sábado, 18 de novembro de 2017

Crianças em Portugal - A luz e as sombras

            O tema «crianças» é, mui provavelmente, um dos que mais obriga a ter em conta a componente geográfica, inclusive num espaço bem delimitado como o território português: o contexto urbano e o contexto rural.
            Por outro lado, os novos paradigmas socioeconómicos e culturais da década de 60, a nível europeu, que, entre nós, os ideais de Revolução do 25 de Abril prontamente aceitaram, alteraram substancialmente a vida familiar, como célula (queiramos ou não) da sociedade.
            Assim, pouco a pouco se desmoronou a família alargada, saudável convívio de gerações, que mutuamente se influenciavam, mormente na transmissão de saberes – de avós a filhos e netos. As novas exigências económicas (leia-se: o desmesurado aumento do consumismo) e o exercício simultâneo de uma profissão fora de casa tanto dos pais como de avós (homens e mulheres) determinaram que a Escola passasse a ser o espaço primordial da aprendizagem da vida em sociedade. A omnipresença da televisão – quer com programação infantil específica quer porque os programas de maior interesse para os adultos passam à hora das refeições – provocou drástica diminuição do diálogo intergeracional. Recordo que, um dia, meu filho Pedro, já adulto, me disse que o que mais recordava como enternecedor da sua meninice eram os momentos em que eu lhe pegava ao colo. Compreendi o alcance da observação, até porque esse é também o mimo preferido dos gatos e – caso curioso! – os pais facilmente cedem o colo ao seu gatinho de estimação, mesmo enquanto vêem as novidades no smartphone, e nem sequer se apercebem de que também ao filhote pequeno agradaria esse aconchego…
            Nos ambientes rurais, em que o espírito de comunidade e de vizinhança se mantém, ainda as crianças vêm para a rua brincar (jogar à bola, às escondidas, à apanhada…), o que constitui boa aprendizagem de convivência. Nos ambientes urbanos – em que mais se faz sentir também a «ditadura» da propaganda consumista (o menino calça ténis de marca, usa mochila com os heróis da banda desenhada do momento…) e maior é a insegurança – até os programas televisivos infantis estão a ser substituídos pelas infinitas possibilidades que o tablet oferece e os próprios pais passam mais tempo nas redes sociais do que a preocupar-se com a vida real, a das pessoas que estão a seu lado. Têm corrido mundo imagens de amigos e famílias inteiras que, estando juntos, não olham sequer uns para os outros, tão embrenhados estão na veloz sucessão de notícias ao alcance do simples deslizar de um dedo…
            Rapidamente, as crianças aprendem a mexer nos aparelhos, com uma facilidade que deixa os adultos estupefactos e, amiúde, preocupados também (as crianças passam de um programa para outro, normalmente protagonizados por violentos super-heróis, dotados de super-poderes, onde matar o inimigo é o objectivo principal…), ainda que, mesmo a nível escolar, o computador e o tablet estejam a ser opção educativa de vulto.
            Contra o inegável perigo do exacerbado individualismo e da progressiva perda de identidade cultural – de que todos estamos, de facto, a tomar clara consciência – as entidades públicas locais não hesitam em criar parques infantis, em proporcionar espaços verdes para a prática desportiva de novos e de menos novos, em preparar estruturas apetecíveis para que as famílias ou grupos de amigos aí possam piquenicar e relaxar.
            De consequências nada saudáveis do ponto de vista psicológico é a atrás referida perda de identidade. Ou seja, importa que a criança volte a sentir-se membro de uma comunidade, cujas raízes deve conhecer. Não há necessidade, obviamente, de explicitar noções de ‘património’, ‘beni culturali’, ‘heritage’… Tal consciencialização está bem patente em iniciativas ( de escolas ou de bibliotecas, por exemplo) como a «hora do conto», a ida de avós às turmas para narrarem as suas experiências e histórias, o regresso à prática dos jogos tradicionais...
            Outras das preocupações a que, felizmente, se está a dar muita atenção é a saúde. Aumentou substancialmente a natalidade. Diminuiu drasticamente o número de mortes prematuras e mesmo de nados mortos: amiúde se noticiam verdadeiros «milagres» de sobrevivência pós-parto em condições assaz difíceis. E estão a diagnosticar-se mais precocemente doenças que, até há pouco, só em idade adulta se revelavam: anomalias auditivas ou visuais, síndrome de asperger e todo o cortejo de deficiências psíquicas que implicam tratamento específico e para as quais se estão a concretizar acções com êxito em contexto escolar, inclusive em estabelecimentos especializados como as CERCI – Cooperativas de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades, largamente acarinhadas pela população em geral.
            Um panorama risonho, este? Perfumada rosa isenta de espinhos?
            Não. Um quadro tem necessariamente luz e sombras e estas acabam por realçar aquela. E, neste âmbito, há, de facto, sombras que me preocupam:
a)      a facilidade com que, por motivos fúteis, se contraem e se desfazem matrimónios, não se acautelando devidamente o equilíbrio psíquico dos filhos;
b)      a impossibilidade prática – por razões de segurança – de as crianças irem e virem sozinhas da Escola, a pé ou mesmo utilizando transportes públicos;
c)      as notícias, que já são mais frequentes, de maus tratos e mesmo de cruéis assassinatos em ambiente familiar ou do bullying em ambiente escolar;
d)     as enormes peias burocráticas que envolvem os processos de adopção, a que (suspeita-se) não serão alheios, em alguns casos, esquemas de corrupção;
e)      a pressa com que usam os tablets, em rápido movimento digital, pressa que fomenta a distracção, o passar pelas «coisas» sem as ver, a falta de reflexão, pressa de que os próprios adultos dão exemplo (veja-se nos transportes públicos…).
 
            Portugal não será, nestes aspectos, diferente dos demais países europeus. Parar de vez em quando, para vermos melhor as nossas crianças constitui, por isso, mui salutar exercício. E esse, agora, tivemos oportunidade de fazer.
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Portugal-Post (Correio luso-hanseático) [Hamburgo], nº 62, Novembro de 2017, p. 28-31
A brincar à roda

A jogar à bola

A jogar ao pião


A brincar na praia
        Fotografias dos azulejos que ornamentam a zona que dá para o jardim do «Casal de Monserrate» (primitiva casa do engenheiro Álvaro de Sousa), onde hoje funciona o Centro de Dia Engº Álvaro de Sousa. Agradeço à sua directora, a Dra. Graça Fernandes, a possibilidade de os reproduzir.

Os 30 anos da AMI

            Raro será quem não conheça a Fundação Assistência Médica Internacional, que o Prof. Doutor Fernando Nobre mui auspiciosamente fundou há 30 anos, sempre apoiado pela esposa, Luísa Nemésio, e demais família. No passado sábado, dia 11, houve jantar comemorativo na emblemática Casa Seixas, em Cascais, concelho onde a AMI tem, na Torre, o Centro Porta Amiga, e onde passará a ter, daqui a algum tempo, a sua sede.
            Reuniu o jantar pouco mais de uma centena de pessoas, entre convidados e voluntários, e foi pretexto não apenas para confraternização entre todos mas também para Fernando Nobre evocar, em linhas gerais, o que foram esses 30 anos de serviço em prol dos mais desfavorecidos, nomeadamente em ocasiões de catástrofes, em 82 países dos vários continentes, sobretudo de África e da Ásia.
            Passaram já pela AMI cerca de 800 voluntários, de 30 nacionalidades, e foi precisamente a excelência do trabalho voluntário que mais encómios mereceu no decorrer do jantar.
            Entre os convidados, o Dr. Fernando Nogueira, que, enquanto ministro, dispensou à AMI a maior dedicação; e altas patentes dos três ramos das Forças Armadas, alguns dos quais Fernando Nobre teve ensejo de obsequiar com a medalha da AMI, enquanto salientava o empenho manifestado por cada um nesta nobre causa humanitária.
            Para além do emblema da AMI, os convidados foram obsequiados com um saco em que se encontravam:
            ‒ O folheto ‘AMI aventura solidária’, com o convite «faça uma viagem diferente nas suas próximas férias»: uma ida a Milagres, no Ceará brasileiro, ou à ilha de Bolama, na Guiné, ou, ainda, a Réfane, no Senegal («o país dos embondeiros»); uma forma de «contribuir para um diálogo singular entre diferentes culturas e a aproximação entre populações».
            ‒ O opúsculo «A missão continua», que dá conta, em mui breves linhas, da actuação da AMI, referindo-se que, «consciente da realidade vivida em Portugal, a AMI alargou a sua área de actuação, visando minimizar os efeitos dos fenómenos da pobreza e da exclusão social em território nacional», de que são prova os 9 Centros Porta Amiga, os 2 Abrigos Nocturnos, as 2 Equipas de Rua, o Serviço de Apoio Domiciliário (em Lisboa) e 2 pólos de recepção de alimentos (em Lisboa e Porto).
            ‒ O nº 68 (2º trimestre de 2017) de «AMI notícias», em que merecem destaque a dinamização que a AMI empreendeu no Bairro das Olaias, em Lisboa; os 24 anos de presença no Brasil; uma sentida nota de reportagem sobre o que foi 1 a 19ª edição do Prémio AMI que visa galardoar os trabalhos de jornalismo em que o motivo seja ‘lutar contra a indiferença’.
            ‒ Finalmente, o magnífico livro, 2º volume de «Histórias para não Adormecer», de 170 páginas, brilhantemente ilustrado por Gisela Miravent Tavares – «sensíveis, maravilhosas, ajustadas e numerosas», assim, no prefácio, classifica Fernando Nobre essas ilustrações –, livro que contém 56 histórias verídicas contadas na 1ª pessoa pelos seus protagonistas, voluntários da AMI. Histórias passadas em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Honduras, Índia, Irão, Iraque, Líbano, Moçambique, Papua, Portugal, Republica Democrática do Congo, Ruanda, São Tomé e Príncipe e Timor. Relatos a merecer a maior atenção, porque se prendem com a face obscura de uma Humanidade que, em demasiados locais, se mostra de uma desumana e inconcebível crueldade atroz, a que vem contrapor-se a abnegação de muitos, em tarefa ingente e dolorosa. Transcrevo apenas o início do depoimento de Jorge Andrade, «Os cantoneiros da fome»:
            «Quando vivi o momento que relato, tinha já fixado algumas das imagens que caracterizam a miséria do povo angolano: a pobreza extrema dos deslocados de guerra, a tristeza do olhar das crianças subnutridas, a desesperança dos estropiados pelas minas, a fome dos meninos de rua de Luanda. Não vou esquecê-las nunca» (p. 26).

 

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 211, 15-11-2017, p. 6.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Aquele estranho encantamento…

            Na Faculdade de Letras de Lisboa, falava D. Fernando de Almeida, com imensa ternura, do que era, nesse já longínquo ano lectivo de 1965-1966, a sua actividade em Idanha-a-Velha. Sabia que era capaz de se meter no carro sempre que de lá chegava notícia de achado fora do comum. A mim encantavam-me tantas inscrições e, de modo especial, uma, a dedicada a Igaedus, divindade protectora do que, em tempo dos Romanos, fora a civitas Igaeditanorum.
            Encontrara-se a inscrição não muito longe da capela – de grande devoção das gentes raianas – em honra da Senhora da Almortão. Exacto, essa a que a gente canta ao som ímpar do adufe. Teria vindo a Senhora substituir o pré-romano Igaedus, cujo culto também os Romanos fizeram questão de respeitar? Ainda tenho cópia do trabalho prático que fiz, em Maio de 1969, juntamente com Joaquina Salgueiro da Silva, para a cadeira de História da Cultura Portuguesa, regida pelo incomparável Vitorino Nemésio, a que demos o título de «Continuidade cultural e romarias (A Senhora do Almortão)».
            Encanta-me Idanha-a-Velha, assim aninhada a lavar-se no Ponsul, sob a vigilância, mais além, do Monsanto altaneiro. E por entre imaginado chocalhar de rebanhos, o adufe. Adufe que é também – e excelentemente – o nome que o Município de Idanha-a-Nova quis dar à sua revista cultural anual. Acabo de ser obsequiado com o nº 25, de 2017 (e tenho a colecção completa!). Em versão bilingue (Português e Inglês), são 144 páginas que também elas me encantam, pelo saber nelas derramado acerca das gentes e das paisagens de Idanha. Ao som do adufe se concretizou a presença portuguesa na Feira de Natal de Estrasburgo, pelas mãos de Fernanda Gabriel, natural de Monsanto e correspondente da RTP naquela cidade. E acredito que também será com esse ritmo por fundo que Stephan Doeblin trata das sementes vivas no Ladoeiro, que Luís Paixão Martins rege o Clube de Tiro de Monfortinho, Licínia Gaspar, de pá de forno em riste, leveda e coze tradicionalmente o pão em Penha Garcia e Henrique Raposo trata dos cogumelos, a que, aliás, mais umas páginas desta vez são dedicadas, para que se saibam distinguir e bem apreciar. Desenham-se os piu pius (que importa conhecer e proteger). Fotografam-se as velhas portas, prenhes de segredos e tradição. Desenham-se também as paisagens rurais «fora dos caminhos». E o riso deliciado de Maria Nascimento faz-nos crescer água na boca com os seus incomparáveis petiscos beirões.
            Ai, o som do adufe! Ai, a melodia que se desprende das páginas desta revista singular!...

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 719, 11 de Novembro de 2017, p. 11.
 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

«A Avó Ceirinha», do Dr. Alberto Correia

             Foi recentemente aberta ao público, na Casa da Paz, pertencente à Paróquia de Santa Cruz de Beselga (Penedono), a exposição Memorial da Devoção Ceireira, onde, para além da evocação de uma actividade que corria (ou corre) o risco de desaparecer – a arte de fazer ceiras de junça – se apresenta, na verdade, um pequeno, mas bem significativo, museu de arte sacra, cuja visita vivamente se recomenda.
            Tem a exposição primoroso Roteiro; mas o Dr Alberto Correia, um dos dinamizadores da iniciativa, não se ficou por aqui e para, de certo modo, acompanhar a exposição escreveu uma linda história, «A Avó Ceirinha».
            Um livro de capa rija e letras gordas, para que as crianças e os menos jovens o possam ler sem dificuldade. Dedicado à sua avó Beatriz, «”ceireira” de nação», tem, na página da esquerda, ilustrações muito bonitas de artefactos feitos neste tipo de material, a junça. Uma verdadeira maravilha de gosto!
            A narração é feita por uma avó à sua netinha; mas ousaria afirmar que há outras linhas que não a da história propriamente dita sobre que importa reflectir, pelo que representam de uma realidade a não olvidar. Assim, na pág. 11:
            «Mas quando a Virgínia nasceu já não se usavam as ceiras do azeite. E os ceireiros mal conseguiam vender as ceirinhas, os tapetes e os ceirões porque as pessoas passaram a usar outras matérias nas suas casas.
            Muitos homens foram então trabalhar para França. Uns na agricultura, outros nas obras da cidade. Alguns já tinham ido uns anos antes e ajudaram os mais novos a arranjar trabalho».
            O drama – assim mui singelamente retratado.
            As histórias atropelam-se umas nas outras (a da mulher «que matou um grande lagarto com os novelos de linho que levava»…), e, no final, Gininha, a neta, não se conteve:
            – Gostava de tanto de ter ido com o avô vender ceirinhas!...
            E «a avó pousou na cestinha o novelo de lã. Gininha não viu as duas lágrimas que se soltaram dos olhos da avó.
            Estava quase a pôr-se o sol. E entraram ambas em casa, de mãos dadas, a avó e a netinha».
            Um encanto, este livrinho, para os jovens e para os menos jovens. Mais uma vez, a prosa límpida e serena de Alberto Correia, com fotografia de José Alfredo, design (magnífico!) de Sónia Ferreira. Edição da Paróquia de Santa Cruz, Beselga, Penedono. Apoio do Município de Penedono.
            Fala-se muito de diálogo intergeracional, da necessidade de os avós terem tempo para os netos. Ou melhor, de os netos terem tempo para ouvir os avós! Este «A Avó Ceirinha» constitui mui excelente pretexto para esse diálogo se concretizar.
            Estão, obviamente, de parabéns e quantos tiveram a coragem de lhe prestar atenção!

                                                           José d’Encarnação
 
            Publicado em Voz de Lamego 17-10-2017, p. 13.

domingo, 5 de novembro de 2017

«Sob a pele», de Filomena Barata

            Lê-se num ápice. Não apenas por ter 56 páginas em formato de livro de bolso, mas porque nos enleia de tal modo que, sem nos apercebermos, acompanhamos a Autora nas suas deambulações por terras de Portugal, por terras de além (ai essa Antuérpia que fundas cicatrizes lhe deixou!) e, sobretudo, pela Angola que a viu nascer, há precisamente 60 anos.
            60 anos que sentiram, ainda que em meio urbano e de classe média, os ecos da guerra que na sua Angola então se fazia «no mato». Ecos vivos, recordações bem presentes, porque plasmadas na infância e na juventude e facilmente, por isso, se evocam hoje os cheiros, os sons, os silêncios. 60 anos em que Portugal sofreu as transformações mais radicais e que na alma das gentes fundamente se repercutiram e, aos 60 anos, disso tomamos consciência plena, na certeza de que essas foram as marcas que nos moldaram lá e cá.
            Um solilóquio autobiográfico, sem dúvida, salpicado aqui e além daquele lirismo de que a história de Pedro e Inês sempre é capaz de ser matriz. Um solilóquio que, inesperadamente, se solta em diálogo:
            «Majestosas como as que tu e eu já vimos, junto ao Sumbe, e ainda bem maiores. […] Por vezes lá longe já, em águas mais tranquilas, passeavam-se hipopótamos com ar de quem nos queria cumprimentar» (p. 41).
            «Já semeei tantas noites de ti, ementando-te. Embaciando os vidros com a boca encostada à janela fria: crio-te e apago-te como o faço a mim própria. Para depois tudo recomeçar. Ficou-me a folha em branco, o papel e as noites sem fim. Não, já não as cubro inteiras com o teu cheiro que tanto quis reter. E, contudo, precisava de umas mãos que me afagassem o rosto agora» (p. 43-44).
            Lirismo contido, que – num relance – acaba por despontar, em desabafo:
            «Quem sabe o silêncio de uma lagoa onde se esconde uma vida inteira?» (p. 42).
            Prenhes de significado as descrições do quotidiano vivido em Malange na década de 60; pinceladas certas, as que retratam um Alentejo para onde Filomena Barata cedo foi batalhar:
            «[…] Esse espaço era tão, tão grande que nele havia também lugares cheios de esteva, infestando hectares e hectares, e outros, onde o montado teima em sobreviver, abrigando as “zorras” quando anoitece, e onde escavam tocas os coelhos bravios, sobrevoados pelas sobranceiras águias ao alvorecer» (p. 33).
            Louve-se o facto de serem raras as gralhas – os frades cistercienses rezam as Laudes e não as laudas, as benzeduras desfazem o quebranto… Mui eloquente o design gráfico, bem patente na capa, em cuja 1ª badana se semearam as fotos de um passado saudoso, onde não falta a avioneta que aprendeu a pilotar…, e onde se retrata a pele sob a qual, no livro, se espraiaram emoções, experiências fecundas («Resistir, continuar é o sítio de quem não quer parar» - p. 32).
            A apresentação foi no dia 26 de Outubro, no Museu Nacional de Arqueologia. O prefácio é de Luísa Amaral, em jeito de carta à Autora. Glória de Sousa, do Perfil Criativo (a editora), explica, na contracapa, que estamos perante uma «arqueologia do sentir», não apenas (digo eu) por Filomena Barata ser arqueóloga mas também – e sobretudo – porque de ‘sentires’ está bem impregnado o testemunho, meticulosamente escavado no mais profundo do ser.

            Cascais, 5 de Novembro de 2017

                                                           José d’Encarnação

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Eu não queria escrever esta crónica

            Não queria.
            Há dois minutos que não andamos. Uma jovem bonita faz sinal ao motorista:
            ‒ Foi você que me levou ao Largo Camões? ‒ perguntou com sotaque brasileiro.
            ‒ Eu não.
            ‒ É que eu deixei o telemóvel no carro!
            ‒ Um telemóvel?!... Esqueça!
            Continuamos a passo de caracol. Toca o telemóvel do motorista. Oiço frases entrecortadas:
            ‒ E agora?... Não deixes alguém ocupar a tua cabeça sem pagar!... Vamos olhar em frente!... E como é que foi isso?... Força, rapaz!
            Voltou-se para mim, telefonema terminado, e explicou:
            ‒ Este moço foi estudar para o estrangeiro e veio com ideias novas. Criou um galinheiro com máquinas sofisticadas. O negócio estava próspero. Esta noite, roubaram-lhe 40 galinhas e uma das máquinas sofisticadas. Eu gosto dele, é dinâmico, empreendedor!
            Estava um caracol ao nosso lado e quase nos ultrapassava. Disse o motorista:
            ‒ Eu herdei um terreno do meu avô. Plantei-o de árvores. Tinham pegado há pouco tempo e roubaram-mas. Não desisti e voltei a plantar. Agora, ardeu tudo e, no dia seguinte, já não tinha sequer os troncos queimados. Vieram roubar-mos!... Isto está tudo a saque!
            O carro não avançava. O motorista voltou-se para mim:
            ‒ Vê como está o trânsito. Continuamos ou fugimos?
            ‒ Sim, fugimos! ‒ respondi prontamente.
            Tomámos um percurso alternativo e depressa cheguei ao destino.
            No silêncio do comboio cheio, a pergunta «fugimos?» martelava-me na cabeça. É que um quarto da minha família, da geração a seguir à minha (filhos, sobrinhos, netos…) também ela já fugiu. Vive no estrangeiro.
            É por isso que eu não queria escrever esta crónica!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 718, 1 de Novembro de 2017, p. 11.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O poder das palavras

José d’Encarnação 

(José d'Encarnação foi professor na Universidade de Coimbra e é um dos leitores mais assíduos e críticos do P&V. São razões de sobra para o reconhecermos como um colaborador e publicarmos os textos que vai escrevendo sobre ele.)

Folheei o P&V de Outubro, que vai mantendo, porém, textos mais antigos das habituais secções. Para que não se olvidem. Para exemplo e estímulo.

A professora Alice Marques e os professores José Nobre e Carlos Carvalho continuam ao leme, diversificando os rumos, aliciando mais marinheiros para a sua barca, que vai serenamente singrando, a transportar sabedoria. Não uma sabedoria qualquer, mas uma sabedoria de vida.

Claro que apoio de coração os cursos profissionais. «Parentes pobres»? – Não! Outra forma de encarar a aprendizagem, na área em que o estudante se sente mais à vontade, apelando para a sua experiência quotidiana.

Your words have power. Use them wisely
Permita-se-me, no entanto, que destaque a eloquência da imagem do menino que chora, impotente, a mão cheia de palavras encavalitadas umas nas outras, atropelando-se, e ele impotente e ela a sufocá-lo numa ameaça de morte. E a frase: «Your words have power. Use them wisely» – «As tuas palavras têm poder. Usa-as com inteligência». É o texto «Século XXI», de Marina Lopes, criado em 2-5-2017, pleno de oportunidade, porque – ao falar de Bullying – é preciso agarrar o touro pelos cornos. E não pode haver paninhos quentes. «Brincadeiras de crianças»? Sim, também eu reinei aos cowboys e matava os índios e nem percebia bem o que estava a fazer, porque ninguém me explicava donde estava o Bem ou o Mal. Gary Cooper era o meu herói – e pronto! O reino da fantasia, da brincadeira real. Agora, não! Não é brincadeira nenhuma!

«Quando a desgraça acontece», escreve Marina Lopes, «todos falam sobre o assunto, todos dizem o quão repugnante é, todos ficam do lado das vítimas e contra os agressores. São todos parte do acontecimento. Mas a verdade é que o Bullying nunca é levado a sério. Nas escolas, quando o “inesperado” acontece, todos dizem que já sabiam disto e daquilo; no entanto, o director e professores falam em “brincadeiras” de crianças e que “não sabiam que a situação era tão grave”.»

Não queremos «chorar a morte de alguém muito querido». Queremos é que se encare o problema de frente. Com toda a coragem!

Também para estes alertas é imprescindível «serviço público» o papel que P&V, denodada e exemplarmente, desempenha na Calazans Duarte. E que nunca lhe doam as mãos!

Cascais, 8-10-2017


Publicado em Ponto & Virgula (Boletim noticioso da Escola Calazans Duarte, Marinha Grande), a 1-11-2017



Gosto de ter dúvidas!

            Se calhar, ter dúvidas é assim a modos de uma outra forma de dizer aquela célebre frase de Descartes: «Penso, logo existo!». E é bom chegar aos 72 anos e ser assaltado diariamente por dúvidas, por questões que, até aí, me não havia posto. Agradeço, aliás, a Deus e à Senhora Auxiliadora ter prontamente aceitado a missão de ser tutor de bairro, o que me obrigou a olhar com mais atenção para a realidade envolvente.
            E, quando a dúvida me assalta, procuro resolvê-la. Nem sempre, no entanto, tenho sorte, porque a minha inteligência não consegue captar outras inteligências dotadas de um saber técnico que eu não possuo.
            Para que esta conversa não se fique assim no ar, pelas abstracções e considerações filosóficas, dou quatro exemplos bem concretos.

1 – Uma placa para o hospital
            Apercebi-me, ao subir a 3ª circular, que poderia haver engano para quem se dirigisse ao hospital e tomasse, sem querer, a auto-estrada. De facto, para quem entra na circular vindo de sul e não no cruzamento de Birre, não encontra nenhuma placa com essa informação.
            Perguntei aos serviços se lhes não parecia oportuno acrescentar essa informação na placa que já lá está a seguir aos semáforos.
            Resposta: não, não era oportuno nem lhes parecia de interesse, porque já havia sinalização anterior e era regra não repetir sinalizações no mesmo trajecto. Retorqui exemplificando que tal regra não era cumprida em vários sítios e que, decerto, mais umas letrinhas na placa não dariam assim tanto trabalho e fariam jeito. Não me replicaram. Azar meu!

2 – Sistema de rega
            Informei que estava danificado o sistema de rega automática na ‘margem’ norte da Avenida Raul Solnado, pois ali fora plantada relva (eu vi!) e havia tubos de borracha espalhados pela área, tubos do género que eu tenho visto por toda a parte e que para isso servem.
            Resposta: «O espaço ajardinado do lado norte não possui sistema de rega automático. É um prado de sequeiro e fica amarelo no Verão, mas no Outono/Inverno rejuvenesce. Os arbustos são resistentes e vão resistir».
            Azar o meu: afinal, os tubos são apenas para decoração e a relva é… «um prado de sequeiro». Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?

Desengane-se, leitor: esses tubos não são de rega e o que está
a ver não é relva seca, é um prado de sequeiro!
3 – Reservado a moradores
            Solicitei que se encarasse a hipótese de determinada praceta, ultimamente ‘inundada’ por viaturas estranhas, pudesse vir a ser reservada a residentes.
            Foram-me apresentadas todas as condições exigidas para que houvesse essa reserva. Nenhuma delas, a meu ver, se aplicava à reserva em vigor para toda a zona da Bela Vista, na vila, onde só podem entrar os residentes e, se estacionas, mesmo por pouquíssimo tempo, no Largo Óscar Monteiro Torres, certo e sabido que te aparece o reboque num abrir e fechar de olhos!... Pretendi esclarecimento. Azar o meu: não tive!

4 – STOP no chão
            Tentei explicar a seguinte situação: quem desce a Rua do Cobre tem uma placa STOP, a fim de dar prioridade aos veículos que se apresentem para entrar ou sair da Rua Júlio Dinis, da Pampilheira. Sucede, porém, que, como se trata de uma descida, há quem acelere e nem sequer se aperceba da placa, o que – só por grande sorte – não tem provocado acidentes, travagens bruscas sim... A minha proposta: que se pinte no chão – como noutros sítios acontece – a palavra STOP. Assim haverá, de certeza, maior viabilidade e maior possibilidade de respeito.
            Azar o meu: até agora, não obtive qualquer resposta.

            Conclusão: as minhas dúvidas aumentaram: vale a pena ser cidadão empenhado?
 
                                                     José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 209, 01-11-2017, p. 6.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

«Transcendências», de António Macedo, na galeria do Casino Estoril

             Confesso que gostava de saber escrever assim. Não, desenhar ou pintar não digo, porque sou um zero à esquerda e sempre apanhei péssimas notas a Desenho. Não tenho jeito, pronto! Para escrever, lá vou alinhavando umas coisas, porque escrevo desde pequenino e todos os dias escrevo, e mal de mim se algo não tivesse aprendido com os excelentes professores que tive ao longo de toda a minha vida!
            Também me aventurei no campo das Artes Plásticas, mantendo uma secção de noticiário acerca das exposições que se iam realizando pela Costa do Sol (hoje, Costa do Estoril). Ele era a galeria da Junta de Turismo, de saudosa memória (não faltava a uma inauguração!); a galeria do Casino, desde os anos 60, em que foi dirigida pelo prof. Calvet de Magalhães; a galeria JF, do escultor Óscar Guimarães (como presidente da Junta de Freguesia de Cascais).
            Era assim a modos de eu olhar para os quadros ou as esculturas e, como estudara História de Arte na Faculdade, contava o que eles me «diziam». Creio que a isso se chama uma escrita «impressionista», porque relata as impressões que o escrevente transmite.
            Nunca, porém, ousei embrenhar-me na linguagem – para mim, hermética – dos críticos de arte. Admiro-a, tiro-lhes o chapéu, protestando a minha ignorância e incapacidade.
            E porque é que estou a agora a falar disto? Porque está patente na galeria do Casino Estoril a exposição de António Macedo, não o apresentador do Programa da Manhã na Antena Um, mas um portuense (n. 1955), que, depois de frequentar a reconhecida Faculdade de Belas Artes do Porto, demandou Londres, em 1975, fez já 16 exposições individuais, participou em dezenas de exposições colectivas e também figuraram trabalhos seus «em algumas das maiores feiras de arte mundiais».
«A entrega», óleo sobre tela, de António Macedo
            Claro, perante isso, não pode o sapateiro ir além da chinela e, por conseguinte, tive de ater-me a transcrever o que conceituados críticos escreveram sobre o senhor. Um deles é espanhol e, na informação que amavelmente me foi enviada, classifica a obra de António Macedo como um «labirinto de claridade, onde se cruzam a realidade e o desejo, a luz ténue, o passado e o futuro, o neo-realismo e o super-realismo». É interessante. Uma pintura intemporal. Não sei como é essa do desejo, mas deve ser verdade. E tenho de ir ver.
            O outro crítico é o meu grande amigo Edgardo Xavier, poeta lírico até à medula e pintor nas horas vagas (eu digo isso, porque está a escrever mais do que a pintar). E recorto um breve trecho das frases transcritas, para se ver como eu nunca saberia escrever assim. Garante Edgardo Xavier que António Macedo «reinventa o sentido das formas» e as expõe «dentro de um racional equilíbrio que afirma a força dos academismos na nova procura do que se esconde para lá da emoção meramente plástica».
            Pois.
            Sirva, por conseguinte, todo este preâmbulo para incitar a uma visita obrigatória: a exposição de 27 óleos e 10 desenhos estará patente até 20 de Novembro, diariamente, das 15 às 24 horas.

                                                                      José d’Encarnação

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Viva o Parque das Amendoeiras!

            E este meu «viva!» tem dois sentidos: o de parabéns e saudação pela primorosa ideia e mui oportuna designação; e o de incitar a que o parque, localizado onde está, seja doravante o ponto de encontro dos residentes, novos e velhos.
            Fruto do Orçamento Participativo, o que também se aplaude, devido a configurar um desejo da população, apresenta-se, assim pode ler-se na passada edição do nosso jornal (p. 21), como dignificação de um espaço público, mediante cuidado arranjo urbanístico, que prevê zona de estacionamento e, claro, um «parque de lazer intergeracional».
            E, a propósito desta última frase, surgiram-me de imediato uma imagem e um livro.
            A imagem foi (que o leitor me desculpe se dou um exemplo não português) a do Hyde Park, em Londres, no domingo, 1 de Junho passado: repleto de famílias, na mais completa descontracção, tomando o seu almoço em jeito de piquenique, jogando, convivendo… Para mim, uma sensação bem agradável, sabendo-me no coração de uma grande cidade.
            O livro foi o de David Kundtz, «Parar» (edição de Sinais de Fogo, Lisboa, 2ª edição, Abril de 2004). A obra é de 1998 e tem como subtítulo «Como parar quando temos de continuar».
            David Kundtz demonstra a importância que têm, no nosso dia-a-dia, as pausas conscientes que possamos fazer, em silêncio. É assim a modos de um ‘carregar as baterias’. Não temos tempo para isso? Temos, pois! Quando esperamos por um amigo que tarda; enquanto o computador não se inicia; enquanto o autocarro não chega; enquanto a água não levanta fervedura… Mil e um momentos que podemos agarrar, para tomarmos consciência de nós: o que somos, o que fazemos, como fazemos…
            Parque das Amendoeiras! Bonito, o nome! Excelente, o objectivo! Vamos querer que seja mesmo esse «parque de lazer intergeracional»!

                                                           José d’Encarnação
Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 251, 20-10-2017, p. 13. As imagens são também do jornal.

 

sábado, 21 de outubro de 2017

CCC – Cidadela Cimentou Comunidade!

             Na passada sexta-feira, dia 20, a Direcção do Agrupamento de Escolas da Cidadela, em Cascais, convidou para um jantar de confraternização e de convívio, na sua sede, a comunidade educativa, ou seja, os professores, os funcionários, os membros do Conselho Geral do Agrupamento, os técnicos camarários e outros que estiveram ligados à obra. Pela Câmara, esteve o vereador do pelouro da Educação, Frederico Pinho de Almeida; pela Junta de Freguesia, Emília Sabino, em representação do Presidente.
            O pretexto: mostrar e usufruir da obra, a nova cantina que o Orçamento Participativo de 2015 permitira concretizar. A inauguração oficial ocorrera a 12 de Setembro e reza a placa que assinala o evento que a inauguração foi feita «pelos cidadãos de Cascais, na presença do Presidente da Câmara, Carlos Carreiras».
            Trata-se de um espaço que proporciona, na verdade, um excelente convívio entre os comensais. Registe-se, por exemplo, que parte das paredes é de tijoleiras pintadas de um branco leitoso, o que as torna deveras agradáveis à vista; que a iluminação, directa e indirecta, resulta extraordinariamente luminosa (passe o pleonasmo) e, até, de algum requinte do ponto de vista estético. Os meus parabéns a quem trabalhou na execução (realço o empreiteiro João e a Arqª Paula Cabral). Segundo vim a saber, boa parte da colaboração foi dada pro bono, designadamente os técnicos.
            Mostra-se bonito relógio numa das paredes, um elemento simpático também pela sua estética, muito bem escolhido.
            Na parede do lado norte afixou-se a metade de uma porta velha, que foi pintada e nela se inscreveu uma frase assaz adequada:
 
                        BONS MOMENTOS PASSADOS À VOLTA DA MESA
                             DEIXAM LEMBRANÇAS PARA TODA A VIDA.

            É a tradução livre, mas muito bem pensada por Paula Cabral, da frase que se apanha na internet em inglês, de autor anónimo: «The fondest memories are made when gathered around the table».
            Também esse aspecto merece encómio e não há dúvida que é de muito aplaudir a iniciativa do jantar, sobretudo depois de verificarmos a alegria contagiante de todos os que participaram e o partilharam na mais completa descontracção, tirando fotografias, contando das suas experiências, num evidente entusiasmo por estarem juntos, quando, no frenesim do dia-a-dia, cada um anda para seu lado, a puxar o barco.
            Não ouvi discursos, porque foi mais o coração que falou!
            Parabéns, portanto, à Direcção do Agrupamento, que assim ajuntou em torno da mesa uma comunidade, que importa manter e rejuvenescer cada vez mais.

                                                                        José d’Encarnação

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amplo louvor à cultura numa instituição singular

             Antes de dar conta do que foi a cerimónia de entrega dos prémios Vasco Graça Moura (Cidadania Cultural) e Fernando Namora (Literatura), referentes a 2017, instituídos pela Estoril-Sol, importa salientar a tónica que perpassou por toda a sessão, ocorrida, sob a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, no final da tarde de quinta-feira, 12 de Outubro: a ênfase dada à Cultura numa ‘casa’, onde, à partida, só era presumível pensar-se em jogo, em dinheiro, slot-machines, bacará e ‘entretenhas’ afins, sempre vulgarmente mais relacionadas com aspectos menos lisonjeiros da nossa existência.

            E um vulto sobressaiu, por todos evocado como Homem, como Escritor, como Poeta, como Tradutor insigne, em suma, eminentemente como Homem de Cultura: Vasco Graça Moura, que durante anos presidiu a este júri e até mesmo já atormentado pela doença que cedo (é sempre cedo!...) o arrebataria do nosso convívio.

            Mas, claro, doutra personalidade se falou também, porque a ele se deve, incontestavelmente, a teimosia em envolver o Casino nessa aura cultural: Mário Assis Ferreira. Foi desde que assumiu as rédeas da Estoril-Sol que a Sociedade se converteu decisivamente, contra tudo e contra todos, em paladina das Artes Plásticas, das Artes do Espectáculo, da Literatura, com os prémios que instituiu e com a regular publicação da revista Egoísta, um primor de edição!

            Foi Dinis de Abreu o mestre-de-cerimónias, apresentando os oradores a uma assistência que encheu por completo o teatro do Casino Estoril.

            Mário Assis Ferreira começou por assinalar o «profundo significado» que esta sessão detinha, «pela importância e pelo interesse que lhe dedicamos», como elevada manifestação de Cultura. Evocou, emotivamente, a combatividade extrema e exemplar de Vasco Graça Moura; sublinhou os laços de amizade e de uma certa cumplicidade que o unem ao galardoado com o Prémio Cidadania Cultural, José Carlos Vasconcelos e fez-se eco do que o júri realçara no romance Flores, de Afonso Cruz, a que fora atribuído o Prémio Fernando Namora: a elevada qualidade estética aliada a uma estrutura sabiamente modelar. Não deixou de salientar o que atrás se referiu: ser a Cultura a tónica dominante da Estoril-Sol sobretudo desde 1987; ter aceitado o desafio da Cultura, «infelizmente tão solitário»; ter-se entregado «com fé aos ideais que preconiza num tempo marcado por tantos egoísmos».

            Coube ao presidente do júri, Guilherme d'Oliveira Martins, descrever, a traços largos, o perfil de Afonso Cruz, escritor, músico, «uma das certezas da actual literatura portuguesa», numa obra de elevada qualidade estética, em que o autor soube aliar a humanitas à compreensão do quotidiano, na sua complexidade. «Há sempre flores para aqueles que as quiserem ver». De José Carlos Vasconcelos disse ser uma «personalidade ímpar», «cidadão exemplar», «contra ventos e marés defensor das culturas de língua portuguesa», tal como Vasco Graça Moura. «Uma das figuras mais marcantes da vida portuguesa», disse, acrescentando: «Não é possível falar hoje da difusão da Cultura Portuguesa sem uma referência a José Carlos de Vasconcelos», designadamente através do seu Jornal de Letras, «um jornal único, que muito preza o rigor, o diálogo, a divulgação, um serviço público da maior importância, na prossecução do bem comum».

            Coube ao Presidente da Republica entregar os galardões, duas singulares obras escultóricas; e Assis Ferreira entregou os sobrescritos com os prémios pecuniários.

            Paulo Teixeira Pinto, representante da editora Babel, que patrocina a publicação, considerou um privilégio o poder estar a sua editora associada a esta iniciativa, cuja relevância acentuou. Pela editora, integrara o júri o Doutor José Carlos Seabra Pereira, professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

            Afonso Cruz agradeceu o galardão e, num improviso estudado (embora tenha dito que já se não lembrava bem do livro, porque, entretanto, já escrevera outro!...), teceu considerações sobre a importância da memória, da História, temática que – sublinhou – é, em seu entender, o ponto fulcral do romance. «Nasci em 1971, não sei o que é viver em ditadura». O que é que pode mudar? Os modelos que apresentamos às nossas crianças, que não são Gandhi ou Mandela, mas os super-heróis – e devem ser essoutros que importa imitar, bons modelos, no regresso a uma moral ontológica e não teleológica, pois «a memória é plástica, nós podemos moldá-la; a imaginação é criadora».

            José Carlos Vasconcelos – depois de se referir a Marcelo Rebelo de Sousa como «um Chefe de Estado que tem sentido de Estado e não pose de Estado, que está em muita parte e não em toda a parte» – agradeceu a honra que lhe fora concedida, «honra redobrada», frisou, atendendo ao patrono do galardão, Vasco Graça Moura, e ao facto de o primeiro galardoado ter sido Eduardo Lourenço, que estava presente.

            Leu o seu minucioso discurso, porque apostara – como o estavam a apresentar como cidadão cultural – em fazer o balanço do que fora a sua vida, que não se cingira, até aqui, aos 37 anos consecutivos à frente do Jornal de Letras, que fundara e, apesar das dificuldades, teimava em manter.

            Começara a escrever aos 13 anos, tendo dirigido duas páginas literárias em jornais locais. Esteve em todas as lutas académicas de Coimbra nos anos 70. Foi actor no TEUC – o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, e sempre o norteou, em seguida, o exercício das duas profissões que sempre quis ter: ser advogado e escritor. Afastado das redacções, em 1971, pela Censura, viria a assinar, já depois do 25 de Abril, o programa televisivo «Escrever é Lutar». Integrou a redacção d’O Jornal. Esteve na origem da TSF – Rádio Jornal. Afirmou-se defensor da língua, que «é a nossa principal riqueza, aspecto que parece estar a ser esquecido no âmbito da lusofonia». Liberdade, justiça e ética – são palavras que norteiam a sua actividade, «a política como ética e prática em acção». «Não sei quanto tempo vou resistir», «Não procuro qualquer lugar em qualquer galeria de retratos», confessou, a terminar – e o seu testemunho calou fundo em quantos longamente o aplaudiram depois.

            O Presidente da República quis apresentar três notas prévias ao discurso que trazia escrito: 1ª) Estamos num encontro de cidadania cultural, porque este é «um acto de resistência cultural»; 2ª) Vê com alegria a reedição da obra de Fernando Namora, porque a falta de memória «é um pecado que esta casa não cometeu»; 3ª) De Vasco Graça Moura salientou o ter sido «tão excelente tradutor», o que, em certa medida, pode ter obnubilado as muitas causas em que se empenhou e dispersou.

            Quanto à obra Flores, classificou-a como «um dos livros mais autobiográficos e simultaneamente mais pungentes» de Afonso Cruz, «um dos seus livros mais interventivos» – e a sua (dele, Afonso Cruz) «não foi uma intervenção de circunstância».

            Referindo-se a José Carlos Vasconcelos, seu vizinho e amigo de longa data, teve em conta o circunstanciado currículo que ele fizera gala em apresentar – «para que conste» (escrevo eu); não hesitou em declarar que «atravessamos um período crítico da imprensa portuguesa», incitando os mais jovens a manterem essas pontes que José Carlos Vasconcelos sempre procurou estabelecer entre Portugal e o Brasil. Dos dois galardoados não quis deixar de salientar ainda a sua «generosa humildade». E terminou marcando «presença, desde já, para o próximo ano, em nome da resistência cultural».

                                                            José d’Encarnação

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Outeiro da Vela - Um sonho português, um baptismo estranho!

            A maior ambição da Comissão de Moradores do Outeiro da Vela: que o pinhal do Outeiro, pelo panorama dali abrangido sobre a baía de Cascais, não visse crescer no seu dorso o espinho atroz de uma urbanização em altura.
            A ameaça pairava no ar. Vampiros aguçavam a dentuça, na expectativa de farto repasto…
            Lutámos – que espinhos desses não queríamos num espaço justamente cobiçado pelos moradores para usufruto da comunidade.
            O bairro nascera à pressa antes do 25 de Abril, sem espaços de convivência, os apartamentos acanhados, encostados uns aos outros. Após o 25 de Abril, foi o regabofe que se conhece: a ocupação rápida, antes que fosse tarde!
            Finalmente, após inúmeras promessas adiadas e projectos rejeitados, veio o ano das eleições autárquicas e era preciso mostrar à população que, afinal, suas longas aspirações expressas no Orçamento Participativo de 2012 (OP 08), num ápice poderiam começar a ser satisfeitas, quando, em 28-10-2015, ainda se pensava na reformulação do projecto de execução.
O painel identificativo da obra em curso
Mountain Bike Skill Park
            E – vai daí! – muita leitura na internet, muito exemplo estranho analisado (há projectos desses em Denver, em Vancouver, Canmore, Kelowna e Calgary) e mui intensa pesquisa levaram a que se sugerisse uma designação sonante, que não ficasse atrás das suas congéneres estrangeiras: Mountain Bike Skill Park, expressão que poderá traduzir-se, à letra, por: Parque de Perícia para Bicicletas de Montanha!
            Convenhamos que a designação inglesa é muito mais atraente, enche a boca, deixa turista boquiaberto e indígena a franzir o sobrolho. Mas há lá designação portuguesa que lhe chegue aos calcanhares?! «Parque de Perícia para Bicicletas de Montanha»? Que saloiice!...
            Compreende-se perfeitamente a intenção e a pressa: Cascais vai ser, em 2018, Capital Europeia da Juventude. Tive o privilégio, a 29 de Setembro, de ver a minha correspondência selada não com um vulgar carimbo mecânico, mas presenteada com os selos comemorativos. O de 50 cêntimos tem cara de ancião – a homenagear (obrigado!) os que estamos bem no Outono da vida, os «menos jovens». Há, porém, um selo enorme, que mui habilidosamente a Marisa conseguiu colar no embrulho do livro dos provérbios que eu me propusera enviar para uma professora amiga. Meus senhores, uma panorâmica de Cascais com o farol de Santa Marta ao fundo! Maravilha!
            Maravilha vai ser também o Mountain Bike Skill Park, quando estiver prontinho, cheiinho de altos e baixos.

E o que é que eu vou pedir?
            Tinha que meter o bedelho! Vou pedir que a entidade competente ali coloque, em lugar de destaque, um ou dois painéis, em português e em inglês, a explicar o enorme significado histórico da designação toponímica «Outeiro da Vela».
            Vem nos livros. O Prof. J. Diogo Correia escreveu, na sua Toponímia do Concelho de Cascais (Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. 45), que esta «eminência será um dia – que oxalá não venha longe – aproveitada para ponto de turismo da região» e explica: esse «morro, que altivamente se ergue como sentinela protectora da vila», servia de atalaia, em ocasião de perigo iminente», «ali se velava pela segurança dos moradores de Cascais e seu termo.
            Não veio muito longe, professor, esse aproveitamento turístico! De 1964 a 2018 passaram somente 54 anos!
            Os painéis são, pois, a meu ver, imprescindíveis!
            Devido a essa posição altaneira sobre a baía, em tempos imemoriais, quando a pirataria era exclusivamente a marítima, a população revezava-se a vigiar, a estar de vela, não adregasse navio pirata aproximar-se para semear devastação, pilhagem, mortandade…
            Outeiro da Vela a servir, em 2018, de radical ponto de encontro da juventude, continuará, portanto, a ser um símbolo: «Do alto desta montanha vos contemplo, senhores!».
 
                                                    José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 207, 18-10-2017, p. 6.

O mar ao fundo... E o Cabo Espichel, mais além...

E o Palacete Palmela a espreitar por entre o arvoredo...

E a vila, ali, a seus pés...