quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O correspondente – figura a ressuscitar?

             Desde o seu início, no século XVII e posteriores, criaram as academias de índole científico-cultural a figura do académico correspondente.
            Quando, no último quartel do século XIX, começaram a publicar-se gazetas e jornais, com sede nos principais centros urbanos, depressa compreenderam os seus mentores que, para melhor cumprirem a sua missão de informar e, até, de dar relevo ao «outro» país que não apenas o das grandes cidades, a figura do correspondente constituía elemento imprescindível.
            E se as academias mantêm a categoria dos académicos correspondentes, que, mui frequentemente, apresentam nas sessões comunicações de elevado interesse, os jornais, mesmo os locais e regionais, parece que deixaram cair essa prática, não obstante verificarem como foi importante, por exemplo no caso dos incêndios deste Verão, o contributo dado aos canais televisivos pela presença, no local, dos seus «correspondentes».
            Como chefe de redacção do Jornal da Costa do Sol, incrementei essa prática e dispúnhamos, por isso, de informações do interior do concelho que, doutra forma, teriam passado despercebidas e não chegariam ao conhecimento das entidades a quem compete zelar pelo bem-estar da população que prometeram servir.
            Um dos semanários até chegou a lançar «O Cartão do Bom Cidadão», para que o seu detentor fosse o repórter local; mas a iniciativa não teve êxito: primeiro, porque nem todos esses «colaboradores» se disponibilizavam a escrever, porque não tinham «queda», como sói dizer-se, ou por medo de represálias; depois, porque, na própria redacção, nem sempre haveria pachorra para rever um português por vezes mal amanhado, quando a Câmara e outras entidades enviavam a «papinha feita» e isso enchia a edição…
            Outro meio de tornar o jornal mais popular, no sentido de mais «chegado ao povo», é o incremento da secção «Diz o leitor», onde, por medo das tais represálias (os que estão no poder não gostam habitualmente de saber certas verdades e têm a faca e o queijo na mão…), o leitor sempre pode solicitar à redacção que a sua identificação seja substituída pela expressão «leitor identificado». Hoje, que facilmente (e com identificação, aliás…) se escreve tanto nas redes sociais, lógico pareceria que uma secção desse tipo tivesse êxito. É tentar!
            Sempre preconizei que a necrologia constitui, no jornal local, um dos meios mais eficazes de chamar leitores, sabendo-se que ao aumento de leitores corresponde maior aliciamento à inclusão de publicidade, pública e privada. Compreendeu-o perfeitamente, por exemplo, o director do Noticias de S. Braz, de S. Brás de Alportel, a quem falei no assunto, e esse é, na actualidade, um dos seus maiores trunfos.
            Saiu-me espontaneamente a palavra «pública», que é perigosa no momento eleitoral que atravessamos. Arrisco, porém, o que, nesse aspecto, são minhas convicções ou melhor, os meus desejos:
            1º) Deveriam as entidades locais (nomeadamente as juntas e a Câmara) pôr de lado ideologias partidárias e tratar de igual modo os órgãos de comunicação locais, privilegiando a inclusão neles, paritariamente, da sua publicidade institucional ou outra.
            2º) Uma outra sugestão seria as forças políticas em presença comprometerem-se a, pelo menos semestralmente, promoverem uma conferência de imprensa, a fim de transmitirem a sua opinião acerca da situação político-social, as iniciativas feitas e propostas, o que lhes parecia bem ou menos bem e era importante corrigir. Por seu turno, os jornalistas teriam oportunidade de se fazerem eco do que se dizia, dos boatos que corriam…
            Oiço uma voz vinda não sei donde; ou melhor, sei: dos meus «conselheiros íntimos», aqueles entes que sempre nos acompanham e chamam à realidade. E essa voz fez pouco de mim:
            ‒ És um sonhador, menino! Cascais não é S. Brás de Alportel, um dos mui raros concelhos em que todas as forças políticas «têm» voz audível. Esquece!
            Está bem. Vou esquecer.

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 203, 20-09-2017, p. 6.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A grande expressividade (!) das regras do Espaço Canino

             No âmbito do Orçamento Participativo de Cascais 2012, Cascais passou a contar, a partir de 6 de Junho de 2015, «com um parque canino, para que a população possa exercitar e socializar os seus cães em segurança, sem trela, mas num ambiente controlado e sempre sob supervisão dos donos», em S. Pedro do Estoril.

Panorâmica do Parque Canino, sorry, of the Dog Park
            Logicamente, como estamos em Cascais, não se lhe chama exactamente um «parque canino», mas, de preferência, um dog park, porque, como é bem sabido, a maior parte da população de S. Pedro fala inglês fluentemente no seu dia-a-dia e era chato dizer, no sábado à tarde: «Fiel, queres ir ao Parque Canino?». O Fiel eriçava-se todo, arreganhava a dentuça e até era capaz de ameaçar o dono com mordidela feroz. Agora, se tu lhe falas: «Fiel, do you want to walk with me to the Dog Park?» – aí, o Fiel pula de contente e até puxa o dono, vam’lá depressa, já!
            Nada tenho contra o dog park e – agora que uma das minhas filhas, ida para Inglaterra, me legou um labrador – até tenho mais propostas para dog parks no concelho. Se algum dos candidatos me falasse nisso, eu explicaria tudinho muito claro.
            O que não se me afigura lá muito claro é o texto que, nesse Espaço Canino, apresenta as «regras de utilização», assim uma espécie de «Dez Mandamentos», que podem ser lidos na imagem que colhi. Não quero poupar o leitor a tentar descobrir todas as patacoadas que o texto encerra, redigido, certamente, por quem não fez a antiga Instrução Primária; vou limitar-me a algumas delas, que se me afiguram mais ‘interessantes’.
As regras de utilização do Espaço Canino, em S. Pedro do Estoril
            Assim:
            a) Escreve-se: «A utilização do ESPAÇO CANINO será por sua conta e risco do dono do cão». «Por sua conta»? E quem é o ESPAÇO CANINO para ter essa responsabilidade? Evidentemente, o «sua» está a mais.
            b) «Cães com comportamentos agressivos [...] deverão-lhes ser presos à trela». Além de que, se a frase estivesse correcta, seria «dever-lhes-ão», o certo é que seria de ler-se algo como: «Cães com comportamentos agressivos [...] deverão ser presos à trela», embora eu preferisse outra expressão mais consentânea com a realidade: «deverão ser levados à trela».
            c) «As necessidades do seu cão deverão higienizadas de imediato». A frase, mesmo que se complete com o verbo «ser», que falta, não tem sentido, porque o cão não tem necessidades que devam ser… «higienizadas»! O cão precisa é de brincar, correr, ter um dono compreensivo, familiarizar-se com os outros e para isso é que foi criado o parque! Essas são as suas ‘necessidades’! Claro, aqui quer fazer-se alusão aos dejectos caninos e esses, confesso, não precisam de ser higienizados, mas sim apanhados de imediato pelo dono, com os saquinhos que a Cascais Ambiente dispensa um pouco por toda a parte e que certamente não faltarão nesse espaço.
            d) Escreve-se que é PRIOBIDO (claro, houve dislexia do escriba: é PROIBIDO) o acesso a alimentos humanos ou caninos e a objectos de vidro. E eu estou a ver os alimentos e os objectos de vidro a reivindicarem: «Eu quero entrar! Eu quero entrar!»… Não é, seguramente, a palavra «acesso» a indicada, porque acesso implica ‘movimento’, próprio de pessoas ou de animais. «Entrada» também não, que tem o mesmo sentido. O que se quer proibir é que os donos tragam alimentos para eles ou para os cães e evitem introduzir no recinto objectos de vidro, pelo perigo que eles representam.

            Enfim, a meu ver, trata-se de um decálogo cuja redacção deixa muito mal vista… a elite canina da Costa do Estoril!

                                                                       José d’Encarnação

Post-scriptum: A placa aqui comentada está no Parque Canino de S. Domingos de Rana; peço desculpa pelo equívoco; estou a tentar verificar se existirá uma igual no de S. Pedro do Estoril. Em meu entender, porém, mesmo que eu me tenha enganado nos santos, o conteúdo do texto mantém-se.
Entretanto, informaram-me gentilmente da Cascais Ambiente que «a  placa em questão já foi retirada e será recolocada assim que o texto for revisto», confirmando-me também a informação supra:  «A placa não é do Dog Park de São Pedro do Estoril, mas sim do parque canino do Jardim das Oliveiras, recentemente inaugurado».

domingo, 17 de setembro de 2017

Aldeias, as maravilhas de que se fala

             Primeiro, porque a RTP 1 fez amplas reportagens, nas emissões de domingo deste Verão, sobre as sete candidatas a aldeia-maravilha em sete categorias: ribeirinhas, rurais, de mar, remotas, autênticas, aldeia-monumento e aldeias em áreas protegidas.
            As câmaras televisivas levaram-nos – aos que as pudemos acompanhar – a lugares de um encanto insuspeitado, de tradições ancestrais, de modos de viver bem diferentes da lufa-lufa citadina.
            Os caretos de Podence; as praias fluviais; o granito a aconchegar as casas em Monsanto da Beira; o harmonioso casario de Piódão; os deliciosos petiscos típicos de cada terra; a vida comunitária no remoto Rio d’Onor; o casamento perfeito entre Dornes e os braços do rio Zêzere preso pela barragem do Castelo do Bode; aqueles enchidos no fumeiro à moda antiga; o espraiar das vistas pelo Alqueva desde Monsaraz ou por todo o Nordeste alentejano desde Évora-Monte… Gente que são portugueses como nós, que sonham com turismo rural, que gostavam que mais pessoas por ali vivessem e os filhos não desertassem para o estrangeiro ou para a poluição das cidades… Que lição, senhores, que lições!...
            Mas a palavra «aldeias» apareceu não apenas ao domingo nesse programa da RTP 1; foi presença constante em todos os noticiários, porque, por todo o País, as aldeias, pela mão criminosa de muitos (sim, muitos, que não apenas os pirómanos telecomandados…), se viram reduzidas a cinzas, numa aflição, os animais que morriam, que desarvoravam à frente das chamas implacáveis, toda a canseira de uma vida que, de um momento para o outro, virou moitão de cinzas… E o pirómano ou sofre de perturbação mental e tem pena suspensa ou gozou com o espectáculo que provocara...
            Se te serves indevidamente de um pacote de leite no supermercado, és levado à esquadra, pagas multa, sofres reprimenda e corres mesmo o risco de ficar com cadastro. Um pacote de leite. Se, porém, aumentas o descalabro económico do País (ele é o combustível, os milhões de metros cúbicos de água em época de seca extrema, os haveres, a floresta… e, sobretudo, as mortes, a dor d’alma, o sofrimento mental que mui dificilmente irá passar…) corres mui possivelmente o risco de sair ileso de tudo, a sorrir…
                                                      José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 715, 15 de Setembro de 2017, p. 12.

Desprendimento

           Os membros de congregações religiosas não contemplativas são amiúde deslocados de uma comunidade para outra, consoante as necessidades. Aliás, também em obediência ao voto de pobreza que professaram, são parcos os seus pertences – na certeza, de resto, de que nenhum dos nossos pertences se leva para a sepultura.
Compreendo agora melhor o que significa desprendimento dos bens materiais, ao verificar quantos dos casais jovens vão viver para, por exemplo, o Reino Unido. Arrendam uma casa, mas depressa hão-de mudar de emprego e, por conseguinte, de morada. E lá vão eles, de tralhas atrás…
            É curiosa, nesse sentido, a imagem de um aeroporto, ao vermos as pessoas – são sobretudo jovens, mas também há os de meia-idade e até seniores – a puxar pesadas malas, com suas roupas e outros haveres. Abençoado Bernard Sadow, que inventou as malas com rodinhas, invenção patenteada em 1972 com a designação de rolling luggage, prontamente adoptada pelas tripulações que andavam sempre de cá para lá, a dormir em hotéis, sobretudo quando se tratava de viagens de longo curso…
            Essa, aliás, a sensação que começa a ter-se quando se antoja a oportunidade de – aproximando-se a Grande Viagem – se dar destino ao que fomos, ao longo da vida, considerando imprescindível e ora se nos afigura menos necessário a nós e mais útil a outrem, quando os descendentes também consideram poder prescindir desses carregos, porque também eles encaram a existência, mormente a nível profissional, como algo que já deixou de assumir em definitivo o carácter de permanente, duradouro, «para a vida».
            Portanto, aquela imagem de «alijar carga», que nos surgia apenas quando se falava de barco em perigo de afundamento, deixou de ter apenas esse significado concreto, exclusivo. Um progresso? Uma mais-valia, inclusive em termos espirituais, porque todas as religiões apregoam justamente o desprendimento como via para atingir a perfeição?
            Se for essa uma ideia que se generalize e serenamente se aceite, não há, evidentemente, problema nenhum; se, ao invés, tal acarretar desenraizamento, perda de identidade, motivo de desconforto real e permanente, precisamos urgentemente de sobre isso reflectir.

                                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 714, 1 de Setembro de 2017, p. 11.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Dois seres do outro mundo

O senhor que procura o cão
            Vejo, habitualmente, o noticiário da RTP 1, à hora de almoço. E logo esse – tenho de o confessar – é um privilégio. Significa que tenho electricidade em casa; que há um televisor na salinha onde costumo almoçar; que ainda disponho de capacidade para ouvir (lá está no cantinho direito, a senhora a traduzir tudo em língua gestual portuguesa e eu não preciso de olhar para ela); e que a visão ainda me permite ver as imagens.
            Como os publicitários consideram ser momento de muita audiência, há uma firma que, ao intervalo, nos garante serem os seus produtos algo que vai resolver, por tuta e meia, complexos problemas com que nos defrontamos; alguns deles jamais nos haviam passado pela cabeça! E é preciso ligar logo, diz o senhor, para ter brindes, pelo «incrível preço que aparece no ecrã»!...
            E, por contraste, eu vira de manhã o senhor de meia-idade, que aparentava ter alguma dificuldade em falar e que me perguntou se eu vira por ali um cãozinho branco com uma lista preta no rabo, pois lhe haviam dito que o teriam visto nestas bandas da Pampilheira. Não consegui perceber que nome haviam dado ao canito e o senhor, a custo, disse-me que morava na Torre. Sugeri-lhe que pusesse anúncio no «Encontra-me», me indicasse o número dum telemóvel de contacto… Enfim, me fornecesse alguns dados, até porque acrescentara estar a sua mãe numa aflição, há três semanas, por o animal ter desaparecido. Nada consegui e o senhor seguiu o seu caminho, deixando-me especado. Ainda lhe sugeri que pedisse a algum vizinho que tivesse computador para o ajudar a pôr no “Encontra-me” ou no facebook. Pareceu-me que, para ele, tudo isso era «chinês», que eventualmente nem televisão teria nem telemóvel e, muito menos, internet… O senhor viveria noutro mundo, bem diferente daquele a quem se aponta o «incrível preço que aparece no ecrã»!...

O ser de aparência humana
            Reside no Bairro Maravilha um ser de aparência humana. Proprietário de dois cães, que defecam habitualmente no tapete de relva que alinda a placa central da Praceta Rincão das Maravilhas. O ser de aparência humana já foi multado (dizem) pelos competentes serviços camarários, por se recusar a apanhar os caninos dejectos, ainda que haja um distribuidor de saquinhos pretos mesmo ali à mão de semear.
            Quando lhe chamaram a atenção, não estava sintonizado e saiu um pi; depois, lá se sintonizou e disse:
            «Já me viu, eu, a agachar-me para apanhar a m… pi! dos cães?».
            Passou, há dias, de novo, em frente da porta do Restaurante do Rincão, depois do defecante passeio dos caninos sobre a viçosa relva, e uma das funcionárias interpelou-o:
            ‒ Olhe, parece-me que deixou cair uma coisa!
            O andróide de aparência humana não estava sintonizado e saiu um pi como resposta; mas, à insistência da senhora, lá girou o botãozinho, sintonizou a onda e conseguiu articular palavra:
            ‒ Não deixei cair nada, não! Fui eu mesmo que deitei o papel para o chão!
            ‒ E isso é assim? – retorquiu a senhora, ainda mal refeita da expressão do extraterrestre. – E onde é que está a civilidade?
            E o ser de aparência humana rodou de novo o botãozinho, sintonizou a frequência e grunhiu:
            – Civilidade? Que é isso de civilidade? Piiii!...
            E lá partiu para a sua nave espacial, levando os canitos pela trela.
         Não sabemos que combustível usa a nave. Ali poisou, nunca mais levantou voo para o asteróide, donde, um dia, terá saído. Também é mistério o facto de o andróide habitualmente soltar um pi e só de vez em quando ficar sintonizado com os que o rodeiam e falam, de facto, uma língua que não é a sua!...

                                                           José d’Encarnação


Publicado no Costa do Sol Notícias, 6-8-2017, p. 6
Sinal que a Câmara Municipal de Albufeira mandou colocar
no passeio da rua principal de Olhos d'Água! Eloquente!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

As mirabolantes peripécias de D. Álvaro Pires de Castro, 1º marquês de Cascais, evocadas por Alberto Pimentel

             Decidiu Fernanda Frazão, responsável da Apenas Livros, dar à estampa um livro que é, no seu estilo, uma história animadíssima. Teve, para esse efeito, o apoio da Associação Cultural de Cascais e fez-se agora uma edição especial com o pronto e solícito apoio da Junta de Freguesia Cascais Estoril.
            É que se trata, nem mais nem menos, do livro Um Português Derretido, em que Alberto Pimentel conta – como vem consagrado no subtítulo – «a pitoresca história de D. Álvaro Pires de Castro, 1º marquês de Cascais.
            Recuperada a independência, em 1640, el-rei D. João IV teve duas preocupações principais: defender-se dos ataques dos Espanhóis (e, por isso, ergueu e consolidou fortalezas ao longo da costa para salvaguardar a entrada do Tejo); e obter dos países europeus o reconhecimento da sua legitimidade como rei e não como usurpador.
            É nessa linha que se insere o envio do Padre António Vieira como diplomata a vários países europeus e para embaixador em Paris escolheu nada menos do que o Marquês de Cascais!
            Alberto Pimentel (1849-1925) – que os leitores de Cascais porventura já conhecem porque a Câmara, no ano 2000, incluiu, facsimilado, na série Memória de Cascais o capítulo que ele dedicara a Cascais na obra «Sem Passar a Fronteira» – foi um jornalista e um escritor multifacetado. Não se lhe pode chamar um historiador no sentido rigoroso da palavra, porque, amiúde, é capaz de aformosear os acontecimentos para que a leitura seja mais amena. Baseia-se, contudo, em documentos e o que conta acerca da vida – eu ia a escrever «louca» – que D. Álvaro Pires de Castro leva em Paris tem seguramente muito fundo de verdade.
            E a questão é a seguinte: como representante do Reino, o Marquês carecia de mostrar que em Portugal se vivia no melhor dos mundos, havia dinheiro que se podia esbanjar, que, enfim, el-rei D. João IV fizera muito bem em pegar nas rédeas do poder. E ele são festas, recepções, idas à ópera, serenatas, sempre acompanhado de bonitas mulheres que docemente sabia galantear… Até que… enfim, o dinheiro acabou e o Marquês foi forçado a regressar ao Reino, não sem ter deixado em Paris um halo de suma galanteria e mui grande benemerência…
            É dessa estada de D. Álvaro Pires de Castro em Paris que Alberto Pimentel dá pormenorizada conta, numa linguagem tão aprazível que é livro que só se deixa de ler quando se chega à pág. 60 (que é a última, já com as notas incluídas).
            Louve-se a Junta de Freguesia, na pessoa do seu Presidente, Pedro Morais Soares, por ter acarinhado esta edição, como, na semana passada, acarinhou a proposta do NASPE – Núcleo de Amigos de S. Pedro do Estoril para publicar, de Irene Prata, Provérbios para Sorrir ou… Reflectir, EM PAPEL! Como, não há muito, publicou, EM PAPEL, a história dos Teatros de Cascais, de Manuel Eugénio e Jose Ricardo Fialho, ora já em 2ªedição! Política bem diferente tem a Câmara Municipal de Cascais que opta pelo digital e que, instada a apoiar este livro de Alberto Pimentel, até porque ele caberia perfeitamente na referida série Memória de Cascais, onde já estava um título do mesmo autor, acabou por não dar qualquer resposta ao solicitado.
            Sirvam, pois, estas linhas para o incitar a estar presente na apresentação, que terei muito gosto em fazer, na próxima sexta-feira, dia 1, na sede da Junta em Cascais, a partir das 18 horas!

                                                                     José d’Encarnação

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A falta de água em Cascais

            Era este um título recorrente nos Verões das décadas de 50, 60 e ainda 70 do século passado. Esse fantasma aparentemente desapareceu, pois compramos a água a Lisboa e fornecedor que se preza não deixa o cliente desamparado, até porque ele próprio tem clientes que lhe pagam bem, a tempo e horas, sob pena de lhes virem cortar o contador e terem de pagar com língua de palmo o descuido.
            Dependemos de Lisboa; ou seja, dependemos do rio Tejo. E as notícias que vieram a lume nos princípios deste mês de Agosto acerca do substancial aumento de poluição das águas desse rio são de molde a trazer-nos preocupados. Bastará a água da barragem do Castelo de Bode deixar de ter qualidade para que renasçam os problemas de há 50 anos…
            Não estamos, felizmente, no Alentejo, onde a seca afecta gravemente a agricultura e, sobretudo, a pecuária; nem no Centro do País onde os criminosos incêndios fazem gastar milhões de metros cúbicos de água.
            Lembro-me, porém, de que, quando Guilherme Cardoso e eu fizemos o livro «Para uma História da Água no Concelho de Cascais» (SMAS, 1995), transcrevemos (p. 45-46) o texto que o Visconde de Atouguia publicara, em Julho de 1917, no jornal A Nossa Terra, onde dava miúda conta dos sítios do concelho onde os caçadores podiam dar água aos cães. Um relato do maior alcance histórico, uma vez que localizava nascentes, fontes, poços…

Solos permeáveis precisam-se!
            Passei a meninice em Birre de Baixo. Aí havia, na década 50, as ruínas dos tanques para lavar e passar roupa e, sobretudo, o poço público, com o bebedouro para os animais, poço que o Município, sem mais nem menos, alienou a um privado – e ‘así se hacen las cosas!’, diria o nosso cáustico Gil Vicente. De Inverno, eu ia a uma nascente próxima, de chinguiço aos ombros, um balde de cada lado, acarear água que por ali brotava límpida.
            Razões desta ‘conversa’?
            Duas: a primeira, para evitar que esses factos caiam no esquecimento; a segunda, para dizer que a Ribeira dos Mochos era para nós um «rio», porque, em tempo de boa invernia, inundava tudo quanto eram terras de cultivo e pomares desde Birre ao vale da Barraca de Pau. E donde vinha o rio? Do Mato Romão! Isto é, daquela zona entre Birre e Aldeia de Juso por cuja manutenção como mato nós continuamos a pugnar, porque é a sua permeabilidade às águas que poderá alimentar os caudais subterrâneos e evitar enxurradas que ponham em perigo as aldeias e a própria vila.
            Para que conste.
            Como, por exemplo, agora que tanto se fala de limpeza de matas, talvez não seja despropositado lembrar que Champalimaud, dono da Marinha, permitia às gentes das povoações vizinhas que, uma vez por semana, lá fossem apanhar lenha, maravalha, pinhas… O povo utilizava na cozinha, na cama dos animais, na cobertura dos pátios…

A necessária independência de Lisboa
            Os trabalhos de captação de águas para abastecimento de Cascais «na serra da Malveira» começaram em 1887. Construiu-se, mais tarde, a albufeira do Rio da Mula, sucessivamente aumentada, de modo que, em 2002, o muro de sustentação passou a ter 11 metros de altura e a capacidade de retenção de água subiu para 400 000 metros cúbicos!
            Assim se dava cumprimento a um voto repetidamente exarado nos relatórios dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento:
 
             «Necessário se torna prosseguir nos esforços de aumentar as possibilidades de captação das águas do concelho para que este não fique na inteira dependência da conduta de Cascais que transporta a água fornecida pela Companhia das Águas de Lisboa».

            Esse, porventura, um voto difícil de cumprir hoje, em que a preocupação maior parece ser a de autorizar novas urbanizações, permitir mais prédios em altura, proporcionar substancial aumento de habitantes, situação passível de vir a ser incomportável em termos logísticos, mormente se não se puser pôr cobro urgente às «roturas escondidas»; se não pensar de novo nas captações da Serra de Sintra e não se der a maior atenção à albufeira do Rio da Mula.

                                                               José d’Encarnação
Albufeira do Rio da Mula, vista do paredão, longe do seu máximo de capacidade
Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 199, 23-08-2017, p. 6.
Paredão da barragem do Rio da Mula, na Serra de Sintra