quinta-feira, 5 de março de 2015

Alegria e sistema preventivo

            Evoco amiúde os meus tempos salesianos, quer como estudante quer como professor embebido do que sempre nos acostumámos a designar de «espírito salesiano».
          Como docente, a proximidade era de regra: o carisma a que D. Bosco chamou de «sistema preventivo». Prevenir, mil vezes melhor do que remediar – essa, a estratégia. E, por isso, não revejo uma escola salesiana sem ter, no pátio, os professores a jogar com os estudantes, a confraternizar com eles; sem imaginar um palco onde professores e alunos cantam, representam, declamam… Uma presença que não intimida nunca, é a do irmão mais velho, que não desdenha dar um pontapé na bola, pegar na raquete, sujeitar-se a poder falhar ao querer encestar no basquetebol… Está ali. Não são precisas palavras nem gestos. Basta estar, jogar, sorrir.
            Exacto: sorrir! Que essa é a outra faceta que não esqueço. Educar na alegria. A incitação de S. Paulo aos Filipenses (4, 4), que D. Bosco repetia: «Alegrai-vos, de novo vos digo: alegrai-vos!». Mantém todo o seu expressivo valor. Numa época em que a capacidade de se maravilhar está a esmorecer; em que abrir a janela pela manhã e proclamar ‘está um lindo dia para sorrir!’ não é atitude quotidiana - e devia ser!
                                                                       José d’Encarnação
 
Publicado no Boletim Salesiano nº 549 (Março/Abril 2015) p. 38.

terça-feira, 3 de março de 2015

Olha, a carroça vai vazia!

             Pareceu-me ter compreendido, outro dia, que determinado jogador poderia ser multado se se recusasse a vir fazer declarações, após o jogo, à chamada «zona das entrevistas curtas». Apercebi-me, então, de duas coisas: a primeira, a zona tem como pano de fundo os logótipos das marcas patrocinadoras e aqueles momentos são, pois, obrigatórios e até os segundos devem aí ser cronometrados a rigor; segunda, a razão de, com demasiada frequência, os jogadores não saberem o que hão-de dizer.
            Uma das frases mais ouvidas será, porventura, «vamos jogar para ganhar!», que tem uma variante: «Jogamos sempre para ganhar!».
            E eu fico a pensar: que diabo! Eu sempre joguei para ganhar, a não ser que estivesse doente ou que, por brincadeira com os meus netos, lhes desse a eles, pedagogicamente, a possibilidade de me ganharem. Mas, mesmo a botões, como sói dizer-se, o indígena joga para ganhar, quanto mais um treinador de futebol!...
            Compreende-se: essa é uma frase que não mói ninguém, porque é tão evidente que não aquenta nem arrefenta e o busílis será, um dia, quando um jogador vier e disser que «vocês bem sabem, nós hoje jogámos para perder»! Se foi de propósito, havia mouro na costa e teriam a Federação à perna para descobrir a marosca!
            Frases ocas, vazias de significado preciso, como as dos que fazem campanha eleitoral e são capazes de prometer a Lua, que o Povo é de promessas que gosta e logo depois, como escreveu Gustave Le Bon, depressa as promessas se põem para trás das costas…
            Mas o adjectivo ‘vazio’ fez-me lembrar uma daquelas mensagens que os amigos amiúde nos enviam, plenas de sabedoria. É a da carroça vazia. O pai está a dar um passeio com o filhote num parque:
            Além do trinar dos pássaros, que é que tu estás a ouvir?
            O moço apurou o ouvido:
            Vem aí uma carroça, pai!
            Sim, meu filho, uma carroça. E vazia!
            Vazia? Como é que tu sabes que está vazia, se ainda não a viste?
            Pelo barulho. Quanto mais vazia, mais barulho ela faz!
            Pois!
                                                                                                          José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde) nº 657, 01-03-2015, p. 12.

domingo, 1 de março de 2015

De pão do corpo a pão da cultura!

             Foi com esta ideia que o maestro Nikolay Lalov, director do Conservatório de Música de Cascais, deu conta do que se passara: na Rua do Viveiro, muito perto das instalações do Conservatório, fora posto à venda o espaço de um supermercado. As demoradas negociações acabaram por chegar a bom termo e… o lugar onde se vendia pão para o corpo passou a conceder alimento para o espírito!
            A inauguração do espaço ocorreu na tarde do dia 27, sexta-feira, com a presença de Carlos Carreiras, que descerrou a singela placa comemorativa juntamente com o maestro. Seguiu-se uma visita às instalações já recuperadas (aí já funcionam aulas) e, no salão de 130 metros quadrados, o maestro começou por explicar os dois segredos da sua equipa, em resposta a quem poderia pensar que a Orquestra de Câmara de Cascais Oeiras (OCCO) ‘nadava em dinheiro’. E os dois segredos são: planear correctamente e gastar apenas dentro dos limites previstos. Deu, aliás, como significativo exemplo a norma: «Ao sair, apague a luz!». De resto, o rigor pauta a sua actuação e a dos seus colaboradores – ou não fossem os músicos obrigados a um rigor matemático, sobretudo no tempo!... – e mais uma prova disso está no facto de o programa da cerimónia ter previsto inauguração às 16 h, actuação dos alunos do CMC às 16.20 e porto de honra às 16.30!
            Os convidados tiveram, pois, oportunidade de assistir à execução, por duas alunas, de um trecho musical em flauta; à actuação de numeroso grupo de crianças em canções infantis mimadas; e à apresentação de três apontamentos – de bailado clássico, de bailado moderno e contemporâneo. Seguiu-se o anunciado porto de honra, em que foi possível degustar vinhos da colheita de amigos da OCCO.
            O Departamento de Dança, embrião do Conservatório de Dança de Cascais, começa a sua actividade com 20 alunos, mas tem capacidade para 200. O espaço adquirido representou um investimento global de 160 000 euros feito pelo próprio Conservatório, que tem na actualidade 380 alunos nos vários segmentos artísticos que lecciona. As modalidades disponíveis no inaugurado Departamento são: Barra no chão, Cardio-dance / zumba, dança clássica, dança moderna / contemporânea, dança criativa, dança terapia, hip hop, dança localizada, música e movimento, teatro e dança e composição coreográfica.
            Ao maestro Nikolay Lalov e a toda a sua equipa os nossos votos de mui acrescidos sucessos.
            Agradeço a Luís Bento a cedência gentil das fotografias que ilustram esta nota.
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 01-03-2015:

Bairro dos Museus, um novo conceito em Cascais

             Há muito que sentíamos isso: a vila de Cascais passara a ter uma nova centralidade cultural, em torno do Centro Cultural (antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade): ao vetusto Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães (perdoem-me, mas eu prefiro continuar a chamar-se o que ele é) juntara-se, por ordem cronológica, o Museu do Mar Rei D. Carlos I, a Casa das Histórias Paula Rego, o Museu dos Faróis (Farol-museu de Santa Marta), a Casa de Santa Maria.
            Também a casa do guarda do museu passou a chamar-se Casa Duarte Pinto Coelho (como local de exposições, de modo especial, do espólio deste artista); a igreja matriz (com o seu notável recheio de pinturas, talha e azulejaria) está ali; a Casa Sommer (em reabilitação) depressa se tornará sede do Arquivo Municipal; e, claro, o Parque Marechal Carmona, que a todos de certo modo precedera, o pulmão aonde diariamente acorrem centenas de cascalenses.
            Por consequência, o conceito Bairro dos Museus – que existe com todo o êxito em Viena de Áustria e em Amesterdão – veio mesmo a calhar e a anunciada possibilidade de haver um bilhete comum para todos estes equipamentos (aqueles em que se paga a entrada) e, sobretudo, uma programação cultural plena de complementaridade acrescenta originais potencialidades do maior interesse.

A apresentação
            A cerimónia de apresentação ocorreu (com pompa e circunstância, assinale-se) na quinta-feira, 26, ao final da tarde, no auditório do Centro Cultural, que foi pequeno para conter quantos acorreram ao convite. Aí se ajuntaram, diga-se, muitos vultos da cultura cascalense e nacional (mormente aqueles – muitos – que escolheram Cascais para viver) e muitos rostos conhecidos do desporto e da Comunicação Social, que, ao jantar volante, não se cansaram de tecer elogios à ideia.
            Após a projecção de um vídeo explicativo, discursou Carlos Carreiras, presidente da Câmara, a integrar a iniciativa no conjunto da programação cultural do Executivo, com a finalidade, disse, de tornar Cascais um concelho onde é agradável viver uma hora, um dia, uma semana, uma… vida!
            Ao jornalista António Borga foi pedido que apresentasse a filosofia que subjaz ao conceito; e encarregou-se a actriz Ana Padrão de nomear, um a um, os vários equipamentos constantes do «bairro».
            O Professor Salvato Teles de Menezes, director-delegado da Fundação D. Luís I (entidade que superintende ao «bairro»), deu conta, desde logo, da programação prevista para os próximos meses, sublinhando que, desta sorte, se garantia a rendibilização dos recursos disponíveis, a criação de uma programação coerente e a diversificação da oferta artístico-cultural.
            Deixei para o fim a referência ao que constituiu, a meu ver, um dos momentos mais altos da sessão: Júlio Resende interpretou ao piano, no seu jeito inconfundível, alguns dos temas inseridos no seu magnífico álbum «Amália». Direi que é um consolo d’alma ouvir o disco; mas ver e ouvir ao vivo o artista é ainda mais reconfortante. A sua interpretação, por exemplo, de «Mãe Preta», em que, a determinado momento, deixa as teclas e faz percussão nas tábuas do piano, não deixa ninguém indiferente, assim como, naturalmente, o tema «Medo», naquela inesperada e totalmente conseguida junção da voz de Amália com as suas divagações jazísticas… Até arrepia! Forte e bem merecido aplauso para tão talentoso jovem, que mui proximamente estará de novo em Cascais, agora para apresentar o disco na sua totalidade.

Um bairro museológico que se alarga
            Diga-se que, para além dos equipamentos atrás citados, o conceito Bairro dos Museus alargou-se a outros que se não situam no mesmo horizonte geográfico, mas que cumprem idêntica função.
            Para já, importa assinalar que – embora não gerido pelo Município – temos ao lado o espaço da Cidadela, resultante do aproveitamento do antigo Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea e de Costa, uma fortaleza de grande tradição, onde apenas há a lamentar que o projecto de reabilitação e aproveitamento não haja previsto um recanto (pequeno que fosse) de evocação do que foi a densa história vivida pelos militares que, desde o século XVI, por ali passaram. Integrado nesse complexo está o Palácio da Cidadela, actualmente sob a tutela do Museu da Presidência, por estar intimammente ligado a Presidência da República (foi residência de Verão de reis e presidentes!...), onde a Capela de Nossa Senhora da Vitória não será monumento de somenos.
            Acoplada, de cerro modo, a este palácio e à Cidadela, a fortaleza de Nossa Senhora da Luz, onde, há anos, se concretizaram campanhas de escavações arqueológicas, de forma a possibilitar a sua visita.
            Ligado ao Museu do Mar, temos, na orla marítima, o Forte de S. Jorge de Oitavos, com uma exposição permanente que ora recorda a importância estratégica de todo esse litoral de Cascais ao sopé da Serra de Sintra e onde se desenvolvem inúmeras iniciativas, nomeadamente exposições temporárias.
            A Casa-Museu Verdades de Faria (assim designada por vontade do seu doador, Mantero Belard, em honra de sua mulher), no Monte Estoril, transformou-se em Museu da Música Tradicional Portuguesa. Para além da beleza da sua arquitectura (obra de Raul Lino, tal como o foi a atrás referida Casa de Santa Maria), da sua azulejaria e do seu enquadramento paisagístico em mui bonançoso parque, contém o espólio de dois grandes músicos portugueses: Fernando Lopes-Graça e Michel Giacometti, que ambos foram munícipes de Cascais.
            Criou-se no 1º andar do edifício dos Correios no Estoril o chamado Espaço-Memória dos Exílios, dedicado expressamente a documentar o que foi o acolhimento dado por Cascais aos muitos refugiados (monarcas, escritores, diplomatas…) da II Grande Guerra, que por aqui passaram e alguns acabaram por fixar-se.
            Fruto da doação do conhecido escritor e artista Reynaldo dos Santos, há ainda, na Parede, a Casa Reynaldo dos Santos e Irene Virote Quilhó dos Santos, transformada em centro de investigação.
            A remodelação levada a cabo, há alguns anos, no Parque Palmela, ora a usufruir de uma espaçosa entrada de feliz desenho urbanístico, dotou-o do Auditório Fernando Lopes Graça, também ele integrado no «bairro» e, desta sorte, a sua já abundante programação será doravante publicitada em conjunto com os demais elos da comunidade ora criada. O próprio parque, com todas as suas potencialidades (pistas para jogos de aventura, observação de espécies arbóreas mediterrânicas, à entrada, por exemplo, uma pequena mata classificada de dragoeiros…), foi incluído no conceito.
            Acrescente-se que novas infra-estruturas e valências culturais estão já previstas a breve prazo. Refiram-se: o Museu de História da Vila (de que há já um embrião nos baixos do Palácio dos Condes da Guarda, os Paços do Concelho), o Museu do Cartoon, o Museu do Automóvel Clássico e uma orquestra sinfónica (a juntar à Orquestra de Câmara de Cascais Oeiras, que desenvolve, também ela, um programa de excelência ao longo do ano). E que há a intenção de haver «a possibilidade de compra de bilhetes cruzados, a existência de passes diários» assim como o estabelecimento de protocolos com hotéis e restaurantes e concessionários de transportes públicos e parques de estacionamento.

O logótipo
            Vive-se da imagem, queiramos ou não. Por consequência, quando se pensou no conceito, decidiu-se de imediato que deveria existir uma imagem que o consubstanciasse.
            O convite foi endereçado a Irina Blok, reconhecida designer de origem russa ora a viver em S. Francisco, nos Estados Unidos, a criadora do logótipo do Google Android, convite que aceitou de muito bom grado, como tivemos ocasião de ouvir da sua boca no primeiro vídeo projectado no decorrer da sessão.
            E, como sempre acontece, resultou numa expressão bem simples: um quadrado com o quarto superior aberto, a dar possibilidade – como de resto, aconteceu – de nele esquematicamente se inserir a imagem estilizada de cada um dos equipamentos constantes da realidade «bairro», tarefa de que se incumbiu, com pleno êxito, Filipe Silva, designer da Casa das Histórias Paula Rego. Resultou muito bem – e há que aplaudir!
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 01-03-2015:

 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Como é que vou safar-me desta?

Anjinhos
            Vinha bem embrulhada em plástico, a realçar-lhe o carmesim da capa. Preso com elástico, na quarta capa, um pendente de porcelana branca ostentava a legenda byfly e, na outra face, duas asas. Retirado, mostrava como que numa janela dois anjinhos tocadores. O tema do volume lá estava, numa outra janela recortada, assim que se abria: ANJOS. E escrevera-se: «um anjo caiu para dentro das páginas de um segredo».
            Armara-se o sarilho: como é que vou safar-me desta, agora que me preparava para – folheando duas revistas bem diferentes, dirigidas ambas por grandes amigos meus – falar de cultura e temáticas afins, com uns anjinhos, ainda que músicos, pelo meio?
            E comecei a folhear este nº 53 da Egoísta. Folhas grossas, das mais diversas cores, textos em letras de grandes módulos. Ou não. E ilustrações que nos espantam. E fotos. Não será possível ver sem emoção – digo bem, emoção e nada mais! – a beleza da sequência em que, sob o título «Poussière d’étoiles», como se das estrelas caísse uma poeira ténue e linda, Ludovic Florent retratou, em delicadeza suma, esse corpo quase angélico de uma bailarina. A fotografia, como a escrita, como os anjos – a guindarem-nos acima de uma realidade em que vivemos mas que necessidade hemos de sublimar.
            Que é de Natal esta Egoísta. E, por isso, o Director, Assis Ferreira, no editorial, evoca o que aprendeu de sua mãe (ainda me lembro dela, da sua serena ternura, meu caro Mário!), o seu Anjo-da-Guarda. Que «do Natal, sobrevivem os embrulhos de presentes, a euforia dos lojistas, a reunião das famílias, as memórias do passado, esparsas evocações humanistas…»; mas – importa retê-lo – «sobrevivem os Anjos, os nossos Anjos-da-Guarda que, por desígnio divino, não têm nome de baptismo», e são eles que, afinal, insistem em lembrar que, afinal, o Natal pode e deve ser algo mais: «É o riso das crianças, é a prece de viver, é a elevação da alma, é a compaixão do próximo, é o apelo da paz, é o sorriso a quem se ama!». Isso aprendeu do seu Anjo-da-Guarda. Isso importava que todos recordássemos nos «Natais de todos os dias».
            E pronto! Não resisto, porém, a folhear de novo. E a fixar-me demoradamente agora nas diáfanas roupagens brancas esvoaçantes da menina que Zena Holloway fotografou. Uns poetas estes fotógrafos, a maravilhar-nos!
            Não sei se minha neta mais velha quererá usar o pendente de porcelana branca com a frase by fly, «pelo voo». Tentarei, porém, nessa linha de pensamento, ensinar-lhe também que diariamente é preciso abrir asas e voar!...

A estrangeirada D. Marionela e a miopia da governação
            Mais complicado será passear-me agora por entre a beleza destas manequins a envergarem o que de melhor os costureiros mundiais lograram confeccionar quer para realçar a beleza dos humanos quer para, através dela, mais alegremente podermos saborear o quotidiano. Afinal, Marionela Gusmão, à sua maneira, traz, na Moda & Moda de Dezembro, a mesma mensagem de Assis Ferreira – caminhamos entre amigos! – há que emprestar ao dia-a-dia outra dimensão!
            Temos ali a moda na sua expressão mais actual e radiosa; temos, porém, uma outra faceta a que nem sempre se dá valor: a Arte! Até a entrevista com o conhecido oftalmologista de Coimbra, António Travassos, tem Arte pelo meio, diga-se desde já! Quem resistiria, por exemplo, à sedução daquela joalharia que nos mostra «flores de todo o ano»? Ou à suculenta reportagem, ricamente ilustrada, acerca da obra artística da ‘imortal’ Niki de Saint Phalle, que esteve patente em Paris, no Grand Palais? Sala onde se mostrou também, até ao passado dia 18 de Janeiro, uma «exposição exaustiva» da obra do japonês Katsushika Hokusai (1769-1849), instantâneos de uma serenidade bem oriental. Aliás, pelo Oriente nos quedamos com o texto, mui ilustrado, sobre a época de ouro da dinastia Ming (exposição no British Museum)… E «as origens da Grécia» (p. 56-60) – exposição no Musée d’Archéologie Nationale – são-nos mostradas «entre sonho e arqueologia», com imagens de objectos arqueológicos e de criações actuais neles inspiradas. Duas personalidades mereceram também a atenção de Marionela: Óscar de la Renta, «um génio da moda» que faleceu no ano passado (p. 104-106) e por quem nutria grande amizade e admiração; e Júlio Quaresma (p. 142-149), que teve, em Cascais, medalha de mérito municipal em 2003 e foi o autor do vencedor (mas defunto) Plano de Pormenor da Praça de Touros de Cascais: honrou-se-lhe o mérito, chumbou-se-lhe o plano depois!
            Mas, D. Marionela, a menina só fala de exposições nos museus estrangeiros? Não há nada de importante nos museus portugueses? Ah! Já sei. Há, mas iníqua lei da míope governação portuguesa não disponibiliza gratuitamente imagens dessas iniciativas, como prazenteiramente o fazem os museus estrangeiros. Queres imagens? pagas com língua de palmo! Por isso, é preferível omitir. Nada se passa de importante nos museus portugueses!
            Espere. Leu até ao fim? Sabia que era na cauda que estava o veneno, hein? Pronto, se leu, afinal já também me safei desta!...
             
                                     José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 81, 25-02-2015, p. 6.
 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Experiência em voluntariado é trunfo a usar!

            Acabo de receber o currículo de uma mestranda, onde, mui acertadamente, se incluem na experiência profissional as acções desempenhadas em regime de voluntariado.
            Por coincidência, recebera não há muito, da Agência Noticiosa Salesiana, a informação de que a Confederação dos Centros Juvenis Dom Bosco, da Espanha, apresentara, a 31 de Janeiro, o projecto “Reconoce” (Reconhece), uma iniciativa que visa chamar a atenção para as condições de trabalho dos jovens. Refere-se, de modo particular, a sua dificuldade de acesso a um trabalho digno e de qualidade, acompanhada pela preocupante taxa de desemprego juvenil, superior a 50%, em Espanha.
            Consciente do problema, a Confederação Dom Bosco começou por sublinhar quanto o trabalho feito por jovens voluntários, além de melhorar a vida de outros jovens e crianças, lhes proporciona também experiências que lhes aumentam as possibilidades de emprego.
            Vão nesse sentido as conclusões do estudo “A situação do voluntariado juvenil perante o emprego: habilitações e potencialidades de emprego”, ora divulgado em Madrid. Essa pesquisa, da iniciativa da Confederação dos Centros Juvenis Dom Bosco, da Federação Didania e dos Escoteiros “ASDE” da Espanha, foi realizada pela consultoria especializada “Voluntariado y Estrategia”, e faz parte do projeto “Reconoce”, que tem como objectivo valorizar justamente a experiência do voluntariado nas associações juvenis e no âmbito das ocupações de tempos livres e melhorar as potencialidades ocupacionais dos jovens.
            A rede “Reconoce” – www.reconoce.org – tem, por isso, o apoio do Instituto para a Juventude, de Espanha (Injuve), entidade que manifestou interesse em reconhecer o trabalho dos voluntários no contexto da educação não-formal, assim como do Conselho da Juventude espanhol.

                                                                                                          José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 20-02-2015:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=1293:experiencia-em-voluntariado-e-trunfo-a-usar&catid=121:saude-e-solidariedade&Itemid=85

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As nossas fontes revisitadas

             Ainda me lembro: veio o senhor Governador Civil, a banda tocou à sua chegada e, quando abriu a torneira, estralejaram foguetes e bateram-se palmas. A aldeia passou a ter água ali à mão de semear, sem necessidade de ir além abaixo, ao pé da ribeira, tirar a água do poço. A cena passou-se no interior do concelho, nos princípios da década de 50, mas estou convicto que muitas idênticas houve, então, por todo o País.
            E o chafariz, singelo, em ferro forjado, ou mais imponente, de cantaria, com torneira para encher cântaros e infusas, donde escorria água para, do outro lado, o bebedouro dos animais e, daí, para os tanques de passar e de lavar do lavadouro vizinho – era o único monumento de que a aldeia doravante se poderia orgulhar.
            S. Brás de Alportel teve fontes, que de abundante nível freático se abastecem. As bicas dos Vilarinhos representam, porventura, o exemplar mais significativo. E se toda a atenção é pouca para que esse nível – devido, por exemplo, a uma urbanização excessiva, a acarretar impermeabilização do solo – não venha a sofrer graves prejuízos, as iniciativas levadas a cabo pela autarquia no sentido de renovar e alindar essas fontes, enquadrando-as devidamente em aconchegados recantos de lazer são, pois, de muito louvar. Importa, porém, que continue a inocular-se na população o hábito de a eles se achegar e de, efectivamente, os usar, para que sejam, de facto, motivo de usufruto e regalo. Não será mau, nomeadamente, que se proporcione às crianças das escolas a ida à Fonte Férrea ou à Fonte Velha (a que mais recentemente se renovou), pois assim se ganham costumes.
            E se a Fonte Velha recebeu duas estrofes de Bernardo de Passos, a da Fonte da Tareja ostenta uma outra, do mesmo poeta alportelense:
 
                                               Não sei se cantam, se choram
                                               As fontes, correndo ao mar;
                                               Se canto, sinto que cantam;
                                               Mas, se choro, oiço-as chorar!

                                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz nº 218, 20-12-2015, p. 21.