domingo, 21 de Setembro de 2014

Cascais e os artistas - uma sugestão

             Encerra amanhã, 21, a exposição «Cascais – Quotidiano e Paisagens nos Séculos XIX-XX», que esteve patente no Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, desde 15 de Maio, iniciativa integrada nas comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vila.
            José António Proença, responsável pelo museu, organizou-a em três núcleos: «Um caderno de inéditos de Columbano Bordalo Pinheiro», «Olhares sobre Cascais» e «Os banhos e a faina piscatória». Reuniram-se, para o efeito, obras de Alfredo Roque Gameiro, Carlos Bonvalot, Columbano Bordalo Pinheiro, D. Carlos de Bragança (el-rei D. Carlos), Enrique Casanova, João Vaz, Miguel Ângelo Lupi, Sousa Pinto e Visconde de Atouguia. Boa parte delas reproduzidas e bem identificadas no catálogo.
            Bonvalot foi, sem dúvida, o artista mais representado; aliás, de tempos a tempos se recorda, em exposições, a obra valiosa deste pintor, que, natural de Paço de Arcos, viveu em Cascais e na vila viria a falecer em 1934 (por exemplo, nesse mesmo museu, de 17-11-2009 a 21-03- 2010, Cascais de Carlos Bonvalot).Também as aguarelas de el-rei D. Carlos são conhecidas e o Museu do Mar faz jus à sua memória. Não será, pois, estranho que se realce e aplauda a ideia de apresentar agora, como novidade, o caderno de bem graciosos desenhos inéditos de Columbano, feitos em Cascais na última quinzena de Setembro de 1919 (recorde-se que o Outono era – e é! – a estação de excelência, aqui!). Sugestivos apontamentos gráficos, a denunciarem, em traço quase despretensioso, um estado de alma, um gesto, um significativo instantâneo…
            No chuvoso final da tarde de quinta-feira, 18, a Doutora Raquel Henriques da Silva realçou, perante uma trintena de atentos ouvintes, a importância dos autores representados na mostra (em cuja concretização colaborara), salientando os aspectos mais importantes do conjunto.

Uma sugestão
            A conferência fora anunciada como «Cascais através da pintura» e, por isso, após ter ouvido a historiadora de Arte, não deixei de pensar que, dos 600 para os 650 anos, Cascais foi também alfobre de artistas e fonte de inspiração. E, se calhar, uma outra exposição – ou iniciativa – que recorde as artes em Cascais na segunda metade do século XX é capaz de não ser despicienda.
            Tempos áureos foram os anos 60, por exemplo, com a galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol no seu auge, galeria por onde passaram, seguramente, reconhecidos nomes das artes plásticas portuguesas, sempre com o incondicional apoio de Serra e Moura: Sarah Afonso, Michael Barrett, Mário Silva... E, nessa altura, havia salões (da Primavera, do Outono…), em que os temas Cascais e Costa do Sol eram obrigatórios e o espólio artístico do organismo que sucedeu à Junta – se é que não desapareceu ou jaz guardado numa qualquer arrecadação… – será, nesse aspecto, deveras relevante. Recorde-se que, mesmo após o 25 de Abril, a galeria da Junta se notabilizou, nomeadamente ao tempo de Cruzeiro Seixas, que ali trouxe, entre muitos outros, Mário-Henrique Leiria, em Agosto de 1978. Sempre continuará a lamentar-se que os responsáveis, a partir de certa altura, tenham considerado as Artes Plásticas como algo de somenos.
            Basta folhear o boletim Cascais e os Seus Lugares e a imprensa local dos anos 60 para verificar que, semanalmente, Adelaide Félix, por exemplo, mantinha no Jornal da Costa do Sol a rubrica «Exposições de Arte e sua recensão», que nunca se deixou esmorecer. E há que lembrar a acção espantosamente inovadora do escultor Óscar Guimarães ao pensar, como presidente, em transformar o rés-do-chão do novo edifício da Junta de Freguesia de Cascais, na Galeria JF, que também acolheu uma plêiade de artistas. Hoje continua, mas sem o fulgor mediático de outrora, seguida de perto pelo espaço que foi da Junta de Freguesia do Estoril, também ele com um programa continuado de exposições da mais variada índole.
            Fenecida a vertente artística da sucedânea da Junta de Turismo, coube a Lima de Carvalho, na esteira do que nas Arcadas se fizera, retomar na galeria do Casino – também ela, inclusive, por imperativos da concessão, um lugar obrigatório para a Arte em Cascais – a ideia dos salões, em que também a temática local, mormente nos da chamada pintura naïve, era de inspiração obrigatória.
            Galerias, de resto, nunca faltaram em Cascais. Para além do espaço do posto de turismo da Rua Visconde da Luz, a Musical de Cascais teve programação intensa e continuada na 2ª metade da década de 90. Hoje, são os museus (o Centro Cultural, a Casa das Histórias, a Casa de Santa Maria, o Museu da Música Portuguesa…) que concitam mais a atenção.
            Sirva, pois, este fugaz relancear para, quiçá, encontrar eco: a Cascais nas Artes Plásticas da 2ª metade do séc. XX merece ser recordada!

Publicado em Cyberjornal, edição de 20-09-2014:

Memórias que são História... aqui!

             Constituiu um êxito o livro Memórias das Terras de Alportel, de Manuel Guerreiro, recolha do que, ao longo dos meses, foi publicando no Noticias de S. Braz.
            Nascido em 1937, Manuel Guerreiro houve por bem dar conta do que recordava da sua meninice e infância: os sítios, as pessoas, os costumes… Perpassam, pois, pelas páginas do seu livro – como haviam perpassado já (e continuam a perpassar) nos apontamentos que no jornal vai deixando – memórias que, afinal, são história.
            Sei que se reivindica a necessidade de passarem gerações antes de os factos poderem ser relatados como ‘históricos’. Hoje, porém, na velocidade a que se vive e na vertiginosa alteração de hábitos e modos de agir – e nem é preciso explicar porquê!... –, não perfilho essa opinião e muito me regozijo por Noticias de S. Braz continuar a ser fiel repositório de memórias. Não apenas as que os seus habituais ‘poetas’ reflectem – e quantas vezes não são eles os únicos a verberar as maldades que nos vão fazendo!?... –, mas, de modo muito especial, as que vários dos seus colaboradores não hesitam em publicar. Fazer história sem ter lido com atenção a imprensa local e regional é bem rematada loucura!
            Veja-se, a título de exemplo, a edição de Agosto.
            Vítor Barros, naquele seu jeito de ficcionar a realidade e por ela nos seduzir, que soberbo retrato quotidiano nos deixou, a propósito de singelos bagos de romã!... (p. 4). J. P. da Cruz, com a sua «bolsinha de moedas», fez-nos recuar «há bem umas sete dezenas de anos atrás» (p. 5). Maria Eduarda A. Santos já vai no seu 9º rebuscar no baú das memórias, uma delícia! (p. 6). Na p. 19, João Romero Chagas Aleixo deu a conhecer elucidativa carta sobre o poeta Aleixo.
            É, também por isso, deveras significativo o depoimento de José Mendes Bota, na p. 27, a anunciar que o jornal algarvio a Avezinha, obra heróica de Arménio Aleluia Martins, morreu ao festejar o seu 93º aniversário, no passado 17 de Julho. Ironiza Mendes Bota:
            «Autarcas poderosos ocupam página inteira a parabenizar o jornal pela passagem do seu 93º aniversário e vaticinam longa vida a um pássaro à beira do último suspiro», acrescentando: «Nesta agonia derradeira, não há uma linha de publicidade institucional, aquele oxigénio que poderia ter permitido um voo mais longo. São coisas da vida».
            Arménio Martins, explica Mendes Bota, «um dos mais intrépidos defensores da alma, dos valores e do património da Região do Algarve, aquém e além fronteiras».
            Essa, a ingente – e cada vez menos compreendida – missão da imprensa local. «O digital é efémero», afirma ainda Mendes Bota – e eu concordo com ele.
            É de muito louvar promover um encontro sobre tradições e memórias; mas, se elas não ficarem escritas, depressa nossas raízes secarão!...

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 214, 20-09-2014, p. 21.

 

           

             

sábado, 20 de Setembro de 2014

Ela tinha as calças rotas!

A relatividade das coisas
            17.20 horas. 5 de Setembro de 2014. Piscina do Tamariz. A mãe veio ter com os filhotes que se divertiam à grande no escorrega. Vestia umas calças amplamente rotas nos joelhos…
            Minha mãe passava horas a remendar as calças de cotim dos trabalhadores da pedreira, pois era uma vergonha andar de calças rasgadas.

«A maior vergonha»
            No dia 8 de Setembro, perante o facto de a selecção portuguesa ter perdido 1-0 frente à selecção da Albânia, o título de um dos periódicos desportivos era: «A maior vergonha de sempre da Seleção». Assim mesmo: a maior vergonha!
            Claro: havia um culpado, que se autopuniu, o seleccionador. Não, não foi a selecção da Albânia que jogou bem; não foi a excelência do adversário e o seu adequado «sentido do jogo» (como eu gosto dessa expressão!...); foi o estúpido do seleccionador, que não soube treinar como devia. Pronto! Foi-se embora e quem vier atrás que feche a porta! Vergonhas destas têm de ser mui severamente punidas!

Bem-vindos, senhores smarts!
            Houve aí uma concentração desses modelos automobilísticos, que deu berro e pôs Cascais nas páginas da Comunicação Social e nos programas televisivos.
            ‒ Se gostei? Claro! Deu-se largas à imaginação nas pinturas e nos dizeres!
            ‒ De que é que gostaste mais?
            ‒ Das mensagens de boas-vindas.
            ‒ Como assim?
            ‒ Começavam por welcome e ‘bem-vindos’ vinha no último lugar da lista.

Feira do Artesanato do Estoril
            51ª edição. De 26 de Junho a 31 de Agosto. Escreveu-se que era «a mais antiga feira de artesanato do país».
            Ouviste falar?
            Passou-me despercebida, sabes. Isso não tem nada a ver com a Câmara, pois não?
 
Rotunda no Monte
            Custou, mas arrecadou! E até o desenho paisagístico ficou de feição. Há quanto tempo lutávamos para que o Monte Estoril não estivesse tão desgarrado de Cascais para quem da vila para lá quisesse ir pela marginal! Em lugar do vetusto, histórico e lendário Hotel Atlântico ergue-se agora um imóvel de cinzentas linhas modernas. Também a monstruosa antena de telecomunicações, que fora transplantada para mais adiante, em boa hora sumiu. A rotunda, com acesso de calçada à portuguesa, agrada, pois!

Óbitos
            Sempre considerei que a imprensa local devia ter uma secção de necrologia. Ajuda a cimentar a comunidade e até nem é muito complicado de manter, se houver acordos com as agências funerárias.
            Pelo facebook, os que aderimos a essa rede social temos hipótese de ir sabendo de uma ou doutra ‘partida’, que nos entristecem e nos ajudam, afinal, a pesar quão frágil e fugaz nos é a existência. Que descansem em paz!
            Nestes últimos tempos, soubemos de Maria Adelaide Cabral, uma pintora residente em Parede; de João Pedro Cardoso, ainda jovem, ligado aos primórdios do Museu do Mar, à Arqueologia Subaquática e ao Centro de Conservação das Borboletas de Portugal; de João Padeiro (saudades do cabrito à João Padeiro e daquele linguado como só a sua gente sabia fazer!...). Outros haverá. Estes três merecem agora uma referência especial, porque, cada um na sua actividade, pertencem à história da nossa Cascais.

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 61, 17-09-2014, p. 6.

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Desculpe Sr. Nobel, de Maria Helena Ventura, vai ser apresentado em Cascais

             Desculpe Sr. Nobel é o mais recente romance de Maria Helena Ventura. Vai ser apresentado no próximo dia 29 (uma segunda-feira), ao final da tarde (18 horas), no reconfortante cenário da Casa de Santa Maria, em Cascais, por especial deferência dos respectivos serviços da Câmara Municipal.
            Maria Helena Ventura, natural de Coimbra, vive em Cascais há muitos anos e este seu romance acaba, naturalmente, também por se fazer eco dalguns dos ambientes cascalenses. Claro, a acção passa-se em Estocolmo, em jeito de investigação jornalística e policial, ou não fosse a autora licenciada em Jornalismo e tivesse feito mestrado em Sociologia da Cultura. Não se dirá que Nobel entra aqui como Pilatos no credo, porque tudo gira, obviamente, em torno da atribuição dos prémios Nobel e de uma eventual atmosfera de intriga que se supõe passível de existir em torno da atribuição desses prestigiados prémios da Academia Sueca. Será?
            Inscrita de pleno direito no rol dos escritores portugueses, Maria Helena Ventura publica poesia desde 1983, mas desde 1999 é o romance com mais ampla conotação histórica que a vem seduzindo, perita como é na investigação biográfica e no posicionamento das suas personagens nos ambientes reais em que viveram. Recorde-se que, embora nas Edições Saída de Emergência – uma editora sediada em S. Pedro do Estoril – o seu Afonso o Conquistador venha, com data de Maio de 2014, indicado como sendo 1ª edição, esse romance sobre Afonso Henriques já teve, pelo menos, mais umas quatro edições, desde 2007. Mereceram-lhe, porém, atenção, a Rainha Santa (Onde vais, Isabel? – 2010), Jesus Cristo (Um Homem Só - 2010), A Musa de Camões (2010), Orson Welles (2011)…
E se nos demais, a narrativa nos prende do princípio ao fim, uma vez que a autora prefere ir desvendando os segredos aos poucos, um apontamento aqui, outro mais além… este Desculpe Sr. Nobel intriga ainda mais:
«Mas quando ninguém é quem parecer ser, e tão longe da segurança a que se habituou em Portugal, Joana mergulha numa espiral de traição e perda, mas também de esperança por um recomeço onde menos se esperava» – escreveu-se no final do texto de apresentação do volume. A fim de não se resistir à tentação da leitura!

Publicado em Cyberjornal, edição de 2014-09-18:

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

O novo esperanto!

       Houve, um dia (26.07.1887), quem (o médico judeu Ludwik Lejzer Zamenhof) pensou em boicotar o castigo divino e criar, de novo, uma língua universal, que o orgulho do Homem obrigara Deus a suprimir, quando os humanos se aprontaram a construir uma torre que chegasse ao céu. Urgia, de facto, acabar com esta Babel imposta pelo Senhor Deus dos exércitos e… o esperanto apresentava-se como a tábua de salvação possível, colhendo elementos de todas as etimologias.
      Esforço vão, hoje ainda mais reconhecido como tal, quando a língua inglesa (a de Inglaterra, entenda-se…) se impõe como língua oficial a todos os níveis. Alguém me explicava a razão:
      «Hay que reconocer que el inglés es la lengua más concisa ‒ y pobre en vocabulario ‒ que existe, no me extraña que se haya acabado por imponer».
      Aí está o segredo: concisa e pobre – há que adoptá-la, porque não estamos em maré de nos sacrificarmos a estudar declinações (como é o caso do estranho Alemão) ou a decifrar as ‘garatujas’ (que me perdoem árabes e orientais!...) da língua árabe ou do mandarim.
      Falemos, pois, uma língua concisa e pobre – e deitemos às urtigas as terminologias em que cada povo se aprimorou ao longo de séculos! Quer-se lá saber que há a possibilidade de lhe chamar «boletim informativo», «informação», novidades», «novas», «notícias», «mensário», «hebdomadário»!... Pranta-se newsletter e… já está! Que é isso de «desdobrável», «folheto» ou «folha volante»? Que ‘coisa’ mais rara!...Vai flyer – e pronto! «Flyer», aquilo que voa, que vai de mão em mão como as ‘pombinhas da Catrina’, mas… flyer!
      Tem a língua portuguesa, comemoraram-se outro dia, 800 anos. Engalanou-se em arco. Calma: engalanaram em arco alguns, esses dinossauros retrógrados que ainda pensam que é necessário ter memória, ter história, ter raízes. Qual quê! Raízes?!... Isso não é uma ‘coisa’ que serve para as plantas se alimentarem e se aguentarem de pé? É, não é? Pois que tenham raízes as plantas, que um Povo delas não carece!...
      Como é? Músculo esternotireóideo? Que raio de língua esta que tem nomes para tudo, todas as dores, todas as mezinhas, todos os estados de alma e até a saudade!... Uma língua para ser falada e propalada? Nem por sombras! Dá trabalho à beça!

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 646, 15-09-2014, p. 11.

sábado, 6 de Setembro de 2014

Trabalhadores da pedra foram evocados em Oeiras

             No âmbito do Ciclo «Diálogos em Noites de Verão», promovido pela Associação Cultural de Oeiras Espaço e Memória, este ano subordinado ao tema geral Minorias e Contrastes Sociais [Séculos X-XX], Mestre Guilherme Cardoso teve oportunidade de falar na segunda-feira, 1, a partir das 21 h., no Largo 5 de Outubro (Largo da Igreja Matriz), em Oeiras, sobre "Canteiros e o trabalho da pedra nos termos de Oeiras e de Cascais", perante meia centena de mui interessados ouvintes.
             Pela Associação, José Meco fez a apresentação do orador, referindo-se em pormenor à intensa actividade científica por ele desenvolvida, nomeadamente no campo da Arqueologia (é arqueólogo da Assembleia Distrital de Lisboa) e da divulgação, estudo e preservação do património cultural, que Guilherme Cardoso há largos anos vem desenvolvendo, quer em intervenções arqueológicas quer em inúmeras publicações.
             A conferência deu conta precisamente dos principais elementos recolhidos através dessa pesquisa que tem efectuado tanto em documentação escrita como, de modo especial, no assíduo contacto com os canteiros. Aproveitou Guilherme Cardoso a oportunidade para traçar uma panorâmica do que foi o trabalho da pedra na região desde os tempos pré-históricos até aos nossos dias, com especial destaque, por exemplo, para a época romana, informando dos diferentes tipos de pedra existentes nesta zona ocidental da península de Lisboa. Interessante foi, particularmente, a identificação das pessoas que a essa actividade se dedicaram e delas apresentou fotografias e traçou elucidativa biografia.
            Salientou como se realizava esse trabalho, desde a descoberta dos bancos de pedra até aos instrumentos utilizados para os fins em vista. E mostrou como os canteiros-ornatistas, designadamente da zona oriental do concelho de Cascais deram forma real a muitas das esculturas de artistas famosos que lhas apresentavam em barro ou em gesso, em tamanho reduzido, competindo ao canteiro ‘fazer o ponto’, ou seja, dar-lhes proporcionalmente as dimensões pretendidas.
            Houve ocasião de se fazer referência à importância que a exploração de pedra deteve nestes dois concelhos de Oeiras e Cascais em meados do século passado, motivando, inclusive, grande emigração de operários do Algarve, de Alcains (tem hoje o Museu do Canteiro) e da zona de Coimbra (existe em Cantanhede o Museu da Pedra). Uma imigração motivada de modo especial pelas obras monumentais levadas a cabo nessa época pelo Estado Novo: a grande Exposição do Mundo Português, a Marginal Lisboa – Cascais…
            Congratulemo-nos com mais esta relevante actividade da Associação Cultural de Oeiras, que assim chamou a atenção para uma actividade amiúde desconhecida.


Publicado em Cyberjornal, edição de 05-09-2014:

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Ó avô, para que é a polícia?…

            Terça-feira, 26 de Agosto do ano da graça de 2014. Pouco depois do meio-dia, à saída do Parque Marechal Carmona, em Cascais. A pergunta saiu inesperada do meu neto de cinco anos:
            ‒ … Não é para ajudar as pessoas?
            ‒ É, sim, Rogério. Às vezes, têm dificuldade em acertar na ajuda, mas a ideia é essa!
            Claro que eu não podia explicar-lhe que, no caso vertente, o objectivo da ‘caça à multa’, certamente em obediência a ordens superiores, ‘falara’ mais alto do que um aviso ou o simples papel de multa pespegado no pára-brisas – pois continuo a acreditar que o agente policial também é uma pessoa, tem família, tem contas para pagar e também ele se queixa do escasso vencimento que recebe…
            Ora, obedecendo a ordens ou por sua iniciativa, o agente, aí uma hora e meia antes, bloqueara duas viaturas e eu vi-o a esperar que chegasse o reboque para levar o outro carro parado ‘fora dos trilhos’. Se calhar, já pusera nesse dia em acção todos os bloqueadores disponíveis. Boa safra!... Por sinal, olhando bem, o carrito até nem incomodava ninguém; mas… estava ‘fora dos trilhos’! Em transgressão! E foi mesmo esse carrinho que, de mãos na cabeça, com o ar mais espantado do mundo, a proprietária se apercebeu que… desaparecera!
            Saía do parque, com uma filhota duns quatro aninhos, ao mesmo tempo que eu; era estrangeira residente em Cascais, pelo que percebi. Entrou em pânico, não tinha a menor ideia do que lhe poderia ter acontecido. Nada havia ali que lhe dissesse como é que o carro sumira!... Expliquei-lhe:
            ‒ Seu carro, minha senhora, não foi roubado, não, esteja descansada: foi levado pela Polícia Municipal.
            ‒ Mas como? Não impedia nada! Há quatro anos que venho aqui e nunca tal me aconteceu!... E como faço agora?... Estão no carro todos os documentos, o telemóvel… Não tenho como contactar ninguém!...
            Foi essa aflição e choro que assustaram o meu neto e o levaram a fazer-me a pergunta acerca da verdadeira missão da polícia.
            Ia disponibilizar-lhe o meu telemóvel, quando nos apercebemos de dois jovens voluntários ao serviço da autarquia. A senhora francesa explicou-lhes a situação. Eles pegaram no telemóvel (creio que de serviço) e terão ajudado a resolver a questão. Vou supor que sim, que resolveram, pois me apressei a retirar-me, a fim de poupar meus netos a mais cenas que pudessem contribuir para dar da polícia uma ideia ainda menos… aliciante. Tal não impediu, porém, o suspiro do Rogério, quando chegámos junto do nosso carro:
            ‒ Que bom, avô! O nosso eles não bloquearam!
            É que o reboque, nessa manhã, circulava lentamente em torno da Parada, qual ave de rapina a pairar nos céus à espera de incauta presa. O dia estava nublado, o Parque Marechal Carmona apresentava-se como excelente alternativa para uma horinha de lazer com as crianças e – a vida vai difícil para todos, inclusive para os polícias (dizem!)… – bom seria se se pudessem poupar uns cêntimos e não os gastar no parque explorado pela Cascais Próxima (sim, bem próxima anda ela, é preciso cuidado!). Claro, neste episódio e noutros, os parcos euros do parque acabaram por ser bué multiplicados pela pesada multa aplicada e, sobretudo, pelo enorme transtorno causado. Terá sido preciso, por exemplo, chamar alguém ou ir a pé até ao parque do Bairro do Rosário, para onde o carro fora rebocado.
            Confesso que tive muita pena da senhora, para mais acompanhada, como estava, de uma criancinha, que não compreendeu porque é que o carro onde tinha deixado a boneca levara descaminho num ápice. Felizmente que eu estava ali naquele momento para lhe dizer que não fora roubo, não, senhora, fora reboque, que é uma outra espécie.
            Assim como tive pena dos donos dos carros de matrícula estrangeira. Não apenas destes mas também dos donos dos que puseram os veículos no sítio certo e que, se o bloqueio se mantivesse muito tempo, eles próprios seriam injustamente prejudicados.
            Em casa, expliquei ao Rogério que havia um parque de estacionamento explorado pelo patrão daqueles senhores, que precisava de dinheiro para pagar ordenados e que tinha o parque precisamente para ganhar esse dinheiro. Lembras-te? Quando eras mais pequeno, eu punha sempre o carro lá!...
            Nós, como cidadãos, continuei, poderemos sempre reclamar por o preço ser muito alto, embora nada adiante. O avô, por exemplo, falou no assunto logo no início, propondo a primeira hora gratuita. Ninguém lhe deu ouvidos. Eles é que mandam, Rogério! Eles é que fazem as contas ‒ como nós fazemos as nossas e, por isso, agora que se contam os cêntimos, só se não houver alternativa, é que pomos lá o carro!

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 59, 03-09-2014, p. 6.