segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Brejeirices… ou não!

               Minha referência é, claro, a de meu pai e dos seus ditos, próprios de quem sabia condimentar com o sabor da ironia e de inofensiva maldade os instantes menos agradáveis do quotidiano. Havia sempre uma chalaça na ponta da língua ou uma rima feita no momento. Eu acho que não era dele mas de toda uma geração.
            «Não botes que eu não bebo!», por exemplo. Era a frase para quem ia vazar vinho ou aguardente no copo e… vinho ou aguardente haviam acabado, sem que o vazante disso se houvesse apercebido.
            «Aperta com ela que ela agacha-se!» – esta já tem mais que se lhe diga! Tanto podia ser com a coelha ou a galinha que se queria apanhar para ir para o tacho e estava fugidia, ou, em conversa de homens, em relação aos enleios amorosos a requerer conselho dos mais experientes…
            Um dia, cheguei a casa e disse-lhe:
            ‒ Nem calculas a quantidade de rolas que há por i nos pinhais, mesmo junto da minha casa, pai! Imensas!...
            ‒ Ora, ora! Tu vais ali à praia e lá andam muitas mais! E a voarem baixinho!...
            O maqueiro viera buscá-lo à enfermaria para uma radiografia. Ao sair, bateu com a maca na esquina da porta; ao entrar no elevador, a maca bateu na esquina da entrada; ao entrar para a Imagiologia, novo toque.
            ‒ Já não bebes mais hoje! – disse-lhe meu pai, num sorriso.
            Respirei de alívio (que houvera um AVC no dia anterior…):
            ‒ Temos homem!
            Ah! Algarvio duma figa!

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 262, 20-09-2018, p. 13.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O minúsculo grão de areia

             A água está morna, como deveria ser regra nestas plagas meridionais de tradicional sabor mediterrânico. Apetece.
            Não cessa a ondulação, a obrigar-nos ao exercício físico, num teste vivo aos nossos reflexos, a treinar.
            Ao entrar, aquela restinga áspera de pequenas pedras roladas. Séculos passaram por elas, sem dúvida, para terem hoje este ar bem roliço. De cor imaculada, umas; outras, negras, azuladas, cor de tijolo… E há mil pedaços de conchas. Imagino que abrigaram moluscos, até que o mar lhos arrancou e elas partiram por i…
            Há pouco, deitado na toalha, dei comigo a observar a areia fina à minha frente. Milhares, muitos milhares de pedacinhos ínfimos de rochas, de conchas… Ao ver, nesta serena manhã de começos de Setembro, a praia pejada de gente – velhos, pais, jovens enamorados ou solitários, crianças, muitas crianças, bebés… – eu pensara:
            ˗˗ Cada uma destas pessoas tem uma história, uma actividade (aqui e agora suspensa, para ganhar fôlego). Tem um anjo da guarda, ou dois, ou um guia (se se preferir) e, mui provavelmente, também acredita na existência de Deus. O Ser Supremo que comanda as marés e a ondulação, que acompanha durante milénios o evoluir daquele minúsculo grão de areia que ora me despertou a atenção (e Ele sabia que ma despertaria!).
            Impossível ficar indiferente nesta contemplação, grato por me haver sido concedida a possibilidade de a fazer.
            Duas formigas, completamente desnorteadas, tropeçam num e depois noutro e noutro dos grãozinhos de areia. Vieram, decerto, escondidas num saco de merenda e agora – também elas criaturas de Deus – vão penar o dia inteiro, até caírem exaustas. Não conseguirão sobreviver – e ninguém, mesmo as companheiras, dará pela sua falta.
            – O senhor sabe quem eu sou? – perguntava a actriz, à entrada do banco do hospital, na esperança de ser de imediato atendida. Não foi.
            Quem sou eu? Aquele vídeo, que parte de esbelta senhora em biquíni deitada na relva e, aos poucos, mas vertiginosamente, nos catapulta para o universo das galáxias, mostra-nos bem quem somos, afinal: menos do que o minúsculo grão de areia que eu, a custo, logrei isolar na ponta do meu indicador…

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 738, 15-09-2018, p. 11.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Os outros lados da vida

             Fui, no sábado, levado por uma amiga que lá ia fazer uma palestra, à Feira Alternativa 2018, realizada, nesse fim-de-semana, em Lisboa, no espaço do Parque de Jogos 1º de Maio.

            Apresentando-se como «o 1º e o maior evento de bem-estar, desenvolvimento pessoal e espiritualidade», a iniciativa transporta-nos, assim que entramos no recinto, para – ouso dizê-lo – os outros lados da vida.
            Fica para trás o movimento das ruas, o andar apressado para o emprego, a preocupação em chegar a tempo de apanhar o barco ou o comboio… Fica para trás tudo isso porque, em cada um das dezenas de stands, se te oferece, pelos mais variados caminhos, «tudo o que precisas para uma vida mais saudável, em que o equilíbrio é a palavra-chave», a «oportunidade única de aprender a viver o presente e de fazer uma pausa». Há quem convide para uma corrida à beira-Tejo, para «desfrutar da incrível envolvente ribeirinha». Há quem te proponha uma hipnose clínica, um chá quase milagroso, olorosas essências que te ajudam a respirar suavemente… E quem nos diga que temos uma «criança interior» e se disponha a colaborar connosco numa «regressão a vidas passadas, para libertar bloqueios».
            Ali, ao fundo, estendidas no pavimento de um campo desportivo, envolvidas por uma voz bem pausada e quente (teria, decerto, sons repousantes por fundo), umas cinco dezenas de pessoas se alheiam, por largos minutos, do movimento que as rodeia e, seguramente, do mundo em que, até àquele momento, estavam embrenhadas. Ao levantarem-se, sentir-se-ão ‘outras’, extirpadas de muitos dos conflitos interiores que carregavam.
            Aqui, a taróloga mediúnica propõe-te que poderá consultar para ti o «baralho cigano», o «oráculo dos anjos», e, entre outros, «o oráculo das vidas passadas»…
            São, de facto, os outros lados da nossa vida comum.
            E paramos, não sem algum pasmo, diante da tenda onde alguém (só vemos os pés…), sob um manto e numa maca, foi levado a abstrair-se de tudo e a navegar por outras galáxias.
            A baiana, vestida a rigor, no seu amplo vestido rodado, ouve com atenção quem a veio consultar. Deita os búzios e, pela posição em que ficam, desvenda a mensagem a transmitir.
            E vi quem nos fotografasse a aura. Se bem entendi, aquela zona que nos envolve a cabeça e cuja cor, na fotografia, contará muito de nós e nos ajudará a viver melhor. Estamos habituados a vê-la concretizada naquele ‘araminho’ circular ou na circunferência em volta das imagens dos santinhos. Pois ficamos a saber que cada uma de nós também a tem; e há que descobri-la!
            De tatuagens nem se fala! Um mundo! Já tivera oportunidade de ver, na praia, a infinidade de opções de assim se manifestarem crenças, emoções, ternuras, paixões ou, simplesmente, o gosto estético nem sempre avesso a alguma rebelde malícia ou acintosa ironia… Mensagens – a que, em corpo alheio, só alguns poderão ter acesso. E, na Feira Alternativa, senhores, tatuagens não faltavam! Quem as ostentava e quem se propunha fazê-las, inclusive como terapia.
            Contudo, perdoem-me, o que eu também apreciei deveras, confesso, foi a sugestão da recepcionista, quando me entregava o convite de imprensa: «Aproveite, que ele há aí bons restaurantes!...». Não sei se falava de comida espiritual ou da outra; creio bem que… era da outra! Malandra!...

                                                           José d’Encarnação


Publicado em Costa do Sol Jornal (Cascais), nº 249, 2018-09-12, p. 6.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Salpicos de Verão…

             A todos nos acontece. Dias há, em que, após a azáfama, sentimos a necessidade de mergulharmos no nosso jardim interior, de preferência acariciados pela brisa da noite (eu sei que a frase é «lugar-comum», mas eu gosto dela e gosto da frescura da brisa…). E deixamo-nos enlevar na onda de pensamentos despertados. Partilho-os. Dá-me licença?
            Gosto de me deixar inebriar por este mar calmo, mosqueado pelas luzes paradas das chatas. Sinto a esperança do pescador.
            «Todos os regimes têm os seus ladrões, mas só são tolerados os que sabem governar» – proclamou Cossiga, quando presidente, já em apuros, de uma Itália sempre turbada e imprevisível.
            A diferença entre governar e… governar-se!
            Assisto à exumação de um ente querido. Meio apodrecidas já as tábuas do caixão. O coveiro agarra na caveira com cuidado. Retira tíbias e perónios de dentro das calças meio rotas. Despeja no alguidar os ossinhos guardados nos sapatos…
            Pelo caminho sereno do regresso, vi tantos corpos aperaltados, na perspectiva de uma ‘eternidade’ bem diferente daquela que eu acabara de viver junto à cova reaberta.
            Encontram-se de seis em seis meses, no mesmo dia, à mesma hora. No rosto, a mesma interrogação: será que o pacemaker continua operacional? E sempre a mesma pergunta: porque será que as consultas começam impreterivelmente muito para além da hora prevista?
            Os olhos brilhavam-lhe e toda ela parecia vibrar nos seus 60 e tal anos. Conversava entusiasmada com uma amiga, na sala de espera do hospital, espera ritmada pelo toque descompassado do besouro da «sua vez». Falava do Espírito Santo.
 
                                              José d'Encarnação
                                                                      

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ainda os toiros em Cascais…

            Não sou aficionado das touradas. Aprecio, porém, a arte dos cavaleiros e a sua íntima comunhão com a montada. A inteligência do cavalo no despique com o touro. Não houvera o sangue das bandarilhas e tudo o que se sabe quanto ao antes e ao depois da lide em relação ao touro e, decerto, outro seria o meu entender. Admiro a coragem dos forcados.
            Vêm de novo estas reflexões a propósito de mais um livro sobre o passado cascalense, devido à mesma dinâmica dupla – Manuel Eugénio e Zé Ricardo – a que já fiz referência na crónica anterior. Parabéns, Amigos! E que lhes não doam as mãos na incessante busca das nossas raízes!
            Algo, porém, ficou por dizer e daí que ora retome o tema.
            Primeiro, para assinalar o enorme recheio documental ali apresentado.
            Nomes, fotografias, cartazes – poderia dizer que esta trilogia faz a grande riqueza deste imenso e minucioso repertório, que não retrata apenas o mundo dos toiros, mas toda uma sociedade e uma época de características singulares, a não esquecer! E que fotografias, senhores! E que cartazes! A cabeça do «Sautão», de 470 kg, da ganadaria do Engº Francisco Goes, o primeiro toiro a ser lidado na corrida de inauguração da iluminação eléctrica, a 6 de Julho de 1974, pelo cavaleiro Manuel Conde. O trajo dos Forcados Amadores de Cascais, grupo ainda existente…
            Depois, para aplaudir o enorme espírito de abertura da União de Freguesias Cascais Estoril, por os seus responsáveis (nomeadamente, o seu presidente, Pedro Morais Soares) entenderem que é preciso reservar verbas para editar um livro palpável, de papel, que se pode pôr na estante ou na mesa principal da sala de estar para mostrar aos amigos vindos doutras paragens, a fim de que eles compreendam que a vila não é apenas o que os meios de comunicação social, virados para as ‘vidas’ da ‘sociedade’, lhes mostram e que, com soez ironia não despojada de manifesta maledicência, os entremezes cómicos da rádio e da televisão mui de boamente veiculam. É muito mais a vila a quem, em 1364, el-rei D. Pedro I deu alforria em relação a Sintra. Tem uma história para contar! E os livros aí estão para isso mesmo!

Recordações
            Quando chegamos a certa altura da vida, acabamos por ter receio de que factos para nós significativos – que para os outros certamente nada dirão – venham a ser inteiramente esquecidos.
            Permita-se-me, pois, que refira dois aspectos. Prende-se o primeiro com os atrás citados cartazes, onde as corridas eram sempre «imponentes», «extraordinárias», «sensacionais» ou «grandiosas». E os toiros – «6 – toiros – 6!»... – sempre «imponentes» também, «poderosos», «bravos», «lindos», «bravíssimas novilhas» (estas, em número de 9, lidadas a 9 de Março de 1975!...). E a «Corrida de Gala à Antiga Portuguesa», num desfilar de montadas ajaezadas a rigor e os cavaleiros em seus esplendorosos ‘trajes de luces’. E aqueles pasodobles – olé!... – a sublinharem artes e perícias!... Enfim!
            Estava-se quase no fim da paginação do Jornal da Costa do Sol (é o segundo ponto a referir!) e lá vinha o Zé Coimbra, da Comissão da Praça de Touros José Pessoa, à última hora, «deixaram espaço para o cartaz, não deixaram?». Publicitava o jornal a corrida do domingo seguinte, tinha de ser! E, depois, era um encanto ler – com aquela bem saborosa terminologia – os circunstanciados relatos dos dois comentadores de serviço, ora um ora outro: António Lopes Portelinha e João Carlos Carraça. Castiços!...
                                                               José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal (Cascais), nº 247, 2018-08-29, p. 6.

 

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Patrimoniices cascalenses 17 - O Sanatório de Sant’Ana

            O azulejo apresentado para a adivinha é um dos muitos – e preciosos! – que ornamentam corredores e a fachada do actual Hospital Ortopédico de Sant’Ana, na Parede.
            Mostra, em letras entrelaçadas, o nome por que foi primeiramente designado: S(anatório) de S(ant’) A(na). Assim se chamou porque as condições atmosféricas que o rodeavam (e ainda rodeiam), designadamente as características da exposição solar e do ar marítimo, o aconselhavam largamente para a terapêutica das doenças ósseas. Diz-se, aliás, que condições iguais de sol e de iodo só numa prainha dos confins do Japão…
            Vale a pena aproveitar o ensejo para contar como parece ter estado «embruxado» o começo desta unidade de saúde, ora mundialmente reconhecida. Disso nos dá conta Ferreira de Andrade, no seu livro Cascais – Vila da Corte, uma passagem que, pelo seu interesse, transcrevi em Cascais e os Seus Cantinhos (p. 150):
            «Mandaram construir Dona Amélia Biéster e seu marido, Frederico Biéster, na Parede, um sanatório – o actual Sanatório de Santana.
             Foi encarregado da direcção e escolha do local o Dr Sousa Martins, que designou para elaborar o projeto o Prof. José António Gaspar, da Academia das Belas Artes. Entretanto, faleceu o Doutor Sousa Martins e era convidado para prosseguir a obra o Doutor Manuel Bento de Sousa, que pouco depois perecerá também.
             Houve certa superstição e, antes que outro médico fosse convidado, morreu Frederico Biéster e, poucos meses volvidos, sua mulher.
             As obras interromperam-se; o arquitecto Prof. Gaspar, impressionado, abandonou-as».
             Foi, pois, uma tia e herdeira dos Biéster, D. Claudina de Freitas Chamiço, quem decidiu não deixar a obra a metade. Entregou a sua orientação ao notável cirurgião Gregório Fernandes. A primeira pedra foi lançada a 7 de Agosto de 1901. Rosendo Carvalheira, um nome grande da arquitectura portuguesa, dirigiu os trabalhos. A inauguração fez-se a 31 de Julho de 1913.

 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Aquele burrico emociona-me!

             Impressionante – mas dizem-me que é assim! – como, entrados na década dos 70, revivemos e até estão mais vívidas na ideia as cenas da nossa infância. Explica-se, hoje, que o «disco» ainda estava virgem e nele profundamente se gravava tudo o que nos acontecia, de bom e de mau.
            Assim, estes dias de caloraça – como então se dizia – recordaram-me as férias em Agosto no Corotelo. Minha avó, após o almoço, achava (e bem!) que eu devia ir dormir a sesta no sobrado. Eu ia. A casa estava na penumbra em que as janelas fechadas, por mor do Sol, a envolviam. Fazia fresco e eu adormecia ao som de uns barulhinhos familiares, quais máquinas de costura. Uns bichinhos com que nunca travei conhecimento, mas que, ao que parece, estavam nas canas do telhado. Som a espaços que acabava por me adormecer, sem que eu tivesse medo que me caíssem em cima…
            Aconteceu agora que, de novo, me emocionei. Uma vizinha, amiga antiga de meus pais, são-brasense como nós, tinha uns quadros a estragarem-se numa arrecadação do quintal. «Coisas do Algarve», disse-me, «de que vai gostar de certeza e a mim para nada servem». Aceitei, quando mos mostrou. Seis desenhos de Júlio Amaro, a retratarem instantâneos da vida algarvia, mormente da zona por onde ele se passeou: a Praia da Luz, Alte, a igreja de Lagos, as chatas num repouso da faina… De todos, porém, mostrados naquela singeleza de traço inconfundível e esplêndido, o que mais me emociona é o da velhota, trajada como minha avó se vestia, de chapéu na cabeça e xaile pelas costas, a levar o burrico à fonte. Duas infusas grandes – quais ânforas romanas – uma de cada lado das cangalhas. E lá ia. Adivinho-lhe o passo lento. E todos os dias, ao subir a escada, paro diante deles, em reverente saudação ao Passado!
 
                                                               José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 261, 20-08-2018, p. 13.