sábado, 1 de agosto de 2015

In memoriam de Gerardo Pereira Menaut

             Não posso, como é natural, ser exaustivo na recordação de um bom Amigo que ora nos deixou e cuja morte, aos 68 anos, me deixa com a natural tristeza de quem perde um Amigo de mais de quatro décadas! É-me impossível, porém, não partilhar com os investigadores de História Antiga, Arqueologia e Epigrafia, a enorme dor da sua inesperada perda, ocorrida hoje por volta das três e meia da tarde (hora local). Havia-lhe sido identificado um cancro hepático há umas três semanas que estava já bastante avançado e de que estava a tratamento de quimio. «Mas hoje», acrescentou Manuel Villanueva que fez o favor de me escrever, «o que falhou foi o coração. Teve un enfarto fatal».
            Mais triste ainda é sublinhar que a sua partida segue de muito perto a que fora sua mulher, Pilar Rodríguez Álvarez, de 58 anos de idade, professora titular no mesmo Departamento de Historia Antigua de Santiago de Compostela, onde Gerardo era catedrático, que morreu no passado dia 9. Está, pois, duplamente de luto a Universidade de Santiago e estamos todos nós, que tínhamos em ambos mui bons amigos.
Gerardo com Carlos Fabião e J. d'E.
(Lugo, 25 de Outubro de 2013) 
            Nunca se podia estar mal disposto junto de Gerardo. A sua proverbial serenidade a todos encantava. E que me seja permitido recordar os bons momentos que vivemos com ele, em Outubro de 2013, no Colóquio Internacional «Las Ciudades del Poder en Hispania», realizado em Lugo (foto anexa, juntamente com Carlos Fabião).
            Gerardo Pereira trabalhou com Géza Alföldy, em Heidelberg, de que resultou a publicação Inscripciones Romanas de Valentia (Valência, 1979).
            Entre outras actividades, iniciou, em Julho de 1986, a série dos Congressos Peninsulares de História Antiga, em Santiago de Compostela, que teria seguimento em Coimbra (Outubro de 1990), onde apresentou, com Dolores Dopico a comunicação «La gran inscripción de Remeseiros (CIL II 2476). Sobre la forma jurídica de tenencia de la tierra entre los indigenas bajo dominio romano» e onde tive a honra de o convidar a fazer o discurso de encerramento (publicado nas actas, p. 1177-1178). O III destes congressos viria a decorrer em Vitória (Julho 1994), por iniciativa de Juan Santos Yanguas, amigo comum, mas a série sonhada por Gerardo não teve o seguimento esperado.
        Foi, de facto, a Epigrafia a sua primeira grande paixão, tendo lançado mão à preparação de novos corpora da Galiza romana: Corpus de Inscripcións Romanas de Galicia. I Provincia de A Coruña. Santiago de Compostela, 1991. O II  – Provincia de Pontevedra (1994) deve-se a Gemma Baños Rodríguez.
            Recordo as grandes questões que o entusiasmaram: o significado do C invertido, as epígrafes da Fonte do Ídolo de Braga, a organização dos povos galaicos sob o domínio romano. Refiro infra alguns dos trabalhos que publicou (rol que pode ser completado com a consulta do currículo mantido actualizado por Juan Manuel Abascal: http://www.ua.es/personal/juan.abascal/pereira_menaut.html )
            Mais recentemente a sua preocupação – como a de todos nós, aliás – foi a do risco, perante a avassaladora globalização, de os povos (neste caso, a sua querida Galiza) perderem a identidade. Em 2010, na sua condição de «Director del Observatorio Galego do Território», proclamava, por exemplo: "Al destruir el paisaje hemos destruido también la identidad del país".
            Em mensagem que acabo de receber, Patrick Le Roux comenta assim a triste notícia:
            «J'avais revu Gerardo à Lugo en octobre 2013 et il m'avait ensuite contacté pour un projet d'article en commun. Il semblait en forme et avoir surmonté certains de ses problèmes.
            Je l'ai connu dès 1972 et je l'ai toujours tenu pour un intellectuel de talent, curieux et original en même temps que fidèle à ses engagements. Il laisse des travaux importants qui font réfléchir et il est dommage qu'il ait choisi trop tôt de rester à l'écart dans son Finisterre qu'il aimait plus que tout.»
            Aliás, de imediato após a notícia do seu falecimento, que divulguei há pouco mais de uma hora, vários colegas me enviaram mensagens, condoídos com a perda que ora sofremos os que com ele navegávamos no mesmo barco da investigação sobre História Antiga e Epigrafia e como ele temos as mesmas preocupações em relação ao risco de um futuro sem memória.
            O meu voto renovado, que sei ser também o de todos os seus amigos: que descanse em paz!
            À família enlutada, um forte abraço amigo dos mais sentidos pêsames!
 
                                                                      José d’Encarnação

Breve bibliografia de Gerardo Pereira Menaut
PEREIRA MENAUT, G. (1978) - Caeleo Cadraiolonis f. Cilenus É Berisamo et Al. Centuria ou castellum. Uma discussão. I Colóquio Galaico-minhoto. III vol. Póvoa de Varzim. p. 445-457.
PEREIRA MENAUT, G. (1980): “Historical Landscapes and Structures. A reflexion on the case of Roman Galicia”, Boletín Auriense, 10, 25-31.
PEREIRA, G. & SANTOS, J.( 1980) - Sobre la romanización del noroeste de la Península Ibérica: Las inscripciones com mención del origo personal. Actas do Seminário de Arqueologia do Noroeste Peninsular. III. Guimarães.p. 117-30.
PEREIRA, G. & ALMEIDA, C. A. F. de (1981) - A grande inscrição do penedo de Rameseiros. Vilar de Perdizes. Montalegre (CIL II 2476). Arqueologia. Porto. 4. p. 142-45.
PEREIRA MENAUT, G. (1982) - Los castella y las comunidades de Gallaecia. Zephyrus. 34-35, p. 249-267.
PEREIRA MENAUT, G. (1983) - Las comunidades galaico-romanas. Habitat y sociedad en transformación. Estudos de cultura castrexa e de historia antiga de Galicia. Santiago de Compostela, p. 199-212.
PEREIRA MENAUT, G. (1984-85) - Nueva tabula patronatus del Noroeste de Hispania. Studia Palaeohispanica. Actas del IV Coloquio Internacional de Lenguas y Culturas Paleohispánicas = Veleia. 2-3. Vitoria, p. 299-303.
PEREIRA MENAUT, G. (1985) - La inscriptión del Ídolo da Fonte. Braga. CIL II 2419. Symbola Ludovico Mitxelena Septuagenario oblatae. Pars Prior. Vitoria, p. 531-535.
PEREIRA MENAUT, G. (1991) - Corpus de inscripcións romanas de Galicia. I. Provincia de A Coruña. Santiago de Compostela.
PEREIRA MENAUT, G. (1992): “Callaecia”, en Actas del I Congreso Hispano-Italiano Conquista Romana y Modos de intervención en la organización urbana y territorial (F. Coarelli, M. Torelli y J. Uroz, coords.), Dialoghi di Archeologia, 1-2, 319-325.
PEREIRA MENAUT, G. (1993) - Cognatio Magilancum.Una forma de organización indígena de la Hispania indoeuropea. Actas del V Coloquio sobre Lenguas y Culturas Prerromanas de la Península Ibérica (Colonia. Novembre 1989). Salmanca, p. 411-24.
BAÑOS, G. & PEREIRA, G. (1993) - Novedades y correciones en la teonimia galaica. Studia paleohispanica et indogermanica J. Untermann ab amicis hispanicis oblata. Barcelona, p. 37-65.

Divulgado através da archport, a 15 de Fevereiro de 2015:

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Peer Gynt - uma representação que dá que pensar!

             Escreve Miguel Graça, na folhinha distribuída em cada sessão, que a peça «Peer Gynt», do norueguês Henrik Ibsen, datada de 1867, nos põe questões: «O que é viver?», «Quem somos nós?».
            Na verdade, ao vermos as peripécias imensas por que passa o protagonista, altos e baixos, anjo e demónio, acabamos por sentir que, amiúde, cenas dessas também fizeram parte da nossa vida. Aliás, o próprio Carlos Avilez, o encenador, diz mesmo que «Peer Gynt é uma viagem extraordinária que fizemos primeiro ao longo de 50 anos e agora nestas últimas oito semanas».
            Merece o texto, na – sempre de elogiar! – versão e dramaturgia de Miguel Graça, uma análise profunda. E cada um dos espectadores, por mais vezes que veja o espectáculo (em cena no Teatro Municipal Mirita Casimiro, até 9 de Agosto), há-de reter inúmeros motivos de reflexão, inclusive porque – embora escrita em meados do século XIX, eivada, pois, dos ‘fantasmas’ de então, que não serão, afinal, mui diferentes dos nossos – a peça detém uma riqueza extrema. Não cabe, pois, nesta leve crónica um esmiuçar das filosofias de vida aí apresentadas. Mas não passarão despercebidos, mesmo ao espectador menos atento, alguns bem sugestivos apontamentos, a que o trajar ou o simples tom de voz e pronúncia emprestam uma actualidade pungente, que – estou certo disso! – toda a companhia bem se divertiu em caricaturar. As bailarinas de… burka! Ou aquela espécie de conferência de líderes europeus, de tiques bem nossos conhecidos e teorias também…

Uma prova de finalistas
            Recorde-se que, ao lado dos actores da companhia, entram em cena, para a sua prova de aptidão profissional, os estudantes finalistas das Escola Profissional de Teatro de Cascais, assim como alguns dos alunos do 2º ano, para desde já se habituarem a pisar o palco.
            Há, por isso, quatro elencos, uma vez que a intenção de Carlos Avilez, em sintonia com o corpo docente da Escola, é fazer com que cada um dos estudantes vista a pele de mais do que uma personagem. Primeiro, para ser avaliado; depois, para que se auto-avalie e verifique em que papel melhor se sente; e, finalmente, para que saiba ser a versatilidade uma das características mais importantes do actor: hoje, senhora, amanhã, criada; depois, bailarina ou bruxa ou doida varrida, cheia de tiques…
            Uma peça como esta – que é, no fundo, o imaginário retrato da vida, uma espécie de odisseia dos tempos modernos, também ela pejada de fantasias, sonhos e loucuras… – presta-se bem a pôr à prova os dotes do estudante que sonha ser actor. E não se pense que há aqui «papéis pequeninos», sem valor e sem necessidade de treino ou atenção. Nada disso! Veja-se, a título de exemplo, a cena do manicómio: cada um representa a seu modo, tudo estudado ao pormenor, para que seja eloquente o conjunto. Recordo que, tendo ido à zona dos camarins para cumprimentar alguns dos intervenientes, olhei para o palco e vi como os rapazes encarregados de, a determinado momento, retirarem um palanque metálico, estavam a treinar, para que, na representação seguinte, tudo corresse a contento. Porque, senhores, as mudanças de cenário, feitas num ápice, requerem treino adequado e sobretudo se, como no caso vertente, esse mobiliário é retirado mesmo em cena e, ainda por cima, em movimentos quase de bailado, que necessitam de notável sincronia. E, nesta acção, como em toda a peça, a coreografia de Natasha Tchitcherova desempenhou papel fundamental.
            Carlos Avilez – sempre com o apoio incansável da sua equipa técnica, que se desdobra – pensou numa cenografia singela, mais de evocação de ambientes do que da sua efectiva recriação (que, aliás, bem se dispensa). Fernando Alvarez teve, também aqui e nos figurinos, acção relevante, com a ímpar experiência que se lhe reconhece. É singela, sim; mas exige, por isso mesmo, rápida e bem sincronizada movimentação de actores.
Maria Vieira e Pedro Condessa, mãe e filho
            São quase quatro horas de espectáculo, contando com os dois intervalos. O protagonista (José Condessa e André Leitão) está em cena o tempo todo. Maria Vieira, a actriz convidada, que faz o papel de mãe do protagonista, ocupa parte importante do primeiro acto e, pelas declarações que já lhe ouvimos, considera esta uma das bem importantes experiências da sua carreira, nomeadamente – como tem acentuado – por poder partilhar o palco com estes jovens e promissores actores.
            Enfim, com mais esta prova de aptidão profissional, que reúne em palco 51 actores mais 22 alunos do 2º ano, o Teatro Experimental de Cascais demonstra a validade do teatro como forma de fazer Cultura e Intervenção e documenta, por outro lado, o excelente trabalho educativo que, através da arte de bem representar, se está a desenvolver na Escola Profissional de Teatro de Cascais.
            Não há senão uma atitude a tomar: aplaudir. De pé!
                                                                                                                  José d’Encarnação
 
Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 103, 29-07-2015, p. 6.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Do Pinhão, um dia, parti…

           Que fazem os poetas? Adoptam, com maior frequência, a atitude ideal: tomam consciência da realidade, assumem-na e partem dela para uma reflexão.
            Recostado na espreguiçadeira da piscina, as ondas pequenas a espreguiçarem-se, também elas, na praia alia em baixo, vejo quatro cargueiros parados na linha do horizonte. Situação corrente. Já ali estão há três dias. O técnico dirá: esperam vaga no porto de Lisboa; o Poeta, porém, é capaz de os pôr a ganhar fôlego para novas viagens, impregná-los de tédio pela bem escusada espera ou descobrir-lhes inveja da agilidade branca dos barquitos à vela que lhes fazem negaças perto, manobrados por aprendizes…
            Confesso-me incapaz de escrever versos e tenho dificuldade em classificar de ‘poema’ um texto só porque formalmente se apresenta estruturado em versos, designadamente se desprovido de rima. Aceito, todavia, essa opção – pois, amiúde, dessa forma sintética a mensagem resulta mais eficaz que prolixo e mui erudito tratado.
            Tenho presente o livro Cintilações, de Ana T. Freitas, edição de Apenas Livros (Abril de 2015, ISBN: 978-989-618-505-3, 116 páginas). No texto com se apresenta, fala dos livros que leu na infância e juventude; evoca os tempos da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian (uma das iniciativas de Branquinho da Fonseca que nunca será de mais enaltecer). E suspeitamos que seguiu a carreira docente.
            A partir de 2009, mercê do convívio com Jorge Castro – também ele acordado para estas lides poéticas passada a meia-idade e autor do prefácio do livro que se comentará a seguir –, reencontrou esse modo de se expressar. Tal como Jorge Castro fazia em Cascais as Noites com Poemas, iniciou Ana Freitas, com o maior êxito, a série mensal Um Poema na Vila, em Coruche, tertúlia donde saíram já os livros A Minha Rua e O Montado – Um Lugar Poético, cujas edições coordenou.
            Significativa, a capa de Cintilações: a foto da estação ferroviária do Pinhão, da sempre magnífica Linha do Douro, em pleno Outono, quando essas encostas se vestem de dourados e castanhos: «… neste comboio, serpenteando montes, parti um dia para o mundo que se abria…». E pelo livro é, de facto, todo um mundo que se nos abre, frequentemente a verberá-lo, porque se desejaria bem melhor:
 
                         «assim vão as nossas vidas
                         flutuando em mares de números
                         poluídos
                         suportados pela palavra».

            Essa, a observação; e vem depois o voto:

            «a vida só pode ser vivida de braço dado
            com a grandeza dos números e a humanidade das letras» (p. 43).

            Palavras soltas, por vezes, como salpicos de água refrescantes: «vozes sons entoações expressões» (p. 60) – e imagina-se a ternura mágica da mãe a embalar o filhote…. Salpicos mesmo!
            A noite de S. João no Porto, natural ensejo para saborosas quadras populares; mas lá vem o final atento, como nas fábulas de Esopo, numa desculpa ao santinho por não ser viável a esmola e no lamento:

                               «A crise serve para tudo
                               Sem um futuro em que invistas
                               Injustiça é mais injusta
                               Mas, amigo, não desistas!»  (p. 41).

            Os votos, aliás, sucedem-se, diante de um panorama que voluntariamente se oculta porque se auspicia bem diferente: «eu queria a minha escola no agora poético / que cada um corresse para ela na certeza do prazer» (p. 38).
            Agrupados em duas partes («… aqui», «e além…»), estão datados os poemas: o mais antigo de 14.03.09 e de 24.04.2014, o mais recente. Trazem, por vezes, a indicação expressa do que os motivou: as ânsias da intervenção oftalmológica, o «1º mês de corte de salários na função pública», a D. Alice, de 81 anos, louletana que encontrou no Hospital de Santa Maria e que sabia falar em rima…
            Só mui raramente há pontuação. As palavras (des)alinhadas obrigam a pausas inesperadas – que fazem pensar. E essa é, afinal, a nobre missão do Poeta!
                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 28-07-2015:

O fantasmagórico sonho de um rei romântico

           Gostei de ver. Acompanhava, mais uma vez, familiares na visita ao Palácio da Pena, a 9 de Junho, e muito me congratulei com a multidão de visitantes, quer portugueses, quer, sobretudo, estrangeiros, que me apercebi serem de vários continentes.
            Estava, de facto, um dia magnifico e o palácio vive, sem dúvida, do seu ímpar recheio e da invulgar majestade da sua construção altaneira, mas, de modo bem especial, do seu enquadramento.
            Bem andou o rei D. Fernando II quando, em 1838, resolveu adquirir o vetusto e então devoluto convento dos Monges Jerónimos de Nossa Senhora da Pena, mandado erguer no topo da serra por um dos seus antecessores, el-rei Manuel I, em 1511. Recuperou-o em parte e, por volta de 1843, encarregou o arquitecto alemão Barão de Eschwege de proceder às ampliações que elevaram o edifício às proporções que hoje ostenta e nos maravilham. De resto, o facto de, aquando das obras de restauro levadas a efeito em 1994, se ter verificado que eram o rosa-velho e o ocre as cores originais, a opção foi a de essas cores se reporem, o que veio acrescentar relevo à já de per si fantasmagoria do conjunto.
            Bem andou o rei D. Fernando II em dar asas ao sonho. Encastraram-se as paredes nas concavidades das rochas, como que a desafiar as poderosas muralhas do Castelo dos Mouros, vigilantes na colina fronteiriça.
            Dir-se-ia que, ali, o tempo era outro, digno de ser saboreado longe das intrigas da Corte, alheio às cumplicidades da governação. Ali, o importante era viver, em contacto com a Natureza: o parque repleto dos verdes mais exóticos, ao mar ao fundo e, até, o Tejo e a Arrábida a perder de vista…
            Passeamo-nos devagar pelos corredores. Aqui, um quarto de dormir; mais além, a grande sala de lustres pendentes, cenário ideal para mui pomposa recepção… Imaginamos o que seria a vida, então, por entre aquelas paredes, que beijos, que olhares, que preocupações também… Como, ao atentarmos nas expressões dos visitantes de agora, nos apeteceria adivinhar que sentimentos todo o cenário desperta, por exemplo, neste magote de japoneses, tão longe dos seus estão os modelos artísticos aqui patentes, a vida de que quotidianamente estes interiores foram palco e testemunhas.
            A pausa na esplanada, as fotografias («Só mais este ângulo!...») constituem final imprescindível antes da hesitação da partida: retoma-se o pequeno autocarro ou desce-se a pé para melhor saborear a paisagem?
            Sempre novo, sempre recheado de surpresas este Palácio da Pena!                                      

                                                                                              José d’Encarnação

O palácio visto da Quinta da Regaleira

A entrar para o palácio

Claustro interior

A sinfonia das cores...

Uma cozinha bem apetrechada

A esplanada

A vista a alongar-se pelos verdes até ao mar, com o Guincho ao fundo...
Publicado em Cyberjornal, edição de 2015-07-28:

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Rabitesa!

              Um encanto haver tempo para ouvir conversas de velhos. Primeiro, porque eles têm necessidade absoluta de alguém para os ouvir; depois, porque adoram contar histórias vividas; e saem-nos sempre com cada expressão que não só enriquece o nosso vocabulário habitualmente já tão parco e contaminado por bem escusados estrangeirismos, como revela arguta observação da realidade.
            Vê vocêa! O filho saiu um bicho-do-mato, sempre metido no seu canto, não fala com ninguém. E ela, já pra mais de 90 anos, toda rabitesa! Faz toda a lida da casa, até se empoleira na escada para caiar e a gente grita-lhe: «Ti Ausenda, vossemecêa inda cai daí e nem a alma se lh’aprovêta!». Qual quê! Ainda é capaz de fazer pouco da gente, que já não prestamos pra nada!... Outro dia, deu-lhe um ginete e foi pra cima do telhado a ver como estava a chaminé, que as letras lá do nome do avô não se viam bem nem a data da casa…
            «Vê vocêa», por «veja, você» (às vezes, até vai mais um i para abrandar: vocêi…). E gostei do «rabitesa», que é como quem diz «de carnes rijas, nada de flacidezes!», entende-se... Depois, o ginete, a lembrar «ginete», cavalo ágil, «gineta», o gato selvagem, ou a gineta, espécie de furão – tudo animais que, num ápice, se nos fogem…
            Os nossos falares, esses, é que não podemos deixar fugir!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 198/199, Julho/Agosto de 2015, p. 10.

 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Licor d'alfarroba!

             Os que tivemos a dita de viver as comemorações do centenário da criação do concelho de S. Brás de Alportel guardaremos vida afora, não há dúvida, inúmeras decorações de momentos únicos vividos, mormente nos três últimos dias.
            Trajar-se à moda de 1914, ir à «taberna» e ver os preços em vinténs, observar a séria animação do casal da caixa de música… constituirão seguramente imagens inolvidáveis.
            Poderia imaginar-se, à partida, que tudo não passaria dum carnaval. Envergavam-se esses trajos, tinham-se aqueles gestos e era tudo uma palhaçada. Não, não foi assim. Cada um sentia – e mostrava! – que não era um “palhaço”, era uma “figura” d’outrora – e essa memória fazia reviver como elo duma cadeia histórica que não conviria olvidar.
            Claro que há cenas a recordar mais do que outras. Impagável, a velhota de negro a incarnar aquele subconsciente mágico e perturbador; eloquente, o enterro com as carpideiras… Mas, claro, aqueles olhos muito azuis da enfermeira seriam mezinha segura para todas as maleitas e até apetecia sentir-se mal para ter os seus cuidados!... Olhos muito azuis que duas coisas mostravam: primeiro, quanto os algarvios do Barrocal resultam de antigos ‘cruzamentos’ – do Norte de África e do Norte europeu e sabe-se lá donde!... Depois, que no acudir aos doentes é precisa a técnica, sim, o saber, mas a beleza do sorriso se guinda, afinal, a remédio que eu ousaria chamar «santo».
            Na verdade, e essa é também uma lição das comemorações: o mais importante são as pessoas.
            E quando, quase no final da sua actuação, Ana Moura nos confidenciou que iria deliciar-se com um cálice do licor d’alfarroba que o Presidente lhe dera… a alma são-brasense rejubilou!

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz nº 224, 20-07-2015, p. 21.

domingo, 19 de julho de 2015

A lição do sismo

              Sentiu-se em Cascais, passavam 26 minutos da meia-noite, ou seja, já hoje, 19 de Julho de 2015, leve abalo sísmico. Os vizinhos vieram à varanda, a indagar se teria sido carro descontrolado que batera contra o muro. Não fora. Ligámos aos bombeiros:
            Estamos a tentar saber o que foi. Sentiu-se em toda a Cascais.
            Fomos ao facebook e, de imediato, surgiram os testemunhos, as perguntas e logo também o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, sem saber ainda se fora sentido pela população, divulgou comunicado a informar que se tratara de sismo de magnitude 3,2 na escala de Richter, com epicentro a 8 km a oés-sudoeste de Sintra, ou seja, na zona de Alcabideche. As notícias que foram surgindo no facebook, designadamente na página Novidades de Cascais, apontavam, de facto, para que fora por essas bandas que o abalo mais se fizera sentir.
            E hoje, de manhã, foram, sem dúvida, muitos os telefonemas de familiares e amigos doutras zonas do País, na preocupação de saberem se, na verdade, estava tudo bem e não passara de um susto. O próprio presidente da autarquia, logo minutos depois do abalo, pôs mensagem no facebook, a serenar os munícipes.
            Claro, os que somos mais velhos recordámos os pavores do sismo de 28 de Fevereiro de 1969, pelas 2h 40 m, esse de magnitude 7,3 na escala de Richter, que, embora o seu hipocentro tivesse sido localizado a sudoeste do Cabo de S. Vicente e a uma profundidade de 22 km (o de hoje foi a 40 km de profundidade), bem se sentiu em Cascais.
            Duas reflexões me ocorrem e peço licença para partilhar:
            A 1ª, a mais óbvia: nada somos e, de um momento para o outro, todas as ‘vaidades’ podem ser reduzidas a pó.
            A 2ª: o (ora) indispensável papel que detêm as redes sociais, porque, ainda mais do que o telefone, rapidamente podem cimentar comunidade e veicular informação. Um papel relevante, que muito importa seja, cada vez mais, usado em benefício de todos.
            Mas estas duas reflexões implicam uma terceira: somos pequeninos e conseguimos esta ‘onda’, porque há electricidade e, sobretudo, porque nos é possível aceder de imediato à Internet. Temos Internet. Somos, pois, uns privilegiados! Um privilégio que cumpre consciencializar!

                                                                                    José d’Encarnação
Oportuna imagem de Guilherme Cardoso, a mostrar
vestígios de mui antiga falha vulcânica visíveis no Arneiro
(junto à Malveira da Serra)