segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A (incrível) estória do Balhau

             Foi apresentado, ao final da tarde de domingo, 14 de Dezembro, pelo conhecido humorista Nilton, no Museu do Mar Rei D. Carlos, em Cascais, o livro A incrível estória do Balhau, da autoria de Filipe Desmet.
            Tinha o peixe o hábito – que partilha, aliás, com muitos de nós… – de comer as sílabas, designadamente aquelas mais saborosas, as do meio. Por isso, é chamado de Balhau e não de Bacalhau. E deu Nilton exemplos de inúmeras ocasiões do quotidiano em que, de facto, comemos as sílabas – e toda a gente percebe o que queremos dizer!...
            Ana Colaço, da RFM, leu depois algumas passagens do livro, para nos aliciar e os dois filhotes gémeos do autor, a Inês e o Guilherme, serviram… pastéis de balhau e sumos de… pêgo, laja, anás e mogo!
            Enfim, momentos deveras divertidos, como divertida é a estória (que não podia ser história!) do peixe que, um dia, vê uma mica, a come e… não é que ela (a minhoca…) estava presa num anzol? Mas, como só apanhara um peixe, o pescador dispunha-se a devolvê-lo ao mar, quando se apercebeu que este lhe piscara o olho! Não resistiu, ficou com ele, levou-o para casa e tornaram-se bons amigos. Imagine-se que até, um dia, foram a um jogo de futebol! E o Balhau também aplaudiu os golos, de barbatanas levantadas. Mas não sabia que só podia aplaudir os golos da equipa da bancada; enganou-se e «um adepto que estava perto dele, olhou-o com olhar de reprovação e disse:
            Ó baixinho, vê lá se queres que te convide para jantar peixe!».
            Aí ele percebeu.
            Cativou o Balhau o pescador pelo seu jeito de ver o mundo (por exemplo, a chuva a cair era uma novidade enorme!...). Por isso nos cativa a nós também, porque nos ensina a ver as coisas «insignificantes e pequenas», aqueles «grãozinhos de areia» que fazem o nosso dia-a-dia.
            No final da estória, sentimo-nos melhores, enlevados em estranha serenidade, deliciados com o saboroso olhar crítico que o Balhau – aquele que comia as sílabas do meio – acaba por nos transmitir.

Publicado em Cyberjornal, edição de 2014-12-15:

 

           

sábado, 13 de dezembro de 2014

Bichanos & companhia

            E as velhotas, no Centro de Saúde, lá continuaram na conversa em jeito de quem quer matar o tempo. Ouvi-lhes:
            Isto foi o cabo dos trabalhos!
            Imaginei logo que falariam de doenças, que é tema de velhos, pois claro.
            Faz-me a cabeça em água, o malandro!
            Supus netinho irrequieto, levado do diabo. Mas, quando me pareceu que soara a palavra bilharetas, mais ou menos assim pronunciada e que eu há tempos não ouvia, apurei o ouvido. Bilharetas: traquinices, partidas, fosquinhas, malandrices e atitudes do género... Podiam ser dum moço pequeno, podiam; afinal, porém, o Sebastião de que uma das senhoras falava era gato de luzidio e farto pêlo preto, a sua companhia, compreendi depois.
            E dei comigo a pensar na lei que ora se fez para punir quem maltratasse animais, designadamente animais de companhia. Aprovo. Gostaria, no entanto, de ter ouvido, na circunstância, falar mais do importante papel que gatos e cães detêm no equilíbrio de uma família, mormente crianças e velhos. E quantas vezes não vemos fotos de «sem-abrigo» em que a única e inseparável companhia é… um cão?! Gostaria que se dissesse quanto essa companhia contribui, mais do que os remédios, para segurar o equilíbrio mental. E que dessa consciencialização resultassem leis em conformidade, porque o sem-abrigo e o velhote podem passar fome, mas o seu cão… não!


Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 191, Dezembro de 2014, p. 10.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Na prateleira - 37

Temos campeões em badmington!
            Serenamente e sem grandes alardes, as colectividades lá vão prestando como podem (e lhes deixam…) os mais relevantes serviços à comunidade em que se inserem, nomeadamente contribuindo para cimentar imprescindíveis laços de vizinhança. Iniciativas da mais variada ordem preenchem o seu calendário anual e somos, de vez em quando, surpreendidos pela informação de que jovens atletas vieram medalhados de importantes competições internacionais.
            Soube, por exemplo, que tal acontecera no caraté, na Alemanha, numa prova europeia, em que jovens de Janes e Malveira arrebataram medalhas. E, a 23 de Novembro, por ocasião do 29º aniversário de Clube Desportivo da Costa do Estoril, sediado em Alapraia, ficámos a saber que, no badmington, modalidade desportiva em que o Clube agora aposta, se estava a ganhar grande relevo, inclusive com campeões a nível internacional.
            Regozijamo-nos!

Um estranho nome: Zyryab!
            Houve sessão comemorativa do 29º aniversário desse clube, a 23 de Novembro. Cabral de Sousa, o presidente, deu conta do que se procura fazer; Manuel Andrade, presidente da Mesa da Assembleia-Geral, saudou a presença de associados e amigos, realçando o facto de o senhor presidente da Câmara se ter feito representar por um dos directores municipais, Miguel Arrobas, que tem a seu cargo o pelouro das colectividades, educação e acção social e que, usando da palavra, se congratulou com as iniciativas levadas a cabo ao longo do ano.
            Na sala, ouviam-se sotaques vários, a indiciar quanto a colectividade constituía elemento congregador de uma população cosmopolita.
            Evocou-se Tito Iglésias, sócio recentemente falecido, poeta, homem de cultura, que legou ao Clube toda a sua biblioteca.
            Falou-se de música (aliás, uma das grandes actividades do clube, bem patente nos quadros que ornam as paredes do seu salão nobre); disse-se poesia; e ouviu-se o quarteto de guitarras Zyryab, que interpretou cinco temas da ‘Carmen’, de Bizet, e um trecho de Carlos Paredes.
            O quarteto foi fundado em 1999 por Luís Miguel Aveiro, que juntou a si Daniel Sousa, Ricardo Nogueira e Luís Roldão. Não é a primeira vez que actua no Clube e Zyryab – literalmente, «pássaro negro» em árabe – é o nome por que ficou conhecido Abu Al-Hasan Ali ibn Nafi (789-857), músico que, como referiu Paco de Lucía, «influenciou decisivamente a evolução da tradição musical árabe na Península Ibérica. Atribui-se-lhe a invenção do plectro (pua) utilizando a pluma dianteira da águia; também acrescentou uma quinta corda ao alaúde e criou uma escola musical sem precedentes. A tradição considerou-o o pai da música do Al Andalus». O quarteto quer, pois, seguir-lhe as pisadas – e vai muito bem!

Cocheiras Santos Jorge e… estufa!
            Não há meio de se salvaguardarem e reabilitarem as cocheiras de Santos Jorge, pérola arquitectónica do Estoril, que, pelo seu estado de abandono, a todos envergonham (se calhar, menos àqueles que deveriam envergonhar-se). No resto do edifício (demolido) foi autorizada a construção de um condomínio entre 1991 a 1993. Contudo, por informações que ora tivemos, «ainda se mantém na antiga propriedade uma lindíssima estufa que lamentavelmente está totalmente abandonada e em muito mau estado de conservação».
            Há, por conseguinte, que meter mãos à obra e… salvar também a estufa!

Cascais na Sociedade de Geografia de Lisboa
            Costa do Sol já teve ocasião de noticiar a sessão realizada, no passado dia 26 de Novembro, na Sociedade de Geografia de Lisboa, presidida pelo Engº Elias Gonçalves.
            Para além do presidente da edilidade, estiveram presentes técnicos camarários, que explicaram o que se pretende levar a cabo para minorar as agressões ambientais, e outros especialistas, entre os quais o Engº Miguel Azevedo Coutinho, filho do edil em cujo mandato se comemoraram com brilhantismo os 600 anos da elevação de Cascais a vila e um dos nossos peritos em questões hidráulicas, mormente no que concerne à prevenção de cheias e inundações.
            João Henriques, responsável pelo arquivo municipal, teve também ensejo de traçar uma panorâmica dos 650 anos da história cascalense. A este propósito, permita-se-me que mais uma vez me regozije pelos painéis sobre essa temática que ora se mostram nos baixos dos Paços do Concelho, idênticos aos que, mui acertadamente, estiveram patentes no paredão.

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 73, 10-12-2014, p. 6.

 

 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Desenterrou-se o lagar e a memória floriu!

            Não foi sem um estremecimento de curiosidade que Pedro Mota Soares descerrou, no passado dia 1 de Dezembro, inesperada placa evocativa. Dizia, estranhamente, CASA DOS LAGARES e proclamava, em baixo, ser «um espaço de memória onde queremos que viva o futuro».
            Preparada no mais completo segredo, a casa ora recuperada no Centro de Apoio Social do Pisão (antiga «Mitra»), sita na freguesia de Alcabideche (Cascais), impõe-se-nos, desde logo, pelo majestoso portal – e só o facto de não estar ainda inteiramente ‘operacional’ é que impediu que o Ministro da Segurança Social tivesse usado a grande chave antiga para lhe abrir a porta. Lê-se no desdobrável «Uma casa… muitas histórias»:
            «O núcleo histórico “Casa dos Lagares”, com uma construção e traços de arquitectura típicos dos séculos XVII/XVIII, é composto por três salas complementares. A musealização do sítio e a exposição de objectos e de fotografias reportam-nos, sobretudo, aos anos 40 do século XX e permitem-nos viajar no tempo até à actualidade, contando a história de pessoas que contribuíram para a identidade do Centro de Apoio Social do Pisão».
            E, entrados, foi o deslumbramento. Sabiamente expostos, objectos do que fora aquela tenebrosa instituição até 1985, onde, para o Pavilhão da Psiquiatria, afastado dos demais, a comida era preparada em bidões levados para os utentes-presos em cima de uma desengonçada carroça que também se logrou recuperar. Lá estavam as fotografias a mostrar como era, rostos macerados, martirizados, dolorosamente tristes ou alheados do momento… Aquele ali, que parou para a fotografia, na altura em que dava de comer ao companheiro acamado. E as sentinas… E os frascos dos medicamentos, material médico e cirúrgico… Objectos litúrgicos da Capela da Sagrada Família. A cadeira do barbeiro (ou do dentista?). As formas do sapateiro. A velhinha central telefónica. E aquela foto como que «de família», em filas ou em formatura, os guardas à frente, tudo fardado e de bivaque na cabeça…
            Uma que outra parede de pedra e argamassa à mostra. O forno que se pôs a descoberto e, sobretudo, o lugar onde assentava a enorme seira do lagar de azeite. Pelas dimensões, um grande lagar, alimentado, sem dúvida, pelas oliveiras da extensa propriedade, que os internados sob escolta trabalhavam… E pensar que esta – agora, “Casa do Azeite” – «na época da Colónia Agrícola do Pisão, serviu de casa de castigos»!...
            A «Casa do Lagar» é “espaço de museu, onde ainda existe o lagar de pisar uvas e o vestígio da prensa; aqui estão expostas peças de madeira, ferro e folha usadas pelos ‘colonos’ e algumas confeccionadas pelos próprios”.
            Inigualável, o poder evocativo desses espaços, a levar-nos para um outro painel, polvilhado de rostos, de pessoas, de sorrisos e de lágrimas, e, por cima, o mote de tudo, haurido em Victor Hugo:
            «O futuro tem muitos nomes. Para os fracos, é o inalcançável. Para os temerosos, o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade». Nem há necessidade de comentários!

As mensagens que ficaram
            Percorreram-se as instalações. Tomou-se um cafezinho noutra «casa» (a palavra ‘casa’ surge aqui e além – Casa do Lagar, Casa de ligação, Casa do Azeite –, nesta vontade de se ter acolhedor lar confortável…). Logrou-se fazer de um recanto a sala de informática. Num outro, a oficina de modelagem. Naquele ali, a marcenaria. Naqueloutro, senhoras preparam bolinhos… A cozinha quase industrial. O enorme e mui airoso refeitório. A farmácia com todos aqueles doseadores cheios de comprimidos para o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, a ceia… Há quem tome quase vinte comprimidos por dia, senão mais! E tudo tem de estar devidamente arrumado…
            Pelo meio, agora serenas, murmurejam as águas da Ribeira do Pisão que acasalarão mais adiante com as da Ribeira da Penha Longa, formarão o Rio Marmeleiro e se metamorfosearão, a jusante, na conhecida Ribeira das Vinhas.
            Na Sala da Formação, sentámo-nos para os discursos, em jeito de partilha de emoções.
            Contou a Provedora, Isabel Miguéis: há 340 internados. Um chegou a ser capa da revista Exame! Um outro come tudo o que apanha: beatas, folhas… Mas o Pisão – dependente, como está, da Segurança Social, não pode ser um «caixote do lixo» para onde se atira tudo o que os outros ministérios (por exemplo, o da Justiça) não querem! Não há condições para se receberem pessoas violentas nem com determinado tipo de doença.
            E foram quatro os pedidos da Provedora:
            1 – Que as obras começadas acabem.
            2 – Que o compromisso entre a Santa Casa e a Segurança Social seja realmente prioritário (estava presente a Dra. Mariana Ribeiro Ferreira, presidente do Instituto da Segurança Social).
            3 – Que possamos ser dotados de mais recursos humanos qualificados (não são precisos muitos).
            4 – O pedido maior: que haja respeito pelas pessoas que trabalham na – Segurança Social.
            Em resposta, Pedro Mota Soares, depois de acentuar a necessidade de o Estado contratualizar a resposta social, deixando, porém, de querer ser «patrão» a impor um conjunto de regras nas instituições que ele não quis gerir, preconizou maior diálogo entre o Estado e as instituições, numa relação que se quer de confiança, não por palavras mas com actos, pois, neste domínio, qualquer pequena intervenção é sempre uma grande intervenção.

Publicado em Cyberjornal, edição de 9-12-2014:

domingo, 7 de dezembro de 2014

Comissão de Protecção de Maiores... precisa-se!

            Este grito de alerta foi lançado na passada terça-feira, 25 de Novembro, pela provedora da Santa Casa da Misericórdia de Cascais, no decurso da Assembleia-geral da instituição, presidida pelo Juiz Conselheiro Armando Leandro.
            A razão do apelo prende-se com a violência dos mais diversos tipos de que ora são alvos os idosos, dadas as inúmeras dificuldades que as famílias estão a sentir para os proteger. Dificuldades financeiras mas, sobretudo, disponibilidade para os acompanhar devidamente, quer em casa quer mesmo em centros de dia ou nos lares onde os possam pôr.
            Há toda uma nova dinâmica que se torna necessário adoptar perante a situação dramática que ora se vive, sublinhou a Dra. Isabel Miguéis Bouças, informando, por exemplo, que acabara de dar entrada num dos lares da Misericórdia um ancião com 99 anos, facto que, até há meia dúzia de anos, seria considerado inconcebível! As famílias, cada vez com menos recursos, aguardam, ansiosas, o momento dramático dessa caminhada: aquele em que o ancião, independentemente da idade que tiver, passa a estar dependente de terceiros!
            Um dos centros de dia da Misericórdia é, hoje, mais um «lar de dia», com inúmeros problemas de saúde mental, cujo tratamento ultrapassa as capacidades dos que lá estão a trabalhar. Tudo se processou muito rapidamente, sem que as estruturas e as pessoas estivessem preparadas para enfrentar esse novo paradigma que se instalou e para o qual há que adoptar soluções dignas. «O Estado», sublinhou a provedora, «não pode ficar em gabinetes: tem de enfrentar a realidade!».
            É sabido que, do ponto de vista político, as pessoas de idade não têm suficiente importância; contudo, essa ideia é bem provável que não corresponda inteiramente à verdade, porque os anciãos têm uma família e as suas dificuldades acabam por se tornar as dificuldades de todos. De facto, alguém escreveu: «A ‘coisa’ mais importante para os pais são os filhos; mas a ‘coisa’ mais importante para os filhos não são os pais!» – e há que ter consciência disso!
            No decorrer da troca de impressões, Graça Poças, membro da Associação para a Cooperação e Desenvolvimento – P & D Factor, referiu que, nesse âmbito, está a ser preparada para apresentação ao mais alto nível internacional, nas Nações Unidas, uma Carta da População Idosa, porque o paradigma mudou substancialmente: hoje temos «adolescentes de 40 e 50 anos», «jovens adultos» no que concerne à sua falta de autonomia! Os direitos humanos precisam de ser vistos em função do ciclo vital, não apenas atendendo aos velhos e às crianças, tal como eram encarados até há cinco-seis anos atrás. Urge pugnar pelo estabelecimento de uma Convenção Internacional dos Direitos Humanos da Pessoa Idosa! Urge gizar novas estratégias com base no quotidiano concreto. Carece-se de uma cultura de prevenção: que os pais comecem a estar sensibilizados para as transformações de que os filhos vão sentir as consequências.
            Como entidade que é confrontada, no dia-a-dia, com esta súbita mudança e suas trágicas consequências a todos os níveis, a Misericórdia de Cascais está, pois, ciente da necessidade de se falar deste tema – para que as soluções também celeremente se encontrem, uma vez que a celeridade é a característica primeira desta inexorável mudança social.

Publicado em Cyberjornal, edição de 07-12-2014:

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O catedrático e o canalizador

             Gerou-se alguma polémica quando se entendeu que a senhora Merkel teria dito que há licenciados a mais em Portugal. Logo se lançou mão das estatísticas, das comparações… para se concluir que não, senhora, não temos licenciados a mais, em relação ao que se passa nos outros países da União.
            Sucede, porém, veio alguém dizer depois, que não fora exactamente isso que a senhora afirmara; preconizara, sim, maior atenção para o ensino técnico-profissional. É uma ‘luta’ que travamos quase desde pouco depois do 25 de Abril, quando se optou por fechar as escolas comerciais e industriais e uniformizar tudo. Medida que gerou oposição por parte de quem já nisto andava há algum tempo, mas que corria então sério risco de ser apelidado de ‘reaccionário’ e… metemos a viola no saco!
            Parece que ora se torce a orelha, não deita sangue e arremedaram-se uns cursos à pressão, em jeito de forma de suavizar as estatísticas do desemprego. Não é, porém, a mesma coisa e continuamos a ter falta de mecânicos, electricistas, sapateiros, alfaiates, torneiros…
            E contava-me o meu amigo David, que é professor catedrático, a propósito desse dilema, relacionando-o com o ‘ganhar a vida’ e ser recompensado. Foi, a convite da comissão organizadora, fazer uma conferência, integrada numa jornada em honra de vulto importante da história nacional. Preparou cuidadosamente o seu PowerPoint e o texto, durante alguns dias; comprou o bilhete de comboio (a cidade fica a uns 150 km da residência); foram buscá-lo e levá-lo à estação. Ficou lá o dia, para ouvir os outros intervenientes na jornada. Antes do almoço, a senhora que presidia informou: «Pedimos desculpa, mas por imposições de orçamento nem sequer lhes podemos pagar a refeição». Passaram já uns quinze dias e ainda não foi reembolsado do magro custo da viagem. Repito: é catedrático, continua a queimar as pestanas para se manter actualizado, gastou horas e horas a preparar a conferência, por acaso até nem precisa já dela para o currículo e, claro, ninguém o obrigou a aceitar o convite…
            Vem de seguida o resto da história. Dias antes, o esquentador deixou de funcionar e ele não percebia porquê. Chamou o canalizador, que se deslocou de uns 5 km. Chegou e sentenciou (contou-me ele): «Isto é a pilha. Pode ir comprar uma como esta e fica bom. São 30 euros pela deslocação!».
            Não será infinitamente melhor tirar um curso profissional?

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 651, 01-12-2014, p. 12.

 

Saímos de alma lavada!

            Foi essa, a de sair de alma lavada, a sensação que tive, quando terminou o concerto que, na tarde de domingo, 30, se realizou no auditório do Centro Cultural de Cascais, em homenagem ao maestro Fernando Lopes-Graça, evocando os 20 anos passados sobre o seu falecimento. Não apenas por termos revivido a emoção de o cante alentejano ser, agora, património cultural imaterial da Humanidade e ali termos ouvido cantares do Alentejo, mas porque as canções de Lopes-Graça nos incitam a acreditar num amanhã mais promissor, em que a serenidade do povo que trabalha deverá ser a dominante!
            Maria Celestina Leão Gomes, da Associação Lopes-Graça, abriu a sessão, começando desde logo por salientar que passaram 20 anos da morte do Maestro exactamente no dia em que o cante alentejano foi galardoado. Subscreveu o «carácter nacional» das suas canções, que Mário Vieira de Carvalho lhe atribuíra; citou José Gomes Ferreira: «Lopes-Graça continuará vivo. A morte é para os mortos!».
            Referiu-se à pianista Madalena Sá Pessoa, que acompanhou ao piano a «voz etnográfica» (expressão de Mário Vieira de Carvalho) de Celeste Amorim, no CD/Livro Canções do 25 de Abril e 13 Canções Heróicas, que iria ser apresentado. Madalena Sá Pessoa, de 94 anos, fez questão em estar presente na cerimónia – e foi aplaudida.
            O Presidente da Câmara, Dr. Carlos Carreiras, disse do privilégio que era para Cascais ter Lopes-Graça há 50 anos (30 em vida e agora 20 anos depois) e ser o Município fiel depositário do seu espólio no Museu da M´suica Tradicional Portuguesa. Saudou o Dr. Arquimedes da Silva Santos, ali presente. (Arquimedes da Silva Santos, recorde-se, natural de Póvoa de Santa Iria (1921) acompanhou Fernando Lopes-Graça e foi o fundador da Escola Superior de Educação pela Arte). Aludiu à notável recolha de cantares do povo que Lopes-Graça e Michel Giacometti, que foi também este munícipe de Cascais (que igualmente preserva o seu espólio musical), fez por todo o País, «num tempo em que o tempo ainda passava devagar».
            A I parte da sessão seria completada com a intervenção do arquitecto Filipe Diniz. Lopes-Graça, disse, escreveu as canções expressamente para a voz «irrepetível» de Celeste Amorim e soube adaptar os textos às mãos da pianista. «Canções da resistência e da revolução», «politicamente empenhadas», profundamente imbuídas da «realidade comum alicerçada na raiz popular». Contrapôs essa atitude à dos tempos que ora se vivem, de rasura e asfixia cultural, da promoção de «uma cultura de massas desprovida de autenticidade». E exemplificou com o facto de as televisões, a propósito do cante alentejano, terem passado a Canção do Mineiro, sem se aperceberem de que esta canção é tanto dos mineiros de Aljustrel como dos mineiros das Astúrias ou do Chile!... A designação de «heróicas», acrescentou, não poderia ser mais ajustada, porque elas têm subjacente o sentimento de luta por um mundo melhor através da cultura. Aliás, Filipe Diniz começara por evocar a figura de José Casanova, afirmando que, em vez dele, quem deveria estar ali a apresentar o CD era precisamente José Casanova (membro do Comité Central do PCP que faleceu no passado dia 15).

Uma viagem pelo país
            Iniciou-se de seguida a prometida viagem «com a canção regional portuguesa de Norte a Sul», através da música de Lopes-Graça.
            Primeiro, o Coro de Câmara de Cascais, sob a direcção de Maria Repas Gonçalves. Um naipe de vozes de todas as idades, senhores e senhoras, de traje preto e longo cachecol vermelho.
            Depois, o Coro Lopes-Graça, da Academia de Amadores de Música de Lisboa, dirigido por José Robert. Também senhores a senhoras: elas de blusa branca a cair sobre saia preta, ostentando colares e gargantilhas; eles, de casaco escuro, calças cinzentas e laço grená.
            Ambos a interpretarem pequenos e mui melodiosos trechos, de sabor genuinamente popular. Recordo, a título de exemplo, «O ladrão do negro melro», qual hino à serenidade que se almeja!
            Na III parte ouviram-se quatro canções heróicas, acompanhadas ao piano por António Neves da Silva. Primeiro, a bem conhecida «Jornada», com letra de José Gomes Ferreira, pelo Coro Lopes-Graça; depois, «Rústica», também de J. G. Ferreira, pelo Coro de Câmara de Cascais. «Ronda» (de João José Cochofel), «Canto de Paz» (de Carlos de Oliveira) e «Acordai» (de J. G. Ferreira) foram interpretadas pelos dois coros em conjunto, sob direcção de José Robert. Em brinde extra à assistência, que encheu por completo o auditório, Maria Repas Gonçalves dirigiu os dois coros na versão do seu Coro para o «Canto da Paz».
            Foram, de facto, noventa minutos que nos reconfortaram o coração e nos lavaram a alma. E Cascais bem pode orgulhar-se do legado que teve e assim mostra que dele é merecedor!
                                                  
Publicado em Cyberjornal, edição de 1-12-2014: