quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Na prateleira 21

O que é Tofa?
            Almoço na Baixa alfacinha, no dia 28 de Março, p. p. É um restaurante simpático, com as antigas arcarias pombalinas à mostra, farta clientela, alguns vultos conhecidos numa ou noutra mesa.
            No momento do café, a senhora do grupo em que eu estava inserido, perguntou ao empregado:
            ‒ O café é Tofa?
            O rapaz ficou ligeiramente atrapalhado, não percebeu o que a senhora perguntara, ela repetiu e ele, depois de responder prontamente que «ia perguntar», hesitou e indagou-lhe ele próprio de imediato: «O que é ‘tofa’!». Explicámos-lhes que era uma marca de café. «Ah!», disse ele.
            Prendera-se a razão da pergunta com o facto de, em termos de café, a senhora ter as suas preferências, mesmo por razões de saúde, e, por outro lado, por se ter verificado que, pelo menos, os pacotes de açúcar tinham a marca e a publicidade Tofa, o que implicava, naturalmente, que fosse dessa torrefacção que viesse o café ali servido. Não me lembro de ter verificado se também as chávenas eram Tofa.
            Compreende o amigo leitor a razão deste comentário e o grito de alarme que veicula: primeiro, a formação apressada e incompleta que foi dada ao empregado; segundo, o facto de ele próprio, que diariamente tinha nas mãos centenas de pacotes de açúcar «tofa», nunca se ter interrogado, nem que fosse para ir ver à Internet, sobre o que é que ‘aquilo’ queria dizer!...
            Contei a cena a um dos meus amigos, que de pronto evocou o que estamos a ver no programa «Quem quer ser milionário». Certo é que, ali, os nervos podem atraiçoar, dado o ambiente; contudo, havendo por parte de Manuela Moura Guedes a preocupação de pôr as pessoas bem à vontade, espanta verificar como, por exemplo, aspectos comezinhos da história e da geografia de Portugal são desconhecidos.
            Não vamos ao ponto de, como nos aconteceu na então Instrução Primária, sabermos de cor e salteado os nomes dos principais rios e seus afluentes, e as estações mais relevantes das lianas do caminho-de-ferro, ou as preposições simples todas de carreirinha!... Contudo, uma educação mais concreta, mais ligada à realidade circundante, em que se saiba distinguir um bácoro de um cabrito, afigura-se fundamental. E felizmente que, na Escola, já se vai caminhando nesse sentido!

Achar piada ou… não ter outro remédio!
            Inadvertidamente apaguei (ou não consigo encontrar na memória do meu computador) a mensagem que um amigo me enviou, a prontificar-se a explicar melhor o conteúdo de um diploma legal em que no preâmbulo ou, porventura, no último artigo, se enumeravam os artigos de outros diplomas que eram revogados ou alterados por via desse que ora ia entrar em vigor.
            O oferecimento tinha uma razão de ser: é que, na verdade, o rol era… infindável! Aí umas vinte linhas, se não mais!
            Fez-me lembrar aquela frase do nosso quotidiano: haviam deitado o barro à parede a ver se pegava. E não pegou!... A experiência mostrou que havia sido cometida asneira e o mais natural era dar a mão à palmatória. O que, diga-se, nem sempre acontece – mas é salutar que aconteça, pois «errar é humano».
            Vêm estas considerações a propósito de uma mensagem que anda pela Internet, onde se afirma que não terá sido revogado o Art. 17.º do Decreto-lei nº 496/80, de 20 de Outubro, que reza assim: «Os subsídios de Natal e de férias são inalienáveis e impenhoráveis».
            Comenta-se: «Os nossos governantes e a Troika desconhecem isto!». E pergunta-se como é que o Governo Central pode retirar esses subsídios, se não houve expressa revogação dessa norma?
            Creio que, neste momento, o assunto já deve ter chegado ao conhecimento do legislador, que – a ter razão quem pôs a pergunta a circular – se apressará a justificar eventuais desregramentos. É natural, até, que o aparente ‘problema’ esteja resolvido. Temo, porém, que haja alguém que prontamente venha a terreiro ver o assunto de uma outra forma: claro, são ‘inalienáveis e impenhoráveis’… desde que existam! Se os suprimirem… não há volta a dar-lhes! Aliás, note-se que o diploma nasceu expressamente para «regular de forma sistemática a atribuição dos subsídios de férias e de Natal ao funcionalismo público». Muito provavelmente, já ele terá sido reformulado no seu conjunto. Digo eu. Pelo menos, a prática assim o mostra, tanta tem sido, de há uns meses a esta parte, a desregulação reinante....

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 41, 16-04-2014, p. 6.

 

 

domingo, 13 de Abril de 2014

Rosas vermelhas em gesto de gratidão

            Teve uma rosa vermelha a única senhora da Banda Sinfónica da Guarda Nacional Republicana assim como os membros femininos do Coro do Teatro São Carlos; rosas vermelhas se entregaram às senhoras, à saída do Salão Preto e Prata do Casino Estoril, pelas 22.30 horas do passado dia 10, após o concerto “Música e Vozes para Nobres Causas”.
             É que, oferecido pelo Comando-Geral da GNR e pela Administração do Teatro São Carlos à Santa Casa da Misericórdia de Cascais, com o patrocínio da Estoril-Sol e do Banco Santander Totta, o concerto inseriu-se no conjunto de iniciativas que estão a ser promovidas pela Santa Casa, visando não apenas um ainda maior relacionamento com a comunidade mas também – e, dir-se-ia, sobretudo! – a angariação de patrocínios e apoios destinados a uma obra social a todos os títulos meritória e carente de mais eficaz sustentáculo, dadas as enormes dificuldades que as famílias atravessam – e é para as famílias, nomeadamente crianças, jovens e idosos, que os 563 colaboradores da Misericórdia denodadamente trabalham.
            Vibraram os cerca de 700 convidados que acorreram ao Salão Preto e Prata com um concerto singelo, mas muito bem executado e, de modo especial, por ter sido escolhido um repertório alegre, para exorcizar as quotidianas amarguras… Estou certo que a maior parte de nós não terá deixado de acompanhar mentalmente (ou a trautear baixinho…) as melodias virtuosamente executadas.
            Começou-se com a “Abertura Festiva em Lá Maior, Op. 96”, do russo Dmitri Shostakovitch. Deliciou-nos, mais uma vez, o ‘Bolero’ de Ravel (de execução excelente, o maestro Cap. João Afonso Cerqueira foi ouvindo, impávido e sereno, e só já lá mais para o fim é que começou a dar umas indicações subtis, e fez questão de propor merecidos aplausos, no final, a cada um dos solistas). Veio depois o conhecido intermezzo da famosa zarzuela “La Boda de Luis Alonso” (datada de 1897), do sevilhano Gerónimo Giménez.
            Entraram depois os 60 elementos do Coro, eles de fato preto, a rigor, elas a envergar opulentos vestidos de variadas cores claras, quais damas antigas preparadas para mui requintada ‘soirée’… E balanceámo-nos (tinha de ser!) ao ritmo do «Va pensiero…», da ópera «Nabuco», de Verdi, a evocarmos as saudades que os hebreus, escravos em cosmopolita Babilónia hostil, teriam da sua Terra Prometida: vai, pensamento, em asas douradas… e detém-te nas encostas e nas colinas onde é possível sorver as tépidas, brandas e doces aragens que se evolam das margens do rio Jordão!...
            De Georges Bizet e da sua «Carmen» fomos brindados com o também conhecido coro do IV acto «Les voici! Voici la quadrille!...». E imaginamo-nos em Sevilha, em tarde de toiros e a multidão a saudar, entusiasmada, a quadrilha de toureiros que chega!
            E voltámos a Verdi. Primeiro para o coro dos ciganos da ópera «O Trovador» e, a terminar, antes de mais uma acentuação extra-programa que mui gostosamente o público acompanhou, Verdi ainda, mas da ópera ‘Aida’: a marcha triunfal «Gloria all’Egitto”.
            Saímos consolados!
            Um elemento da OPART (Organismo de Produção Artística, E. P. E.) saudou, no início, os assistentes e sublinhou quanto havia sido honroso terem o Coro (agora a completar 70 anos de existência) e a Banda Sinfónica aceitado estar ali, numa acção de benemerência. Isabel Miguens, provedora da Santa Casa, agradeceu de antemão a quantos contribuíram para o sarau e a ele se quiseram associar, também em missão de cruzada pelo bem-fazer.

Publicado em Cyberjornal, edição de 12-04-2014:

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Almeirim a despertar para o turismo?

              Almeirim fica na margem esquerda do Tejo, frente a Santarém. É célebre pela «sopa da pedra». Um monge tinha uma pedra na panela e pedia uma pouca de água, apenas, para fazer uma sopa. E à medida que lhe iam dizendo que, se calhar, se pusesse uma batata ou um naco de toucinho, ou uma rodela de chouriço, uma mancheia de feijão… ficaria mais substancial, o frade ia acedendo. Que sim, que aceitava a ideia! E assim nasceu a sopa da pedra, a tradição de que Almeirim se orgulha e, hoje, todos os restaurantes se oferecem para servir a sopa da pedra mais tradicional e mais saborosa!
            Vive da gastronomia a povoação. Em volta da praça de touros (outra das tradições, a tauromaquia), pululam os restaurantes, que, além da sopa da pedra, têm na ementa a lampreia (no seu tempo), o ensopado de enguias… E, sentado numa encruzilhada, lá está o monge, de bronze, com a panela à frente.
            Amiúde se esquece que a Família Real também demandava a lezíria para fugir, quando necessário, aos «ares empestados» da capital. Fundada em 1411 por el-rei D. João I, que aí mandou construir um paço acastelado de que ora pouco resta, Almeirim chegou a ser, no século XVI (dizem), «a Sintra de Inverno». D. Manuel I, por exemplo, fez questão de aí frequentemente residir.
            Essa história está agora a ser mais recordada e é parcialmente mostrada no singelo Museu Municipal, inaugurado a 24 de Março de 2012, a que a Associação Portuguesa de Museologia, no intuito de dar novo alento à iniciativa, atribuiu, em 2013, uma menção honrosa na categoria de «Melhor Museu Português». Pequeno de dimensão, reúne o que foi o recheio do chamado Museu Etnográfico da Casa do Povo, procurando, em pinceladas breves mas sugestivas, dar uma ideia de como eram e como viviam as gentes almeirinenses: as alfaias agrícolas, os trajes típicos, os vestígios desde a Pré-história e a época romana.... Ponto de orgulho é assinalar, por exemplo, que foi ali que Garcia de Resende começou a imprimir o Cancioneiro Geral.
            Dir-se-á que é lento esse despertar para atrair visitantes, uma vez que se centrou – quiçá demasiado – apenas na «sopa da pedra». O Museu – aproveitando o espaço do que foi o terminal rodoviário – aliado ao embrião de uma «universidade da terceira idade» aí também residente, inserido no imenso largo da feira, poderá constituir importante pedra de toque a não esperdiçar! Como o foi a pedra na panela do frade!...

Publicado na Newsletter nº 6 do Departamento de Turismo da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, datada de 08-04-2014 e acessível em:

domingo, 6 de Abril de 2014

Os 100 anos da "Sociedade" de Caparide

            Com a realização de diversas actividades, comemorou 100 anos, a 1 de Dezembro, a Troupe União 1º de Dezembro Caparidense. Tive ensejo de apresentar, na circunstância, a respectiva monografia, editada pela colectividade, da autoria de Carlos Manuel Pinto Pedro, actual presidente da direcção.
            Beirão serrano da Covilhã, Pinto Pedro por aqui se fixou desde há anos. Integrou os corpos sociais da colectividade de 1993 a 2001 e a partir de 2009. Devem-se ao seu entusiasmo a recuperação da sede, a construção do ringue, assim como a promoção de muitas iniciativa de forma a congregar a população em torno da Troupe, acção de que o livro é reflexo e manifestação.

Uma casa e uma povoação com história
            Já tivera oportunidade de saber da actividade de Troupe quando aí se desenvolveu grande interesse pelos fantoches. Chegou a haver um espectáculo a 15 de Junho de 1996 e eu entrevistei, a esse propósito, em Rádio Clube de Cascais, o seu responsável, Jorge Gonçalves. Também acompanhei o «Atelier de Teatro e Dança”, da responsabilidade das actrizes Carla Andrino e Susana Cacela, e foi nessa ocasião, por alturas de 2008 e 2009, que, ao entrar no salão, me apercebi que estávamos perante uma «casa com memória», pois houvera, da parte dos seus dirigentes, o cuidado em exporem documentação, fotografias e objectos relativos ao passado da colectividade, a maior parte deles ora cuidadosamente reproduzidos na monografia.
            Em Caparide se encontraram inscrições funerárias romanas que tivemos ocasião de estudar e, ao cimo da rua da colectividade, antes de aí se proceder a uma urbanização, tiveram os técnicos da Associação Cultural de Cascais a possibilidade de proceder a escavações arqueológicas, que levaram à identificação de uma villa romana, cujos vestígios (mosaicos e cerâmica, sobretudo) nos permitiram datá-la do século IV da nossa era. Disso o livro se faz eco na p. 63. E, apesar de haver a esse respeito opiniões contrárias, creio que poderá continuar a pensar-se ter sido o topónimo Caparide derivado da palavra romana «capparis», ‘alcaparra’, sintoma de que, no fértil vale da ribeira que lhe fica aos pés, os produtos hortícolas, designadamente este, um condimento que os Romanos tanto apreciavam, seriam particularmente procurados. «Capparitus» poderia ser o local em que abundava a «capparis». Uma investigação em aberto!

A história cascalense presente!
            Merece, pois, o livro de Pinto Pedro ampla reflexão pelas informações que veicula. Permita-se-me que acentue apenas dois ou três aspectos que se me afiguram mais sugestivos.
            Criara-se, em 1913, o Grupo União Familiar Caparidense, que constitui, de certo modo, o embrião da Troupe. Registe-se a importância da palavra «união» no contexto em que nasceu; e o sentimento patriótico que se desprende de ter sido fundada a 1 de Dezembro, data comemorativa da retoma da nossa independência em relação a Espanha. Eram os primeiros tempos, agitados, da República e havia que criar no povo um sentimento de unidade e fazê-lo despertar para os seus verdadeiros interesses, mesmo que – nesse campo das colectividades de cultura e recreio – a influência inglesa tivesse sido dominante, visível, nomeadamente, na designação de um Costa do Sol Foot-Ball.
            Importa frisar, por outro lado, que, apesar de não se encontrar exactamente no litoral do concelho, o que poderia considerar-se motivo bastante para um alheamento, nunca Caparide deixou de participar nos acontecimentos mais relevantes do concelho.
            Pormenor deveras curioso para o estudo da história da mentalidade cascalense é, a meu ver, o facto de o rancho folclórico, criado em 1942, representar «três figuras: 1ª. O Concelho de Cascais, 2ª A Praia do Sol e 3ª. Um Turista “estrangeirado”». E na marcha de abertura não se deixa de referir que «tem a Praia do Sol junto dos pés e os campos verdejantes em redor». Essa Praia do Sol é, claro, a praia de S. Pedro, a que toda essa zona estava estreitamente ligada: não havia, recorde-se, o casario que hoje há, a cortar o contacto com o mar.
            E as letras das marchas que Pinto Pedro não hesitou em transcrever reflectem, na verdade, o sentir da população, o seu pensamento dominante. Em 1952, por exemplo, a atenção vai para «o teu rio», os pinheirais e... os sapatinhos de trança! Desta tradição, aliás, se haveria de fazer gala, no corso carnavalesco de 1959, organizado pela Estoril- Sol, em que o rei foi Maurice Chevallier: os participantes no carro da sociedade caparidense foram distribuindo, durante o percurso, sapatos de trança aos assistentes!
            Um outro apontamento: Caparide estivera presente, na Páscoa de 1943, na iniciativa «Festas nas Aldeias do Concelho», tendo logrado angariar 251$95 «para a benemérita obra do hospital» da Santa Casa da Misericórdia de Cascais. O respectivo «diploma de agradecimento», assinado pelo provedor, Padre Moisés da Silva, expõe-se no salão e reproduz-se no livro.

Uma identidade a preservar
            Referiu-se o «rio». E talvez não seja despropositado recordar a luta travada na Comunicação Social local, não há muito tempo, contra uma proposta de urbanização desse fértil vale a montante da povoação, onde há vestígios romanos, que viria descaracterizar por completo o ambiente dessas quintas seculares, onde, ainda hoje, se produz vinho de Carcavelos. Logrou-se a classificação dos plátanos seculares; conseguiu-se preservar e alindar a secular Fonte do Sapo. Nas tradicionais festas de S. Pedro era por aí que se desenrolava o piquenique. E há, de facto, que preservar esse local, pela sua beleza e simbolismo: repare-se que é na parede da casa junto à ponte que está a placa identificativa da povoação, ali mandada colocar pelo Automóvel Clube de Portugal, na primeira metade do século passado, a mostrar que era justamente ali a entrada ocidental da povoação.
            Aliás, a colectividade sempre exerceu também a função geralmente atribuída hoje a uma comissão de moradores. Foi à ‘sociedade’ que, por exemplo, se solicitou parecer sobre os nomes a dar aos arruamentos. E todos os domínios da Cultura e do recreio serviram, ao longo dos anos, para cimentar a união dos moradores: sessões de cinema ao ar livre; o tradicional Baile da Pinhata; os bailes de beneficência que alimentavam, nomeadamente, a Caixa de Auxílio aos Músicos, que ainda se logrou agora recuperar em casa de um dos sócios; o Grupo Cénico… Deveras interessante a referência ao espelho, destinado, dizia-se, a «controlar o movimento do salão», numa altura em que as mães se sentavam junto às paredes laterais e os pares rodopiavam sob a sua vigilância perspicaz…
            Um livro com muitas fotografias e de pessoas identificadas, o que particularmente me agradou, exactamente porque assim tem «pessoas dentro», num momento em que mais se fala de números que de pessoas e que mesmo o lema «Cascais elevada às pessoas» é frase a carecer de maior concretização efectiva.
            Registe-se, com aplauso, a preocupação em não deixar perder os arquivos das colectividades ou das entidades em geral e de os preservar e tratar. O arquivo desta colectividade deu entrada no Arquivo Municipal, cujos técnicos - competentes, afáveis, disponíveis - estão a levar a cabo, sob a mui eficiente direcção do Doutor João Miguel Henriques, um trabalho deveras meritório, a merecer encómio maior.
            Estão aqui pedaços de uma história centenária, pedaços de vida de antepassados nossos. E a publicação do livro contribuiu, não tenho dúvidas, para que a população de Caparide – a que tem aqui as suas raízes e a que, aos poucos, vinda de fora, se foi integrando nestes usos e costumes – sinta cada vez mais como sua a colectividade da sua terra. E continuem todos a lutar pelo bem-estar comum – na união que o livro muito contribui para cimentar.

Publicado em Cyberjornal, edição de 06-04-2014:

sábado, 5 de Abril de 2014

Na prateleira 20

Ementa dos anos da fome
            Dia 12 de Março. Passa num dos canais de televisão a reportagem sobre a criação, em Alfândega da Fé, da «Ementa dos Anos da Fome». Apresenta-se como iniciativa gastronómica, que preconiza o aproveitamento de tudo que o que se encontra na Natureza, ao nosso dispor, que se aproveitava outrora e que, na actualidade, se prefere comprar no supermercado, embaladinho, tratado e, quase de certeza, fruto de uma produção intensiva, com fertilizantes apressadores do processo de crescimento.
            Contudo, mais do que este aspecto – sem dúvida, altamente positivo – o que mais me impressionou foi o nome da iniciativa, porque traz bem explícita a ideia de fome. É preciso consciencializá-lo: há mesmo fome entre nós!

Natalidade
            Todos o dissemos, em tempo oportuno: cortar abonos de família, diminuir o subsídio de nascimento, não proteger as famílias numerosas, não facilitar as licenças de parto… só pode trazer consequências nefastas numa drástica diminuição da natalidade.
            Acresce a isso, todos os dizem também, a sangria da nossa juventude que parte para o estrangeiro em busca do trabalho que lhe é negado aqui.
            E agora parece que acordaram os senhores «governantes». Aqui d’el-rei que só temos velhos! Aqui d’el-rei que não nascem crianças! E os senhores tomaram alguma iniciativa para o evitar? Não fizeram ouvidos moucos, quando todos bramávamos contra as medidas que estavam a tomar? Éramos «velhos do Restelo», está bem de ver. E somos. Mas talvez as barbas brancas do velho alguma sabedoria hajam de guardar!

Até às 22 horas!
            Era chamada anónima. Hesitei em atender. As formalidades da apresentação. Dois dedos de cautelosa conversa, que, da minha parte, só tinham a finalidade de fazer tempo, o suficiente (pensei eu) para que o senhor do outro lado «ganhasse» a chamada. Não sei como é que o esquema funciona, mas fico sempre com a ideia de que, se for aguentando a conversa, o ‘funcionário’ é capaz de ganhar mais uns cêntimos. Não sei se é assim ou não. O certo é que, quando os atendo (o que nem sempre acontece), procuro ser simpático e respeitar o trabalho que têm, o seu ganha-pão, creio.
            Desta vez, era duma operadora de telecomunicações. Temos em casa os telemóveis de uma e o conjunto Internet / televisão / telefone doutra. Sim, eu sei que, se tivermos tudo da mesma operadora, sai mais barato. «Incomensuravelmente mais barato», garantiu-me o senhor do outro lado. Não abordámos o tema «fidelização», apenas afirmei que me sentia bem assim, pagava mais, paciência! Mas não tinha a maçada de mudar tudo outra vez, funciona, não funciona!... Contudo, a determinado momento, devo ter-lhe dado a ideia de que mais um pouco e eu não resistiria. E, aí, o senhor jogou o último trunfo: «Se celebrar o contrato até às 22 horas, usufrui desta promoção excepcional!».
            Perdão!? Espere aí um bocadinho. O senhor é duma operadora e está a falar-me de um número não identificado; por outro lado, são quase 20 horas e está a dizer-me que a campanha expira às 22?... Quer que eu tome uma decisão assim do pé para a mão?... Esqueça! E diga aí aos seus chefes… Espere! Não lhes diga nada!

O lago que deixou de o ser
            Deixou de ser lago o lago que alindava o final da Rua D. António de Castelo Branco, no entroncamento com a Rua Joaquim Ereira, em Cascais.
            Boa ideia!
            O sistema hidráulico previsto nunca funcionou a preceito; a água, não renovada, apodrecia. Virou, agora, canteiro florido. Se cuidado for, será regalo para os olhos.

Ictus
            Tem como símbolo um peixe estilizado. «Ictus» em grego significa «peixe», de facto. E era o signo secreto para os cristãos dos primeiros séculos se reconhecerem. Miguel Graça deu esse título à peça ora em cena no Mirita Casimiro. Certamente porque entrelaça com a história bíblica as histórias violentas que na cena faz passar.
            Choca.
            Estreada no Dia Mundial do Teatro em que, mais uma vez, se proclamou a importância fundamental do Teatro na vida das gentes (e, aliás, o próprio texto da peça com isso se casa às mil maravilhas), Ictus é um murro no estômago. Um forte murro no estômago. Para consciencializarmos o que os noticiários veiculam – e nós, como quem não quer a coisa, até acabamos por achar normal.
            E nada disso é, realmente, normal!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 39, 03-04-2014, p. 6.

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Resmalhar

           ‒ E como era, avó? Esse lobisomem vinha assim, pé ante pé, como um resmalhar de cobra no pasto? E trazia infusa à cabeça como tu quando vais às bicas? E trazia na infusa o quê, avó? Água benta para jogar sobre as pessoas ou eras tu quem lhe jogava a água benta em cima, para que lhe saísse o diabo do corpo e não atazanasse mais ninguém, era?
            Pelo telhado de canas – um primor de trabalho que eu vira meu pai fazer mais os vizinhos, nos tempos da grande entreajuda – esgueirava-se um ciciar de aragem fria… Fazia-me forte, cheio de curiosidade, que não queria saber de papões, o lobisomem é que contava, nas noites de lua cheia, diziam… Ceara papas de milho com duas postinhas de sardinha de salmoira e até bebera uns golitos de café, nada que me fizesse passar o sono, me desse cabo do estômago ou lhe desse volta ou fosse como apanhar na barriga um murro seco.
            Minha mãe é que ficava mais afeleada com essas curiosidades minhas:
            ‒ O moço pequeno é melhor é ir prá cama, que essas histórias, minha mãe, não lhe dão a volta ao estômago, mas ainda lhe avareiam a cabeça. É melhor: vamos prá deita!
            E eu posso jurar que não rezava nunca o padre-nosso certinho, porque a imagem do lobisomem me atazanava mesmo!...
      
            Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 183, Abril de 2014, p. 10.

 

A vida no campo – ter relógio ou… ter tempo!

           Tive ensejo de visitar a exposição temporária que, no Museu Nacional de Arte Antiga, nos veio mostrar, de 3 de Dezembro até daqui a dias, a paisagem nórdica através do olhar dos pintores Rubens, Brueghel e Lorrain, quadros que fazem parte do espólio do Museu do Prado, de Madrid.
            Congratulo-me, obviamente, com a iniciativa, na medida em que constituiu mais uma forma de chamar a atenção do Povo para a importância que a Arte acaba por desempenhar na vida, mau grado as tropelias dos ‘governantes’.
            Chamou-me, de modo especial, a atenção a apresentação da sala 2, «A vida no campo», onde se explica que, após a assinatura, a 9 de Abril de 1609, da trégua de 12 anos, os arquiduques Alberto e Isabel Clara Eugénia, com vista a consolidarem a reunificação, deliberaram utilizar «a pintura como instrumento de propaganda»: «Sendo fundamental para a reconstrução dos Países Baixos a colaboração do campesinato, os arquiduques consideraram que a representação da vida nos campos, no seu ambiente natural, era a temática mais apropriada à pintura».
            Estava-se nos primórdios do século XVII, ou seja, há 400 anos. E pensei com os meus botões: será que os actuais «governantes» leram? Será que se aperceberam da importância real que tem, na vida do Povo, a existência de um campesinato forte, bem apoiado, feliz, dotado por perto das infra-estruturas necessárias a esse bem-estar?
            Não, em Portugal não leram; em Portugal, se o sabem, não o conseguem facultar nem – ao que parece – se preocupam muito com isso! As reclamações diárias contra o encerramento de serviços públicos, na perspectiva imediata de que não são rendíveis, antojam-se como evidente prova em contrário. Desertifica-se o interior; enxameiam-se as cidades de gente por completo desenraizada; olha-se para o estrangeiro na mira de se alcançar lá o que por estas bandas se recusa, em nome do feroz código do deve e do haver.
            E os quadros fizeram-me lembrar o Powerpoint que circula pela Internet, a que se deu o nome de «Tuaregue traduzido». Diz-se que se trata da entrevista feita por Victor-M. Amela a Moussa Ag Assarid, tuaregue saariano. Palavra puxa palavra, o jornalista catalão a deixar-se enlevar, admirado, pela sabedoria de quem passa os dias no silêncio avassalador de uma Natureza original: «Quando se está sozinho naquele silêncio, até se consegue ouvir o bater do coração», garante o tuaregue. E acrescenta, para realçar as diferenças: «Vocês têm relógio; nós temos tempo!».

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 636, 01-04-2014, p. 11.