segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Animais de companhia

            Enterneceu-me, como certamente a muitos dos nossos leitores, a circunstanciada crónica que, ao seu jeito habitual, Vítor Barros dedicou, na passada edição (pág. 4), ao seu cão Pantufa, que «se foi embora».
            Conta miudamente o que foi a sua longa vida, mormente a dos últimos tempos, em que «ficou coxo, quase cego, quase surdo». Ternura é o halo que da sua prosa mui delicadamente se evola. Ternura sua pelo Pantufa, ternura do Pantufa para com toda a família, sobretudo para a mãe do Vítor após a morte do marido.
            E ia eu pôr, como título desta minha crónica, «Animais, nossos amigos» ou, como no título do livro de Alan Devoe, «Our animals neighbors» (McGraw-Hill, Nova Iorque, 1953), que requisitei, quando estudante, na Biblioteca Americana, «Os nossos vizinhos, os animais». Na verdade, só quem partilhar a vida com um cão ou outro animal de estimação compreende bem o que Vítor Barros descreveu.
            Passeávamos, no passado dia 18 de Dezembro, nas Ramblas, em Barcelona, quando a Ana me chamou a atenção para um sem-abrigo, que dormia abraçado a um cão como o nosso labrador, singela manta a cobri-los. Também essa cena nos enterneceu. E ficámos a pensar nas vezes em que o sem-abrigo até era capaz de passar fome para que o seu amigo a não passasse.
            Foram dados alguns passos já, a nível político, para ajudar quem tem no seu animal a presença diária, a única presença diária, nomeadamente na velhice. Mais importaria fazer, atendendo ao insubstituível papel que o cão ou o gato desempenham no lar, inclusive do ponto de vista psicológico, como elemento apaziguador de emoções. Já não falo nas CERCIs, onde, cada vez mais, a presença de um cão devidamente educado exerce ímpar função pedagógica. Os políticos – também eles têm cães e/ou gatos, aposto! – deveriam pensar nisso.
            Não apresento condolências a Vítor Barros, porque o Pantufa cumpriu a sua missão. Felicito-o, mais uma vez, por – com um exemplo vivo e sentido – ter chamado a atenção para uma indesmentível realidade.
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 254, 20-01-2018, p. 17.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Acerca de «As Pessoas de Minha Casa», de Júlio Conrado

             Há sempre a tendência de se catalogar um livro. De um modo geral, porém, a classificação aponta num sentido e, amiúde, o livro é mais do que isso, por o autor nele fazer reflectir muito da sua personalidade e da sua experiência de vida. Autobiografia? De certo modo, sim. Mesmo que o homem fora uma ilha – contrariando a peremptória afirmação em contrário, de John Donne – ou até mais ainda nessa circunstância, parte significativa de si estaria lá.
            Não é autobiografia, no sentido próprio do termo, o romance As Pessoas de Minha Casa, que Júlio Conrado publicou (Âncora Editora, Lisboa, 3ª edição, Junho de 2017); mas muitas das páginas hão de ser entendidas como tal. Inclinar-me-ia a catalogá-lo – mania de leitor, já se vê! – como romance de costumes.
            Nascido em Olhão, a 26 de Novembro de 1936, Júlio Conrado acompanhou os pais, ainda criança, para Carcavelos, numa época em que o Algarve não oferecia risonhas condições de vida e a Costa do Sol, bem vizinha da capital, se imaginava, para alentejanos e algarvios, como recheio de boas oportunidades. Tinha, pois, oito anos quando acabou a II Guerra Mundial e foi em Carcavelos que passou meninice e juventude e o mundo dos anos 50, em que prestou serviço militar e começou a encarar a vida profissional. A loucura dos anos 60 apanhou-o já homem feito e, pela Revolução de Abril e anos subsequentes, era já o escritor, o crítico literário, revelando a sua larga propensão para a escrita, que nunca haveria de largar, independentemente da ocupação profissional.
            É As Pessoas de Minha Casa a história da sua família? Não. «Casa» entendo eu como «ambiente», «horizonte em que me fui embrenhando». Estamos, todavia, perante uma 3ª edição. E um dos aspectos que mais pode intrigar o leitor á a circunstância de haver nessa edição «palavras somadas e suprimidas». As suprimidas visaram dar maior fluidez e propriedade ao discurso; as somadas derivam do facto de uma das personagens que se supôs retratada nas anteriores edições se ter rebelado num manuscrito a que o autor, por bom preço, acabou por ter acesso em leilão e, devido a isso, forçado se viu a incluir pormenores olvidados ou voluntariamente omitidos, nomeadamente da vida íntima.
            A «parte primeira» (p. 11-86) tem por título «Guerra, caça e amores, por um prazer cem dores»; a «parte segunda» (p. 87-151) agarra o título do livro todo e chama-lhe o Autor «romance intercalar». Há uma «parte terceira» (p. 153-228), de mui significativa temática, «Oração aos restos». E os restos são o necessário «regresso à Vila das Quintas» (Carcavelos), a paisagem da infância e da juventude, com «paragem no Bairro de Alcântara». No «Epílogo» (p. 229-230), retomamos o contacto com o Eurico, a Judite, o Alfredo, o Aurélio e a Vanda, de que nós já nos esquecêramos, por estarem seus nomes consignados nas intrigas amorosas, políticas e interesseiras vividas na parte primeira, nos conturbados meses que se sucedem à Revolução de Abril. O «Verão quente» de 1975 e suas sequelas na vida familiar e afectiva - é neste aspecto pessoal que se insiste, mais do que em considerações político-partidárias, apenas afloradas aqui e além.
Rapazes em Carcavelos, na década de 40
do século passado. O mais alto é o autor.
            Os capítulos têm nome. Resistiu o Autor a essa tendência, dir-se-ia surrealista, eu chamo-lhe de preguiçosa, de os identificar com números, sem palavras, como quem tem medo de se expor ou pensa que o leitor deve entender por si o que está escrito sem necessidade de antolhos. Sou contra. Há que sugerir, arriscando mesmo, eventualmente, a recriminação do leitor. E Júlio Conrado não hesitou e deu nomes bem sugestivos.
            Adequa-se cabalmente a linguagem a cada um dos cenários. E essa constitui, sem dúvida, a grande virtude do escritor, a demonstrar uma maturidade invejável. Dificilmente haverá quem não se deixe levar pela narrativa, surpreendido com o rigor vocabular, que representa, a meu ver, um dos grandes aliciantes formais do romance.
            Transcrevo uma das passagens iniciais do capítulo «Olhe, botão»:
            «Noutro tempo, ao garanhões davam às chantras um xis de gorja para ouvirem delas a história de como se tinham metido no putedo. Agora andavam elas ao avio dessa mercadoria. Preocupadas com as melancolias dos clientes» (p. 14).
            Ousadia minha será; estas linhas poderão, no entanto, prenunciar o que se encontrará ao longo do livro:
            ‒ Em primeiro lugar, a crueza realista com que abertamente se abordam as questões da sexualidade, desde as secretas manifestações do seu despertar, ainda na meninice e na adolescência (namoricos, apalpões, descobertas físicas, clandestinas espreitadelas…) até à desbragada conversa de caserna, sem tabus.
            ‒ Depois, o referido perfeito domínio da terminologia adequada a cada momento; neste caso, a gíria do que se poderia designar de submundo – os garanhões, as chantras, a gorja, o putedo…
            ‒ O sintomático aproveitamento do instante para lançar luz, discreta mas certeira, sem alardes filosóficos, a um generalizado estado de espírito: «as melancolias dos clientes»…
            ‒ Por fim, como mais adiante se verá, a ancestral reminiscência do vocabulário algarvio, patente aqui no uso espontâneo de «avio».
            Não resisto, por isso, a não transcrever o início do primeiro capítulo da parte terceira, intitulado «zona anterior/interior»:
            «Recolho as vitualhas da mesa da experiência. Restos que valem o esforço de uma oração final em seu louvor. Um remorso de ponta de navalha em riste leva ao balanço dos horrores e dos cromos da era juvenil. Nesta hora frágil. Enquanto aguardo o momento da grande explicação entre os deuses e os demónios sobre o meu destino» (p. 155).
            Quem há que não reconheça aqui, no curto martelar dos períodos, a frase meditada, a palavra prenhe de sentido, na mescla entre a imagem seleccionada e o apontar claro de um sentimento expresso?
            Ecoam-me na primeira frase, sem querer ou não, os versos, salvo o erro, de Guerra Junqueiro: «Pois quem come as vitualhas leve também as migalhas que sobram da nossa mesa!».
            Aqui, a mesa é a experiência, um vocábulo que o Autor usa, nesse instante, quiçá pela primeira vez, avesso, como se proclama, a elucubrações metafísicas. Mas de experiência trata o livro. Da vida. Por isso a quer louvar. E vem-lhe à mente um outro termo com o qual não está familiarizado, creio. Saiu-lhe. Oração. Pode ser prece, pode ser discurso. Ambiguidade propositada. E a palavra ‘final’ deu o mote. Tempo de balanço. Da era juvenil ocorrem-lhe apenas (parece) os horrores e os cromos. Suspeitamos que ‘cromos’ terá duplo significado: o da gíria, o figurado, personagens estereotipadas, estáticas, vazias; e o concreto, dos álbuns de colecções – jogadores de futebol, raças humanas, artistas de cinema… “Horrores” é, por seu turno, palavra forte, a denunciar o que foram, na verdade, os anos da guerra e as amarguras por que então se passou.
            Outra palavra lhe surgiu, também ela incomum na sua prosa: remorso. Não terá, decerto, o sentido moral, de contrição por acções menos éticas praticadas; igualmente não o vejo num lamento, porque, em circunstâncias idênticas, o mesmo todos nós voltaríamos a fazer o que se fez, porque assim era preciso. Será, pois, um aguilhão que dói, a tal «ponta de navalha em riste»…
            Não perpassam pelos escritos de Júlio Conrado sentimentos religiosos. Transposta, porém, a fronteira dos oitenta, o de trinta e seis é capaz de sentir, agora, a perspectiva de uma «hora frágil», enquanto aguarda «o momento da grande explicação entre os deuses e os demónios» sobre o seu destino. Bem saboroso, o voluntário eufemismo; indisfarçada ironia, a embrulhar sentimentos. Aliás, desse tom se reveste o que vem a seguir:
            «Quero ir decente desta para melhor, de espírito enxuto, alma polida, aspecto apresentável. E com a crónica intacta, sem rasuras, do que fui enquanto por cá andei. Os deuses incitam-me ao asseio, à elegância e à boa escrita, sempre é cerimónia única na vida de uma pessoa, ir de camisa engomada e vestir o fato dos domingos é obrigatório para que nela, a cerimónia, haja um mínimo de classe» (p. 156).
            E é nesse momento – dizem – que o regresso às origens se antoja inevitável também:
            «Havia na família gestos de a-ver-o-sol, o lastro da paisagem nevada das salinas, lembranças de caíques ao sul, de aragens de ria, a par desse falar em canto que tombava, estrangeiro, onde a palavra tinha diferente melodia. Módulos perfeitamente perfeitos, agarrados uns aos outros por pátios, açoteias, labirintos de paredes caiadas, ladrilhagem moura, cântaros a imitarem os trazidos pelo invasor berbere, selhas para todas as lavagens, da roupa, do corpo, dos pratos e talheres, versos de Loulé e zangas de Tavira casados na comunista Olhão» (p. 157).
            Vêm, portanto, ao de cima as «oralidades velhas que definhavam sem remédio na caldeirada étnica da Vila das Quintas» (Carcavelos): o biqueirão alimado, a sopa de abóbora, o xarém, a sobremesa de figos de pita, «estamos xarengados», «tem avondo», marafado, almariado… O falar algarvio no seu melhor!...
            Romance de escritor bem maduro, de saber acrisolado numa vida cheia, que As Pessoas de Minha Vida – queira-se ou não – superiormente retrata.
            Romance a reler com a atenção que a primeira leitura apenas suscitou e ora importa consolidar.
                                                                       José d’Encarnação

            Publicado em Cyberjornal, 14-01-2018:

sábado, 6 de janeiro de 2018

O eucalipto é meu; o sobreiro do neto será!

            Quando estive de professor na Escola Profissional de Santo António em Izeda, no ano lectivo de 1963-64, levava os meus ‘correços’ ao rabisco da castanha e da uva e, na aula, em jeito de lição por essas andanças nos soutos e nas vinhas já vindimadas, falava-lhes de um provérbio que por lá aprendi: «Oliveira do meu avô, castanheiro do meu pai e vinha minha».
            Olhavam para mim com ar de espanto e eu explicava que a frase queria dizer o seguinte: se eles plantassem vinha, ainda delas viriam a comer as uvas e a fazer bom vinho; se preferissem castanheiros, mui provavelmente só os filhos deles comeriam as castanhas; e se, ao invés, se dessem ao trabalho de plantar oliveiras, só os netos lhes saboreariam as azeitonas.
            O provérbio poderia ter hoje outra formulação, do género de «O eucalipto é meu; o sobreiro do neto será!» – que é como diz: se eu me dedicar aos eucaliptos, meninos, é atar e pôr ao fumeiro, ganho dinheiro num abrir e fechar de olhos; se, pelo contrário, atender a essas ‘histórias’ da vegetação autóctone, do que é bom para o solo e optar pelos sobreiros e azinheiras, amigo, só meus netos delas tirarão cortiça e lograrão alimentar saudavelmente os seus porquitos com bolota.
            Essa, a lição que, mais uma vez, o Prof. Jorge Paiva, botânico da Universidade de Coimbra, nos dá no seu postal de Natal deste ano. É o sobreiro a sua «árvore de Natal especial» – e ilustra a frase com um sobreiro da Malhadoura (Parque Nacional da Peneda-Gerês), «cuja idade avançada se revela com a semelhança da base do tronco e a rocha circundante».
            Como, «devido ao actual “Aquecimento Global”, Portugal está a ter verões mais quentes, mais secos e de maior amplitude» e «as únicas árvores que temos, capazes de suportarem estas novas condições, são, precisamente, os sobreiros e as azinheiras», «é necessário repensar a floresta de produção e ordenar o país».
            «Sobreiros e azinheiras são árvores de crescimento lento e o ordenamento do território é muito trabalhoso e demorado», ainda que «isso já tenha sido feito no Ribatejo e no Alentejo», onde «os montados de sobro e de azinho demoraram dezenas de anos a formarem-se, mas hoje são rendíveis e sempre com o mesmo número de árvores, pois, conforme vão morrendo, vão sendo substituídas por outras».
            Daí o seu voto – que, evidentemente, partilho:
            «Que a época festiva do final do ano ilumine a consciência dos governantes e políticos de Portugal de modo a não continuarmos a ter “piroverões”».
 
José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 722, 1 de Janeiro de 2018, p. 11.
As fotos reproduzem o que o Professor Jorge Paiva incluiu no seu postal de Natal.


 

 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A doutora Maria José Azevedo Santos assessora da Xunta do Governo Galego

            Membro do Centro de História da Sociedade e da Cultura desde a sua criação, a Doutora Maria José Azevedo Santos, professora catedrática, foi nomeada para integrar o Comité Internacional de Expertos del Camino de Santiago.
            É função deste grupo de «sábios» assessorar a Xunta do Governo Galego, emitindo parecer sobre itinerários, publicações, centros de estudo, congressos ou exposições.
            A notícia foi amplamente divulgada no jornal espanhol ABC, na sua edição de 1 de Fevereiro de 2015 (pág. 88), na medida em que também se nomearam outros dois membros: Simon Barton, professor da Universidade de Exeter (Reino Unido) e Segundo Pérez, deão de Santiago.
            Posta a questão de, cada vez mais, o Caminho de Santiago estar na moda, enriquecida a sua inicial vertente religiosa de uma componente turística crescentemente valorizada, o jornal salienta, de Simon Barton, a frase «Deveríamos celebrar a sua popularidade e não lamentá-lo». De Segundo Pérez, optou-se por sublinhar a ideia de que «a Europa precisa de recursos como este para afirmar a sua identidade». Por seu turno, em relação à Doutora Maria José Azevedo Santos, a opinião que é chamada a título acentua a necessidade de a Igreja manter a espiritualidade do Caminho
            Habituada a saber, desde pequena, da importância que a peregrinação a Santiago de Compostela detém na tradição espiritual cristã da Península Ibérica, a Doutora Maria José não deixou de comentar que a sua devoção infantil depressa encontrou um outro motivo de apreço:
            «O conhecimento do Caminho de Santiago foi decisivo para melhor se compreender a introdução de correntes culturais e religiosas no seio do Portugal do século XII».
            Dado que o Caminho de Santiago ocupa, indiscutivelmente, lugar cimeiro no quadro dos símbolos religiosos europeus, a Confraria de Santa Isabel assinou, recentemente, por ocasião da inauguração de um albergue no Convento de Santa Clara-a-Nova, um protocolo com o Centro de Estudos Jacobeus – Caminhos Portugueses a Santiago de Compostela, no sentido de mais facilmente se concretizarem os objectivos em vista.
         Nesse sentido, uma vez que a investigação histórica desempenha, naturalmente, papel relevante neste âmbito, a nomeação da Doutora Maria José, especialista em História Medieval, constitui, sem dúvida, uma honra para si e para a sua Faculdade – nomeação com que muito nos congratulamos, augurando-lhe o maior êxito nestas funções.
                                                                                   José d'Encarnação

Publicado em Revista de História da Sociedade e da Cultura, 17, 2017, p. 431.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Vamos ganhar outro tempo!

Nota acerca do livro «Para além do Mar Vermelho», de Carlos Carranca
 
1. Testemunho
            «Testemunho», a primeira palavra que me ocorre, depois de ler este livrinho de poemas de Carlos Carranca.
            Testemunho, porque demonstra não implicar a doença um abandono da vida. Carlos continuou a fazer projectos, a escrever, enriquecido por esta experiência que não deixa de ser ímpar quando nos toca a nós.

2. Afirmação de si como pessoa
            Afirmação de si como pessoa: a segunda ideia que de imediato me sobreveio. Afirmação patente na apresentação do título, escrito pelo seu próprio punho.
            Sou, como se sabe, epigrafista. Essa, a minha especialidade académica. Estou, portanto, habituado a lidar diariamente com a escrita, não só no conteúdo, mas, de modo especial, na forma. Não é que haja enveredado pela grafologia; reconheço, porém, que – ainda que inconscientemente – a maneira de escrever que adoptámos foi paulatinamente moldada pela nossa personalidade, pela imagem que desejamos transmitir.
            Pode Carlos Carranca nem ter pensado nisso. Ele o dirá, se assim o entender. E nem uma palavra troquei com ele a este propósito. O certo é que ter optado por ser a sua escrita a figurar na capa, o branco sobre um fundo verde-esperança e, sobretudo, no sentido vertical ascendente, com aquela acentuada haste do p e a evidência do acento agudo, com o nome – esse, sim, em letra de imprensa – mui discretamente acachapado ao fundo, tudo isso constitui reflexo evidente da sua vontade de vencer os obstáculos, de ir «para além do Mar Vermelho».

3. Religiosidade
            O terceiro ponto que gostava de focar prende-se com a escolha do título, inspirado em extremamente simbólico texto bíblico (Êxodo, 14, 5-31): a passagem do Mar Vermelho, hoje arqueologicamente confirmada pelos achados no fundo deste mar, e até cientificamente explicada.
            Viam os Judeus na travessia para o Egipto uma tábua de salvação, após 40 anos (sempre a magia do número 40!...) de arrastada e mui penosa peregrinação pela aridez do deserto. Verificarão depois que haviam caído num logro e que a condição de escravos os esperava, de facto. Conseguirão, alfim, voltar à Terra Prometida.
            Portanto, que há para além do Mar Vermelho? Esperança, incerteza e, de novo, esperança, ainda que dolorosa!
            Nas sete linhas que Carlos Carranca nos disponibilizou em jeito de prefácio é, seguramente, essa a mensagem. O «desconforto de viver», se não houver «um sentido para além da morte»: desconforto, sim, com fome no corpo e sede na alma, quando corremos no dia-a-dia, e não pensamos na bonança e não paramos para reflectir sobre esse sentido último. Quando, porém, o repouso é forçado, acabamos por atribuir ao tempo uma outra dimensão, tomamos consciência de que é ele a nossa maior riqueza a sabiamente rendibilizar: «E desse tempo de repouso, talvez ganhes outro tempo – o que te falta agora», conclui o autor. E tem razão.

4. Um apontamento
            Outros saberão, muito melhor do que eu, escalpelizar o sentido último dos curtos poemas de Carlos Carranca.
            Mais reflexões do que poemas serão. Ou, se se quiser, reflexões em jeito de poemas, que a mim me recordam os Pensamentos do imperador romano Marco Aurélio:
            «O tempo é como um rio que os acontecimentos formassem, um rio torrentoso... Mal uma coisa se anuncia, ei-la que já lá vai: no seu lugar já está outra em jeito de abalada» (IV 43).
            Ou os aforismos do livro Caminho, de Monsenhor Escrivá:
            «Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto».
            Ou, ainda, um dos meus livros de cabeceira, de Michel Quoist, Réussir, a que, em português, se deu o título de Construir:
            «À mesa, quando enches os copos, enches um de cada vez. Na vida, é necessário encher de cada vez um minuto, se não certos instantes transbordarão, ao passo que outros ficarão vazios».
            E – queiramos ou não – é muito no âmbito religioso, da relação do Homem com uma entidade superior (chame-se-lhe como se quiser), que se situa a palavra, dita ou escrita. Essa consciencialização da enorme importância do «verbo» – In principio erat Verbum, lê-se nas primeiras linhas do Evangelho de João (1, 1) – está bem patente no poema da pág. 19:
 
                                   Por uma palavra serei salvo.
                                   Por uma palavra
                                   terei por detrás
                                   toda a arquitectura do mundo.

            Assim é, de facto. E nem vale a pena citar casos históricos e muito haverá da nossa vida pessoal, quotidiana, em que foi uma palavra que nos ergueu!...
            Não creio ser preciso dizer mais para sublinhar quanto este livrinho detém a vocação de ser livro de cabeceira, a reler uma e outra vez, no crepúsculo do adormecer, para, na manhã seguinte, escancararmos a janela, olharmos o movimento apressado da rua e proclamarmos para nós mesmos:
            «Por uma palavra serei salvo».
            Hoje, direi palavras salvíficas!
            Bem hajas, Carlos Carranca, pela eloquente lição!

                                                                                  José d’Encarnação

Nota: É o texto da apresentação do livro, que me foi dada a oportunidade de dizer, a 16 de Novembro de 2017, no palco do Teatro Mirita Casimiro, ao Monte Estoril. O livro foi editado por Talentilicious, Figueira da Foz, 2017.

Instantâneo da apresentação, no Teatro Mirita Casimiro.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

As ceiras da Beselga

Excelente pretexto para uma exposição

             O Dr. Alberto Correia, que se formou em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não quis dedicar-se exclusivamente à sua vocação de docente. Desde muito cedo se tornou fundamentalmente um homem de cultura onde passou a viver, em Viseu, e a Etnografia foi, sem dúvida, um dos campos a que mais se dedicou. Daí que tenha sido também convidado para dirigir museus, para ser o comissário de exposições…
            Nunca descurou, porém, a escrita, que poderia, de certo modo, chamar-se «de pura intervenção cultural». Deliciam-nos as suas crónicas, sempre colhendo inspiração nos costumes das gentes e seu dia-a-dia. Publicadas depois, em livros, de assinalável êxito, permanecem como retratos de um viver prenhe de tradição. Recordo, a título de exemplo, Arcas da Memória (Imagens&Letras, Leiria, 2006), uma selecção dessas «melhores crónicas», 60 ao todo, vindas a lume no Jornal O Centro, de Viseu, e de que tive oportunidade de fazer recensão no Jornal da Beira de 13/09/2007.
            Desta feita, Alberto Correia virou a sua atenção para uma actividade que corria (ou corre) o risco de desaparecer: a arte de fazer ceiras de junça. Ceiras e outros artefactos de uso quotidiano em Beselga, Penedono.
            E para que a tradição não morresse, a ele se juntou o pároco de Santa Cruz da Beselga, com o objectivo de, numa exposição, se mostrar o Memorial da Devoção Ceireira. Cumpre, pois, não apenas incitar a uma visita, mas também importa, desde já, traçar uma panorâmica do que é o excelente Roteiro dessa exposição, magnificamente ilustrado, «a concretização de um sonho que há muitos anos vínhamos acalentando!...», confessa o Padre Carlos Manuel Rodrigues de Carvalho.
            Permita-se-me aqui um parêntesis para dar conta de iniciativa análoga, um livro que tive o privilégio de prefaciar e apresentar, cujo objectivo era precisamente o mesmo, em relação a uma fibra vegetal que, se não é a mesma, é deveras semelhante: o bracejo, stipa gigantea, de seu nome científico. O caso passa-se em Pombal, mais propriamente na chamada Ilha dos Cestos, onde uma cooperativa de mulheres pugna para que a «arte em bracejo» não morra. Chama-se o livro «A Arte em Bracejo na Ilha dos Cestos», é da autoria de Cidália Botas e foi editado, em 2004, pela Câmara Municipal de Pombal. Lá, como aqui, idêntico desejo: que não se perca a tradição!
            Numa escrita fluente e límpida, o Roteiro começa por uma explicação acerca do conceito de «museu»; demora-se sobre as características do território e da sua população; faz a história da «odisseia ceireira» e mostra depois, com a ficha de cada uma das peças da colecção, o que é, no fundo, uma espécie de pequeno, mas valioso, museu de arte sacra, que ora se encontra patente no primeiro piso da Casa da Paz. Aliás, explica o Padre Carlos que era justamente essa uma das ideias que presidiu à compra, pela paróquia, no Adro, da «casa ora designada Casa da Paz». Entre outras serventias, «reservou-se o justo espaço que um dia poderia constituir-se como “núcleo museológico” que preservasse as suas naturais e seculares memórias».
            E, assim, acabam por constituir espólio do museu objectos ligados ao culto, à liturgia e à religiosidade popular, sendo também intenção representar ali «o espaço habitado, a rua, o caminho, o carreiro, a ponte, a água, a fonte e o moinho, os cruzeiros, um nicho, a capela» - que tudo isso, escreve o Padre Carlos Carvalho, lembra «o homem sempre em viagem, viagem que só acaba no abraço de Deus».
            Vêm depois os vários núcleos em que a exposição se desenvolve, objectos que «têm mais um significado de afeição do que estatuto de riqueza». Notáveis, porém, as alfaias litúrgicas antigas: bonitas sacras, um missal de 1867, píxides, um vaso de comunhão de estanho (séculos XVII-XVIII), uma cruz processional do século XVIII, uma imagem de Nossa Senhora da Encarnação de pedra de Ançã (séculos XV-XVI); finalmente, a devoção e festa de Nosso Senhor dos Passos, com a reprodução de várias tábuas de milagres, bem significativas pela sua ingenuidade…
            Enfim, preciosa é a exposição e mui precioso o catálogo que dela dá conta. Edição, deste ano, da Paróquia de Santa Cruz de Beselga, com o patrocínio do Município de Penedono e da Junta de Freguesia de Beselga. Houve, além disso, o cuidado de se editar um desdobrável para acompanhar a exposição.
            Parabéns a todos os que intervieram na edição, saudando-se, de modo especial, o incansável dinamismo do Dr. Alberto Correia.
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Voz de Lamego, 19-12-2017, p. 18.

 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Pilha ou lanterna? – Um apontamento sobre a interculturalidade

            ‒ Olá! Queria uma pilha!
            ‒ Uma pilha ou uma lanterna? – retorquiu a minha vizinha chinesa, que há bastante tempo se encontra em Portugal.
            Claro: dei-lhe os parabéns e agradeci a lição; de facto, eu queria era uma lanterna.
            De regresso a casa, pensei como tinha sido agradável essa correcção, pelo que significava, de facto: a integração plena, ou quase, de alguém que vem do Extremo Oriente e que não hesita em aprofundar os seus conhecimentos linguísticos, para melhor se sentir no ambiente que a recebeu.
            Foi no passado dia 15 de Novembro que o Agrupamento de Escolas a cujo Conselho Geral pertenço fez a cerimónia de distribuição dos prémios para os melhores alunos e dos diplomas de mérito. Comentei, a dado momento, para um dos professores:
            ‒ Que nome estranho!
             É russa, está cá há três anos e é uma das melhores alunas, trabalha imenso!
           E os nomes ‘estranhos’ foram-se sucedendo na sessão, sempre muito aplaudidos pelos companheiros, a denunciar um relacionamento invejável.
            Dois dos meus netos frequentam, este ano, uma escola dos arredores de Londres. Logo na segunda semana, a professora pediu ao Marco que ensinasse aos colegas (na escola há-os de 40 nacionalidades e professores de 17!...) como se dizia em português isto e aquilo, objectos em uso na sala de aula. E ainda não tinha passado um mês de actividades escolares e já se programava o dia internacional, em que cada família preparava um prato típico do seu país e o disponibilizava à comunidade escolar, em total confraternização.
            Fui docente na Universidade Lusófona e tive ocasião de preparar com um colega, a 20-01-2012, o Seminário «Ambiente e Património… Ao Encontro de Culturas». E foi mui agradável de ver estudantes das mais diversas origens partilharem costumes, gastronomia e até o património paisagístico da sua terra. Fez-me lembrar os anos em que estive como coordenador do Programa ERASMUS / SOCRATES, onde a comunhão de culturas e de línguas constituía elo primordial.
            No contacto com o Outro, acabamos por nos enriquecer, no sentir pleno de que a Cultura se faz da amálgama de muitas culturas, cuja identidade, não obstante, se mantém – qual manta de retalhos, onde cada pedacinho de pano, com o seu colorido e o seu desenho, contribui para a real beleza do conjunto!
                                                                                              José d’Encarnação

Publicado na revista Ponto & Vírgula, da Escola Calazans Duarte (Marinha Grande), Dezembro de 2017, p. 19, acessível em http://gic.age-mgpoente.pt/. Integrou a ediçção nº 2785 do Jornal da Marinha Grande, de 14.12.2017. A revista teve como tema fundamental «Construir a Interculturalidade».