teres de te levantar para ir à prateleira buscar o cartapácio, que, aliás, o Google também já fez o favor de digitalizar para ti e a ele acedes, por isso, num ápice.
      És capaz de, ao levantares-te para o almoço, sentir assim como que um tolher de pernas, a necessidade de te espreguiçar, mas dizes logo que isso passa. Passa hoje, passa amanhã, passa semanas a fio. E, de um momento para o outro, ai que tenho de ir para o ginásio, que já não me aguento bem nas pernas!...

Apesar da sua (relativa) provecta idade, o Baltazar
dá o exemplo: uma boa caminhada diária pelo jardim...
      Temos, na verdade, nós, os escritores, a vida bem simplificada, mormente se soubermos lançar mão a todos os recursos que o dia-a-dia nos oferece, desde que, repita-se, se não descure o físico, o movimento até à estante, o esticar as pernas durante uns dez minutos para ver – nós, os burgueses… – se o jardim está mais florido ou se as lagartas andam por i ou se o sr. Baltazar (o cágado) decidiu já hibernar ou quer comida…
      Deu-me para aqui, hoje, amigo leitor, e peço desculpa, porque necessito de lhe dizer que é bem verdade aquele aforismo que reza assim: «Aprender até morrer!». E eu, esta semana, aprendi duas coisas – e depois chamei-me de estúpido.
      Primeira: esqueci-me da palavra-passe para aceder às mensagens do telefone fixo; não a apontara em sítio nenhum e já estava a dizer para comigo: «Ora, se precisarem de mim, voltam a telefonar e escuso-me de me ralar. Acabaram-se as mensagens!». Levanto-me e olho para o miserável do telefone e leio, escarrapachado a branco sobre o negro, com todas as letras: MENSAGENS. Para as ouvir, bastava carregar na tecla! Tenho o aparelho há anos e lá estava eu sempre a discar o código!
      Segunda: gosto de beber, pela manhã, o meu sumo de laranja natural. Teoricamente, o espremedor tem quatro ventosas na base, que o mantêm quietinho e eu, com mãos ambas, acaricio a metade da laranja até nada lhe restar senão a casca. Aconteceu, porém, que as ventosas entraram em greve e o espremedor deu em dançar e eu a aborrecer-me com a dança. Até que descobri: agarra-me no espremedor com uma das mãos e espreme a meia-laranja com a outra, daáã!... Fácil, não é? Demorei anos a descobrir! Como, só agora que as cruzes começam a dizer que existem, é que lembro do exercício físico e da vantagem de ir vasculhar as estantes de quando em vez!

                                                          José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 703, 01-03-2017, p. 11.

quarta-feira, 1 de março de 2017

A opinião de um leitor

          Chega-me «às mãos» e recebo-o sempre com muita curiosidade o P&V (Ponto & Vírgula), oportuna produção do GIC da Calazans Duarte. Sinto por detrás dele o dinamismo imparável da Dra. Alice Marques, que, depois de ter completado o curso de História, em que foi brilhante aluna e eu tive o privilégio de ser seu professor, tirou o Curso de Jornalismo, que entretanto lográramos criar na Faculdade de Letras. Fiquei contente por isso, uma vez que também eu sempre me partilhei, desde jovem, por dois «amores»: a História e o Jornalismo.
            Por isso, sempre lutei para que as escolas tivessem os seus jornais como meio de cimentar comunidade e ajudar essa comunidade a crescer.
            P&V cumpre essa função, com a multiplicidade de rubricas que apresenta, numa colaboração activa entre docentes e estudantes. O seu êxito é enorme e com isso me congratulo, pois, criado a 21.9.2014, já tinha 81788 visitas quando eu li, agora, o número de Fevereiro.
            As rubricas estão em coluna à esquerda e as imagens remetem para o texto, se se clicar no «continuar». É pedagógica essa liberdade: vais ler se o assunto te suscita interesse. Claro, as rubricas foram-se mantendo de uns números para outros e é por isso que podes encontrar textos, por exemplo, datados de Outubro e que porventura já leste. Ou seja, ao contrário do que se poderia pensar – e creio não estar errado – P&V é mensal mas é, também, dos meses anteriores a que podes aceder, sobretudo se, na altura, por serem um tudo-nada extensos, não tiveste pachorra para os ler.
            Que rubrica me agrada mais? A do «anos depois», porque mostra um caminho que se seguiu e em que a Calazans teve importância fundamental. E no de Fevereiro, o testemunho eloquente da Mariana, que logrou superar o cancro, que a acometeu tinha dez anos, assim como a imagem de Nujood: «I am Nujood age 10 and divorced»…
            Um jornal de Escola que vai, portanto, muito para além dos muros da Escola, na consciencialização plena de que todos somos pessoas num mundo onde devemos actuar.
            Parabéns!
                                   Cascais, 9-2-2017
                                                               José d'Encarnação
 
P. S.: O atalho para esta deveras significativa e modelar publicação de uma escola - edição deste mês de Março é o seguinte: http://age-mgpoente.pt/gic/ . Vale a pena dar uma espreitadela!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Hoje, o café teve de esperar!

            Hoje, 25, o sábado acordou nublado, pardacento. Sem sol, a contrariar o dito popular. Eu trouxera para baixo, do pequeno-almoço, a malga onde, ao longo da semana, fôramos acumulando migalhas e espalhara-as por sobre a lioz do murete poente do jardim, sob a buganvília, ora ainda parca de flores, e junto ao jasmim, que promete ser alvacento festival florido na semana que aí vem.
           
Inesperada companhia
            Não esperávamos, porém, ter um almoço assim.
            Saboroso, o «bife à cavaleiro», muito mal passado, como recomendáramos à Paula; mas o inesperado foi a companhia. É que eles descobriram, nessa altura, as migalhas espalhadas pelo murete e foi um encanto de ver! O casal de rolas à compita, quem debica mais. Por entre elas, quase a medo, o pardal. E digo «o», porque se me afigura ser sempre o mesmo que nos visita. A janela da cozinha onde almoçamos dá para esse lado do jardim e pudemos, por isso, apreciar o vaivém. O pisco, de papo alaranjado, já nosso conhecido de há muito, veio juntar-se-lhes e aproveitava uma distracção dos outros para ir também debicar. E veio o melro, mais altivo, mais desconfiado, este com algumas penas brancas no pescoço que quase nos fez desconfiar se seria melro mesmo; mas era, com o bico amarelo e o ar apresentado no debicar, ao contrário dos outros, mais familiarizados com o ambiente, que debicavam de mansinho, na certeza de que, àquela hora, ninguém viria pôr carros na praceta e incomodar-lhes o repasto. Do que eu gostei mais desta vez foi da toutinegra: comeu, saltitou de ramo em ramo, como fizera o pisco e foi-se até ao bebedouro do canteiro. Bebericou e – zás! – atirou-se lá para dentro, saracoteando-se toda. Subiu para um tronco, sacudiu-se e, de novo, foi prá água!...
            Gostámos, confesso, da companhia, neste privilegiado princípio de tarde calma, sem barulho de carros na avenida nem sirenes de ambulâncias. A serenidade.

Sim, o café teve de esperar…
            … porque o Alta Definição era com um gigante que muito estimamos: Ruy de Carvalho.
            Conversa tranquila, como Daniel de Oliveira sabe manter. A evocação de uma vida onde as dificuldades não faltaram, mas a esperança sobrou; onde a ternura, a boa disposição, o respeito total pelos outros foram semeando – continuam a semear!... – simpatia a jorros.
            E hoje, a poucos dias de completar 90 anos, Ruy de Carvalho foi mais uma lição e, tranquilamente, ia-nos dando conta do que foi, do que é, do que ainda espera continuar a ser…
            «Amar é envelhecermos juntos».
            «É sempre o amor que nos salva».
            «Gostava de poder semear a doença do bem e do final da dor».
            «Todos os anos passo o dia da minha morte».
            «Como gostava que me lembrassem? ‒ ‘Que o Ruy foi realmente útil quando cá passou!’»…
            Só largos momentos após a resposta à pergunta sacramental «O que é que dizem os seus olhos?», é que nos apercebemos de que ainda não bebêramos o café!...

                                                             José d’Encarnação

P. S.: Transcrito na íntegra em Renascimento [Mangualde], nº 703, 01-03-2017, p. 11 - gesto que muito agradeço.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

«Pegou de Estaca» fomentou comunidade

             O Grupo de Teatro Amador do Grupo Desportivo do Zambujeiro levou a efeito, com textos e direcção de António Chapirrau, três sessões da revista «Pegou de Estaca».
            Tive ocasião de assistir na noite de sábado, 18 do corrente mês de Fevereiro, e não dei por mal empregado o meu tempo. Primeiro, porque me diverti com os quadros, sempre breves e engraçados; depois – e confesso que, para mim, isso acabou até por ser o mais importante - as representações contribuíram para consolidar a comunidade dos vizinhos.
            Na verdade, todo o elenco era conhecido da maior parte dos assistentes: era a Beatriz Santos, a Laura Sobral, a Margarida Silva, a Maria João Baleia, a Noélia Ramos, a Rosa Rodrigues, a Sofia Gomes, a Susana Cupido e o Filipe Santos. E da ficha técnica constavam também nomes de todos bem conhecidos: o Paulo Evaristo (luz e som), o Avelino Cupido e o Carlos Reboca que deram apoio em palco, e o Carlos Rodrigues (contra-regra).
            E, findo o espectáculo, parecia mesmo não haver vontade de arredar pé: o público, que enchera por completo o salão da colectividade, por ali foi ficando à conversa com os «artistas», que vieram confraternizar com a plateia, ouvir os comentários, mostrar o seu contentamento. A colectividade cumpria, assim, um dos seus objectivos: reunir em torno dela a população, contrariando eficazmente a tendência generalizada de cada um ficar em casa, de pantufas, agarrado à televisão. Aliás, no andar de cima, jogava-se animadamente ao snooker e até havia oportunidade de nos deliciarmos com filhoses quentinhas feitas na hora!...
Momento de fado
            Os textos? Dez em cada parte, onde os enleios, as coscuvilhices, os trocadilhos se entremeavam com canções e mesmo o fado. Tudo um beijo curava, dizia alguém, a cada moléstia que lhe perguntavam; «e também cura as hemorróidas, senhor?» – e a gargalhada estalou! E a habitual cena das surdas, que ouvem tudo ao contrário. E a madame que vai à feira comprar lingerie e tudo se complica – «Ó criatura!» – com a pequenez do sutiã e a preferência pelo fio dental. E a loira que teima que sardinha é macho porque na lata diz «sardinha com tomate». E o poema, já clássico, «O cume», cuja oralidade é por demais… traiçoeira!
Uma estranha gravidez!... Que más línguas, livra!
Na feira e a história da lingerie..
            O nome da revista vem no quadro «Alentejana à procura de nome», onde se dá conta dos aparentemente estranhos nomes que abundam no Alentejo; e, claro, falando-se de famílias e casamentos e apelidos que passam de uns para outros, «pegar de estaca» não tem propriamente o significado… botânico!
            Enfim, um espectáculo singelo, despretensioso, que teve dois condões: fez rir e ajuntou a comunidade em torno dos seus amadores, que roubaram tempo à família, sim, para virem apresentar o resultado de muitos serões já de si bem divertidos, mas que o calor dos aplausos sobejamente compensou.  E, findo o espectáculo, parecia mesmo não haver vontade de arredar pé: o público, que enchera por completo o salão da colectividade, por ali foi ficando à conversa com os «artistas», que vieram confraternizar com a plateia, ouvir os comentários, mostrar o seu contentamento. A colectividade cumpria, assim, um dos seus objectivos: reunir em torno dela a população, contrariando eficazmente a tendência generalizada de cada um ficar em casa, de pantufas, agarrado à televisão. Aliás, no andar de cima, jogava-se animadamente ao snooker e até havia oportunidade de nos deliciarmos com filhoses quentinhas feitas na hora!...
            Está de parabéns o Grupo de Teatro Amador e daqui vai o nosso abraço a António Chapirrau, no voto de que continue. Aliás, o espectáculo, que bem no merece, vai agora, como se diz, «entrar em tournée» pelas colectividades vizinhas. E vale a pena!
Toda a equipa, com o autor do lado direito da foto, enquanto o director da colectividade,
Hugo Sobral, manifestava o seu regozijo pelo êxito obtido
            De resto, também o programa do Carnaval se revela aliciante: o Grupo participará, a 26 e 28, no corso carnavalesco da Malveira da Serra. No dia 25, a partir das 22.30 h., haverá baile na sede, com a banda Outra Face; e, no dia 27, a partir das 22, os sons do «Sentido Obrigatório» farão as honras da casa.
                                                                                  José d’Encarnação
Fotos gentilmente cedidas pela colectividade.
Publicado em Cyberjornal, 23-02-2017: