segunda-feira, 31 de julho de 2017

Nunca imaginaria jogo de futebol assim!

            O público manifesta-se, mesmo pegadinho à linha de jogo. Há um canito que assiste, tranquilo, com o dono; outro, porém, não esteve com meias medidas e lá foi para o campo, borrifando-se da bola que está do outro lado. Uma fila só de espectadores e há mais uns quantos junto às casas, ao que parece, pouco interessados na bola. Agora, o que eu não esperava é que, em vez de bancadas cheias – e olhem que o terreno até é relvado!... -, tivéssemos ao fundo largos campos cultivados, árvores alinhadinhas, sem tugir nem mugir, tudo muito certinho, indiferente à algazarra!... Aliás, que é mais interessante ali: os pomares ou os que correm atrás da bola?
«Jogo de futebol», de Richard Smith
            E esse quadro onde é que está? No aproveitamento da velha caixilharia duma janela sem vidro! Não lembraria ao mais pintado, mas lembrou a Richard Smith, um advogado do Zimbabwe que se reformou e veio viver para o Algarve, onde faleceu.
            Tens destas surpresas o Salão Internacional de Pintura Naïf, cuja XXXVII edição a Galeria do Casino inaugurou no passado sábado. 23 artistas, 58 obras, que poderão ser apreciadas até 12 de Setembro.
«Migrantes», de Conceição Lopes
            Nesta edição quis Nuno Lima de Carvalho, responsável pela Galeria, homenagear a alentejana Conceição Lopes (Panóias, Ourique, 1942), «uma referência nacional dentro desta modalidade», explica Lima de Carvalho, que acrescenta, em relação ao quadro «Migrantes», que é capa de catálogo e que nos prende pela sua actualidade:
            «Retrata o fenómeno dos fluxos migratórios, utilizando cores primárias, falta de perspectiva e a atenção dispensada aos pormenores».
            Sim, é verdade: aspectos técnicos, esses; contudo, há uma lágrima furtiva aqui e acolá, a maior parte são mulheres embiocadas, de cujos rostos transparece – queira-se ou não – uma melancolia estática, um desespero contido… E não é preciso dizer mais!
            Merece também uma paragem a trilogia de Feliciana, a retratar recantos de uma aldeia do Alentejo: as chaminés de Pavia, os vizinhos e, sobretudo, a «calma dos dias», onde parece que o tempo parou ou anda bem devagarinho, sem as pressas da barulhenta e sempre inquieta cidade.
             É, aliás, essa agradável sensação que se evola deste conjunto de trabalhos: a visão ingénua (sim, a essa palavra não posso fugir), tranquila de uma realidade que desalmadamente se está a perder.
             Não sem uma pontinha de ironia (ou, até, sarcasmo) aqui e além – que também as árvores, os pássaros e as abelhas hoje são bem capazes de se rirem de nós, homens atarefados, que nem sequer reparam nos pormenores, que levam tudo por diante, sem capacidade para prolongado e saboreado oh! de admiração!

                                                      José d’Encarnação

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A ciência da escrita e o Padre Amador Anjos

            Salientei, na crónica anterior, a riqueza ideológica veiculada pelos artigos e pelas imagens do mais recente número de Egoísta, a revista da Estoril-Sol, dedicado à política, Pro Patria Omnia, «tudo pela Pátria». E, ao sentar-me agora, para alinhavar a crónica desta semana, três factos se me impuseram de tal modo ao espírito que não pude resistir-lhes: a homenagem ao Comandante Frito, a nomeação do Padre Amador como académico honorário da Academia Portuguesa da História e a ciência da escrita. Todos eles, aparentemente tão diversos, estreitamente relacionados com o conteúdo da Egoísta.

A homenagem
            Por proposta do Dr. Rama da Silva, presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Cascais, veiculando o sentir da sua corporação, foi dado a uma rua de Cascais o nome do Comandante José Frito (1909-1987), figura ímpar, cuja memória os que o conheceram e, sobretudo, os que tiveram a dita de com ele privar e aprender sempre evocam com saudade. Cidadão íntegro, que à causa humanitária sem reservas se dedicou.
A filha do homenageado, emocionada com a homenagem.
Pedro Morais Soares, presidente da Junta, feliz por ver realizado
um sonho de há anos, junta os seus aos aplausos de todos.
            Como é de lei, coube à Junta de Freguesia promover a solene cerimónia protocolar do descerramento da lápide toponímica. Presentes, nessa manhã de sábado, 22, além de membros da Associação, bombeiros em formatura, amigos da família e do homenageado. Não identifiquei, porém, entre as quatro dezenas de assistentes nenhuma das figuras ligadas às ‘forças políticas’ que genericamente se designam pela palavra «oposição» e que, como é da tradição, nas campanhas eleitorais também se reclamam representar os interesses e as aspirações da população. Poderiam ser ignoradas nos discursos e nem serem saudadas por quem ora está no poder; mas lá diz o Povo: «Quem não aparece esquece»; e «Voz do povo é voz de Deus, minha senhora mãe», sentencia eloquentemente Maria no Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.

O escritor
            Pois do poder político da literatura também se ocupa a Egoísta.
            Nesse aspecto, duas estranhas páginas me chamaram a atenção, pois reproduzem algo que, hoje, com o sistemático recurso aos computadores, jamais será possível rever. E quanto não aprenderíamos se assim não fora!...
A página, labiríntica rascunhada, do poema de Manuel A. Pina.
Assim se vê como a escrita nem sempre sai à primeira vez!
            Fala-se, amiúde, de escritores que se impõem um horário de trabalho, porque escrever é trabalhar. E essas páginas rascunhadas do poema dedicado por Manuel António Pina († 2012) aos 18 anos de sua filha Sara, que, em jeito de homenagem, Egoísta reproduz nas p. 110 e 111, são disso prova evidente: as hesitações, o escreve e depois risca, o que se entrelinha, o que se opta por omitir ou acrescentar… A incessante busca da perfeição.
            Treino diariamente a escrita. Como os atletas. E, como eles, tive excelentes treinadores. Um deles foi o Padre Amador.

Amador Anjos
            Ainda guardo as folhas com exercícios de análise literária que ele, na sua letra miudinha, me corrigiu e anotou, a vermelho, quando, em 1962-1963, no meu 6º ano dos Liceus, tive a dita de ser seu aluno.
Fotografia de um cantinho de trabalho meu, no âmbito da análise
literária, feito em 1963, com a correcção do Padre Amador.
            Também por isso vivamente me congratulei com o facto de a Academia Portuguesa da História o ter agraciado, no passado dia 20, nomeando-o académico honorário. Singela mas bem significativa e emotiva cerimónia, na Escola Salesiana de Manique, onde ora usufrui do bem merecido «descanso do guerreiro».
O momento em que a Presidente da Academia Portuguesa da História,
Professora Manuela Mendonça, colocava o colar no homenageado,
auxiliado pelo proponente da homenagem, Doutor Armando Martins.
            Deve-se a Amador Anjos – para além de uma infinidade de artigos dispersos pelas revistas salesianas e de um livro sobre S. Paulo e a Condição da Mulher (1990) – um grande interesse pela história da congregação salesiana em Portugal. Compilou documentação, pugnou para que cada casa salesiana mantivesse bem organizados os seus arquivos. Devemos-lhe, entre outros, os livros Centenário da Obra Salesiana em Portugal: 1894-1994 (Ao serviço da juventude e do povo) [Lisboa, 1995] e Oficinas de S. José – Os Salesianos em Lisboa (Lisboa, 1999).
            Privilégio meu evocar e saudar o Mestre e o Sacerdote; mas, à sua maneira, poetas e bombeiros exercem também um magistério sacerdotal ao serviço da Comunidade. Por isso, aqui, agora, quis juntar estes três homenageados.
 
                                                                 José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 197, 26-07-2017, p. 6.

terça-feira, 25 de julho de 2017

«Os Irmãos Karamazov» - uma prova e uma lição

       Está em cena, no Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, a versão dramatúrgica de «Os Irmãos Karamazov», de Dostoiévski, feita por Graça P. Corrêa, a partir da adaptação a peça teatral levada a cabo por Jacques Copeau e Jean Croué, na tradução de Júlio Magalhães, e tendo em conta também o romance original, na tradução de Maria Franco.
            A encenação foi, naturalmente, de Carlos Avilez, que contou com Fernando Alvarez (mestre na arte da cenografia e dos figurinos) e com o extraordinário contributo de Natasha Thitecherova na coreografia, neste caso particularmente adequada, atendendo às características russas das danças (aquela Kalinka proporciona efeitos muito bonitos e «Ochi Chernye» deliciou-nos também).
            Quatro foram os elencos que se revezaram de sessão para sessão, porque se trata – como é hábito nesta época do ano – da PAP (Prova de Aptidão Profissional), ou seja, o exame, a prova prática dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Contaram eles, desta vez, com a presença especial de Ruy de Carvalho e isso podem desde já apontar no seu currículo. Aliás, esse um dos aspectos mais interessantes da PAP, conforme Carlos Avilez a vem concebendo: os mais novos (entram os finalistas, do 3º ano, mas também alguns estudantes do 1º e do 2º) têm possibilidade de contracenar e, portanto, de aprender com senhores da cena teatral dotados de uma experiência inigualável. Ruy de Carvalho esteve, claro, no seu melhor e estou certo de que, também para ele, esta foi uma experiência deveras enriquecedora.
            Por outro lado, escolhe Carlos Avilez peças onde possa pôr muita gente em cena, de modo que aprendam a movimentar-se em conjunto, a adoptarem a expressão corporal mais indicada. Canto e dança são, por isso, imprescindíveis e agradam sempre – também pelo colorido do guarda-roupa – essas cenas movimentadas e onde os jovens estudantes dão largas à sua expressividade.
            Três notas me chamaram particularmente a atenção:
            ‒ a sobriedade (como sempre!) do cenário, em que o bem pensado painel de ícones ao fundo, como que em retábulo sacral, nos transportam para o ambiente das igrejas ortodoxas russas;
            ‒ o diálogo ou os diálogos em que a profundidade do pensamento pode passar despercebida, mas existe, prenhe de actualidade: quem é o homem? Para que está aqui? Que sentido tem a existência e a morte? Para que serve, afinal, a riqueza? O que é, no fundo, o verdadeiro prazer – a luxúria, o ter poder, o ser rico?...
            ‒ finalmente, a tentação a que Carlos Avilez não resistiu: alguns dos figurantes, como quem não quer a coisa, são guerrilheiros (ou guerrilheiras) do Estado Islâmico, com seus lenços lúgubres a deixarem-lhes apenas os olhos à mostra e, na mão, a metralhadora sempre pronta a entrar em acção… O nosso mundo no mundo dos Karamazov!...
            Ah! A não esquecer a beleza tétrica da cena final, a solenidade do transporte da urna… A Morte, enfim, como que sublimada, envolta num clima em que a estética é rainha! Genial!
            O espectáculo está em cena, de terça a sábado, às 21.30 h., aos domingos às 16 h. até 3 de Agosto.
                                                           José d’Encarnação

Nota: Imagens colhidas, com a devida vénia, da página do TEC no facebook

Ruy de Carvalho, com o painel dos ícones ao fundo.

As armas
Imagens de sempre!
Instantâneo ternurento

 
 

Academia Portuguesa da História homenageia um sacerdote salesiano em Manique

            A Presidente da Academia Portuguesa da História, Doutora Manuela Mendonça, acompanhada de alguns confrades, entre os quais o Doutor Armando Martins, proponente da homenagem, aprovada em sessão da Academia, deslocou-se, no passado dia 21, à Escola Salesiana de Manique (mais propriamente à Casa Artémides Zatti, que acolhe os irmãos salesianos idosos), para outorgar ao Padre Amador dos Anjos as insígnias de Académico Honorário.
            Justifica-se a outorga por o distinto sacerdote, além da sua missão apostólica e docente – como é apanágio dos salesianos –, se haver dedicado intensamente a dar a conhecer a história da Congregação Salesiana em Portugal, tendo publicado as seguintes obras:

            Significado dos Lusíadas, 1958
            A questão operária: resposta de Dom Bosco, 1961
            S. Paulo e a condição da mulher – Um desafio à Igreja de hoje, 1990
            Centenário da Obra Salesiana em Portugal, Lisboa, 1995
            Os Salesianos em Portugal (1894-1994), Lisboa, 1998
            Oficinas de S. José – Os Salesianos em Lisboa, Lisboa, 1999
            Primeira presença dos Salesianos em Portugal, Lisboa, 2000
            Os Salesianos no colégio de S. Caetano de Braga, Edições Salesianas, 2006
            Nos Primórdios da Obra Salesiana em Portugal, 2007
            Primeira Presença Salesiana em Timor: 1927-1929, 2007
            O Dealbar da Obra Salesiana em Macau, 2007
            Os Salesianos em Moçambique, por Amador Anjos e J. Adolfo Vieira, 2008.

            Foi uma cerimónia singela mas plena de emotividade, que juntou os irmãos da Comunidade Salesiana de Manique, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Joaquim Mendes (salesiano) e alguns dos seus antigos alunos.
            O Padre Amador tem profundas ligações ao concelho de Cascais, pois – embora natural de: Fermentãos, Sendas (Bragança), onde nasceu a 25 de Janeiro de 1919 – foi no Estoril que deu os seus primeiros passos na vida religiosa, de 1937 a 1952, tendo sido professor, de 1957 a 1967, no estudantado filosófico de Manique.
            Tive a honra de ser seu aluno de Literatura Portuguesa no ano lectivo de 1962-1963, no meu 6º ano dos Liceus, e ainda guardo religiosamente as folhas dactilografadas com os exercícios de análise literária que ele, na sua letra miudinha, me corrigiu e anotou, a vermelho.
            Assumo-me como docente e, nesse âmbito, naturalmente, como escritor. Pode dizer-se, por vezes, que uma pessoa nasce isto ou aquilo; eu tenho, porém, a consciência plena de que, se posso assumir-me como ‘escritor’, o devo à minha professora primária, Zulmira Fialho Faria, da então chamada «escola do Ereira», que frequentei de 1951 a 1955, que sempre me incentivou, e aos docentes que tive nas escolas salesianas, entre os quais o Padre Amador dos Anjos assumiu papel preponderante, pelo cuidado que punha em burilar o que eu escrevia. Claro que, no âmbito do jornalismo, tive dois mestres: o João Martinho de Freitas (director do Jornal da Costa do Sol) e, de modo especial, José Júlio de Carvalho, que minuciosamente me revia todos os textos. (E permita-se-me que abra um parêntesis para evocar, neste âmbito, o exemplo de Júlio Correia de Morais; cujo estilo de escrita era, nas suas crónicas, para a época – anos 60 e 70 – verdadeiramente incomparável).
            Voltando ao Padre Amador: já tive ocasião de testemunhar todo o contentamento por, de certo modo, também o acolher na minha Academia, onde entrou de pleno direito. Regozijo-me, como antigo aluno salesiano; e esta homenagem constitui – deve constituir! – também motivo de orgulho para a população cascalense, não só por ter ocorrido no seu território, mas porque o homenageado, ora nele residente, desenvolveu uma actividade pedagógica e cultural intimamente ligada a Cascais, nomeadamente no Estoril e em Manique, como se assinalou.
Professores Manuela Mendonça e Armando Martins
ladeiam o laureado, Padre Amador dos Anjos

Padre Amador dos Anjos, com o colar da Academia
Portuguesa da História e respectivo diploma

O grupo de salesianos e amigos do homenageado,
em «foto de família» no jardim da casa salesiana de Manique

Exemplo da passagem de um exercício escrito meu, de análise literária,
com as correcções, a vermelho, em letra miudinha, do Padre Amador (1962)

                                                                                              José d’Encarnação

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Alecrim ou rosmaninho?

             Puseram-me na frente o prato com aquele requinte ora em uso: pouca comida disposta com elegância, pois sempre se disse que os olhos também comem.
            ‒ Alecrim, disse eu – e apontei o raminho que dava ao prato esse toque de requinte.
            – Rosmaninho – corrigiu o meu amigo italiano.
            E eu, que sempre ouvira falar em alecrim e em rosmaninho como sendo duas ervas aromáticas diferentes, ia armando uma discussão botânica entre os colegas, toda a gente a pegar nos telefones e a aceder ao Google para saber quem tinha razão.
            Pasmei: em italiano, alecrim diz-se «rosmarino»! E, regressado a Portugal, lá tive de recorrer à nossa são-brasense especialista em ervas aromáticas, a Doutora Maria Manuel Valagão: que sim, rosmaninho é uma coisa e alecrim outra! Acontece que só nós é que temos essa diferença vocabular, resultado do nosso ancestral contacto com os Árabes:
            – alecrim vem do árabe «al-iklil» e Lineu chamou-lhe Rosmarinus officinalis»;
            – rosmaninho, ao invés, é de origem latina, «rosmarinus».
            Ficou claro? Não! É que no sábio Dicionário da Academia, por exemplo, na palavra «rosmaninho», declara-se: «Do lat. Rosmarinus ‘alecrim’» e que tem como nome científico, dado por Lineu, «Lavandula Stoechus».
            Ora bolas!... Em que ficamos? No livro «Tradição e Inovação Alimentar» (Colibri, Lisboa, 2008, p. 186), de M. M. Valagão, fala-se na «utilização de rosmaninho ou de alfazema para preparar sobremesas à base de frutas». Pronto: está nova confusão instalada!
            À alfazema também se dá o nome de lavanda, mas da lavanda só se diz que é boa para a perfumaria, utilização comum à alfazema (do árabe «al-khuzāmâ»)!... E para a alfazema escolheu Lineu um outro nome: «Lavandula spica».
            Portanto, uma conclusão é certa: tanto o alecrim como o rosmaninho são… «rosmarini» e… cheiram bem! O resto… os botânicos que se entendam!

                                                           José d’Encarnação
 
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 15.
Moita de alecrim selvagem (alfazema?) numa encosta
perto da aldeia de Dornes (Foto de Ana Júlia)
Moita de alecrim, no Hyde Park, em Londres (Julho de 2017)


Da tirania do inglês

            Diz o Génesis, no capítulo 11, que «em toda a terra, havia somente uma língua e empregavam-se as mesmas palavras»; mas os homens acharam que poderiam construir uma torre até ao céu e assim serem, juntos, mais poderosos. Deus, porém, não achou piada à ambição e confundiu-lhes a linguagem de modo que, daí em diante se não compreendessem uns aos outros.
            Logrou o povo romano ter uma língua quase universal no Ocidente, o Latim, e outra, no Oriente, o Grego. E assim, no continente europeu, o Latim perdurou como língua em que praticamente todos se entendiam durante a Idade Média e ainda no Renascimento os sábios era em Latim que se correspondiam.
            Após a Revolução Francesa, não foram apenas os seus ideais que se propalaram, mas também o seu veículo, a língua. Deste modo, nos primórdios do século XX, as ementas dos hotéis eram em francês e o Francês foi língua dominante da Ciência até à década de 60 do século passado, uma vez que não dera resultado a experiência do Esperanto, promovida por Ludwik Lejzer Zamenhof, em 1887, com a intenção de ‘reconstituir’, de certo modo, essa língua universal que o Criador proibira.
            Vieram os Beatles e, em Junho de 1967, Scott McKenzie proclamava: Be sure to wear flowers in your hair. E com as flores veio a língua, o inglês, que, pela enorme simplicidade da sua gramática e vocabulário («go out», sai, «go in», entra…), paulatinamente se foi substituindo ao francês, de gramática e vocabulário muito mais complexos. E há que confessar que o resultado é louvável, para que, no dia-a-dia, nos entendamos.
            Mas uma coisa é entendermo-nos, outra é obrigarem-nos a entendermo-nos! Uma coisa é eu fazer investigação com os meus parâmetros mentais, o meu vocabulário específico, apropriado às ideias que quero expor, outra é obrigarem-me a usar um vocabulário pobre e a exprimir o resultado da minha investigação numa língua que não é a minha! Obrigar é sinónimo de atitude ditatorial, de que todos há muito abjurámos!
            E se «obrigar» implica também «avaliar», aí temos o caldo entornado! Quando um categorizado texto inovador é mediocremente avaliado pelas entidades académicas governamentais (e outras), só porque não está redigido em inglês, e um texto medíocre é superiormente classificado, só porque está em inglês (não importa se em inglês de computador ou inglês de Harvard) – tem a ‘classe científica’ o direito (e o dever!) de se revoltar contra essa tirania inconcebível.
            Nessa luta estamos, pois! E queremos vencê-la!
 
                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 15.

VilAdentro, uma incómoda proximidade

            Duas palavras me ocorreram de imediato quando o Padre Afonso Cunha teve a gentileza de me solicitar depoimento sobre o significado de uma publicação como o VilAdentro, com 223 números editados ao longo de 19 anos, onde tive a honra de colaborar ininterruptamente desde Abril de 2003, num total, portanto, de 151 «A Retalho», de cujos primeiros 100 acabámos por fazer um livro.
            E essas palavras podem consubstanciar-se na expressão «incómoda proximidade». Milito no jornalismo regional há mais de 50 anos e essa característica constitui para mim o cerne de um jornal local: ele deve estar próximo da comunidade, para eficazmente contribuir para a sua (dela) consolidação; ele deve ser incómodo para que nunca se adormeça sobre os problemas e insistentemente se pugne pela sua solução.
            Assumindo-se como boletim paroquial, VilAdentro foi, no entanto, muito mais do que mero eco de uma ideologia religiosa; foi eco, sim, duma comunidade e cumpre, por isso, agradecer de coração aos dois sacerdotes que, mau grado as naturais adversidades, nunca baixaram os braços em prol de nenhuma nobre causa são-brasense.
            Bem hajam!
                                                     José d’Encarnação   

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 14.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Joaquim Magalhães, o homem

            Hesitei, claro, no título a dar a este ligeiríssimo apontamento, que inicio, confesso, já com alguma emoção. Primeiro, porque tendo privado pouquíssimo com o «homem», foi o suficiente para se ter criado, de repente, quase instantaneamente, uma empatia que não se consegue explicar. Nasce, pronto. E a gente não sabe porquê. Ou, mais tarde vim a descobrir, talvez por havermos pertencido ao mesmo grupo sanguíneo, o O, do dador universal; mais ainda o meu, que sou de Rh negativo.
            Não li ainda o livro, porque acho que vou precisar de um recanto bem aconchegado para nele me embrenhar. Não quero, porém deixar de já lhe fazer referência, depois do abraço grato a Romero Magalhães por ter tido a gentileza de mo fazer chegar às mãos.
            Falo, já se vê, de Joaquim Maglhães, o Homem, o Mestre, o descobridor do Aleixo. Seu filho, o Professor Romero Magalhães, catedrático de Economia na minha Universidade de Coimbra, natural de Loulé (1942), acaba de publicar «Uma Escrita na Primeira Pessoa» (Âncora Editora, Dezembro de 2016), parte da correspondência de seu pai, anotando-a de tal forma que, afinal, podemos dizer que estamos perante não uma obra epistolográfica mas, de certo modo, autobiográfica, porque, através dos seus escritos, penetramos no pensamento e na obra deste professor do Liceu (como antes se dizia), que em Faro viveu boa parte da sua docência.
            Ainda não li o livro. Saboreei, porém, o prelúdio «O dador universal», da autoria de Lídia Jorge, que foi sua aluna. Li a epígrafe, retirada de uma das passagens do livro e que, não duvido, Romero Magalhães escolheu, por lhe parecer que resumia, à perfeição, o que fora a personalidade de seu pai:
 
            «… é de pura divulgação o meu trabalho aqui [em Faro].
            Não passo de um “intérprete”, de um intermediário com vontade de ser um “despertador”. E, muitas vezes, me interrogo sobre a utilidade de uma tal acção. Em geral, suponho-a positiva e é essa suposição que por agora me vai mantendo».

            São 172 trechos (digamos assim), alinhados cronologicamente, que Romero Magalhães mui habilmente entendeu como uma composição musical e, por isso, os dividiu em andamentos: abertura, allegro, andante, largo e «grand finale».
            Naturalmente, havemos de voltar ao livro. Tem que ser!

                                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 248, 20-07-2017, p. 11.

A última palavra d’Os Lusíadas!

            Há largos anos atrás, após a entrevista com o responsável por uma florescente Unidade de Oncologia, por todos muito apreciada, dado o imenso carinho posto pela equipa no atendimento dos doentes, perguntei-lhe, já de microfone fechado, por que razão não recebia maior apoio oficial. Retorquiu-me:
            – Sabe qual é a última palavra d’Os Lusíadas?
            Por sinal, assim de repente, a pergunta à queima-roupa apanhou-me desprevenido e não soube responder de imediato.
            – Inveja! – disse o meu interlocutor.
            Estava tudo explicado!...
            Ando a arrumar os meus papéis. 50 e tal anos de jornalismo e de actividade lectiva nas áreas de Epigrafia, Arqueologia, Património, Comunicação Social e Turismo fizeram com que fosse ajuntando recortes, folhetos, opúsculos, convites e tanto outro material, naquela ideia que se tem: «Quando me jubilar – nessa altura, eu ainda pensava que me jubilaria… – ponho ordem nisto tudo e tenho aqui material para longa série de crónicas, artigos, reflexões…
            Verifico, agora, que não é bem assim; mas a selecção impunha-se e muito material acumulado vai sendo distribuído por instituições, onde será mais útil do que a mim ou aos meus filhos e netos.
            Ocorreu-me, porém, essa tal última palavra do nosso poema épico, quando deparei com o convite endereçado ao chefe de redacção de um jornal (que eu guardara como recordação sua) para ir saborear um almoço de lampreia e dele fazer a respectiva reportagem. E não pude conter um sorriso! É que, no interior do sobrescrito, estavam um cartão de visita, uma foto para eventual publicação e a «informação à imprensa»; e, no exterior, escrita a negro e em diagonal, rubricada pelo director, a seguinte mensagem:
            «Sim, senhor!
            Vá comer o almoço, mas, para eles aprenderem, não virá uma linha a este respeito. O. K!».
            O almoço foi a 8 de Março de 1987, ou seja, o 25 de Abril já ocorrera há anos!
            O chefe de redacção confidenciou-me, depois, recordo-me, que o almoço fora uma delícia; mas, claro, ordens são ordens e… sobre isso não se escreveu uma linha!
            As «coisas» que a gente reencontra, ao remexer em papéis antigos!...

                                    José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 712, 15 de Julho de 2017, p. 11.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

«Igualdade e Fraternidade dissolveram-se nas penumbras da utopia…»

           No cartão manuscrito que acompanhava o nº 60 (Março de 2017) da revista Egoísta, escrevia-me Mário Assis Ferreira:
            «Política, mais do que Ciência, é a Arte de governar um Estado. Idealmente, sob as vestes da Democracia Representativa. Distante, é certo, dos Ideais da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Salvou-se a Liberdade! Igualdade e Fraternidade dissolveram-se nas penumbras da utopia… Fruamos, pois, essa preciosa dádiva da Liberdade».
            Política constitui, pois, o tema desse nº 60, que é – repito – datada de Março e preparada, portanto, quando ainda se estava no rescaldo da tomada de posse, a 20 de Janeiro, de Donald Trump, e ainda não houvera incêndios nem armas desviadas... Por isso, o título, em latim, consigna quase um lema, «Pro Patria omnia», a recordar frase amiúde afixada em símbolos de instituições de cariz policial ou militar.

            Outro é, porém, o tom inicial da revista, que abre com enorme desdobrável a mostrar o exterior do Palácio de S. Bento numa aparente ruína, prenunciando, na janela da página 1, o título «Política e ilusão», nota de abertura invulgarmente longa da autoria do próprio director da revista, que pergunta, no final, se, um dia, a razão prevalecerá sobre a utopia e confessa ter a ideia de que nessa nova Ordem Mundial que se vislumbra há uma «prática política» sem horizonte e que não vem em nenhum dicionário disponível, porque… «há quem lhe chame ILUSIONISMO!».

            Antes mesmo de nos debruçarmos serenamente sobre os textos e ilustrações que compõem as 152 páginas da revista, um simples relancear de olhos sobre o seu conteúdo será, porventura, susceptível de nos arrepiar tanto como dar-nos conta de demissões através de um simples telefonema do género da carta que vem transcrita na pág. 6: «It’s our pleasure to inform you that, from this date, your services as President are no longer needed». Temos muito prazer em informá-lo de que, a partir de agora, já não precisamos mais de si!

            Vamos, então, a alguns dos títulos: o último discurso de Michelle Obama; «as cinzas de Fidel» (João Pina); «Never before (como ele diria)», de Paulo Portas; «A Política que se rende» (Daniel Oliveira); «A política é o mais altruísta dos egoísmos» (Adolfo Mesquita Nunes); «No hate, no fear. Immigrants are welcome here», ‘Não se aborreçam, não tenham medo, os imigrantes são cá bem-vindos’ (eloquente conjunto de fotografias de Ashley Comer); «Política, je t’aime moi non plus» (de Maria Manuel Viana, em que cada palavra do título esconde uma citação célebre); «O voto secreto» (José Luís Peixoto) …

            Duma eloquência atroz os cartazes da colecção «Ne boltai!» das páginas 100 a 104. E duas cartas, do teor da atrás citada, também assinadas pelo «Povo», aparecem inopinadamente na revista: uma, também em inglês, a dispensar os serviços do primeiro-ministro (já!), e outra (p. 54), datada de 13 Janeiro de 2018 [sic], demite o presidente do Brasil, onde se declara, a dado passo:

            «Quando a carreira política de Vossa Excelência iniciou, seus bolsos estavam vazios e o povo brasileiro tinha esperança.

            Hoje, todo o mundo caçoa […] e Vossa Excelência é o único rindo. Tomando banho de piscina.

            Não se preocupe. Não vai precisar mais trabalhar.

            Aproveite sua aposentadoria».

            Eu pus […], mas nas cartas não há reticências: há risco por cima das palavras com caneta de feltro negra.

            Patrícia Reis entrevistou António Costa, uma entrevista semeada de fotografias sorridentes. Aliás, Patrícia confessa que se acordara previamente que «seria uma conversa mais ampla, mais intemporal», sem «a Caixa, offshores, SMS, ministros fragilizados»… António Costa «estava bem disposto».

            Sob o «je» do título de Maria Manuel Viana a citação é do francês J. Michelet:

            «Qual a primeira parte da política? A educação. A segunda? A educação. E a terceira? A educação».

            Estamos conversados.

                                                                       José d’Encarnação


Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 195, 12-07-2017, p. 6.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Vestígios de tremoços?

             São pitorescos, no Alentejo, os campos amarelos de tremoceiro. Admirei-me, há uns 40 anos, quando vi, pela primeira vez, na Barrinha da Praia de Mira, uns estranhos sacos cheios – eu não sabia de quê! – deitados no fundo.
– É tremoço! – explicaram-me.
Na verdade, depois de colhido seco, o tremoço deve ser cozido e tem de passar uma temporada mais ou menos longa dentro de água (corrente ou mudada com frequência), até perder o amargo original e os alcalóides (prejudiciais à saúde) e também para ganhar macieza e aquele típico sabor levemente agridoce, que tão bem acompanha uma cervejinha borbulhante e fresca.
Recebi, há tempos, uma mensagem acerca dos benefícios do tremoço. Desconhecia-os por completo e, por isso, de vez em quando, compro uma mancheia à do Paulo, empresto-lhes um tempero de ervas à minha maneira e regalo-me, eu e os meus netos, porque, rezava a mensagem, o tremoço é «uma das principais fontes vegetais de proteína existentes» e a elevada presença de fibra permite-lhe «ter um papel activo na regulação do colesterol e glicemia e ainda na regulação e protecção da flora intestinal, também devido à elevada presença de fitoquímicos».
E eu, que, homem do Sul, já gostava de tremoços, fiquei a gostar ainda mais! 
Qual não foi, porém, o meu espanto quando, ao ler os ingredientes constantes de uma das embalagens de pronto-a-comer que compro na Cozinha com Alma, me salta à vista que «pode conter vestígios de crustáceos, peixe, amendoins, frutos de casca rija, aipo, mostarda, tremoço, moluscos».
Como é? Um singelo prato que, à primeira vista, nada teria a ver com tremoços, poderia ter vestígios deles?
E mais espantado ainda fiquei quando me foi servida a refeição no avião da TAP: um «pão de cereais com peito de frango, maionese, pickles, rúcula e orégãos». Achei bem o pão de cereais, saudável, e o uso, cada vez mais apreciado, de rúcula e dos orégãos (agora, finalmente, descobertos…). Então não é que também ali vinha a informação, em maiúsculas: PODE CONTER VESTÍGIOS DE CRUSTÁCEOS, PEIXE, AMENDOINS, FRUTOS DE CASCA RIJA, AIPO, MOSTARDA, TREMOÇO, MOLUSCOS?
Fiquei banzado. E fui estudar: trata-se de uma determinação do Regulamento nº 1169/2011 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Outubro. De facto, assim, se, no pão, encontramos um tremoço, não podemos reclamar – estávamos previamente avisados! Não seria um tremoço inteiro, mas vestígios; em todo o caso…tremoço!

                                                            José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 711, 1 de Julho de 2017, p. 11.