terça-feira, 25 de julho de 2017

«Os Irmãos Karamazov» - uma prova e uma lição

       Está em cena, no Teatro Mirita Casimiro, em Cascais, a versão dramatúrgica de «Os Irmãos Karamazov», de Dostoiévski, feita por Graça P. Corrêa, a partir da adaptação a peça teatral levada a cabo por Jacques Copeau e Jean Croué, na tradução de Júlio Magalhães, e tendo em conta também o romance original, na tradução de Maria Franco.
            A encenação foi, naturalmente, de Carlos Avilez, que contou com Fernando Alvarez (mestre na arte da cenografia e dos figurinos) e com o extraordinário contributo de Natasha Thitecherova na coreografia, neste caso particularmente adequada, atendendo às características russas das danças (aquela Kalinka proporciona efeitos muito bonitos e «Ochi Chernye» deliciou-nos também).
            Quatro foram os elencos que se revezaram de sessão para sessão, porque se trata – como é hábito nesta época do ano – da PAP (Prova de Aptidão Profissional), ou seja, o exame, a prova prática dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Contaram eles, desta vez, com a presença especial de Ruy de Carvalho e isso podem desde já apontar no seu currículo. Aliás, esse um dos aspectos mais interessantes da PAP, conforme Carlos Avilez a vem concebendo: os mais novos (entram os finalistas, do 3º ano, mas também alguns estudantes do 1º e do 2º) têm possibilidade de contracenar e, portanto, de aprender com senhores da cena teatral dotados de uma experiência inigualável. Ruy de Carvalho esteve, claro, no seu melhor e estou certo de que, também para ele, esta foi uma experiência deveras enriquecedora.
            Por outro lado, escolhe Carlos Avilez peças onde possa pôr muita gente em cena, de modo que aprendam a movimentar-se em conjunto, a adoptarem a expressão corporal mais indicada. Canto e dança são, por isso, imprescindíveis e agradam sempre – também pelo colorido do guarda-roupa – essas cenas movimentadas e onde os jovens estudantes dão largas à sua expressividade.
            Três notas me chamaram particularmente a atenção:
            ‒ a sobriedade (como sempre!) do cenário, em que o bem pensado painel de ícones ao fundo, como que em retábulo sacral, nos transportam para o ambiente das igrejas ortodoxas russas;
            ‒ o diálogo ou os diálogos em que a profundidade do pensamento pode passar despercebida, mas existe, prenhe de actualidade: quem é o homem? Para que está aqui? Que sentido tem a existência e a morte? Para que serve, afinal, a riqueza? O que é, no fundo, o verdadeiro prazer – a luxúria, o ter poder, o ser rico?...
            ‒ finalmente, a tentação a que Carlos Avilez não resistiu: alguns dos figurantes, como quem não quer a coisa, são guerrilheiros (ou guerrilheiras) do Estado Islâmico, com seus lenços lúgubres a deixarem-lhes apenas os olhos à mostra e, na mão, a metralhadora sempre pronta a entrar em acção… O nosso mundo no mundo dos Karamazov!...
            Ah! A não esquecer a beleza tétrica da cena final, a solenidade do transporte da urna… A Morte, enfim, como que sublimada, envolta num clima em que a estética é rainha! Genial!
            O espectáculo está em cena, de terça a sábado, às 21.30 h., aos domingos às 16 h. até 3 de Agosto.
                                                           José d’Encarnação

Nota: Imagens colhidas, com a devida vénia, da página do TEC no facebook

Ruy de Carvalho, com o painel dos ícones ao fundo.

As armas
Imagens de sempre!
Instantâneo ternurento

 
 

Academia Portuguesa da História homenageia um sacerdote salesiano em Manique

            A Presidente da Academia Portuguesa da História, Doutora Manuela Mendonça, acompanhada de alguns confrades, entre os quais o Doutor Armando Martins, proponente da homenagem, aprovada em sessão da Academia, deslocou-se, no passado dia 21, à Escola Salesiana de Manique (mais propriamente à Casa Artémides Zatti, que acolhe os irmãos salesianos idosos), para outorgar ao Padre Amador dos Anjos as insígnias de Académico Honorário.
            Justifica-se a outorga por o distinto sacerdote, além da sua missão apostólica e docente – como é apanágio dos salesianos –, se haver dedicado intensamente a dar a conhecer a história da Congregação Salesiana em Portugal, tendo publicado as seguintes obras:

            Significado dos Lusíadas, 1958
            A questão operária: resposta de Dom Bosco, 1961
            S. Paulo e a condição da mulher – Um desafio à Igreja de hoje, 1990
            Centenário da Obra Salesiana em Portugal, Lisboa, 1995
            Os Salesianos em Portugal (1894-1994), Lisboa, 1998
            Oficinas de S. José – Os Salesianos em Lisboa, Lisboa, 1999
            Primeira presença dos Salesianos em Portugal, Lisboa, 2000
            Os Salesianos no colégio de S. Caetano de Braga, Edições Salesianas, 2006
            Nos Primórdios da Obra Salesiana em Portugal, 2007
            Primeira Presença Salesiana em Timor: 1927-1929, 2007
            O Dealbar da Obra Salesiana em Macau, 2007
            Os Salesianos em Moçambique, por Amador Anjos e J. Adolfo Vieira, 2008.

            Foi uma cerimónia singela mas plena de emotividade, que juntou os irmãos da Comunidade Salesiana de Manique, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Joaquim Mendes (salesiano) e alguns dos seus antigos alunos.
            O Padre Amador tem profundas ligações ao concelho de Cascais, pois – embora natural de: Fermentãos, Sendas (Bragança), onde nasceu a 25 de Janeiro de 1919 – foi no Estoril que deu os seus primeiros passos na vida religiosa, de 1937 a 1952, tendo sido professor, de 1957 a 1967, no estudantado filosófico de Manique.
            Tive a honra de ser seu aluno de Literatura Portuguesa no ano lectivo de 1962-1963, no meu 6º ano dos Liceus, e ainda guardo religiosamente as folhas dactilografadas com os exercícios de análise literária que ele, na sua letra miudinha, me corrigiu e anotou, a vermelho.
            Assumo-me como docente e, nesse âmbito, naturalmente, como escritor. Pode dizer-se, por vezes, que uma pessoa nasce isto ou aquilo; eu tenho, porém, a consciência plena de que, se posso assumir-me como ‘escritor’, o devo à minha professora primária, Zulmira Fialho Faria, da então chamada «escola do Ereira», que frequentei de 1951 a 1955, que sempre me incentivou, e aos docentes que tive nas escolas salesianas, entre os quais o Padre Amador dos Anjos assumiu papel preponderante, pelo cuidado que punha em burilar o que eu escrevia. Claro que, no âmbito do jornalismo, tive dois mestres: o João Martinho de Freitas (director do Jornal da Costa do Sol) e, de modo especial, José Júlio de Carvalho, que minuciosamente me revia todos os textos. (E permita-se-me que abra um parêntesis para evocar, neste âmbito, o exemplo de Júlio Correia de Morais; cujo estilo de escrita era, nas suas crónicas, para a época – anos 60 e 70 – verdadeiramente incomparável).
            Voltando ao Padre Amador: já tive ocasião de testemunhar todo o contentamento por, de certo modo, também o acolher na minha Academia, onde entrou de pleno direito. Regozijo-me, como antigo aluno salesiano; e esta homenagem constitui – deve constituir! – também motivo de orgulho para a população cascalense, não só por ter ocorrido no seu território, mas porque o homenageado, ora nele residente, desenvolveu uma actividade pedagógica e cultural intimamente ligada a Cascais, nomeadamente no Estoril e em Manique, como se assinalou.
Professores Manuela Mendonça e Armando Martins
ladeiam o laureado, Padre Amador dos Anjos

Padre Amador dos Anjos, com o colar da Academia
Portuguesa da História e respectivo diploma

O grupo de salesianos e amigos do homenageado,
em «foto de família» no jardim da casa salesiana de Manique

Exemplo da passagem de um exercício escrito meu, de análise literária,
com as correcções, a vermelho, em letra miudinha, do Padre Amador (1962)

                                                                                              José d’Encarnação

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Alecrim ou rosmaninho?

             Puseram-me na frente o prato com aquele requinte ora em uso: pouca comida disposta com elegância, pois sempre se disse que os olhos também comem.
            ‒ Alecrim, disse eu – e apontei o raminho que dava ao prato esse toque de requinte.
            – Rosmaninho – corrigiu o meu amigo italiano.
            E eu, que sempre ouvira falar em alecrim e em rosmaninho como sendo duas ervas aromáticas diferentes, ia armando uma discussão botânica entre os colegas, toda a gente a pegar nos telefones e a aceder ao Google para saber quem tinha razão.
            Pasmei: em italiano, alecrim diz-se «rosmarino»! E, regressado a Portugal, lá tive de recorrer à nossa são-brasense especialista em ervas aromáticas, a Doutora Maria Manuel Valagão: que sim, rosmaninho é uma coisa e alecrim outra! Acontece que só nós é que temos essa diferença vocabular, resultado do nosso ancestral contacto com os Árabes:
            – alecrim vem do árabe «al-iklil» e Lineu chamou-lhe Rosmarinus officinalis»;
            – rosmaninho, ao invés, é de origem latina, «rosmarinus».
            Ficou claro? Não! É que no sábio Dicionário da Academia, por exemplo, na palavra «rosmaninho», declara-se: «Do lat. Rosmarinus ‘alecrim’» e que tem como nome científico, dado por Lineu, «Lavandula Stoechus».
            Ora bolas!... Em que ficamos? No livro «Tradição e Inovação Alimentar» (Colibri, Lisboa, 2008, p. 186), de M. M. Valagão, fala-se na «utilização de rosmaninho ou de alfazema para preparar sobremesas à base de frutas». Pronto: está nova confusão instalada!
            À alfazema também se dá o nome de lavanda, mas da lavanda só se diz que é boa para a perfumaria, utilização comum à alfazema (do árabe «al-khuzāmâ»)!... E para a alfazema escolheu Lineu um outro nome: «Lavandula spica».
            Portanto, uma conclusão é certa: tanto o alecrim como o rosmaninho são… «rosmarini» e… cheiram bem! O resto… os botânicos que se entendam!

                                                           José d’Encarnação
 
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 15.
Moita de alecrim selvagem (alfazema?) numa encosta
perto da aldeia de Dornes (Foto de Ana Júlia)
Moita de alecrim, no Hyde Park, em Londres (Julho de 2017)


Da tirania do inglês

            Diz o Génesis, no capítulo 11, que «em toda a terra, havia somente uma língua e empregavam-se as mesmas palavras»; mas os homens acharam que poderiam construir uma torre até ao céu e assim serem, juntos, mais poderosos. Deus, porém, não achou piada à ambição e confundiu-lhes a linguagem de modo que, daí em diante se não compreendessem uns aos outros.
            Logrou o povo romano ter uma língua quase universal no Ocidente, o Latim, e outra, no Oriente, o Grego. E assim, no continente europeu, o Latim perdurou como língua em que praticamente todos se entendiam durante a Idade Média e ainda no Renascimento os sábios era em Latim que se correspondiam.
            Após a Revolução Francesa, não foram apenas os seus ideais que se propalaram, mas também o seu veículo, a língua. Deste modo, nos primórdios do século XX, as ementas dos hotéis eram em francês e o Francês foi língua dominante da Ciência até à década de 60 do século passado, uma vez que não dera resultado a experiência do Esperanto, promovida por Ludwik Lejzer Zamenhof, em 1887, com a intenção de ‘reconstituir’, de certo modo, essa língua universal que o Criador proibira.
            Vieram os Beatles e, em Junho de 1967, Scott McKenzie proclamava: Be sure to wear flowers in your hair. E com as flores veio a língua, o inglês, que, pela enorme simplicidade da sua gramática e vocabulário («go out», sai, «go in», entra…), paulatinamente se foi substituindo ao francês, de gramática e vocabulário muito mais complexos. E há que confessar que o resultado é louvável, para que, no dia-a-dia, nos entendamos.
            Mas uma coisa é entendermo-nos, outra é obrigarem-nos a entendermo-nos! Uma coisa é eu fazer investigação com os meus parâmetros mentais, o meu vocabulário específico, apropriado às ideias que quero expor, outra é obrigarem-me a usar um vocabulário pobre e a exprimir o resultado da minha investigação numa língua que não é a minha! Obrigar é sinónimo de atitude ditatorial, de que todos há muito abjurámos!
            E se «obrigar» implica também «avaliar», aí temos o caldo entornado! Quando um categorizado texto inovador é mediocremente avaliado pelas entidades académicas governamentais (e outras), só porque não está redigido em inglês, e um texto medíocre é superiormente classificado, só porque está em inglês (não importa se em inglês de computador ou inglês de Harvard) – tem a ‘classe científica’ o direito (e o dever!) de se revoltar contra essa tirania inconcebível.
            Nessa luta estamos, pois! E queremos vencê-la!
 
                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 15.

VilAdentro, uma incómoda proximidade

            Duas palavras me ocorreram de imediato quando o Padre Afonso Cunha teve a gentileza de me solicitar depoimento sobre o significado de uma publicação como o VilAdentro, com 223 números editados ao longo de 19 anos, onde tive a honra de colaborar ininterruptamente desde Abril de 2003, num total, portanto, de 151 «A Retalho», de cujos primeiros 100 acabámos por fazer um livro.
            E essas palavras podem consubstanciar-se na expressão «incómoda proximidade». Milito no jornalismo regional há mais de 50 anos e essa característica constitui para mim o cerne de um jornal local: ele deve estar próximo da comunidade, para eficazmente contribuir para a sua (dela) consolidação; ele deve ser incómodo para que nunca se adormeça sobre os problemas e insistentemente se pugne pela sua solução.
            Assumindo-se como boletim paroquial, VilAdentro foi, no entanto, muito mais do que mero eco de uma ideologia religiosa; foi eco, sim, duma comunidade e cumpre, por isso, agradecer de coração aos dois sacerdotes que, mau grado as naturais adversidades, nunca baixaram os braços em prol de nenhuma nobre causa são-brasense.
            Bem hajam!
                                                     José d’Encarnação   

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 14.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Joaquim Magalhães, o homem

            Hesitei, claro, no título a dar a este ligeiríssimo apontamento, que inicio, confesso, já com alguma emoção. Primeiro, porque tendo privado pouquíssimo com o «homem», foi o suficiente para se ter criado, de repente, quase instantaneamente, uma empatia que não se consegue explicar. Nasce, pronto. E a gente não sabe porquê. Ou, mais tarde vim a descobrir, talvez por havermos pertencido ao mesmo grupo sanguíneo, o O, do dador universal; mais ainda o meu, que sou de Rh negativo.
            Não li ainda o livro, porque acho que vou precisar de um recanto bem aconchegado para nele me embrenhar. Não quero, porém deixar de já lhe fazer referência, depois do abraço grato a Romero Magalhães por ter tido a gentileza de mo fazer chegar às mãos.
            Falo, já se vê, de Joaquim Maglhães, o Homem, o Mestre, o descobridor do Aleixo. Seu filho, o Professor Romero Magalhães, catedrático de Economia na minha Universidade de Coimbra, natural de Loulé (1942), acaba de publicar «Uma Escrita na Primeira Pessoa» (Âncora Editora, Dezembro de 2016), parte da correspondência de seu pai, anotando-a de tal forma que, afinal, podemos dizer que estamos perante não uma obra epistolográfica mas, de certo modo, autobiográfica, porque, através dos seus escritos, penetramos no pensamento e na obra deste professor do Liceu (como antes se dizia), que em Faro viveu boa parte da sua docência.
            Ainda não li o livro. Saboreei, porém, o prelúdio «O dador universal», da autoria de Lídia Jorge, que foi sua aluna. Li a epígrafe, retirada de uma das passagens do livro e que, não duvido, Romero Magalhães escolheu, por lhe parecer que resumia, à perfeição, o que fora a personalidade de seu pai:
 
            «… é de pura divulgação o meu trabalho aqui [em Faro].
            Não passo de um “intérprete”, de um intermediário com vontade de ser um “despertador”. E, muitas vezes, me interrogo sobre a utilidade de uma tal acção. Em geral, suponho-a positiva e é essa suposição que por agora me vai mantendo».

            São 172 trechos (digamos assim), alinhados cronologicamente, que Romero Magalhães mui habilmente entendeu como uma composição musical e, por isso, os dividiu em andamentos: abertura, allegro, andante, largo e «grand finale».
            Naturalmente, havemos de voltar ao livro. Tem que ser!

                                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 248, 20-07-2017, p. 11.

A última palavra d’Os Lusíadas!

            Há largos anos atrás, após a entrevista com o responsável por uma florescente Unidade de Oncologia, por todos muito apreciada, dado o imenso carinho posto pela equipa no atendimento dos doentes, perguntei-lhe, já de microfone fechado, por que razão não recebia maior apoio oficial. Retorquiu-me:
            – Sabe qual é a última palavra d’Os Lusíadas?
            Por sinal, assim de repente, a pergunta à queima-roupa apanhou-me desprevenido e não soube responder de imediato.
            – Inveja! – disse o meu interlocutor.
            Estava tudo explicado!...
            Ando a arrumar os meus papéis. 50 e tal anos de jornalismo e de actividade lectiva nas áreas de Epigrafia, Arqueologia, Património, Comunicação Social e Turismo fizeram com que fosse ajuntando recortes, folhetos, opúsculos, convites e tanto outro material, naquela ideia que se tem: «Quando me jubilar – nessa altura, eu ainda pensava que me jubilaria… – ponho ordem nisto tudo e tenho aqui material para longa série de crónicas, artigos, reflexões…
            Verifico, agora, que não é bem assim; mas a selecção impunha-se e muito material acumulado vai sendo distribuído por instituições, onde será mais útil do que a mim ou aos meus filhos e netos.
            Ocorreu-me, porém, essa tal última palavra do nosso poema épico, quando deparei com o convite endereçado ao chefe de redacção de um jornal (que eu guardara como recordação sua) para ir saborear um almoço de lampreia e dele fazer a respectiva reportagem. E não pude conter um sorriso! É que, no interior do sobrescrito, estavam um cartão de visita, uma foto para eventual publicação e a «informação à imprensa»; e, no exterior, escrita a negro e em diagonal, rubricada pelo director, a seguinte mensagem:
            «Sim, senhor!
            Vá comer o almoço, mas, para eles aprenderem, não virá uma linha a este respeito. O. K!».
            O almoço foi a 8 de Março de 1987, ou seja, o 25 de Abril já ocorrera há anos!
            O chefe de redacção confidenciou-me, depois, recordo-me, que o almoço fora uma delícia; mas, claro, ordens são ordens e… sobre isso não se escreveu uma linha!
            As «coisas» que a gente reencontra, ao remexer em papéis antigos!...

                                    José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 712, 15 de Julho de 2017, p. 11.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

«Igualdade e Fraternidade dissolveram-se nas penumbras da utopia…»

           No cartão manuscrito que acompanhava o nº 60 (Março de 2017) da revista Egoísta, escrevia-me Mário Assis Ferreira:
            «Política, mais do que Ciência, é a Arte de governar um Estado. Idealmente, sob as vestes da Democracia Representativa. Distante, é certo, dos Ideais da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Salvou-se a Liberdade! Igualdade e Fraternidade dissolveram-se nas penumbras da utopia… Fruamos, pois, essa preciosa dádiva da Liberdade».
            Política constitui, pois, o tema desse nº 60, que é – repito – datada de Março e preparada, portanto, quando ainda se estava no rescaldo da tomada de posse, a 20 de Janeiro, de Donald Trump, e ainda não houvera incêndios nem armas desviadas... Por isso, o título, em latim, consigna quase um lema, «Pro Patria omnia», a recordar frase amiúde afixada em símbolos de instituições de cariz policial ou militar.

            Outro é, porém, o tom inicial da revista, que abre com enorme desdobrável a mostrar o exterior do Palácio de S. Bento numa aparente ruína, prenunciando, na janela da página 1, o título «Política e ilusão», nota de abertura invulgarmente longa da autoria do próprio director da revista, que pergunta, no final, se, um dia, a razão prevalecerá sobre a utopia e confessa ter a ideia de que nessa nova Ordem Mundial que se vislumbra há uma «prática política» sem horizonte e que não vem em nenhum dicionário disponível, porque… «há quem lhe chame ILUSIONISMO!».

            Antes mesmo de nos debruçarmos serenamente sobre os textos e ilustrações que compõem as 152 páginas da revista, um simples relancear de olhos sobre o seu conteúdo será, porventura, susceptível de nos arrepiar tanto como dar-nos conta de demissões através de um simples telefonema do género da carta que vem transcrita na pág. 6: «It’s our pleasure to inform you that, from this date, your services as President are no longer needed». Temos muito prazer em informá-lo de que, a partir de agora, já não precisamos mais de si!

            Vamos, então, a alguns dos títulos: o último discurso de Michelle Obama; «as cinzas de Fidel» (João Pina); «Never before (como ele diria)», de Paulo Portas; «A Política que se rende» (Daniel Oliveira); «A política é o mais altruísta dos egoísmos» (Adolfo Mesquita Nunes); «No hate, no fear. Immigrants are welcome here», ‘Não se aborreçam, não tenham medo, os imigrantes são cá bem-vindos’ (eloquente conjunto de fotografias de Ashley Comer); «Política, je t’aime moi non plus» (de Maria Manuel Viana, em que cada palavra do título esconde uma citação célebre); «O voto secreto» (José Luís Peixoto) …

            Duma eloquência atroz os cartazes da colecção «Ne boltai!» das páginas 100 a 104. E duas cartas, do teor da atrás citada, também assinadas pelo «Povo», aparecem inopinadamente na revista: uma, também em inglês, a dispensar os serviços do primeiro-ministro (já!), e outra (p. 54), datada de 13 Janeiro de 2018 [sic], demite o presidente do Brasil, onde se declara, a dado passo:

            «Quando a carreira política de Vossa Excelência iniciou, seus bolsos estavam vazios e o povo brasileiro tinha esperança.

            Hoje, todo o mundo caçoa […] e Vossa Excelência é o único rindo. Tomando banho de piscina.

            Não se preocupe. Não vai precisar mais trabalhar.

            Aproveite sua aposentadoria».

            Eu pus […], mas nas cartas não há reticências: há risco por cima das palavras com caneta de feltro negra.

            Patrícia Reis entrevistou António Costa, uma entrevista semeada de fotografias sorridentes. Aliás, Patrícia confessa que se acordara previamente que «seria uma conversa mais ampla, mais intemporal», sem «a Caixa, offshores, SMS, ministros fragilizados»… António Costa «estava bem disposto».

            Sob o «je» do título de Maria Manuel Viana a citação é do francês J. Michelet:

            «Qual a primeira parte da política? A educação. A segunda? A educação. E a terceira? A educação».

            Estamos conversados.

                                                                       José d’Encarnação


Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 195, 12-07-2017, p. 6.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Vestígios de tremoços?

             São pitorescos, no Alentejo, os campos amarelos de tremoceiro. Admirei-me, há uns 40 anos, quando vi, pela primeira vez, na Barrinha da Praia de Mira, uns estranhos sacos cheios – eu não sabia de quê! – deitados no fundo.
– É tremoço! – explicaram-me.
Na verdade, depois de colhido seco, o tremoço deve ser cozido e tem de passar uma temporada mais ou menos longa dentro de água (corrente ou mudada com frequência), até perder o amargo original e os alcalóides (prejudiciais à saúde) e também para ganhar macieza e aquele típico sabor levemente agridoce, que tão bem acompanha uma cervejinha borbulhante e fresca.
Recebi, há tempos, uma mensagem acerca dos benefícios do tremoço. Desconhecia-os por completo e, por isso, de vez em quando, compro uma mancheia à do Paulo, empresto-lhes um tempero de ervas à minha maneira e regalo-me, eu e os meus netos, porque, rezava a mensagem, o tremoço é «uma das principais fontes vegetais de proteína existentes» e a elevada presença de fibra permite-lhe «ter um papel activo na regulação do colesterol e glicemia e ainda na regulação e protecção da flora intestinal, também devido à elevada presença de fitoquímicos».
E eu, que, homem do Sul, já gostava de tremoços, fiquei a gostar ainda mais! 
Qual não foi, porém, o meu espanto quando, ao ler os ingredientes constantes de uma das embalagens de pronto-a-comer que compro na Cozinha com Alma, me salta à vista que «pode conter vestígios de crustáceos, peixe, amendoins, frutos de casca rija, aipo, mostarda, tremoço, moluscos».
Como é? Um singelo prato que, à primeira vista, nada teria a ver com tremoços, poderia ter vestígios deles?
E mais espantado ainda fiquei quando me foi servida a refeição no avião da TAP: um «pão de cereais com peito de frango, maionese, pickles, rúcula e orégãos». Achei bem o pão de cereais, saudável, e o uso, cada vez mais apreciado, de rúcula e dos orégãos (agora, finalmente, descobertos…). Então não é que também ali vinha a informação, em maiúsculas: PODE CONTER VESTÍGIOS DE CRUSTÁCEOS, PEIXE, AMENDOINS, FRUTOS DE CASCA RIJA, AIPO, MOSTARDA, TREMOÇO, MOLUSCOS?
Fiquei banzado. E fui estudar: trata-se de uma determinação do Regulamento nº 1169/2011 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 25 de Outubro. De facto, assim, se, no pão, encontramos um tremoço, não podemos reclamar – estávamos previamente avisados! Não seria um tremoço inteiro, mas vestígios; em todo o caso…tremoço!

                                                            José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 711, 1 de Julho de 2017, p. 11.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Uma catadupa de emoções

             Não me refiro ao gigantesco incêndio que devorou vidas de pessoas e de animais e destruiu habituações no Centro do País e que a todos dolorosamente emocionou. Desse muito já se falou e continuará a falar. Permita-se-me, pois, que escreva sobre factos mais comezinhos, de aqui ao pé de nós, susceptíveis também de nos despertar emoção.

Povo
            Começo pela sardinhada que a Junta de Freguesia de Cascais (eu sei que se chama outra coisa, mas, como não concordo, fica assim) ofereceu no Centro de Dia da Areia, quinta-feira, dia 22. Toda uma emoção o povo a confraternizar, sem etiquetas, em torno de um bom prato de excelentes sardinhas, sangria, batatas cozidas, salada a condizer. Foi bonito de ver como aquele enorme punhado de jovens voluntários a todos serviu, prontamente, de sorriso nos lábios. Gostámos de ouvir a Ermelinda Cardoso declamara aquele poema em louvor de Cascais, de que ela tanto gosta (como que a reviver antigos tempos do Grupo Cénico…); o Toy, como alguém dizia, que lança os foguetes e corre a apanhar as canas... Foi bonito de ver a marcha do Centro de Dia do Bairro do Rosário. Povo que é Povo nunca esmorece e confraterniza hoje como se o mundo fosse acabar amanhã. Estiveram autarcas, houve discursos de ocasião; mas a emoção de estarmos juntos, os velhos e os menos velhos, a tudo acabou por suplantar, num clima sem igual!

«Santos no pátio»
Santo António a pregar aos peixes...
Nossas Senhoras e, na parede, as fotografias das autoras
Santo António teve direito a quadras e a lugar de muito relevo
            Na sexta-feira, outra vez o pessoal da chamada 3ª idade a dar cartas, a dizer que está ali prás curvas, que a vida são dois dias e que há sempre motivos para a alegria nos inundar. Os utentes dos centros de dia da Santa Casa da Misericórdia vieram mostrar, na sala que dá para o pátio interior da Rua da Saudade, o resultado de muitas horas de ocupação: inúmeras imagens de Santo António, por exemplo, para todos os gostos e quadras populares. E cantou-se. E proclamou-se bem alto que «velhos são os trapos!» e que só não se ocupa quem não quer, só não se mexe quem prefere lamuriar-se pelos cantos, num encostar-se às paredes…

Maria do Céu Guerra
Maria do Céu Guerra: ao vivo, em fotografia e em busto
Maria do Céu Guerra, agradece, emocionada
e recordou os primeiros tempos do TEC
            No Espaço TEC, uma nova exposição, devida, de modo especial, ao talento de João Vasco, que, infelizmente, já pouco pode movimentar-se e se vê forçado ao conchego do lar, mas nós sempre a pensarmos nele. Homenageou-se, desta feita, Maria do Céu Guerra. Dei-lhe, claro, aquele abraço sentido, duma Amizade que dura há tantos anos quantos o Teatro Experimental de Cascais tem. Carlos Avilez recordou, com emoção (que se me perdoe a repetição, mas é que foi mesmo assim!), os primeiros tempos, no Gil Vicente. E eu lembrei-me que íamos, com o Correia de Morais, no final dos ensaios, buscar a Céu e demandávamos o Estribinho ou, mais perto, o Luisiana Jazz Clube do Villas Boas (ao fundo da José Florindo de Oliveira). Emocionámo-nos, claro, ao evocar esses difíceis anos 60, a Esopaida (a 1ª peça que ousadamente se levou à cena), as cumplicidades, as constantes ameaças da Censura… E sublinhou-se insistentemente o imprescindível papel que o Teatro ocupa na sociedade. Emocionante, o testemunho de um dos ex-alunos da Escola Profissional de Teatro.
            Homenagem muito digna a uma grande Actriz que, sem alardes, vai seguindo o seu caminho, numa ternura imensa, que tão bem retratada está, por exemplo, no filme Os gatos não têm vertigens, recentemente passado de novo na televisão, após o êxito que teve nas salas de cinema. A Céu é assim: uma doçura, uma actriz de corpo inteiro, que Cascais e o seu Teatro Experimental tiveram o privilégio de ver dar os primeiros passos, em companhia do João Vasco, do Carlos Avilez, do saudoso Santos Manuel…

Concerto de Verão
            E, a concluir as emoções da semana, o Concerto de Verão no Boa Nova.
            Nicolay Lalov dirigiu com o rigor que lhe é reconhecido a Sinfónica de Cascais. Escolheu desta vez o jazz como tema: Cole Porter («Salute para orquestra»); Leonard Bernstein, West Side Story, com a soprano Zita Milene e o tenor Diogo Pinto; de George Gershwin, «Porgy and Bess Suite» e, a preencher toda a segunda parte, a fabulosa «Um Americano em Paris», que nos emocionou e via-se bem que emocionou também os músicos, naquele impressionante bailado de braços a que os instrumentos de corda (mormente os violinos) em tais circunstâncias obrigam.

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 193, 28-06-2017, p. 6.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Os fogos e a comunicação

            Permita-se-me que, perante o facto – hoje confirmado – de ter havido falta de comunicação e esse ter sido um problema nos fogos que atingiram o Centro do País, problema que pode pôr-se também em caso de inundações ou de tremores de terra, ponha à consideração o seguinte: a importância das rádios locais!
            Em meu entender, todas as pessoas de uma região deveriam saber o contacto da ‘sua’ rádio local, porque será ela que, em tais emergências, por melhor conhecer o terreno, pode dar as informações mais ajustadas.
            Para isso, há que providenciar dois equipamentos, pelo facto de, amiúde, faltar a electricidade e as antenas de telecomunicações também avariarem: urge fazer uma campanha para que haja em cada casa um pequeno transístor (que funciona a pilhas, como se sabe) e que cada emissor de rádio local seja provido de um pequeno gerador autónomo de energia eléctrica, para poder continuar a funcionar, mesmo quando a rede eléctrica for abaixo.
            Assim as rádios locais cumpririam com maior eficácia a sua função de criar comunidade e fomentar a necessária solidariedade entre as populações que servem.
                                                                       
                                                                        José d’Encarnação

sábado, 24 de junho de 2017

As eternas e sugestivas rivalidades!

Entre povoações vizinhas
            Rivalidades entre povoações vizinhas sempre as houve.
            Poderíamos encher páginas e páginas a contá-las de Norte a Sul do País.
            Janes criou, em 1938, a Sociedade de Instrução e Recreio de Janes e Malveira «com o objectivo de instruir, beneficiar e recrear os associados»? Pois em 15 de Fevereiro de 1941 funda-se, do outro lado da estrada, a Sociedade Familiar e Recreativa da Malveira da Serra. Janes prepara corso carnavalesco? Malveira também tem! Faro tem um clube de futebol a preceito? Olhão também tem de ter! E a rivalidade entre os dois clubes foi sempre acirrada. Como entre o Benfica e o Sporting. Como entre Guimarães e Vizela… Tantos, tantos!...

Entre Cascais e Lisboa
            Cascais também sempre quis rivalizar com Lisboa. Ou melhor, Lisboa sempre quis rivalizar com Cascais, ciumenta desde que os reis começaram a vir aqui passar férias e, com eles, a burguesia e a alta finança. Um espinho atravessado, desde finais do século passado, na garganta dos mandantes alfacinhas…
            No entanto, como, apesar de tudo, Lisboa é cidade e é a capital e a sede oficial do governo (ainda que muitos governantes habitem em Cascais, essa é que é essa!...), manda quem pode e, por exemplo, quando se viu que o turismo, em que Cascais foi pioneiro (e esse palmarés venha o primeiro a negá-lo!), era fecunda fonte de riqueza, logo Lisboa pensou em liquidar a Junta de Turismo da Costa do Estoril e procurar também obter «mais adequada» partilha dos dinheiros provenientes da concessão da chamada Zona de Jogo… E ‘atirou’ ali para as bandas do Ribatejo a sede de decisão da política turística para estas paragens. Se já se viu
            Eu até nem sei muito bem onde é; mas Junta de Turismo acabou e as questões turísticas do concelho de Cascais – se os presidentes do Município se não impuserem – vão continuar a ser decididas lá longe, por quem, eventualmente, até nem sabe que há grutas pré-históricas em Alapraia, um dos ai-jesus da Junta de Turismo durante os (já longínquos) anos 60.
            Pouco antes do 25 de Abril, houve, até, discussão acalorada: que Costa do Estoril não tinha sentido como designação: o que seria bom era Costa de Lisboa e até os arautos dessa teoria se apressaram a mandar fazer milhares de pastas com a nova designação, pastas de que – pecador que confessa é perdoado… – acabei por ser eu o único beneficiário, porque as logrei recuperar do lixo!...

Universidade – uma eterna rivalidade cascalense
            Pronto, as rivalidades do hóquei – de mui saudosa memória (olá, Padre Miguel!...) – também se esvaíram, a partir do momento em que esse deixou de ser, na «linha», o desporto de eleição do Cascais, do Parede, do Carcavelos, da Juventude Salesiana…
            Agora, a rivalidade é outra: uma Universidade! Cascais não é verdadeiramente Cascais se não tiver uma Universidade! Pode ser de Saúde, de Tecnologia de Ponta, de Astronáutica, de… qualquer coisa! Mas Universidade tem de ter, dê por onde der!
            Nunca me meteria, confesso, a fazer uma crónica sobre este tema, eu, que sou catedrático aposentado de Coimbra, se – ao arrumar os meus papéis – me não tivesse caído de uma das pastas documentação curiosa, que passo a referir.
            Em carta que me foi dirigida, na qualidade (então) de presidente da Associação Cultural de Cascais, o Prof. Doutor Afonso de Barros, na sua qualidade de «presidente da Comissão Instaladora» da Universidade de Cascais, convidava-me a estar presente na sessão de apresentação desse projecto, a realizar no Dia do Município de 1994, 7 de Junho.
            Promotora do projecto? A «EIA – Ensino, Investigação e Administração, S. A., constituída por Professores Universitários, Investigadores Científicos e Quadros Superiores, associados ao Grupo Caixa Geral de Depósitos, ao Montepio Geral ao Entreposto, e ao Banco Português de Investimento», «à Coba e à Ensinus, com a participação da Câmara Municipal de Cascais».
            Propósito: «na fase inicial, formar licenciados em Gestão de Sistemas e Informação, Gestão e Estratégia, Gestão Territorial e Urbana e Gestão do Ambiente», a começar já no ano lectivo de 1994-1995.
            Da Comissão Instaladora, presidida, como se escreveu, pelo Prof. Catedrático Afonso de Barros, faziam parte 9 personalidades, entre as quais Ana Benavente, João Paulo Monteiro (catedrático), João de Pina Cabral (investigador principal) e Joaquim Pina Moura (em representação da C. M. Cascais). Entre os consultores científicos, chamaram-me a atenção os nomes de João Ferreira do Amaral (do ISEG) e João Salgueiro (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), que seria o Presidente da Assembleia Geral, tendo como vice-presidente o Dr. Artur Santos Silva.
            E pronto. Está a notícia feita.
            Quer o leitor nomes mais sonantes? Quer cursos mais ajustados às necessidades do dia-a-dia cascalense do que «Gestão Territorial e Urbana» ou «Gestão do Ambiente»? Não, não é possível.
            ‒ Então e cadê a «Universidade de Cascais»?
            ‒ Sumiu!
            ‒ E essa tal de EIA sumiu também?
            ‒ Ná, não sumiu! Ponha o amigo «E. I. A. – Ensino, Investigação e Administração» no Google e fica a saber da marosca (passe o termo!). É que, neste caso, outra rivalidade funcionou: a de Oeiras!
            Pois é! Não houve Universidade de Cascais, mas houve a Universidade Atlântica, sediada em Barcarena, nas instalações da antiga Fábrica da Pólvora! Cascais, à falta de trunfos, perdeu a rodada!...
            Vencido, mas não convencido! E «Universidade» continua a ser palavra saborosa que mui frequentemente se badala. A ‘internacionalíssima’ a instalar em Carcavelos, por exemplo. E até já se aventou que as decrépitas estruturas do antigo Hospital dos Condes de Castro Guimarães, no coração da vila, poderiam vir a anichar pólo de Medicina da Universidade Católica!...
            Bem fez a Delegação da Cruz Vermelha: nada de universidades! Uma Academia Sénior é o que é! E estão-lhe a abarrotar ambas as secções. Qualquer dia, tiram-lhe o Sénior e põem «Academia da Experiência» ou, mais ao jeito do facebook, «Academia da Partilha dos Saberes». Nesse domínio, as rivalidades não contam: dão ainda mais ânimo a continuar!

                                                                       José d’Encarnação

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A ciência da espera

            A aeronave saiu da zona de embarque passavam já minutos após a hora anunciada para o início do voo. Entrou na fila de espera. Descia um avião ou dois e outro se fazia à pista. Os motores começaram a acelerar forte para a descolagem 27 minutos após a partida programada. Certamente recuperará no ar do atraso sofrido, pensei eu; mas decerto também no aeroporto de chegada haverá fila (estão estipulados horários precisos para o movimento de chegadas e partidas) e poderemos chegar pontualmente ou não. Também isso pouco interessa e não serei eu que vou ter com o comandante a dizer-lhe que vá mais depressa ou mais devagar. Para já, abaixo de nós um manto compacto de nuvens brancas, que não nos deixam ver o chão, por cima, é o azul do céu límpido. Ficou para trás a foz do Tejo, cheia de línguas de terra, alagadas umas, cultivadas (ao que parece) outras e até numa há o que eu chamaria de monte, se não estivesse em pleno por cima do Ribatejo e não no Alentejo.
            E dei comigo a meditar: são imprescindíveis, por intrínsecas razões de segurança, estas esperas na pista do aeroporto. Ai de nós se as não houvera! Mas, no dia-a-dia, não tem a espera uma conotação sempre negativa, prenhe amiúde de mui escusada ansiedade? Espera-se pelo autocarro, que vem atrasado; espera-se pela consulta médica, que raramente é a horas e que, aliás, já foi marcada há muito. Espera a mãe pelo nascimento do filho: após os sete meses, se não antes, outro não é o pensamento habitual: se virá bem, se será prematuro, se dá pontapés simpáticos…
            Pronto. Afinal, precisei de chegar aos 72, para me consciencializar que a espera é uma ciência; desesperar não adianta e, também aqui, a serenidade deve imperar.
Neves... eternas? Ou também elas,
tranquilamente, à espera de um sol
mais quente, que, um dia, virá?...
            A 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong baptizou a região da Lua onde pousou com o nome de Mar da Tranquilidade. Acho que fez muito bem e, se não foi sua intenção ensinar-nos que lá, a quase 400 000 quilómetros da Terra, é a Tranquilidade que impera, bem poderia tê-lo dito e, sobretudo, para nos ajudar a ter por lema a vontade de bem saborear o presente, o único que nos é proporcionado para viver.
Assim, eu, agora, com duas horas e meia pela frente. Sim, uma já passou e nem dei por isso! Envolto no mecânico e ‒ felizmente! ‒ monótono trabalhar dos reactores, vejo a neve a rendilhar de brancura as agrestes e inacessíveis reentrâncias dos Pirinéus. Também ela espera, paciente, que o Sol caloroso a venha afagar. Será um beijo mortal; mas é boa a imagem da vida! Que a espera, afinal, acaba por ser vivificante!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 710, 15 de Junho de 2017, p. 11.