terça-feira, 13 de junho de 2017

Há sempre um bom pretexto para poetar!

             Não haverá português algum – ou até ser humano mais ou menos culto – que não tenha ousado, um dia, fazer versos, alinhar umas rimas, a pretexto de um baptizado, de um namoro, de um convívio de amigos ou mesmo de chalaça em relação a alguém que, no grupo, por qualquer motivo se haja distinguido.
            Pois, ao remexer nos meus papéis, deparei com um caderno de folhas soltas, de papel pardo. 16 tinham cada uma um poema; a última era a ficha técnica, onde se fica a saber que – sob o título «Não há como beber uma golada para a frase ficar mais inspirada» – a Adega Cooperativa de Mangualde promovera, em 1992, um concurso de poesias alusivas ao vinho. José Costa e Virgílio Loureiro seleccionaram e organizaram a antologia, José Tavares ilustrou e a Vinidão editou, em Outubro de 1993, 1500 exemplares.
            Diz-se na badana que, com este caderno, a Associação dos Vitivinicultores Engarrafadores da Região Demarcada do Dão – VINIDÃO pretendia «iniciar uma homenagem aos poetas populares deste País, cuja sensibilidade está profundamente marcada, há séculos, pela nobreza de um produto de eleição como é o vinho».
            A iniciativa não terá tido seguimento; mas ficou este testemunho da inspiração de poetas de Viseu, Nelas, Mangualde, sempre em louvor do precioso néctar e das terras que o produzem:
             «Até no céu os Santinhos / disso tenho convicção! Tomariam os seus copinhos / Se lá houvesse vinho “Dão” – proclama José Lopes, sem hesitar.
            E se as recomendações para que se beba com moderação não faltam, José Amaral também não hesita em explicar algo que poucos de nós saberão:
 
            De Vilar Seco saiu
            Um homem com um papel
            Levava lá escrito
            A qualidade do moscatel
 
            Em Palmela se instalou
            José Maria da Fonseca
            No papel levava escrito
            A qualidade da cepa.

            Com adequadas ilustrações, é um caderno de que porventura se terão perdido quase todos os exemplares. O meu vou oferecê-lo ao Museu Ferreira de Castro, de Sintra, para que conste no seu espólio e assim possa ser apreciado por quem o desejar e, porventura, por quem, um dia, nele se inspire e queira lançar mão a idêntica iniciativa. Em prol do vinho ou doutro dos nossos produtos. Mas sempre em prol da Poesia!
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 13 de Junho de 2017:

Rapsódia de… murros no estômago! (2)

             Acho que não pode haver um primeiro sem que, pelo menos, um segundo se apresente. Assim, recordo que, na passada edição, eu fora ao baú dos «assuntos pendentes» e decidira retirar de lá os primeiros murros – e aqui vão agora alguns mais.
            2 – A carta de João Tordo ao pai Fernando, publicada a 19 de Fevereiro de 2014, donde recorto:
            «Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai […].
            3 – Entretanto, na terceira semana de Maio, começou a falar-se por aí na hipótese de proibir os jovens de emigrar. E dei comigo a exclamar alto:
Partir, partir, partir!...
            «Olha! Acordaram agora! Gente dorminhoca, esta! Então não repararam já, há muito, que não há família portuguesa que não tenha um dos seus jovens a trabalhar no estrangeiro? Escrevi «trabalhar», não «estudar» – para não se confundir com a maravilha do Programa ERASMUS, ora a comemorar os seus 30 anos de mui frutuoso funcionamento. Proibir? Voltamos ao Antigo Regime, é? Não seria preferível garantir que tudo se iria fazer para que os jovens recém-licenciados e os outros ficassem por cá?».
            Nunca pensara eu que tal pudesse acontecer comigo; mas confesso que já não sei em quantos países tenho agora familiares: no Reino Unido, em França, no Qatar, no Canadá, no Brasil, na Austrália, na Islândia, na Escócia, na Suécia… Eu sei lá!
            4 – Termino, sem comentários. Escreveu Pedro Afonso, psiquiatra no Hospital Júlio de Matos (jornal Público, 19-09-2013):
            «Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos. […] Interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas, porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas, esquecendo que a sociedade é feita de pessoas».

                                                           José d’Encarnação          

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 709, 1 de Junho de 2017, p. 11.

domingo, 4 de junho de 2017

O perfil do candidato autárquico – Considerações que datam de Abril de 1993!

                Ao proceder a arrumações dos papéis que, ao longo dos anos, vamos acumulando em pastas, na ideia de… «quando eu me aposentar, vou tratar disto», deparei esta semana com o recorte da pág. 8 do Jornal Notícia de 1 de Abril de 1993. Foi um órgão da imprensa local cascalense, dirigido por Joaquim Baraona. A várias personalidades da vila se puseram duas questões:
            ‒ Qual o perfil que traçava para o candidato ideal para a Câmara Municipal de Cascais?
            ‒ Dentro dessa linha indicava dois ou três nomes que em seu entender poderiam vir a ser bons presidentes de Câmara?
            Fui eu um dos interpelados e, ao reler o que então respondi, pareceu-me oportuno partilhar (como hoje se diz) ipsis verbis essas minhas opiniões – que, por sinal, mantenho, apesar de todos estes anos passados.

Paços do Concelho de Cascais
            Em funções jornalísticas, tive ensejo de contactar com todos os presidentes da Câmara Municipal de Cascais, desde os tempos do saudoso Engº António de Azevedo Coutinho (1962-1969), a quem se deve, em grande parte, o enorme surto urbanístico que Cascais então conheceu. Mas também me recordo ainda, da adolescência, de figuras como a de Raposo Pessoa e Vítor Novais Gonçalves. Após o 25 de Abril, também por empenho jornalístico, acompanhei de perto, durante vários anos, a actividade municipal, nomeadamente através duma presença assídua às sessões camarárias, então públicas todas elas (ou quase). Carlos Rosa e Helena Roseta foram também, enquanto presidentes, interlocutores afáveis, atenciosos e atentos.
            Estas singelas reflexões brotam, pois, desse intenso “convívio” e do espectáculo que se lhe seguiu – a que tenho assistido como cidadão, como candidato (que fui) à Assembleia Municipal, como jornalista e historiador da cultura e, também como responsável universitário por um curso de pós-graduação, curso onde, aliás, lecciono Comunicação Social.
            É unanimemente reconhecido que não é nada fácil a Câmara Municipal de Cascais. Poderá ser trampolim para outros voos políticos; mas não tem sido fácil. É uma Câmara grande, com muita gente. Uma Câmara supostamente rica e onde, supostamente também, se podem fazer grandes negócios. Não invejo, por isso, quem se deseje candidatar, porque será, à partida, tarefa difícil convencer o eleitorado e os seus funcionários que está ali para servir o bem comum e não os seus interesses ou os interesses dos amigos ou a política do seu partido. Mormente se, como assaz amiúde tem ocorrido, estivermos perante alguém caído aqui de pára-quedas, para usarmos uma feliz expressão popular.
            Sugiro alguém que seja natural daqui ou que em Cascais viva há longos anos e que, por isso, sinta esta terra como sua (no sentido nobre do termo), com as suas características, a sua história (que deverá saber).
            Alguém que saiba dialogar: com os colegas do seu Executivo (independentemente da sua cor política), com os funcionários (todos!), com a Comunicação Social (mormente a local e regional, sentindo-a como o eco da actividade camarária e o veículo privilegiado das ansiedades dos povos), com os munícipes (sem excepção)…
            Alguém com a humildade suficiente para criar equipa e distribuir pelouros (mesmo pela oposição) e suficiente orgulhoso para contrariar as «ordens» do partido que maioritariamente o apoiou sempre que elas não correspondam às suas convicções.
            Nem demasiadamente brando que se deixe manobrar nem dando-se ares de auto-suficiente (primeiro passo para que, mais tarde ou cedo, lhe tirem o tapete dos pés…).
            É um retrato ideal, claro. Isso, aliás, me pediram.
            Daí que ouse acrescentar: independente dos partidos políticos.
            Utopia? Gostaria bem que não.
            Nomes? Para quê? Se, nesta conjuntura, são os partidos que decidem, de acordo com a sua inefável estratégia eleitoral e, se for caso disso, até vão buscar um senhor a Bragança (sem qualquer desprimor para os brigantinos…), só porque isso serve às mil maravilhas os seus intentos! Ou será que alguém tem coragem para inverter a situação?

                                                         José d’Encarnação
 
Publicado em Jornal Notícia  [Cascais], edição de 1 de Abril de 1993.
 

Oeiras tem nova revista cultural

            Sempre perfilhei a ideia de que, num concelho, para além do boletim (ou jornal) camarário, que vai dando notícias da actividade político-administrativa e onde, a meu ver, todos os vereadores, independentemente de serem, ou não, do partido em maioria, deveriam ter lugar e onde é, a meu ver, imprescindível serem publicadas as resoluções tomadas nas sessões, para além desse boletim (repito), é indispensável a existência de uma revista cultural, camarária ou apoiada pela Câmara.
            Compreende-se tal necessidade.
            Hoje, nas universidades, há cada vez mais dissertações de mestrado e até de doutoramento, que versam, naturalmente, questões locais, no âmbito do património e da história; por outro lado, é cada vez maior e mais incentivada, no Ensino Secundário, a estreita ligação do estudante ao meio em que a Escola se insere. Daí resultam trabalhos académicos de real valia, que não podem ficar ignorados nas gavetas dos docentes ou nos armários das escolas. Uma revista cultural local – em papel – constitui, pois, o meio ideal para ser esse repositório.
            Louve-se, por isso, o facto de a Associação Cultural de Oeiras ter ousado meter ombros à publicação de uma revista cultural semestral de que o 1º nº foi solenemente apresentado no passado dia 20 de Maio.
            Excelente papel couché, profusamente ilustrada e de primorosa paginação, está dividida em secções: opinião, testemunho, contraponto, estudos, arquivo da memória, tributo, olhar cruzado, estante e breves. Explicita-se, no final do índice, que os textos remontam a 2013, apenas tendo sofrido agora leves retoques, apenas para a absolutamente necessária actualização.
            A temática versa, na sua totalidade, Oeiras, o seu património, as suas personalidades, a sua história, os seus monumentos. Permita-se-me que apenas refira alguns: «A praça pombalina de Oeiras» (Fátima Bombouts de Barros), «O pelourinho – um símbolo da autonomia oeirense» (Jorge Miranda), «De Casa dos Coches a Paços do Concelho» (Célia Garrett Florêncio); «O parque municipal de Oeiras… que Oeiras possui sem o saber» (Rodrigo Alves Dias); e Joaquim Boiça traz-nos uma representação da fortaleza de S. Julião da Barra no século XVI. O tributo é mui justamente prestado a Victor Wladimiro (1934-2012), notável vulto da nossa Cultura.
            90 páginas que se lêem com agrado e muito proveito.
            E eu voltava ao princípio, se me dão licença: os boletins culturais camarários têm habitualmente uma vida efémera ou muito irregular. Estou a lembrar-me do «Arquivo de Cascais», do «Arquivo de Beja», da «Xelb» de Tavira, da «Olisipo» de Lisboa… que saem, como sói dizer-se, quando el-rei faz anos (e agora até não há reis entre nós…). Por isso, o meu voto não poderia ser outro: que Espaço & Memória tenha uma vida longa, próspera, fecunda e… semestralmente nos visite, como prometido está.
            Aos dirigentes da Associação Cultural de Oeiras um grande abraço de bem merecidos parabéns!
                                                               José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 2 de Junho de 2017:

Um velhinho Bairro Operário, em Cascais

             Fiquei, confesso, mui agradavelmente surpreendido com o facto de ter sido dado nome à rua de acesso ao antigo Bairro José Luís, na Pampilheira (Cascais), mais conhecido pela designação de Bairro Operário (Fig. 1).
            Os dizeres da placa (Fig. 2), para quem não é de cá, poderão causar alguma estranheza e alguém poderá até perguntar:
            ‒ Quem foi o operário José Luís?
            Cumpre, pois, dar uma explicação, uma vez que – peço desculpa! – não houve da parte das entidades competentes o cuidado em consultarem um epigrafista (que, por acaso, eu até moro ao lado e foi mesmo nesse bairro que residi quando, em 1948, vim para Cascais), para ser dada uma paginação conveniente e se estudar o módulo das letras, a fim de não haver confusões.

Quem foi José Luís?
            Pois não foi José Luís nenhum operário.
            Trata-se, muito simplesmente, do filho do Conde de Monte Real, um dos maiores beneméritos de Cascais dos primórdios do século XX. O pai, Artur Porto de Melo e Faro (1866-1945), a quem D. Carlos concedeu, por decerto de 21 de Outubro de 1907, o título de 1º Conde de Monte Real, quis assim perpetuar o nome do filho (José Luís Cardoso Pereira da Silva de Melo e Faro, de seu nome completo), que, com o maior desgosto de seus pais, morreu de tenra idade. Por isso, também o seu nome foi dado à creche que o Conde mandou construir junto da igreja matriz.
            Doou ao Município o Sr. Conde de Monte Real os terrenos onde hoje está o aeródromo (que se chama «Conde de Monte Real»), e sonhou para este arrabalde da vila cascalense um bairro destinado aos operários.
            Tive ocasião, em Recantos de Cascais (Colibri, Câmara Municipal de Cascais, 2007, p. 21-24), reproduzir o que escrevera sobre este bairro, a 31 de Janeiro de 2001, na edição de Cascais do Jornal da Região. As 12 primeiras (e únicas) casas foram inauguradas a 12-III-1933, «todas elas apetrechadas com dois pequenos quintais, água encanada e casa de banho, devidamente apetrechada com W. C., tina e chuveiros». Isso era, porém, o princípio e foi o fim, porque do audacioso projecto saído do pioneirismo do Conde e a que o Arq. Jorge Segurado deu mui elogiada forma, nada mais se fez e – pasme-se! – o bem harmonioso conjunto previa «amplo largo a meio, uma escola, duas lavandarias, dois parques infantis, edifício das caldeiras, biblioteca e cooperativa»! Ocupava, por conseguinte, toda a zona (então) de mato entre o (ainda) actual bairro (Fig. 3 e 4) e a Rua do Cobre.
            Para as casas estabeleceram-se dois tipos de rendas mensais: 60 ou 80 escudos «conforme os inquilinos desejarem ser ou não proprietários do prédio que habitem durante 20 anos». Creio bem – aqui para nós – que os serviços camarários não devem ter a menor ideia de que esta cláusula existe…
            Parte da receita dessas rendas ia para a manutenção da Creche «José Luís», o fundo de amortização reforçaria as dotações que «todos os anos a Câmara destinará a novas construções». E nesse ano de 1933, a dotação prevista era já de cem mil escudos.
              Pois que não mais destinou.
            Perguntar-se-á, então, com plena justiça, como é que tão larga extensão de terreno (2160 m no sentido norte-sul, 100 m na sua máxima profundidade) destinada a finalidades sociais (estavam previstos cerca de 238 fogos) de acordo com a visão pioneira de um filantropo (galardoado, aliás, a 18 de Julho de 1938, com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência), resultou no que hoje se vê? E talvez valha a pena explicar, porque, segundo creio, poderá acontecer que isso nunca tenha sido explicado em letra de forma.
            Muito simples: a burocracia ter-se-á embrulhado, as contas deram pró torto, outros interesses e mentalidades se meteram de permeio e o sonho de um exemplar complexo social «virou» mato, onde eu tive ocasião de ir armar aos pássaros ou acompanhar amigos meus no pastoreio de ovelhas (Fig. 5). E mato se manteve até à década de 50, em que se começou a gizar para ali um plano que pudesse não entrar em conflito total com o que a doação do Conde determinara, plano que terá começado a executar-se já na década de 60. Já lá vamos – que importa prestar dois esclarecimentos prévios:
 
            1º) A Pampilheira oriental
            Por mais que as entidades oficiais (e algumas particulares) teimem em considerar que Pampilheira (e assim está sinalizado) é apenas o conjunto de casas a poente da Avenida Engº Adelino Amaro da Costa – e decerto até foi por isso que os super-competentes serviços que superintendem ao trânsito houveram por bem proibir que os habitantes da zona nascente pudessem ir de carro para a zona poente –, o Bairro da Pampilheira tem a sua vida mais ‘vivida’, tanto do ponto de vista populacional como económico e social, na zona oriental, que é onde está, por exemplo, o Hospital da CUF (oficialmente situado no Cobre, mas é mentira!), o Centro de Distribuição Postal (oficialmente situado no Cobre, mas é mentira!), a Cozinha com Alma, um Centro de Dia da Junta de Freguesia, duas creches e jardins de infância, dois parques infantis, o centro de inspecção de automóveis, uma fábrica de meias e um «centro comercial» de bairro que satisfaz todas as necessidades dos moradores.

            2º) A Barraca de Pau
            E permita-se-me que recorde que o núcleo inicial da Pampilheira foi na chamada Barraca de Pau (designação ainda comum entre os cascalenses mais antigos da freguesia de Cascais).
            Uma barraca (Fig. 6), hoje perpetuada em azulejo (Fig. 7) que Manuel Martins mandou colocar no Bairro da Felicidade (Fig. 8 e 9), e que foi taberna, mercearia, drogaria, tudo!... E, de modo especial, centro de convívio dos operários, nomeadamente das pedreiras próximas, que para essas casinhas foram morar. O pai de Manuel Martins era o Zé Martins e a ele se devem essas construções, que foram nascendo aos poucos, consoante as necessidades. Felicidade era o nome de sua mulher.

O plano arquitectado pela Câmara
            Fechemos o parêntesis e voltemos à questão, que é deveras interessante recordar agora, a do plano alternativo.
            Assim (e perdoar-se-me-á se cometo algum erro de pormenor, porque não fiz consultas em arquivos e estou a escrever de acordo com o que vi, por experiência), loteou-se a zona em duas metades.
            Na metade norte, deu-se prioridade às cooperativas de habitação para unidades unifamiliares e aos prédios de rendimento de dois andares (quatro pisos) com a obrigatoriedade de as rendas serem condicionadas (os célebres 1.110$00 mensais!), com prioridade de arrendamento a quem trabalhasse em instituições públicas do concelho e, também, na recém-inaugurada (a 28 de Junho de 1968) Standard Eléctrica. Daí que a maioria dos moradores desta zona do bairro esteja ligada à Standard, às Finanças, ao Tribunal, à Câmara, às diversas conservatórias…
            A metade sul foi dividida em lotes também para moradias unifamiliares. Os compradores tinham obrigação estrita de construir dentro de um prazo relativamente curto, sob pena de o lote voltar à posse do Município.
            Excluiu-se, porém, o «canto» sudeste, que ficou destinado a pequenas indústrias.
            Aí estava já há bastante tempo o estaleiro naval do Parracho; ergueu-se uma metalomecânica de certo vulto e uma fábrica de meias (ainda hoje em actividade). A metalomecânica acabaria por dar lugar, já em tempos recentes, a outras actividades, nomeadamente ligadas à reparação automóvel. Parte da fábrica ficou para o Centro de Distribuição Postal e o espaço a sul está ocupado, como se sabe, pela empresa de inspecção automóvel.
            Discutiu-se longamente o que iria aparecer no pinhal que limitava o bairro nessa área, onde, aliás, ainda se praticava, embora em condições precárias, a criação de gado, facilitada pelo acesso que havia, pela encosta, à Ribeira do Cobre, afluente da Ribeira das Vinhas. Hotel? Hospital? – eram as perguntas. Acabou por vingar a segunda hipótese. E estamos a rezar a todos os santinhos que o pequeno condomínio sito mesmo pegado à CUF não seja chamariz para que se deite abaixo um dos poucos pinhais de pinheiros mansos da freguesia.
            Recorde-se, a talhe de foice, que mais a sul se instalou uma indústria de electrodomésticos, a PETEX – Pedro Pessoa, Comércio e Indústria, Lda, cujas edificações, ora por completo abandonadas (dizem que serão propriedade camarária, porque para ali se previa o traçado da 2ª circular) apresentam um espectáculo deveras degradante a quem nos visita (Fig. 10 e 11) – e por ali passa todo o trânsito que, em direcção à vila, vem da A5.

O olhar do epigrafista
            Perdoar-me-á o leitor se me deixei ir na onda das recordações e acabei por esquecer a pergunta: quem é o «operário» José Luís? Ou melhor: que tem o epigrafista que meter o bedelho na elaboração da placa toponímica? (Fig. 12)
            Não, não vou encanzinar-me por faltar o acento em Luís – paciência! A razão é outra, muito simples: embora a divisão em linhas esteja certa, era preciso ter colocado entre aspas ou entre vírgulas altas o nome do bairro: «José Luís» ou ‘José Luís’.
            E permita-se-me que, a terminar, me congratule com o facto de, assim, com esta placa, se registar o que apenas na linguagem oral se documentava: no nosso dia-a-dia, o bairro sempre se chamou «Bairro Operário», porque foi exactamente o primeiro aqui destinado a operários, em contraposição com o que se situa junto da Rua José Florindo, que é o «Bairro dos Pescadores».
 
             Cascais, 4 de Junho de 2017
 
                                                                 José d’Encarnação
 
Em 1º plano, a Rua Bairro Operário José Luís

A mui recente placa toponímica

Bº Operário - Demolição

O 1º lote de casas já foi demolido
e deu lugar a um parque de estacionamento,
que serve, sobretudo, os utentes do Hospital CUF.

Zona da actual Pampilheira -
corrida de bicicletas datável da década de 30.

A Barraca de Pau nos anos 30.

Barraca de Pau - azulejo. Tem a legenda Campina 2-XII-1927.
A menina bebé, em 1º plano, pode ser a representação
da Srª Felicidade, que veio a dar nome ao pequeno bairro.
A antiga placa identificativa do bairro.

Bairro da Felicidade, na actualidade,
com a chaminé da antiga padaria.

A degradação salta à vista!

Uma figueira-da-índia empresta um ar exótico ao local.

O letreiro da placa toponímica.
 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Os olhos ternos da felicidade

            Desta vez, preciso de pôr a data e contar do ambiente, para que se não pense que inventei, como aqueles escritores que desenrolam, com minuciosos pormenores, toda uma trama mirabolante que hauriram, garantem, em pretenso e secular manuscrito amarelecido, de muitas páginas, perdidamente encontrado em gaveta de segredo e decifrado ao longo de inúmeras noitadas...
            Não. Não vou por aí.
            Foi mesmo no começo da tarde de 20 de Maio do ano da graça de dois mil e dezassete, no comboio das 13.24 para o Cais do Sodré, em carruagem tranquila de quem já almoçou ou tem o estômago a dar horas e prefere, por isso, manter-se em jeito de letargia vital.
            Exacto. Ferrenho defensor das viagens em comboio, esse ambiente sempre foi para mim, há décadas, fonte de inspiração.
            Admiravam-se os meus estudantes, quando eu lhes dizia que escrevia no comboio os meus artigos ou aí preparava as lições ou, simplesmente, me encontrava comigo mesmo.
            E, por sinal, por uma daquelas inexplicáveis circunstâncias que a um suposto «acaso» se atribuem, caiu-me sob os olhos numa das estantes cá de casa o livro de David Kundtz, «Parar» (Lisboa, 2004), onde explica, a dado passo, que aproveita um intervalo, ainda que curto, para andar, «embora algumas vezes», confessa, «vá até a um café e, na companhia de uma chávena de chá, me ponha a observar as pessoas» (p. 86).
            Gosto de observar as pessoas. Ainda no dia anterior, estava com tempo e fui a pé do Cais do Sodré até ao Espaço Europeu, no Largo Jean Monnet, e o que eu aprendi acerca do povo que ora Lisboa tem!...
            Pois, nessa tarde de 20 de Maio, no curto trajecto entre Cascais e Carcavelos, onde eles saíram, senti a necessidade obsessiva de escrever (ando sempre com um bloquinho no bolso e lápis…) o que à minha frente se passava. E eu que, amiúde (confesso o pecado), não acredito na felicidade, dei comigo a pensar: ela está ali! Pode ser efémera, mas eu sinto-a e bem a senti, aliás, no olhar que, a certa altura, serenamente, se cruzou e fixou no meu.
            E até me deu vontade de criticar Saint-Exupéry: num dos planetas que o Principezinho visitou, ele deveria ter visto o que eu agora vi. Foi falha tua, Antoine, embora eu bem te compreenda, porque a «flor» que deixaste na estrela tal não te proporcionou. E foi pena! Podias ter posto um planetazinho mais, dedicado à Felicidade!
            Transcrevo, pois, sem correcções de agora o que então saltou ao correr do lápis:
            Deliciou-me ver aquele casal de namorados, de sorriso sereno, olhares serenos trocados, plenos da felicidade imensa de estarem juntos nesta viagem de comboio. Ele, cabelo encaracolado, barba e bigode e brinco de azeviche na orelha direita; ela, de olho azul regado pela serenidade dum céu sem nuvens, cabelo apanhado em carrapito; na orelha direita, uma argolinha e uma espiral dourada pendente; na esquerda, um «botão» negro apenas. Encostou agora a cabeça no ombro do seu amado, no fingimento dum adormecer, deliciada com as carícias que ele lhe não poupou.
            Saíram em Carcavelos; mas deram a impressão de não saber exactamente para onde ir, porque olharam para um lado e para o outro e decidiram sentar-se num banco, para mais calmamente resolverem que fazer.
            Haviam partilhado um pacotinho de bombons de chocolate. Levavam mochilas às costas. Estrangeiros seriam, em viagem de amor.
            Se a Felicidade tivesse rosto era o daqueles dois jovens o que eu imaginaria.
            Dulcificaram-me a tarde soalheira deste sábado, porque a maior parte dos outros rostos que iam na carruagem carregavam um ar tão sorumbático… Dir-se-ia que concentravam em si todas as preocupações do mundo inteiro. No mais completo contraste com os dos dois jovens que em Carcavelos deixei.
                                                                      José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 189, 31-05-2017, p. 6.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O prémio da Associação In Loco

             Cumpre congratularmo-nos com o prémio «Dryland Champions 2016» atribuído, pelo segundo ano consecutivo, pelas Nações Unidas, à Associação In Loco, criada, há 28 anos, em S. Brás de Alportel.
            Assim se galardoa o esforço feito, em conjunto com a população e outras entidades, no combate à desertificação, um dos problemas mais graves que todos estamos a sentir, não apenas no Algarve mas em todo o País e, por mais que os políticos, nas campanhas eleitorais, prometam mundos e fundos no sentido de o solucionar, quando eleitos, depressa as promessas são esquecidas. A In Loco, porém, sem grande alarde, lá vai fazendo o seu trabalho de sapa, com mui evidentes êxitos, inclusive aliciando para o seu âmbito as camadas mais jovens da população.
            Tem sido preocupação da In Loco a promoção de hortas urbanas em terrenos devolutos, onde se inicia a prática de uma agricultura ‘biológica’, ou seja, sem recurso a produtos químicos, que fazem crescer depressa, mas, no final, não logram sugar da terra os ingredientes que mais os deveriam enriquecer do ponto de vista alimentar.
            Outra das actividades que muito apraz registar é a organização de mercados locais, onde, felizmente, a população começa já a acorrer, porque compreende a diferença de sabor entre uma folha de alface das grandes superfícies e a que resulta de uma horticultura «sem químicos», à maneira tradicional.
            Assim, com o exemplo, se criam novos hábitos, se mudam mentalidades, se começa a olhar com outros olhos para esta nesga de terreno sedenta de produzir e que os proprietários deitaram ao abandono…
            Caminhava, outro dia, junto ao leito de uma ribeira. Uma senhora aí dos seus 60 anos ajeitava a terra junto aos loureiros, que lhe bordejavam o terreno, pelo aspecto, lavrado há já bastante tempo. Meti conversa:
            ‒ Preparando a sementeira, não, vizinha?
            ‒ Ná! Hoje já não se assemeia nada, senhor!
            No 1º de Maio, a caldeirada foi, como de costume, no barracão de uma horta. Havia umas alfaces, cebolo, alhos, um canteiro de coentros…
            ‒ Então e batatas, amigo Manel, está no tempo delas!
            ‒ Dão muito trabalho! Fica muito mais barato ir comprá-las à mercearia ali, sem estar com preocupação de regar, de pôr produto contra a moléstia… Deixei-me disso!
            A In Loco não deixa. E, por isso, está de parabéns!

                                                               José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 246, 20-05-2017, p. 11.