segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Ergueram-lhe uma estátua equestre!

            O letreiro que hoje nos ocupa constava já na relação de monumentos da colecção que o bispo de Beja, Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), nos deixou. Foi, segundo ele, encontrado, em 1778, «em umas casas sitas na praça» da cidade.
Herdou-o, digamos assim, D. António Xavier de Sousa Monteiro, que foi sagrado bispo a 25 de Novembro de 1883. Era D. António zeloso da sua pastoral mas preocupou-se também com a preservação e estudo da documentação histórica. E é no quadro dessa preocupação histórico-monumental que deve entender-se a oferta ao Museu Regional de Beja dessa pedra que estaria, mui provavelmente, no paço episcopal.
No Museu está, com o  número de inventário B-118, e, na sequência do desenho que Frei Manuel do Cenáculo deixara e pelas informações que então circulavam, o seu texto acabou por ser várias vezes referido em colectâneas dos séculos XVIII e XIX, nomeadamente por Frei Vicente Salgado, num manuscrito de 1796 transmitido à Academia das Ciências de Lisboa, na «colecção dos monumentos romanos descobertos em Portugal».
Trata-se de um grande bloco de mármore de Trigaches, paralelepipédico, de 85 cm de altura, 57 de largura e 160 de profundidade. A inscrição, que sofreu maus tratos nos ângulos superior esquerdo e inferior direito, está numa das faces menores do bloco, inserida num rectângulo moldurado de 39,5 cm de altura por 16,5 cm de largo.

O que diz o letreiro

            Inscrito em latim, como era hábito, o letreiro apresenta-se em letras classificáveis como monumentais quadradas, de bom recorte, com alinhamento à esquerda, sentindo-se que terá havido o cuidado de marcar na pedra linhas auxiliares para que o texto saísse a preceito. Aliás, é de notar que o tamanho das letras não é uniforme, para se poder dar destaque, em módulo maior (6 e 5 cm), ao homenageado e aos seus títulos.
            Traduzida para português, a inscrição reza o seguinte:
            «A Gaio Júlio Pedão, filho de Gaio, da tribo Galéria, duúnviro, flâmine dos divinos, devido a ter administrado bem a república e ter auxiliado com dinheiro o aprovisionamento de víveres – a plebe, através de subscrição pública» […]
         Falta-nos a parte final, onde, naturalmente, estariam as siglas D · D, interpretáveis como D(ecreto) D(ecurionum) ou D(ono) D(edit). Era dispensável reforçar que se tratava de uma homenagem; importante, porém, do ponto de vista político-administrativo e de prestígio, era que tivesse havido uma intervenção directa dos decuriões, a assembleia de ilustres da colónia, dando e apoiando, por decreto, essa vontade popular.
            O homenageado é um cidadão romano, inscrito na tribo Galéria, que Augusto atribuíra à colónia. Tem três nomes, sendo os dois primeiros próprios de uma das famílias seguramente mais renomadas dos primeiros tempos da cidade, a família Júlia. Recorde-se que César foi Júlio e a cidade teve Pax Iulia de seu nome. O seu nome próprio, Pedão, é de origem latina.
            Dele se especificam os cargos que exerceu.
Foi duúnviro, isto é, um dos dois magistrados escolhidos pelos decuriões para, durante um ano, estarem à frente dos destinos da colónia. O equivalente ao nosso presidente da câmara, enquanto a assembleia dos decuriões poderia corresponder à actual assembleia municipal. O nome ‘duúnviro’ significa que é um de dois, pois os Romanos, para cargos deveras relevantes não escolhiam apenas uma pessoa mas duas, para o seu governo ser mais eficaz e não se corresse o risco de assumir laivos de autoritarismo.
Deve Gaio Júlio Pedão ter-se notabilizado no exercício desse cargo, porque o nomearam oficialmente como sacerdote do culto aos imperadores divinizados. Não era de então nem deixou de ser até aos dias de hoje esta simbiose entre o poder político e o poder religioso. Para lograr obediência maior, o primeiro imperador, Augusto, deixou que o considerassem um deus; os seus sucessores seguiram-lhe o caminho e alguns foram mesmo considerados ‘divos’ após a morte, grande seria a aura alcançada. Pedão foi flâmine da colónia, presidia às cerimónias rituais de louvor ao imperador; neste caso, ter-se-á optado – quiçá por se estar em período propício a que rapidamente a um imperador outro sucedesse – por lhe dar um título plural: é «flâmine dos divinos»! 

Um exemplo!

            Terá sido no exercício da sua magistratura que Pedão granjeou os favores do povo. Na verdade, na epígrafe vem claramente escrito o motivo pelo qual mereceu tal distinção: por ter administrado bem a república e por ter ajudado a anona com o seu dinheiro.
            «República» tem aqui o significado de «res publica», ‘a coisa pública’, o conjunto dos cidadãos, e não o sentido que hoje damos ao termo. Anona era o erário público. Estamos, pois, perante alguém que não hesitou, em tempo de carestia ou de apuros financeiros, em ter desembolsado do seu dinheiro para suprir o que estava em falta. Um exemplo!
            Perguntar-se-á se se tratava de algo mais ou menos comum nesse século I da nossa era. Creio bem que não. Com efeito, gestos desta envergadura não poderiam passar despercebidos e mereciam relevo, como neste caso mereceu. Também pela mesma época, em Clúnia, uma cidade do centro da Hispânia (conserva na actualidade essa designação), os ‘amigos’ de Lúcio Calvísio Agrícola, que foi magistrado e flâmine de Roma e do divino Augusto, forneceu trigo ao povo, no momento em que o erário estava em dificuldades. Em Dénia (hoje município com o mesmo nome da província espanhola de Alicante), homenageou-se alguém, cujo nome desapareceu por fractura da pedra, que foi igualmente notável benfeitor dos Denienses, pois logrou abastecer de água salubre a cidade, trazendo-a, com elevado dispêndio financeiro, por sítios de mui difícil percurso, e ajudou os munícipes contribuindo com víveres para o erário, sem hesitação, no momento em que se passava por uma crise gravíssima.

E que monumento é esse?

            Logo em 1984, quando pela primeira vez nos debruçámos com mais atenção sobre o monumento perguntámos: «Pedestal de estátua? São impressionantes as dimensões do monumento, sobretudo a sua espessura». Estávamos a olhá-lo de frente, para a inscrição, e a espessura equivalia, portanto, à profundidade.
            Também Abel Viana achou estranha a forma do monumento: «Deve ter sido soco de grande monumento ou silhar de entrada de um pórtico».
            Cumpre dizer que, de facto, a inusitada forma do monumento não causou perplexidades, não levantou questões, até que, observando melhor, decidimos perguntar, em 2012: não será o pedestal de uma estátua equestre? A ideia foi germinando, sucederam-se acaloradas trocas de impressões e, hoje, a hipótese transformou-se em certeza: as singulares dimensões da pedra com a inscrição gravada no lado menor exigem essa classificação!
Proposta de reconstituição, por José Luís Madeira
            Pax Iulia ganha, assim, um relevo ainda maior do que as inscrições dadas a conhecer até aqui aos leitores de Diário do Alentejo poderiam fazer supor! É que erguer a estátua a um magistrado local constituiu raridade no mundo romano. Mérida, que foi capital da Lusitânia, não tem, até ao momento, nenhuma! Há estátuas, de facto, a magistrados: bustos, esculturas de corpo inteiro… Mas, estátuas equestres e, ainda por cima, para homenagear alguém que não foi sequer elevado à categoria de cavaleiro… não!
            Mais uma vez, um documento epigráfico romano aparentemente ‘inofensivo’, que até passou despercebido aos investigadores mais atentos, acaba por trazer lustre a uma cidade, que deu honra ao mérito! Não será, pois, inoportuno reclamar que seja recompensada: que o mérito lhe seja concedido!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo (Beja), nº 2065, 13-11-2021, p. 13.

sábado, 20 de novembro de 2021

Há sempre um bom pretexto para poetar!

              Não haverá português algum – ou até ser humano mais ou menos culto – que não tenha ousado, um dia, fazer versos, alinhar umas rimas, a pretexto de um baptizado, de um namoro, de um convívio de amigos ou mesmo de chalaça em relação a alguém que, no grupo, por qualquer motivo se haja distinguido.        
            Pois, ao remexer nos meus papéis, deparei com um caderno de folhas soltas, de papel pardo. 16 tinham cada uma um poema; a última era a ficha técnica, onde se fica a saber que – sob o título «Não há como beber uma golada para a frase ficar mais inspirada» – a Adega Cooperativa de Mangualde promovera, em 1992, um concurso de poesias alusivas ao vinho. José Costa e Virgílio Loureiro seleccionaram e organizaram a antologia, José Tavares ilustrou e a Vinidão editou, em Outubro de 1993, 1500 exemplares.
            Diz-se na badana que, com este caderno, a Associação dos Vitivinicultores Engarrafadores da Região Demarcada do Dão – VINIDÃO pretendia «iniciar uma homenagem aos poetas populares deste País, cuja sensibilidade está profundamente marcada, há séculos, pela nobreza de um produto de eleição como é o vinho».
            A iniciativa não terá tido seguimento; mas ficou este testemunho da inspiração de poetas de Viseu, Nelas, Mangualde, sempre em louvor do precioso néctar e das terras que o produzem: «Até no céu os Santinhos / disso tenho convicção! / Tomariam os seus copinhos / Se lá houvesse vinho “Dão” – proclama José Lopes, sem hesitar.
            E se as recomendações para que se beba com moderação não faltam, José Amaral também não hesita em explicar algo que poucos de nós saberão: 
 
            De Vilar Seco saiu
            Um homem com um papel
            Levava lá escrito
            A qualidade do moscatel.
 
            Em Palmela se instalou
            José Maria da Fonseca
            No papel levava escrito
            A qualidade da cepa.
 
          Com adequadas ilustrações, é um caderno de que porventura se terão perdido quase todos os exemplares, pois ando há longos meses à procura de um, que o meu ofereci-o à biblioteca de um museu, onde também o não encontram.
        Aqui fica a recordação, na esperança de que se salvaguarde algum exemplar e para ser de inspiração a quem queira lançar mão a idêntica iniciativa. Em prol do vinho ou doutro dos nossos produtos. Mas sempre em prol da Poesia!

                                                                       José d’Encarnação

Nota
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 810, 15-11-2021, p. 12.
Recupera o que se publicara no jornal digital Cyberjornal, ora extinto, e que se transcrevera neste blogue a 13 de Junho de 2017. O facto de – ao que parece – se não encontrarem exemplares levou-me a fazer nova publicação, agora em Mangualde, a ver se algo se guardou da inovadora iniciativa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

O cacto

            Gorgoleja a fonte, indiferente ao intenso e apressado tráfego da rua, carros um atrás do outro. Na avenida, passa agora uma ambulância de sirene ligada a gritar urgências. Amena, a temperatura neste começo de tarde outonal. Tristonho, o hibisco não quer dar flores; enverdecem os cachos das hortênsias numa tristura do esplendor passado.
E, ontem, cacto, decidi visitar-te. Era uma visita adiada, desde que, do Rio de Janeiro, a amiga Norma me enviara a foto de um igual a ti, com amplas considerações elogiosas. Sabes que lhe repliquei na mesma moeda e lhe enviei fotografia tua, a garantir, orgulhoso, que também tinha. O dela viera, muito pequenino, do Arizona, em 2014. Tu nasceste aqui e confesso que já me não lembro onde te comprei.
Tens razão. Foi preciso a Norma me falar para eu me interessar por ti. Rego-te vagamente, água pouca, porque aprendi seres planta xerófita, que de muita água não carece e, perdoa-me, tenho dado mais atenção às bem cheirosas rosas e à beldade ímpar das orquídeas. Desculpa.
        Ontem, decidi penitenciar-me e fui ver-te mais de perto. Estás muito mais crescido e nada me disseste. Estão a despontar as tuas florinhas roxas, numa timidez, como que a pedirem licença para aparecer e fiquei encantado. Empoleirado no escadote, fiquei largos minutos a olhar para ti, para a tua modéstia e serenidade, para a tua vida sem alarde, e, de vez em quando, decides mostrar bonita flor, como que a sussurrar: "Eu estou aqui, não reparaste?". Não, desculpa, não reparara e tens razão que ando ocupado demais com o frenesim quotidiano e me esqueço de saborear a beleza derredor... Olha que também tu me saíste cá uma peça, como se dizia outrora! Porquê? – perguntas-me. Porque és um egoísta! Vestes-te de espinhos, assim te recatas de eventuais inimigos, mas só os usas para ti, em salvaguarda própria. Não os emprestas a ninguém e não ousas atirar alguns a quem mereceria umas picadelas valentes! Egoísta! Dêem-te umas gotas de água por semana e ficas regalado! Não vês quem precisa de uns piquinhos a preceito? Poderias pedir ao Criador que te desse a possibilidade de atirar, em tempo oportuno, umas frechadas, a doer!...
Percebo-te, porém. Abster-se de intervir é, amiúde, o melhor remédio. Como te compreendo! E acabo por gostar de ti, assim, como decidiste adornar o vaso singelo em que, há anos, não sei quantos, te coloquei. Em humilde serenidade, continuas a fazer-me companhia. Bem hajas!
 

José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 809, 01-11-2021, p. 12.