Fiquei,
confesso, mui agradavelmente surpreendido com o facto de ter sido dado nome à
rua de acesso ao antigo Bairro José Luís, na Pampilheira (Cascais), mais
conhecido pela designa
ção de Bairro
Operário (
Fig. 1).
Os
dizeres da placa (Fig. 2),
para quem não é de cá, poderão causar alguma estranheza e alguém poderá até
perguntar:
‒
Quem foi o operário José Luís?
Cumpre,
pois, dar uma explicação, uma vez
que – peço desculpa! – não houve da parte das entidades competentes o cuidado
em consultarem um epigrafista (que, por acaso, eu até moro ao lado e foi mesmo nesse
bairro que residi quando, em 1948, vim para Cascais), para ser dada uma paginação conveniente e se estudar o módulo das letras, a
fim de não haver confusões.
Quem foi José Luís?
Pois
não foi José Luís nenhum operário.
Trata-se,
muito simplesmente, do filho do Conde de Monte Real, um dos maiores beneméritos
de Cascais dos primórdios do século XX. O pai, Artur Porto de Melo e Faro
(1866-1945), a quem D. Carlos concedeu, por decerto de 21 de Outubro de 1907, o
título de 1º Conde de Monte Real, quis assim perpetuar o nome do filho (José
Luís Cardoso Pereira da Silva de Melo e Faro, de seu nome completo), que, com o
maior desgosto de seus pais, morreu de tenra idade. Por isso, também o seu nome
foi dado à creche que o Conde mandou construir junto da igreja matriz.
Doou
ao Município o Sr. Conde de Monte Real os terrenos onde hoje está o aeródromo
(que se chama «Conde de Monte Real»), e sonhou para este arrabalde da vila
cascalense um bairro destinado aos operários.
Tive
ocasião, em Recantos de Cascais (Colibri,
Câmara Municipal de Cascais, 2007, p. 21-24), reproduzir o que escrevera sobre
este bairro, a 31 de Janeiro de 2001, na edição
de Cascais do Jornal da Região. As 12
primeiras (e únicas) casas foram inauguradas a 12-III-1933, «todas elas
apetrechadas com dois pequenos quintais, água encanada e casa de banho,
devidamente apetrechada com W. C., tina e chuveiros». Isso era, porém, o
princípio e foi o fim, porque do audacioso projecto saído do pioneirismo do
Conde e a que o Arq. Jorge Segurado deu mui elogiada forma, nada mais se fez e
– pasme-se! – o bem harmonioso conjunto previa «amplo largo a meio, uma escola,
duas lavandarias, dois parques infantis, edifício das caldeiras, biblioteca e
cooperativa»! Ocupava, por conseguinte, toda a zona (então) de mato entre o (ainda)
actual bairro (Fig. 3 e 4)
e a Rua do Cobre.
Para
as casas estabeleceram-se dois tipos de rendas mensais: 60 ou 80 escudos
«conforme os inquilinos desejarem ser ou não proprietários do prédio que
habitem durante 20 anos». Creio bem – aqui para nós – que os serviços
camarários não devem ter a menor ideia de que esta cláusula existe…
Parte
da receita dessas rendas ia para a manutenção
da Creche «José Luís», o fundo de amortização
reforçaria as dotações que «todos os anos a Câmara destinará a novas
construções». E nesse ano de 1933,
a dotação
prevista era já de cem mil escudos.
Pois que não mais destinou.
Perguntar-se-á,
então, com plena justiça, como é que tão larga extensão de terreno (2160 m no sentido norte-sul,
100 m na
sua máxima profundidade) destinada a finalidades sociais (estavam previstos
cerca de 238 fogos) de acordo com a visão pioneira de um filantropo
(galardoado, aliás, a 18 de Julho de 1938, com a Grã-Cruz da Ordem de
Benemerência), resultou no que hoje se vê? E talvez valha a pena explicar, porque,
segundo creio, poderá acontecer que isso nunca tenha sido explicado em letra de
forma.
Muito
simples: a burocracia ter-se-á embrulhado, as contas deram pró torto, outros
interesses e mentalidades se meteram de permeio e o sonho de um exemplar
complexo social «virou» mato, onde eu tive ocasião de ir armar aos pássaros ou
acompanhar amigos meus no pastoreio
de ovelhas (Fig. 5).
E mato se manteve até à década de 50, em que se começou a gizar para ali um
plano que pudesse não entrar em conflito total com o que a doação do Conde determinara, plano que terá começado a
executar-se já na década de 60. Já lá vamos – que importa prestar dois
esclarecimentos prévios:
1º)
A Pampilheira oriental
Por mais que as
entidades oficiais (e algumas particulares) teimem em considerar que
Pampilheira (e assim está sinalizado) é apenas o conjunto de casas a poente da
Avenida Engº Adelino Amaro da Costa – e decerto até foi por isso que os super-competentes
serviços que superintendem ao trânsito houveram por bem proibir que os habitantes
da zona nascente pudessem ir de carro para a zona poente –, o Bairro da
Pampilheira tem a sua vida mais ‘vivida’, tanto do ponto de vista populacional
como económico e social, na zona oriental, que é onde está, por exemplo, o
Hospital da CUF (oficialmente situado no Cobre, mas é mentira!), o Centro de
Distribuição Postal (oficialmente
situado no Cobre, mas é mentira!), a Cozinha com Alma, um Centro de Dia da
Junta de Freguesia, duas creches e jardins de infância, dois parques infantis,
o centro de inspecção de automóveis,
uma fábrica de meias e um «centro comercial» de bairro que satisfaz todas as
necessidades dos moradores.
2º) A Barraca de Pau
E
permita-se-me que recorde que o núcleo inicial da Pampilheira foi na chamada
Barraca de Pau (designação ainda
comum entre os cascalenses mais antigos da freguesia de Cascais).
Uma
barraca (Fig. 6),
hoje perpetuada em azulejo (Fig.
7) que Manuel Martins mandou colocar no Bairro da Felicidade (Fig. 8 e 9), e que foi
taberna, mercearia, drogaria, tudo!... E, de modo especial, centro de convívio
dos operários, nomeadamente das pedreiras próximas, que para essas casinhas
foram morar. O pai de Manuel Martins era o Zé Martins e a ele se devem essas
construções, que foram nascendo aos poucos, consoante as necessidades.
Felicidade era o nome de sua mulher.
O plano arquitectado pela Câmara
Fechemos
o parêntesis e voltemos à questão, que é deveras interessante recordar agora, a
do plano alternativo.
Assim
(e perdoar-se-me-á se cometo algum erro de pormenor, porque não fiz consultas
em arquivos e estou a escrever de acordo com o que vi, por experiência),
loteou-se a zona em duas metades.
Na
metade norte, deu-se prioridade às cooperativas de habitação
para unidades unifamiliares e aos prédios de rendimento de dois andares (quatro
pisos) com a obrigatoriedade de as
rendas serem condicionadas (os célebres 1.110$00 mensais!), com prioridade de
arrendamento a quem trabalhasse em instituições públicas do concelho e, também,
na recém-inaugurada (a 28 de Junho de 1968) Standard Eléctrica. Daí que a
maioria dos moradores desta zona do bairro esteja ligada à Standard, às
Finanças, ao Tribunal, à Câmara, às diversas conservatórias…
A
metade sul foi dividida em lotes também para moradias unifamiliares. Os
compradores tinham obrigação estrita
de construir dentro de um prazo relativamente curto, sob pena de o lote voltar
à posse do Município.
Excluiu-se,
porém, o «canto» sudeste, que ficou destinado a pequenas indústrias.
Aí
estava já há bastante tempo o estaleiro naval do Parracho; ergueu-se uma
metalomecânica de certo vulto e uma fábrica de meias (ainda hoje em
actividade). A metalomecânica acabaria por dar lugar, já em tempos recentes, a
outras actividades, nomeadamente ligadas à reparação
automóvel. Parte da fábrica ficou para o Centro de Distribuição Postal e o espaço a sul está ocupado, como se
sabe, pela empresa de inspecção
automóvel.
Discutiu-se
longamente o que iria aparecer no pinhal que limitava o bairro nessa área, onde,
aliás, ainda se praticava, embora em condições precárias, a criação de gado, facilitada pelo acesso que havia, pela
encosta, à Ribeira do Cobre, afluente da Ribeira das Vinhas. Hotel? Hospital? –
eram as perguntas. Acabou por vingar a segunda hipótese. E estamos a rezar a
todos os santinhos que o pequeno condomínio sito mesmo pegado à CUF não seja
chamariz para que se deite abaixo um dos poucos pinhais de pinheiros mansos da
freguesia.
Recorde-se,
a talhe de foice, que mais a sul se instalou uma indústria de electrodomésticos,
a PETEX – Pedro Pessoa, Comércio e Indústria, Lda, cujas edificações, ora por
completo abandonadas (dizem que serão propriedade camarária, porque para ali se
previa o traçado da 2ª circular) apresentam um espectáculo deveras degradante a
quem nos visita (Fig. 10 e
11) – e por ali passa todo o trânsito que, em direcção à vila, vem da A5.
O olhar do epigrafista
Perdoar-me-á
o leitor se me deixei ir na onda das recordações e acabei por esquecer a
pergunta: quem é o «operário» José Luís? Ou melhor: que tem o epigrafista que
meter o bedelho na elaboração da
placa toponímica? (Fig. 12)
Não,
não vou encanzinar-me por faltar o acento em Luís – paciência!
A razão é outra, muito simples: embora a divisão em linhas esteja certa, era
preciso ter colocado entre aspas ou entre vírgulas altas o nome do bairro:
«José Luís» ou ‘José Luís’.
E
permita-se-me que, a terminar, me congratule com o facto de, assim, com esta
placa, se registar o que apenas na linguagem oral se documentava: no nosso
dia-a-dia, o bairro sempre se chamou «Bairro Operário», porque foi exactamente
o primeiro aqui destinado a operários, em contraposição
com o que se situa junto da Rua José Florindo, que é o «Bairro dos Pescadores».
Cascais, 4 de Junho de 2017
José d’Encarnação
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| Em 1º plano, a Rua Bairro Operário José Luís |
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| A mui recente placa toponímica |
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| Bº Operário - Demolição |
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O 1º lote de casas já foi demolido
e deu lugar a um parque de estacionamento,
que serve, sobretudo, os utentes do Hospital CUF. |
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Zona da actual Pampilheira -
corrida de bicicletas datável da década de 30. |
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| A Barraca de Pau nos anos 30. |
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Barraca de Pau - azulejo. Tem a legenda Campina 2-XII-1927.
A menina bebé, em 1º plano, pode ser a representação
da Srª Felicidade, que veio a dar nome ao pequeno bairro. |
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| A antiga placa identificativa do bairro. |
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Bairro da Felicidade, na actualidade,
com a chaminé da antiga padaria. |
 |
| A degradação salta à vista! |
 |
| Uma figueira-da-índia empresta um ar exótico ao local. |
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| O letreiro da placa toponímica. |