terça-feira, 1 de setembro de 2015

Comparações sempre odiosas

            Costuma dizer-se que as comparações são sempre odiosas, em todos os campos em que elas se apresentem.
            Na educação familiar: a comparação entre os irmãos feita pelos pais, sobretudo se na presença dos filhos em apreço e perante outras pessoas constitui erro em que amiúde se cai, por mais que se diga (e esta é uma comparação boa!) que filhos são como os dedos da mão: todos diferentes, independentemente de terem (dizem os pais…) a mesma educação.
            Na escola: aos professores se explica ser a emulação uma prática saudável. A usar, porém, com conta, peso e medida, para que, por exemplo, o urso da turma não venha a ser alvo de mui invejosa chacota.
            Na política. A cada passo a comparação vem à baila e, agora, em tempo de campanha eleitoral, quem há aí que resista a comparar? E quem, por outro lado, não chega, alfim, à excelente conclusão de que… não há comparação possível, porque é tudo igual?!...
            Agosto e Setembro são, porém, os meses ideais para comparações odiosas e inoportunas. Estás à mesa, a saborear apetitosa salada serrana, orégãos quanto bastem, folhinha de hortelã, tomatinho bem temperado e carnudo, o pimentinho usado a preceito… E o companheiro de mesa: «Ali na Galiza é que vocês haviam de ver! Aquilo é que são saladas! E os pimentos de Padrón?». E o senhor desdobra-se na descrição pormenorizada, de água a crescer-lhe na boca… Ora bolas! – digo eu. – Já esta salada serrana não me está a saber bem. Importas-te de te calar?
            Lindo, este passeio pelas portas de Ródão. As garças nas margens, a vigilante colónia de grifos alcandorada nos penhascos altaneiros, ali mesmo onde o rio Tejo se estreita e nós louvamos a Deus pela beleza proporcionada… «Ah! Mas vocês haviam de ver! O passeio no Delta do Danúbio com almocinho de peixe a bordo! Aquilo é que é maravilhoso! Aves de todos os jeitos e feitios! Um outro mundo!...». Ora bolas, amigo! Importas-te de admirar os grifos?

                                                             José d’Encarnação

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 668, 01-09-2015, p. 12.

O  rio Tejo nas Portas de Ródão

Instantâneo de passeio pelo delta do rio Danúbio
 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Na abertura, o desrespeito falou mais alto!

             Permita-se-me que, em crónica para jornal local, eu não privilegie a minha condição de historiador nem a de museólogo, para assumir apenas o papel do jornalista.
            E, na verdade, a primeira palavra que, nessa condição, me ocorre a propósito da solene inauguração do Museu da Vila, ao final da tarde do passado dia 20 de Julho, pertence ao domínio da crónica. É: desrespeito!
            Mercê da bem oleada máquina de propaganda que – mui louvavelmente – a maioria do Executivo Municipal cascalense soube montar e mantém, era de esperar uma enchente de público, curioso por, finalmente, ir passar a ter um espaço museológico a contar a história da vila. Aspiração com mais de um século, que aumentara desde que o Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães deixara de ser repositório de um pouco da história local (tinha sala de Arqueologia e privilegiava a aquisição de espólio ligado à história cascalense), ausência aumentada pelo facto de – por dali ter saído a biblioteca – a afluência de cascalenses ao ‘seu’ museu ter diminuído substancialmente.
            Por esses dois motivos, a propaganda e a expectativa, foram largas as dezenas de pessoas que acorreram a saudar o novo espaço. Penso – mas posso estar enganado – que tal era de esperar. E, por essa razão, se se organizara visita guiada, ela nunca poderia ser para multidão mas sim para pequenos grupos, acho eu. Se, para multidão, como foi, detém a Câmara Municipal meios técnicos para fazer com que pudessem ser ouvidas tanto a voz do Senhor Presidente como a dos técnicos que, ao longo do percurso, deram as explicações que se impunham, mormente se se imaginasse que o público que acorreu poderia não ter a noção do que ali se passava, ou seja, uma inauguração e não um reencontro de amigos («Olá, como estás! Há séculos que não te via!...»). Mas… foi reencontro de amigos!... Por outro lado, genial a ideia de ser el-rei D. Carlos a dar-nos as boas-vindas, activadas por sensor presencial; contudo, desta sorte, Sua Majestade fartou-se de dar as boas-vindas e também a sua repetida voz se foi sobrepondo, mui naturalmente, quer à do Senhor Presidente quer às dos sacrificados técnicos.
            Senti-me envergonhado: não antojava que, em Cascais, num acto desta importância, para que tantos nobres cascalenses haviam sido convocados, a algazarra fosse tão grande, a demonstrar quão difícil é ter mão em governados assim. Aliás, isso mesmo confidenciei com el-rei, que se limitou a encolher os ombros e me disse: «Eu bem quisera mudar um pouco da mentalidade do Povo! Até andei por Cascais, como sabes, a falar com pescadores e com sábios, fiz pesquisa náutica, mostrei o elevado interesse da Ciência e do Mar… Mas, que queres? Assassinaram-me!». Tive de lhe dar razão.

Então, senhor cronista, e o Museu?
            É verdade, leitor amigo, preciso de falar do museu, ainda que (repito), nesse traje de cronista.
            Direi, em primeiro lugar, que outra atitude não há a ter senão a de aplauso! Ver concretizado o embrião de uma instituição por que há tanto se ansiava, qualquer que venha a ser o seu futuro estatuto, não pode deixar de considerar-se um acto de coragem e da maior relevância, enquadrado, como pode considerar-se, nas comemorações dos 625 anos da elevação de Cascais a vila.
            As hipóteses de complemento ao Museu-Biblioteca dos Condes de Castro Guimarães haviam sido várias, praticamente uma nova em cada novo executivo que tomava posse. Para isso foi pensado o que é hoje o Centro Cultural de Cascais; o aproveitamento da Fortaleza de Nossa Senhora da Luz; e, até, para ainda dar mais força ao (actual) «Bairro dos Museus», um Museu da História de Cascais no lugar deixado vazio pela demolição do Pavilhão dos Desportos do Dramático. Também elas foram, na altura, devidamente propagandeadas pelos executivos camarários; nenhuma, porém, chegou a concretizar-se e, inclusive, para espanto de alguns, o tal excelente espaço do Pavilhão foi transformado em… parque de estacionamento pago!
            Por conseguinte, depois da palavra ‘desrespeito’, qual a palavra que se impõe registar? - Aplauso! Um grande aplauso! Por se tratar de um embrião, de fecundidade ora garantida; por mostrar, em eloquentes penadas, o que é uma história singular e digna de ser recordada; por constituir aperitivo de futuras exposições temporárias a desenvolver, no Bairro dos Museus, o que ali se apresenta como tópicos; por ter aberto ao Povo um espaço histórico a que se juntará, em determinadas ocasiões, a possibilidade de visita ao bonito salão nobre do palácio.
            Tem, pois, razão o Senhor Presidente em mostrar-se ufano do embrião que tão grande empenho pôs em gerar! A abertura deste novo espaço demonstra que Cascais pode continuar a manter, ufana, bem desfraldada no topo do mastro do Endeavour, a sua bandeira rubra, em feliz saudação ao aconchego de uma baía multissecular.

                                                        José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 104, 26-08-2015, p. 6.
Vitrina com  significativos achados arqueológicos
 
Singela homenagem aos trabalhadores da pedra
 
O carcavelos de mui vetusta presença...
                                   
 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O senhor que bebeu medronho a mais

            Multiplicam-se as editoras, na convicção de que o negócio dos livros é mina de oiro. Sei que, para uma editora da nossa praça, o é. Pelo menos, na aparência, porque, quando lhe dei a conhecer a recensão que fizera a um dos livros por ela editados, a primeira preocupação – sem que sequer tivessem lido o que eu lhes escrevera – foi responder-me: «Passe para cá 900 euros e nós publicamos-lhe o livro». E eu nem lhes propusera nada!...
            Bem andou, pois, a nossa Câmara em ter incluído nas comemorações do Centenário notável rol de publicações, contando, porém, os cêntimos e programando para a Feira da Serra, à última hora, sessões de autógrafos, a fim de, eventualmente, recuperar parte das verbas dispendidas. Se é que o pôde fazer, assim sem mais nem menos...
            Creio que este tema deveria ser alvo de reflexão, porque amiúde me consta estar consignada na Lei das Finanças Locais (não sei se está, confesso), a impossibilidade de um município poder inserir na sua contabilidade verbas provenientes da venda de suas publicações.
            Se está, continuo a pensar que teria bebido uns cálices a mais de medronho o dono do bestunto que tal pensou e os que, ao depois, o aprovaram sem ler. Pode lá haver uma regra mais à contrária à difusão da Cultura por parte de uma autarquia? Uma boa gestão do Vereador da Cultura passa, justamente, pela promoção de publicações de índole local que suscitem o interesse da população, que fomentem a sua memória e, consequentemente, o seu enraizamento. Trata-se de um investimento e não de uma despesa, até porque facilmente se logrará promover a sua difusão e, mais mês menos mês, a edição está paga, se calhar até alguma verba excedente se arrecadou, a fim de ser aplicada em uma edição mais, que está à espera.
            Surge-me, desde logo, o exemplo de Memórias das Terras de Alportel, que, a expensas suas e para angariar fundos para a Capela de S. José, de Alportel, Manuel Guerreiro publicou, em Fevereiro de 2014, colectânea das crónicas que, ao longo dos anos, foi mui agradavelmente inserindo em Notícias de S. Braz. Não é de muito louvar? Não é um exemplo a seguir pela nossa Junta e pela nossa Câmara? A lei proíbe? Mude-se a lei ou – que se me perdoe a sugestão – dê-se-lhe a volta por cima!
 
                                                                              José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 225, 20-08-2015, p. 11.

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O passamento de Mário Brito (1957-2015)


            O Dr. Mário Brito (de seu nome completo, Mário Armando Nogueira Pereira de Brito) nasceu a 6 de Novembro de 1957, e faleceu esta noite (de 9 para 10 de Agosto de 2015), portanto, com apenas 57 anos.
            Desenvolveu a maior parte da sua actividade na zona norte do País, pois inclusivamente se formara na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (licenciado em Arte e Arqueologia e pós-graduado em Gestão Autárquica Avançada), onde chegou a exerceu docência, como assistente convidado, até 2007, no Departamento de Ciências e Técnicas do Património. Aliás, colaborara também, como formador, nas universidades do Minho e de Trás-os-Montes e Alto Douro.
            Desempenhou funções nos Serviços Regionais de Arqueologia da Zona Norte, Museu D. Diogo de Sousa e Instituto Português do Património Arquitectónico. Prestava agora serviço na Direcção Regional da Cultura do Norte, tendo sido notável a actividade desenvolvida, nos últimos tempos, no Mosteiro de Tibães, onde deu corpo a iniciativas do maior alcance que projectaram o mosteiro – da letargia em que parecia encontrar-se – para o mundo activo da museologia, depois de ter feito apreciável trabalho na Câmara Municipal do Porto, onde foi Director de Departamento de Museus e Património.
            Aliás, a Museologia foi o seu campo de acção predilecto, acompanhado, de resto, por Patrícia Remelgado. Patrícia criou o notável fórum noticioso pportodosmuseus e Mário Brito tinha página em Museologia.Porto, onde, no entanto, não escrevia desde 2010. Preocupava-o a Gestão Cultural, tendo-se envolvido, nos últimos tempos, em acções relacionadas com as chamadas indústrias criativas e com a criação de emprego cultural.
            Poderá soar a lugar-comum dizer-se que de Mário Brito muito havia ainda a esperar. É, porém, neste caso, um lugar-comum verdadeiro, porque ora, aos 62 anos, estavam a concretizar-se os sonhos acalentados mercê da longa experiência adquirida.
            A Museologia, a Cultura ficam mais pobres – também este (que se me perdoe!) é um lugar-comum, mas há que dizê-lo.
            Sabemos que, à sua maneira, Patrícia Remelgado dará corpo, na medida do possível, a alguns dos projectos programados a dois. E que se me permita referir quão grande foi, por exemplo, o êxito de duas iniciativas semelhantes que se lhes ficaram a dever, e em que tive a honra de, a seu convite, participar: a 14 de Novembro de 2013, o Seminário Turismo e Património Cultural: Oportunidades e Desafios, realizado na Casa das Artes do Porto, por iniciativa de Pportodosmuseus, com a colaboração da Direcção Regional de Cultura do Norte; e, a 28 e 29 de Março de 2014, idêntico Seminário Turismo e Património Cultural: Oportunidades e Desafios, levado a efeito no Auditório Millennium bcp, Lisboa, por iniciativa de Pportodosmuseus e da Fundação da Juventude.
            Permita-se-me, ainda, que assinale o entusiasmo que emprestou, a 14 de Março de 2013, à comunicação «Tibães de portas abertas!», dando conta do aumento de receitas que lograra obter, inclusive disponibilizando o espaço para campanhas de publicidade (de moda, por exemplo); a sua vontade de dar vida à cerca monástica, que tem 33 hectares até então praticamente desaproveitados; o envolvimento com a comunidade local que já lograra obter; os «sabores beneditinos» que tinha em mente promover… Depois da sua intervenção, ficámos todos com vontade: «Vamos lá?!». Leio nos meus apontamentos esta frase que anotei (estava a presidir à sessão): «Uma panóplia! Quem diria que se está a falar apenas de um mosteiro!».
            Essa, pois, a imagem que me fica do Amigo e do Lutador.
            Que descanse em paz!
                                                                 José d’Encarnação

sábado, 8 de agosto de 2015

Escarafunchar para… ir ao fundo!

              ‒ Que estás tu praí a escarafunchar?
            Pergunta sempre incómoda, a da avó para o menino que enfiava o dedinho no nariz para tirar cocas; ou, então, que se entretinha a arrancar as crostas de ferida no joelho…
            Ocorre-me o termo a propósito de um trabalho académico, a que já aqui fiz referência (edição de 1 de Agosto de 2014): «Epigrafia Latina dos Concelhos de Mangualde e Penalva do Castelo», datado de Junho de 2003, que Pedro Pina Nóbrega, realizara no seu 3º ano de Faculdade, sob orientação do Prof. Amílcar Guerra, no âmbito da disciplina Leituras e Interpretações Epigráficas.
            Depois de mui sumário enquadramento dos dois concelhos na malha geográfica e administrativa portuguesa, o autor refere os estudos feitos acerca de 41 epígrafes romanas identificadas nos seus territórios; e parte da sua análise para nos dar uma ideia de quem terão sido os habitantes desse espaço em tão longínquos tempos.
            Escreve Pedro Pina, na pág. 62 (o texto está acessível na Internet na plataforma Academia.edu), que o trabalho epigráfico é «inesgotável», inclusive porque «cada indivíduo tem a sua forma de ver o monumento e a inscrição. Se para uns pouco mais há a fazer, para outros existem outros campos a explorar». Ou, para usarmos do termo que chamei a título: há sempre outras formas de…escarafunchar!
            Fez muito bem o autor em ter chamado a atenção para essa relatividade do saber, porque se corre o risco – hoje, em que é muito fácil disponibilizar um texto na Internet – de, um dia, alguém considerar uma análise como definitiva e assim se transmitir indefinidamente. Como a história do senhor padre que, um dia, pôs a hipótese de o templo de Évora ser dedicado à deusa Diana; era mera hipótese, mas… como «de Diana» ficou até mui recentemente!...
            O próprio trabalho de Pedro Pina pode também servir de exemplo, quando apresenta na estampa XI a foto de uma «ara de Esmolfe» (cedida, a foto, pelo Museu Nacional de Arqueologia) e, na estampa XIII, a mesma foto, dizendo tratar-se de uma «ara votiva de Quintela da Azurara» e «foto de Inês Vaz»! Uma troca evidente, se se ler o texto: faltou a foto da epígrafe 14 e repetiu-se a da 16. Fui… escarafunchar e achei!
                                                               José d’Encarnação

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 667, 01-08-2015, p. 24.

sábado, 1 de agosto de 2015

In memoriam de Gerardo Pereira Menaut

             Não posso, como é natural, ser exaustivo na recordação de um bom Amigo que ora nos deixou e cuja morte, aos 68 anos, me deixa com a natural tristeza de quem perde um Amigo de mais de quatro décadas! É-me impossível, porém, não partilhar com os investigadores de História Antiga, Arqueologia e Epigrafia, a enorme dor da sua inesperada perda, ocorrida hoje por volta das três e meia da tarde (hora local). Havia-lhe sido identificado um cancro hepático há umas três semanas que estava já bastante avançado e de que estava a tratamento de quimio. «Mas hoje», acrescentou Manuel Villanueva que fez o favor de me escrever, «o que falhou foi o coração. Teve un enfarto fatal».
            Mais triste ainda é sublinhar que a sua partida segue de muito perto a que fora sua mulher, Pilar Rodríguez Álvarez, de 58 anos de idade, professora titular no mesmo Departamento de Historia Antigua de Santiago de Compostela, onde Gerardo era catedrático, que morreu no passado dia 9. Está, pois, duplamente de luto a Universidade de Santiago e estamos todos nós, que tínhamos em ambos mui bons amigos.
Gerardo com Carlos Fabião e J. d'E.
(Lugo, 25 de Outubro de 2013) 
            Nunca se podia estar mal disposto junto de Gerardo. A sua proverbial serenidade a todos encantava. E que me seja permitido recordar os bons momentos que vivemos com ele, em Outubro de 2013, no Colóquio Internacional «Las Ciudades del Poder en Hispania», realizado em Lugo (foto anexa, juntamente com Carlos Fabião).
            Gerardo Pereira trabalhou com Géza Alföldy, em Heidelberg, de que resultou a publicação Inscripciones Romanas de Valentia (Valência, 1979).
            Entre outras actividades, iniciou, em Julho de 1986, a série dos Congressos Peninsulares de História Antiga, em Santiago de Compostela, que teria seguimento em Coimbra (Outubro de 1990), onde apresentou, com Dolores Dopico a comunicação «La gran inscripción de Remeseiros (CIL II 2476). Sobre la forma jurídica de tenencia de la tierra entre los indigenas bajo dominio romano» e onde tive a honra de o convidar a fazer o discurso de encerramento (publicado nas actas, p. 1177-1178). O III destes congressos viria a decorrer em Vitória (Julho 1994), por iniciativa de Juan Santos Yanguas, amigo comum, mas a série sonhada por Gerardo não teve o seguimento esperado.
        Foi, de facto, a Epigrafia a sua primeira grande paixão, tendo lançado mão à preparação de novos corpora da Galiza romana: Corpus de Inscripcións Romanas de Galicia. I Provincia de A Coruña. Santiago de Compostela, 1991. O II  – Provincia de Pontevedra (1994) deve-se a Gemma Baños Rodríguez.
            Recordo as grandes questões que o entusiasmaram: o significado do C invertido, as epígrafes da Fonte do Ídolo de Braga, a organização dos povos galaicos sob o domínio romano. Refiro infra alguns dos trabalhos que publicou (rol que pode ser completado com a consulta do currículo mantido actualizado por Juan Manuel Abascal: http://www.ua.es/personal/juan.abascal/pereira_menaut.html )
            Mais recentemente a sua preocupação – como a de todos nós, aliás – foi a do risco, perante a avassaladora globalização, de os povos (neste caso, a sua querida Galiza) perderem a identidade. Em 2010, na sua condição de «Director del Observatorio Galego do Território», proclamava, por exemplo: "Al destruir el paisaje hemos destruido también la identidad del país".
            Em mensagem que acabo de receber, Patrick Le Roux comenta assim a triste notícia:
            «J'avais revu Gerardo à Lugo en octobre 2013 et il m'avait ensuite contacté pour un projet d'article en commun. Il semblait en forme et avoir surmonté certains de ses problèmes.
            Je l'ai connu dès 1972 et je l'ai toujours tenu pour un intellectuel de talent, curieux et original en même temps que fidèle à ses engagements. Il laisse des travaux importants qui font réfléchir et il est dommage qu'il ait choisi trop tôt de rester à l'écart dans son Finisterre qu'il aimait plus que tout.»
            Aliás, de imediato após a notícia do seu falecimento, que divulguei há pouco mais de uma hora, vários colegas me enviaram mensagens, condoídos com a perda que ora sofremos os que com ele navegávamos no mesmo barco da investigação sobre História Antiga e Epigrafia e como ele temos as mesmas preocupações em relação ao risco de um futuro sem memória.
            O meu voto renovado, que sei ser também o de todos os seus amigos: que descanse em paz!
            À família enlutada, um forte abraço amigo dos mais sentidos pêsames!
 
                                                              José d’Encarnação

Breve bibliografia de Gerardo Pereira Menaut
PEREIRA MENAUT, G. (1978) - Caeleo Cadraiolonis f. Cilenus É Berisamo et Al. Centuria ou castellum. Uma discussão. I Colóquio Galaico-minhoto. III vol. Póvoa de Varzim. p. 445-457.
PEREIRA MENAUT, G. (1980): “Historical Landscapes and Structures. A reflexion on the case of Roman Galicia”, Boletín Auriense, 10, 25-31.
PEREIRA, G. & SANTOS, J.( 1980) - Sobre la romanización del noroeste de la Península Ibérica: Las inscripciones com mención del origo personal. Actas do Seminário de Arqueologia do Noroeste Peninsular. III. Guimarães.p. 117-30.
PEREIRA, G. & ALMEIDA, C. A. F. de (1981) - A grande inscrição do penedo de Rameseiros. Vilar de Perdizes. Montalegre (CIL II 2476). Arqueologia. Porto. 4. p. 142-45.
PEREIRA MENAUT, G. (1982) - Los castella y las comunidades de Gallaecia. Zephyrus. 34-35, p. 249-267.
PEREIRA MENAUT, G. (1983) - Las comunidades galaico-romanas. Habitat y sociedad en transformación. Estudos de cultura castrexa e de historia antiga de Galicia. Santiago de Compostela, p. 199-212.
PEREIRA MENAUT, G. (1984-85) - Nueva tabula patronatus del Noroeste de Hispania. Studia Palaeohispanica. Actas del IV Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Paleohispánicas = Veleia. 2-3. Vitoria, p. 299-303.
PEREIRA MENAUT, G. (1985) - La inscriptión del Ídolo da Fonte. Braga. CIL II 2419. Symbola Ludovico Mitxelena Septuagenario oblatae. Pars Prior. Vitoria, p. 531-535.
PEREIRA MENAUT, G. (1991) - Corpus de inscripcións romanas de Galicia. I. Provincia de A Coruña. Santiago de Compostela.
PEREIRA MENAUT, G. (1992): “Callaecia”, en Actas del I Congreso Hispano-Italiano Conquista Romana y Modos de intervención en la organización urbana y territorial (F. Coarelli, M. Torelli y J. Uroz, coords.), Dialoghi di Archeologia, 1-2, 319-325.
PEREIRA MENAUT, G. (1993) - Cognatio Magilancum.Una forma de organización indígena de la Hispania indoeuropea. Actas del V Coloquio sobre Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica (Colonia. Novembre 1989). Salmanca, p. 411-24.
BAÑOS, G. & PEREIRA, G. (1993) - Novedades y correciones en la teonimia galaica. Studia paleohispanica et indogermanica J. Untermann ab amicis hispanicis oblata. Barcelona, p. 37-65.

Divulgado através da archport, a 15 de Fevereiro de 2015:

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Peer Gynt - uma representação que dá que pensar!

             Escreve Miguel Graça, na folhinha distribuída em cada sessão, que a peça «Peer Gynt», do norueguês Henrik Ibsen, datada de 1867, nos põe questões: «O que é viver?», «Quem somos nós?».
            Na verdade, ao vermos as peripécias imensas por que passa o protagonista, altos e baixos, anjo e demónio, acabamos por sentir que, amiúde, cenas dessas também fizeram parte da nossa vida. Aliás, o próprio Carlos Avilez, o encenador, diz mesmo que «Peer Gynt é uma viagem extraordinária que fizemos primeiro ao longo de 50 anos e agora nestas últimas oito semanas».
            Merece o texto, na – sempre de elogiar! – versão e dramaturgia de Miguel Graça, uma análise profunda. E cada um dos espectadores, por mais vezes que veja o espectáculo (em cena no Teatro Municipal Mirita Casimiro, até 9 de Agosto), há-de reter inúmeros motivos de reflexão, inclusive porque – embora escrita em meados do século XIX, eivada, pois, dos ‘fantasmas’ de então, que não serão, afinal, mui diferentes dos nossos – a peça detém uma riqueza extrema. Não cabe, pois, nesta leve crónica um esmiuçar das filosofias de vida aí apresentadas. Mas não passarão despercebidos, mesmo ao espectador menos atento, alguns bem sugestivos apontamentos, a que o trajar ou o simples tom de voz e pronúncia emprestam uma actualidade pungente, que – estou certo disso! – toda a companhia bem se divertiu em caricaturar. As bailarinas de… burka! Ou aquela espécie de conferência de líderes europeus, de tiques bem nossos conhecidos e teorias também…

Uma prova de finalistas
            Recorde-se que, ao lado dos actores da companhia, entram em cena, para a sua prova de aptidão profissional, os estudantes finalistas das Escola Profissional de Teatro de Cascais, assim como alguns dos alunos do 2º ano, para desde já se habituarem a pisar o palco.
            Há, por isso, quatro elencos, uma vez que a intenção de Carlos Avilez, em sintonia com o corpo docente da Escola, é fazer com que cada um dos estudantes vista a pele de mais do que uma personagem. Primeiro, para ser avaliado; depois, para que se auto-avalie e verifique em que papel melhor se sente; e, finalmente, para que saiba ser a versatilidade uma das características mais importantes do actor: hoje, senhora, amanhã, criada; depois, bailarina ou bruxa ou doida varrida, cheia de tiques…
            Uma peça como esta – que é, no fundo, o imaginário retrato da vida, uma espécie de odisseia dos tempos modernos, também ela pejada de fantasias, sonhos e loucuras… – presta-se bem a pôr à prova os dotes do estudante que sonha ser actor. E não se pense que há aqui «papéis pequeninos», sem valor e sem necessidade de treino ou atenção. Nada disso! Veja-se, a título de exemplo, a cena do manicómio: cada um representa a seu modo, tudo estudado ao pormenor, para que seja eloquente o conjunto. Recordo que, tendo ido à zona dos camarins para cumprimentar alguns dos intervenientes, olhei para o palco e vi como os rapazes encarregados de, a determinado momento, retirarem um palanque metálico, estavam a treinar, para que, na representação seguinte, tudo corresse a contento. Porque, senhores, as mudanças de cenário, feitas num ápice, requerem treino adequado e sobretudo se, como no caso vertente, esse mobiliário é retirado mesmo em cena e, ainda por cima, em movimentos quase de bailado, que necessitam de notável sincronia. E, nesta acção, como em toda a peça, a coreografia de Natasha Tchitcherova desempenhou papel fundamental.
            Carlos Avilez – sempre com o apoio incansável da sua equipa técnica, que se desdobra – pensou numa cenografia singela, mais de evocação de ambientes do que da sua efectiva recriação (que, aliás, bem se dispensa). Fernando Alvarez teve, também aqui e nos figurinos, acção relevante, com a ímpar experiência que se lhe reconhece. É singela, sim; mas exige, por isso mesmo, rápida e bem sincronizada movimentação de actores.
Maria Vieira e Pedro Condessa, mãe e filho
            São quase quatro horas de espectáculo, contando com os dois intervalos. O protagonista (José Condessa e André Leitão) está em cena o tempo todo. Maria Vieira, a actriz convidada, que faz o papel de mãe do protagonista, ocupa parte importante do primeiro acto e, pelas declarações que já lhe ouvimos, considera esta uma das bem importantes experiências da sua carreira, nomeadamente – como tem acentuado – por poder partilhar o palco com estes jovens e promissores actores.
            Enfim, com mais esta prova de aptidão profissional, que reúne em palco 51 actores mais 22 alunos do 2º ano, o Teatro Experimental de Cascais demonstra a validade do teatro como forma de fazer Cultura e Intervenção e documenta, por outro lado, o excelente trabalho educativo que, através da arte de bem representar, se está a desenvolver na Escola Profissional de Teatro de Cascais.
            Não há senão uma atitude a tomar: aplaudir. De pé!
                                                                      José d’Encarnação
 
Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 103, 29-07-2015, p. 6.