terça-feira, 24 de março de 2026

Publicidade histórica

         Muitos se recordarão do espanto provocado, em estradas de Espanha, pelo enorme touro que se alevantava numa colina próxima. Que medo, mãe!...
Faz parte do nosso imaginário, mesmo sem sabermos por que razão o imponente touro ali estava, como que a desafiar peões de brega e forcados, ameaçador!
Era, simplesmente, soube-o depois, a publicidade a um vinho licoroso, o gerês. E, hoje inserindo no motor de busca as palavras “touro osborne” tudo se fica a saber a seu respeito: concebido pelo designer Manolo Prieto, foi criado, em 1956, pela agência Azor, por encomenda do grupo Osborne, para promover o Brandy de Jerez Veterano. Depressa se esqueceu, porém, o jerez e o touro passou a “representar a tradição, força e a identidade do país”. Nos anos 90, a proibição da publicidade nas estradas, levou a suprimir o nome, mas o poder popular obrigou o Supremo Tribunal a permitir, em 1997, que os touros ficassem, atendendo ao seu "interesse estético ou cultural e integração na paisagem”. Haverá, na actualidade, cerca de 90 desses touros, a maioria  na Andaluzia.

Tínhamos nós, Portugueses, painéis publicitários em azulejo concebidos, geralmente, por artistas de nomeada da nossa praça e que estrategicamente se colocaram, por exemplo, à entrada das povoações. Fazem parte do nosso imaginário. Recordo os painéis dos Nitratos do Chile, dos Pneus Mabor, do Licor Beirão… Quem não se lembra?
 Estranhas leis, como essa primeira de Espanha que acabou por ser revogada, erradamente baniram-nos das nossas vidas, sem – que se saiba – se tenham erguido vozes contra o seu desaparecimento, até porque evocavam um bom exemplo: o das firmas que, desde cedo, aquilataram o importante poder da boa publicidade.
É provável que ainda subsistam alguns por esse país fora. Se subsistem, há que os preservar! Que os autarcas se consciencializem de que eles fazem parte da nossa memória coletiva.

                                                                       José d’Encarnação 

Publicado em Renascimento (Mangualde), 20-03-2026, p. 10. 

4 comentários:

  1. Boa tarde, José d'Encarnação.
    É verdade que sim...a memória colectiva é sagrada e o que dela faz parte deveria ser preservado.
    Este belo texto fez-me lembrar o misterioso homem que publicitava, também nas colinas (creio que até de Espanha) a casa Sandeman e os vinhos que comercializava.
    Diz a história que tudo começou quando, em 1790, um jovem escocês (George Sandeman) pediu ao pai o empréstimo de umas libras para fundar uma casa que comercializasse o nosso vinho do Porto da região do Douro e o Jerez espanhol de Jerez de la Frontera.
    E assim nasceria The House of Sandeman, hoje acrescentada de Vinhos do Porto, Mais Portugal, que tinha uma figura de chapéu e capa a negro que tanto me cativava.
    O mistério era maior. A curiosidade em conhecer a bebiba e a personagem, faziam vender milhões.
    Eis como se faz render um nicho de mercado numa bela forma de publicidade que guardamos na memória.

    ResponderEliminar
  2. De: Elvira Bugalho
    30 de março de 2026
    É verdade, Zé.
    É agradável e interessante encontrarmos esses painéis...alguns subsistem.
    …………….
    ADIM MONSARAZ
    30 de março de 2026
    Boa lembrança, caro Dr Encarnação, no Alentejo ainda há muitos painéis de azulejos, desses, em muitas pequenas localidades, sobretudo as atravessadas por estradas nacionais. Deveriam ser classificados, ou pelo menos protegidos pelos municípios, dada a sua importância histórica, iconográfica e pelo seu valor artístico, dado que são obras de azulejaria.
    Mas como estes exemplos, há tantas coisas, mais importantes e à vista de todos, que diariamente são demolidas, arrancadas, desprezadas...
    …………..
    De: maria helena coelho
    30 de março de 2026 11:29
    Pelo menos que se guarde num qualquer arquivo a memória destes cartazes publicitários.
    ……………..
    De: Francisco Maduro-Dias
    30 de março de 2026 14:00
    Caríssimo Professor. Isto é bom demais para ficar só por aqui. Permite-me que copie e coloque no meu Facebook?
    Aguardo
    ………..
    De: Virgílio Martins
    30 de março de 2026 10:56
    Obrigado, Professor!
    Recordo-me muito bem desses painéis. A maioria deles era bastante interessante, e nunca me ocorreu que envolvessem qualquer perigo. Já não tenho a certeza, mas parece-me que o nosso conterrâneo João Pires chegou e ter um desses painéis a publicitar uma das marcas dos seus vinhos.
    ……………
    De: Teresa Meira
    30 de março de 2026 12:06
    Senti-me tão velha ao recordar a publicidade em azulejo…. hehehe
    Nunca mais tinha pensado nisso!!!!
    Belo texto.
    ………………
    De: Regina Anacleto.
    31 de março de 2026 19:54
    Obrigada. Havia um desses touros entre Vilar Formoso e Salamanca. O Gabriel fazia-lhe sempre continência. Ao anúncio dos pneus Michelin, dizia: Alto lá! Michelão… Recordações!


    ResponderEliminar
  3. De: Carlos Calado
    1 de abril de 2026 15:47
    Obrigado pelo texto. Lembro-me perfeitamente desses gigantescos touros colocados estrategicamente em locais sobranceiros às estradas espanholas. Como também dos nossos painéis publicitários em azulejos.
    Em Portugal, tentou-se adaptar a ideia do touro, e surgiram umas silhuetas de um homem vestido com uma capa negra e chapéu de aba larga publicitando Sandeman – o vinho do Porto.
    Mas houve um painel publicitário em Espanha que nunca mais esqueci. Tinha os meus 18 ou 19 anos e iniciei com um amigo uma viagem pela Europa, sendo a primeira etapa Lisboa – Madrid em autocarro. Calor tórrido, veículo sem ar condicionado, várias horas de viagem. Também colocados estrategicamente, grandes painéis com letras garrafais e uma pequena imagem de um avião. A frase era perfeita: "Con Iberia ya habria llegado",.


    ResponderEliminar

  4. De: Cristina Neves
    2 de abril de 2026 22:46
    Lembro-me bem desses touros! 😊

    ResponderEliminar