segunda-feira, 25 de julho de 2016

O quebra-cabeças dos investigadores

            Refiro-me aos que, no domínio das Ciências Sociais e Humanas, por imperiosas necessidades curriculares, se vêem obrigados a exprimir-se por escrito.
            Não, não quero brandir de novo o gume de minha espada contra a ignóbil obrigatoriedade de se ter de redigir em insípido inglês, fazendo enorme ginástica a tentar verter em língua estranha as noções que só a sua riquíssima língua portuguesa contempla. Nessa batalha estou, mas declaro tréguas agora. Falo mesmo do busílis que é escrever em português.
            O texto em si cada qual que se amanhe para comunicar e defender a tese longamente amadurecida. Refiro-me é às referências bibliográficas. Que quebra-cabeças! Quase custa mais adequar-se às restritas regras que cada publicação impõe do que redigir dez páginas! O tempo que se perde! Leva ponto ou querem vírgula? Põe-se a editora ou não? Querem também o ISSN e o ISBN? E as páginas vêm precedidas de p. ou de pp. ou sem nada? Espera aí que já me esqueci como é que querem!...
            Horas infinitas passa o autor a ajustar-se às normas implacáveis – que, se as não segues, corres o risco de ver o texto devolvido ou mesmo recusado e tu que gostavas tanto de o publicar!...
– Errado está, amigo! – replicar-me-á alguém. – Em Portugal, foi estabelecida uma norma que dá pelo nome de Norma Portuguesa de 1994 (NP 405-1); e, no caso de correspondência e documentos electrónicos, devem seguir-se, respectivamente, a Norma Portuguesa de 2000 (NP 405-3) e a Norma Portuguesa de 2002 (NP 405-4). Só há que segui-las e pronto!
– Sim, respondo eu, norma é, mas não temos obrigação de a seguir, nomeadamente se pensarmos que, de tão reflectida que foi, os seus autores nem sequer sabem a diferença entre as funções do hífen e as do travessão! Têm, pois, autoridade para a imporem?
Um martírio, este, o das normas de redacção, que se tornou necessário fundamentalmente porque alguns autores parece que foram esquecendo aos poucos a função da citação bibliográfica. Nesse aspecto, o pessoal das Ciências ditas «exactas» não está com meias-medidas: põe (Albuquerque 2013) e já está! Já está? Significa que a obra desse tal Albuquerque, em 2013, é toda sobre o tema que o autor está a tratar? Ou será apenas um dos capítulos ou, até, duas ou três páginas? Compreende-se bem que há diferença em escrever (Albuquerque 2013 42-45) ou, simplesmente, (Albuquerque 2013) – e há que ter consciência disso! Compreende-se que, nesse tal domínio das Ciências ditas «exactas», amiúde se não indique a paginação, porque se trata de textos pequenos, quase monográficos, ainda que resultem de muitos meses e até de anos de investigação! Recordo sempre o que nos dizia o nosso saudoso Mestre D. Fernando de Almeida, que trabalhara com Egas Moniz, Prémio Nobel: «O artigo que mais notoriedade me deu tinha apenas cinco páginas!». Não fixei qual deles foi, mas, se se consultarem as páginas 112-116 do nº 3 (2005) da revista Eburobriga, verificar-se-á que os seus textos de natureza médica eram, em geral, bem sucintos…
Não interessa, a meu ver, a extensão, mas a profundidade, a inovação, a clareza e a lógica na exposição – isso é o que interessa e a forma como se cita a bibliografia constitui excelente sintoma de uma mente bem formada.
E, volto, por isso, à questão inicial: para que servem as referências bibliográficas? Para que o leitor possa, sem grande esforço, ir à fonte que o autor cita e verificar o contexto e aceitar – ou não – a interpretação que lhe foi dada! E para ser «sem grande esforço», o que é preciso? Acho eu que a resposta à pergunta deve ser dada por cada autor e em cada momento: fornecendo todos os elementos indispensáveis!
Partilho, pois, veementemente, da liberdade de expressão também neste domínio: cada qual deve citar a bibliografia como mais lhe convém e está habituado. Carece é de seguir sempre a mesma regra do princípio até ao fim do texto; mas obrigar o autor a pôr ponto ou vírgula, p. ou pp. ou só os números das páginas, desde ele use um critério uniforme e claro, acho que é uma prepotência nos tempos que correm, em que, à distância de um simples clique, encontramos num livro a expressão que queremos, lemos um artigo, sabemos logo qual é a editora e como o podemos comprar, o ISBN, onde é que a revista se publica e qual a entidade…
Permitam-se-me ainda três notas:
1. Nem sempre o nosso computador percebe a diferença entre o hífen e o travessão (é por isso que a tal NP 405-1 tem hífenes onde se postulariam travessões…); devemos, consequentemente, estar atentos, uma vez que as suas funções são mui diferentes.
            2. Para mim, algo que se torna importante de bem salvaguardar é a diferença entre um artigo e um livro, quer este seja de um autor quer, tratando-se de uma obra de conjunto, haver a referência clara aos que se encarregaram de preparar ou de coordenar a edição, pois é pelos seus nomes que essas obras ora se citam.
            3. Um reparo: a sequência mais comum é a dos apelidos dos autores. E, neste âmbito, Portugal deve vincar o seu lugar: cita-se pelo último apelido! Sei que há já quem deseje imitar os espanhóis, que citam pelo penúltimo, porque esse é que é o nome do pai; mas, se quiser perseverar nessa pretensão de «ser castelhano», o estratagema é muito simples: opte pela utilização de um hífen e, assim, em vez de GONÇALVES (Antero da Cunha), passará a ser citado CUNHA-GONÇALVES (Antero da). Uma opção legítima, claro! Ainda que, no exemplo citado, esse Antero se arrisque a ver o seu nome identificado, em França, por exemplo, como DA CUNHA GONÇALVES (A.) – e quem é que o vai descobrir assim? Por outro lado, A. é Antero, Antónia, Américo ou… Antonieta?
            4. Também me causa algum engulho (problema meu, eu sei!) a questão de se insistir em abreviar et alii, expressão latina que significa «e outros» e que deve ser utilizada sempre que haja mais do que três autores. Para já, deverá vir em itálico; depois, porquê abreviar uma expressão tão pequenina?
            Apelo, pois, veementemente (repito) a que se deixem da mão as regras rígidas que tanto tempo ocupam aos investigadores e que constituem, a maior parte das vezes, bicudo quebra-cabeças!

                                                                      José d’Encarnação

            Publicado em Al-madan Online, II série. # 21 (tomo 1), Julho de 2016, p. 9-10.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Alice no Jardim das Maravilhas pela Companhia Palco 13

             Está em cena, de quarta a domingo, a partir das 22 h. e até dia 31, no Parque Marechal Carmona, a peça teatral Alice no Jardim das Maravilhas, pela companhia Palco Treze.
            Uma adaptação, da autoria de Maria João Afonso, do clássico livro de Lewis Carroll (1832-1898), Alice no País das Maravilhas. Na versão original, a menina cai na toca de um coelho e entra, assim, num mundo fantástico, por onde, naturalmente, se passeia e se maravilha… E essa poderá ser a primeira mensagem a reter: urge que aumentemos a nossa capacidade de nos maravilharmos! É tão vertiginosa a evolução que, amiúde, descuramos motivos de encanto, ao alcance de um atento olhar. Quando, depois, alguém nos chama a atenção para isso, ficamos… admirados.

Uma reflexão
            Curiosamente, foi também essa a primeira reflexão que fiz quando, na noite de sexta-feira, 15 – uma daquelas noites únicas de Cascais, morna, serena, estrelada… – vi as primeiras cenas a desenrolarem-se junto do Palácio dos Condes de Castro Guimarães: «Quantos terão já contemplado tranquilamente o interior desta casa-museu?».
            Depois, a escultura de bronze que lhe fica defronte e que ora, derrubados os vetustos eucaliptos, mais sobressai? Quantos saberão que se trata de uma das obras célebres de Joseph Bernard, «Jeune femme dançant avec son enfant»?
            Aliás, não poderia ser outro – dizemos nós agora… – o ambiente para o começo: saem de um palácio as personagens nobres e, no jardim fronteiro, junto à «jeune femme», ensaiam danças antigas, no condão de nos levarem, de imediato, para o reino dos contos de fadas…
            E eis senão quando, Alice, que ali ‘caíra’, não numa toca, mas no meio dessas personagens de vestuário estranho, desata a fugir e esconde-se no meio do arvoredo, a recusar o encontro que a deixara pasmada. Grita-se por ela e consegue-se, enfim, saber do seu paradeiro…
            O relvado do parque, sito para sul do roseiral e defronte da biblioteca dos pequeninos, cercado da magia iluminada das árvores, não poderia ser melhor para tudo se desenrolar ali, nos mais esquisitos cenários em que o transformam.
            Feliz, muito feliz, portanto, a escolha do local e bem adequada a ele a encenação de Marco Medeiros. A um canto, como que ocultos por velho tronco, os músicos Jorge A. Silva e Nuno Gonçalves (teclados, saxofone, clarinete) salpicam de ajustados sons ao vivo as fantasmagóricas cenas a que, em silêncio, vamos assistindo…
            Lúcia Moniz é Alice, bem secundada por praticamente todo o elenco da companhia: Alexandre Carvalho, David Ferreira, Gláucia Noémi, Gonçalo Carvalho, Isac Graça, João Jesus (o gato que teve de aprender sapateado…), João Vicente, Leonor Biscaia, Luís Lobão, Maria Camões e Rita Tristão da Silva – actores saídos, diga-se de passagem, na sua quase totalidade, da Escola Profissional de Teatro de Cascais.

As lições
            Para já, a arte de bem adaptar, de bem encenar e de bem representar, tanto mais de louvar quanto sabemos serem sempre escassos os meios de que se dispõe para erguer um espectáculo teatral. Sintomático, aliás, o facto de, no final, após os aplausos e após os actores se haverem esgueirado pela escuridão, o público ainda ter ficado largos minutos sentado, como que a saborear o que vira, na amenidade da noite. Lá em cima, pensativas elas também, uma amarelada Lua e três ou quatro estrelas cintilantes…
            Em segundo lugar, a eternidade de certas obras literárias. Têm os escritores esse condão. E apraz-se salientar dois dos muitos aspectos, já devidamente analisados, decerto, por tantos comentadores:
            ‒ Interroga-se Alice, a cada passo: quem sou? O que estou aqui a fazer? Donde vim?… Ao ouvirmos os noticiários de hoje, ao termos conhecimento de tão desenfreadas loucuras, não nos interrogamos também: «Mas isto está tudo louco ou sou eu que enlouqueci? Quem somos?»…
            ‒ «Cortem-lhe a cabeça!», grita com frequência a Rainha de Copas (João Vicente) do alto da sua importância e da sua autoridade. Felizmente que ninguém a leva a sério. Mas… nesta 2ª metade do ano da graça de dois mil e dezasseis, quantos não levam a sério essa ordem?!...
            Calou-nos fundo a poesia da noite com as suas fantasmagorias e a vontade imensa de, definitivamente, se aniquilarem fantasmas e monstros. O certo é que monstros e fantasmas continuam a existir!
                                                           José d’Encarnação

           Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 149, 20-07-2016, p. 6.

Fotos reproduzidas, com a devida vénia, da página do Facebook da Palco 13.




A Universidade da Experiência

Evocando Manuel Brito Guerreiro
            Cumpre-me saudar a memória de Manuel Brito Guerreiro, que mui recentemente nos deixou.
            Segundo o provérbio indiano muito conhecido, atribuído, por exemplo, a Tierno Bokar, «um velho que morre é uma biblioteca que arde»; a Brito Guerreiro se pode aplicar bem este axioma, embora ele tenha tido sempre a disponibilidade de nada guardar para si das recordações de antanho e nos ter traçado, nas crónicas que foi publicando – e outras estão ainda por publicar –, o que a sua experiência lhe foi ditando ao longo da vida.
            Ficamos-lhe muito gratos.
            E não será despropósito contar o que soube, no passado fim-de-semana (2 e 3 de Julho de 2016), em conversa com uma amiga espanhola: está a considerar-se cada vez mais a hipótese de se deixarem de parte as designações «Universidade Sénior» ou «Universidade da 3ª Idade» para se preferir «Universidade da Experiência». Na verdade, nada mais oportuno: ali se trocam experiências, ali mutuamente nos enriquecemos na partilha de conhecimentos!
            Que descanse em paz, Manuel Brito Guerreiro! Estamos-lhes gratos pelas experiências que tão amavelmente não hesitou em connosco partilhar!

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 236, 20-07-2016, p. 11.

sábado, 16 de julho de 2016

Eu sou… o quê?...

            Escrevo ainda na euforia da vitória de Portugal sobre a França, porque não me é possível deixar de sublinhar o imenso carácter inventivo do nosso Povo. Hoje, segunda, 11, chovem a cada segundo os ditos, os chistes, os cartuns, cada um mais original que o outro, de nos fazer rir a bandeiras despregadas, perante o mau perder dos Franceses (nem sei se deveria escrever com maiúscula – o que é que diz o Novo Acordo Ortográfico?).
            O que se inventou para explicar porque é que a Torre Eiffel, primeiro iluminada com as cores gaulesas e não com as portuguesas e, pouco depois, ficara imersa na escuridão não lembraria a ninguém – e não se fala mais no assunto. Mas, claro, ficou-nos de emenda, porque ainda temos bem presentes as imagens de quantos portugueses (e foram milhares!...) não hesitaram em pôr no seu perfil do Facebook: «Je suis Charlie» ou, com a bandeira francesa por fundo, «La France sommes nous». Pois…
            Quando visitou a Expo’98, o presidente Jacques Chirac admirou-se de não ver aí o francês como língua oficial. Explicou-se-lhe que já pouca gente compreendia. E quando, a 3 de Maio de 2001, num seminário ao mais alto nível no Instituto Franco-Português, em Lisboa, se debatia o decréscimo do uso da língua francesa, eu perguntei a quem representava, na ocasião, o departamento de promoção da língua que receitas nos trazia de Paris.
            – Nenhumas! São os senhores que devem pensar nisso! – respondeu-me.
            Pois não pensámos.
            São inúmeros os livros e os filmes sobre a emigração portuguesa para França, a salto, nas décadas de 50 e 60, e rara será a família que não tenha parentes em França, de várias gerações já. Foi, porém, Júlia Néry uma das primeiras a tratar literariamente o tema. O seu livro «Pouca terra… poucá terra…» (Edições Rolim, 1984) termina desta forma, que ora, 32 anos depois, obviamente, dadas as circunstâncias, me dispenso de comentar:
            « – Quando o desemprego se vislumbrar, muitos franceses começarão a ver o emigrante com maus olhos… quererão pô-lo na fronteira… poderá começar uma nova forma de racismo… E depois?
            […] Só quando o comboio parara em Vilar Formoso, Leonor encontrara dentro de si a resposta a dar a Cathy:
            – E depois muitos filhos de portugueses nasceram já em França e alguns optam pela nacionalidade francesa.
            E depois, minha amiga Francesa, nós entraremos pelo vosso sangue, pela vossa Língua, pela vossa História, pelos vossos hábitos, que o português é semente que em qualquer terra dá fruto…» (p. 161).         
                                                                          José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 689, 15-07-2016, p. 11.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Uma conversa agachados na vinha…

            Então, avô, a vinha não é sua? Porque é que estamos assim meio escondidos a apanhar esse cachinho de uvas para mim?
            Sabes, eu tenho a vinha de guarda e se o senhor me visse aqui a apanhar uvas, quando eu lhe dissesse que me andavam a roubar, caso isso acontecesse, ele respondia-me logo: «Pois foi vossemeceia que andou lá e agora culpa-me!?».
Joaquim Encarnação Pereira (1887-1977)
Jaqueta e colete que foram de seu uso

            É curioso: quando me lembro de meu avô é este o primeiro episódio que surge. Creio que me terei sentido deveras importante, pois eu era seu cúmplice na transgressão!...
            Só depois é que vêm à lembrança as idas para a campina à alfarroba, o varejar das amêndoas e o saborear dos figos. E o porco. E a casa-de-banho sobre a pocilga…
            Alto, seco de carnes (diria hoje), sempre de barrete ou de chapéu preto na cabeça, lenço ao pescoço, colete, cachimbo invariavelmente na boca protegida pelo bigode… Vejo-o a irradiar serenidade, não me recordo de alguma vez o ter ouvido gritar.
            Hoje, que os meninos chegam a ter quatro avôs (os adoptados, às vezes, melhores do que os de sangue…), não se imagina o que é ter, como eu, apenas um (o outro morreu quando eu era de berço). Estava com ele nas férias grandes, uma semana ou duas. E era uma festa, era… «o meu avô!».
            Uma coisa eu nunca cheguei a perceber: porque é que minha avó tinha um quarto e o meu avô outro. Fazia-me espécie, mas achava que devia ser por mor do ressonar, do dar muitas voltas na cama. Quando meus pais passaram, também eles, a dormir em camas separadas, já compreendi melhor.
            Meu pai foi, de todos os filhos, aquele que mais se lhe pareceu. Até no cachimbo e no beijo matinal à garrafinha de medronho. Um dia, até me recitou os versos que o Aleixo dedicara ao Joaquim da Encarnação. Escrevi-os e enviei-os para Loulé – meu avô ia lá à feira – a fim de se incorporarem em nova antologia do poeta. Cometi a asneira de não ficar com cópia. Perderam-se; mas fica-me o orgulho de saber que também meu avô lhe merecera atenção!

                                                                        José d’Encarnação

            Publicado in SANCHO (Emanuel) e LOURENÇO (Ana Bela) [coord.], As Engrenagens do Tempo (Visão social da história de 30 anos de São Brás de Alportel – 1900-1930), Casa da Cultura António Bentes / Museu do Traje, S. Brás de Alportel, Junho de 2016, p. 35. [ISBN: 978-989-99341-3-9].

sábado, 9 de julho de 2016

No Museu do Traje de S. Brás de Alportel, uma exposição a não perder!

            Amiúde nos sai da pena – neste caso, do teclado do computador – esta expressão: «a não perder!». Manifesta a opinião do cronista, a dar conta de que o facto, o evento, o livro, a oportunidade que aí vem ou está, não deve, em seu entender, ser desaproveitada, por ser única, digna, valorizadora. Saiu-me, naturalmente, e ia colocá-la no final desta nota, quando se me afigurou que deveria começar por aí.
            É que estamos habituados a ver salientadas na Comunicação Social escrita, falada e televisiva, as iniciativas dos museus nacionais. E são sempre únicas, dignas de visita, excelentes, imperdíveis! E, na maior parte das vezes são-no, de facto! Não vou utilizar esses adjectivos para a exposição de que vou falar e do catálogo que a acompanha: o leitor, se tiver oportunidade de a ver ou a hipótese de ler o catálogo há-de dizer-me os qualificativos de que «As Engrenagens do Tempo» é merecedora.
            Trata-se da exposição, inaugurada no passado dia 3 de Junho, no Museu do Traje de S. Brás de Alportel, que proporciona, sob essa designação, a «visão social de 30 anos da história» da vila, ou seja, desde 1900 a 1930.
            A base é, naturalmente, o espólio mui cuidadosamente guardado e tratado no museu, fruto de doações e, até, de aquisições. E esse, para além de ser mostrado realmente nas salas da exposição (e até o edifício do Museu é digno de visita, diga-se!), vem reproduzido nas mais de 300 páginas do catálogo coordenado por Emanuel Sancho e Ana Bela Lourenço, com requintado design gráfico de Tiago Ferreira.
            Resulta, claro, de um trabalho de equipa, mas nunca será de mais salientar o dinamismo de Emanuel Sancho e a extrema dedicação do Padre Afonso Cunha, coadjuvado, naturalmente, pelo irmão, o prior Padre José da Cunha Duarte, a quem a iniciativa é dedicada, na sua qualidade de «fundador e impulsionador do Museu do Traje de São Brás de Alportel até à actualidade».
            É o seguinte o percurso da exposição: «A Valsa do Tempo», «Tempo Antigo (1900-1910)», «Tempos Revoltos (1910-1914)», «No Tempo das Trincheiras (1914-1918)», «Tempos de Esperança e Incerteza (1918-1928)». Conclui o percurso a sala 7, a que se deu o nome de «Sala de Projecto» e onde, mui sugestivamente, se apresentam esboços de José Brito referentes ao desenvolvimento do projecto da exposição.
O manequim e... a realidade d'outrora!...
            Aludi ao catálogo; omiti, de propósito, tudo o que se refere à ficha técnica da exposição, cujos elementos merecem por igual o maior encómio; mas foi propositada a omissão, porque… a exposição é para ser vista, saboreada in loco e o catálogo leva-se para casa, porque, além de servir de apoio à compreensão do conteúdo das salas, disponibiliza textos de índole histórica, elaborados por especialistas, que requerem o aconchego do lar para saboreio maior! E sobre eles há que falar, ainda que em pinceladas largas:
            ‒ Artur Ângelo Barracosa Mendonça escreve sobre Manuel Dias Sancho (falecido, em Lisboa, a 15-11-1959) e o relevante papel que desempenhou, em S. Brás de Alportel, a sua Casa Bancária (p. 102-125).
Modelos desenhados por Roberto Nobre
            ‒ Afonso da Cunha Duarte aponta Roberto Nobre como o «primeiro desenhador de moda português» (p. 126-135); e dá minuciosa conta, logo a seguir (p. 136-165), de quem foram e como se notabilizaram os sacerdotes que, desde o último quartel do século XIX até 1930, estiveram à frente da paróquia de S. Brás.
            ‒ Coube a Luís Guerreiro historiar um dos temas mais candentes da S. Brás dos finais do século XIX e mesmo primórdios do século XX. Em «O Caminho de Ferro para São Brás – Atribulações de uma Vontade Colectiva» (p. 166-189), se mostra esse querer de um povo. Lê-se nomeadamente em Ecos do Sul, de 25 de Setembro de 1926, em título a toda a largura da 1ª página: «O caminho de ferro em S. Brás – O povo de S. Brás de Alportel, numa étape gloriosa, que honra suas tradições, manifestou exuberantemente que quere progredir, que quere viver». E, a dado passo, no corpo do artigo, se sublinha que clamou «num grito altissonante e patriota, o cumprimento dum melhoramento local, a que a terra tem direito e que foi sempre o seu sonho doirado – a criação dum ramal de caminho de ferro para aqui». (Que se me perdoe o parêntesis: hoje, reclama-se insistentemente a melhoria da EN 2 – leu bem, Amigo, é a Estrada Nacional Nº 2! – entre S. Brás e Estoi, com ligação, portanto, à Via do Infante e também esse continua a ser brado no deserto!...).
            ‒ Glória Maria Marreiros recorda, por sua vez, «mulheres são-brasenses e outras algarvias dos primórdios da República Portuguesa» (p. 190-213).
            ‒ João Nobre evoca (p. 214-234) «o retrato dum mecenas são-brasense», António Rosa Brito (1871-1942), um paladino da instrução pública, que à sua custa exemplarmente fomentou e manteve.
            ‒ «Sociabilidade e práticas culturais em São Brás na I República» foi o alvo da investigação levada a efeito por Paulo Pires: os bailes, as récitas, as representações teatrais… tudo é passado a pente fino e bem documentado com ilustrações únicas (p. 235-279).
            ‒ S. Brás tornou-se vila independente de Faro a 1 de Junho de 1914; justificava-se, por isso, que João Vargues nos explicasse «Faro e o tempo republicano: ideologia e práticas na sociedade farense de início do século XX» (p. 280-311).
            Perguntar-se-á porque divulgo agora, com entusiasmo e algum pormenor, uma iniciativa levada a efeito no Barrocal algarvio. Muito simples é a resposta: porque preconizo que português que vá de férias ao Algarve se deve convencer, de uma vez por todas, que Algarve não é só o litoral. O Algarve é o litoral, é o Barrocal, é a Serra: do litoral todos falam; da possibilidade de caminhadas na Serra, de bem amplos horizontes e mui inesperadas paisagens, poucos terão noção; mas muitos talvez se não lembrem que, por exemplo, Silves, Loulé, S. Brás de Alportel se situam num barrocal de características paisagísticas ímpares, com iniciativas culturais que não temem confronto com o que de melhor se faz no País. Por isso, renunciar a um ou dois dias de férias balneares para vir conhecer essoutros Algarves constituirá, não tenho dúvida, uma experiência inolvidável – porque até a gastronomia, acredite, aí ganha outro sabor!

                        Cascais, 9 de Julho de 2016  

                                                           José d’Encarnação

Os ecos e os conselhos

            Ousei incitar os leitores, na passada edição, a servirem-se do jornal local para darem notícias e, até, a comentarem os sempre saborosos e oportunos textos que Noticias de S. Braz veicule, nomeadamente sobre a história e os costumes de antanho.
            Fiquei, por conseguinte, contente por também a Josélia Viegas ter agradado a evocação que Manuel Brito Guerreiro fizera, na edição de Março, do hábito de armar aos pássaros, uma evocação a que eu próprio tivera ensejo de me referir na edição seguinte (de Abril), mas, essa, Josélia Viegas já não leu. Por sinal, até foi bom, porque o cotejo dos três depoimentos mostra a sua complementaridade.
            E, dentro desse espírito, não posso deixar de comentar o poema de Tito Olívio (olá, Amigo!), onde o Poeta proclama que doravante se recusará a dar conselhos, «pois quem ouve só mostra obstinação». Acha que o valor do conselho depende da ‘nomeada’ de quem o dá; aliás, conclui, a alternativa pode ser vender conselhos e não dá-los, pois só ao que é vendido se atribui valor.
            Como professor, tenho a sensação (posso estar enganado, claro!) de que os meus «conselhos» (não dou conselhos, prefiro apresentar sugestões) são habitualmente acatados. Todavia, as sugestões dadas como cidadão caem, a maior parte das vezes, em saco roto e nem obtêm resposta!
            De facto, amigo Tito Olívio, sou forçado a dar-lhe razão: é melhor vender que dar!

                                                       José d´Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 235, 20-06-2016, p. 11.

Post-scriptum: A Universidade da Experiência
Cumpre-me, no momento em que divulgo aqui esta breve crónica, saudar a memória de Manuel Brito Guerreiro, que mui recentemente nos deixou. Segundo o provérbio indiano muito conhecido, atribuído a Tierno Bokar, «um velho que morre é uma biblioteca que arde»; a Brito Guerreiro se pode aplicar bem este axioma, embora ele tenha tido sempre a disponibilidade de nada guardar para si das recordações de antanho e nos ter traçado, nas crónicas que foi publicando - e outras estão ainda por publicar -, o que a sua experiência lhe foi ditando ao longo da vida. Ficamos-lhe muito gratos. E não será despropósito contar o que soube, no passado fim-de-semana (2 e 3 de Julho de 2016), em conversa com uma amiga espanhola: está a considerar-se cada vez mais a hipótese de se deixarem de parte as designações «Universidade Sénior» ou «Universidade da 3ª Idade» para se preferir «Universidade da Experiência». Na verdade, nada mais oportuno: ali se trocam experiências, ali mutuamente nos enriquecemos na partilha de conhecimentos! Que descanse em paz, Manuel Brito Guerreiro! Estamos-lhe gratos pelas experiências que tão amavelmente não hesitou em connosco partilhar! - 2016.07.09