quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

De braços abertos!

            Alportel teve nome por ser local de passagem: da serra para o lado do mar, da planície costeira paras os mistérios serranos. Contudo, S. Brás aqui, S. Romão mais além constituíram, desde cedo, convite a reconfortante e salutar pausa na caminhada.
            Tradição a revitalizar? Não tenho dúvidas! E com carácter de urgência!
            Voltaram os tempos de sedutora emigração, demónio que se julgara exorcizado para sempre, com a agravante agora de estarem a ser cativadas, por imperiosa necessidade, as camadas mais jovens, aquelas para quem, afinal, a Universidade do Algarve fora criada, assim como tantas outras estruturas destinadas a favorecer a fixação que se impunha. Com a agravante de a miopia dos governos de Lisboa, na ilusória miragem duma poupança impossível, parecer apostada a fechar repartições, tribunais, centros de saúde…
            Acolher é, pois, tarefa prioritária – para que a nossa identidade se não esboroe e se mantenha bem alto o grito de autonomia lançado há cem anos atrás!
            Concelho instalado – mas não entalado – bem no coração do Algarve, S. Brás de Alportel detém três valores a potenciar: a sua paisagem, as suas gentes, as tradições.
            No que à paisagem diz respeito, sabemos como é preocupação maior da autarquia salvaguardar este ambiente único, de mui variegada vegetação a meigamente envolver o salpicado casario, reabilitando-se, inclusive, caminhos e fontes antigas, a cimentar comunidade….
            Quanto às gentes, regressam cada vez em maior número os que, há 40/50 anos, partiram e sentem saudades do rincão natal, das casas, que pouco a pouco e com adequado apoio autárquico, é tempo de recuperar. E procuram-nos os estrangeiros, na busca de apetecida serenidade, mormente após azáfamas de vidas agitadas – um abraço enorme se sente no ar!
            E as tradições? O Museu do Trajo e as múltiplas associações locais prosseguem, de mãos dadas com a autarquia, essa imprescindível tarefa de reabilitar o que nos distingue, o que nos fez crescer como concelho, o que gera riqueza. Pensa-se nas tochas floridas, nas exposições retrospectivas, nas artes e ofícios ressuscitados… Mas também na necessária ressurreição das nossas terras, em renovada fecundidade da agricultura, mãe de um progresso regenerador!
            Venham os braços – nós cá estamos para os acolher!

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 213, 20-08-2014, p. 21.

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Os velhos mal enterrados

Um artigo muito… estranho!
            O art.º 78º do Estatuto da Aposentação (Decreto-Lei nº 498/72, de 9 de Dezembro) foi alterado pela lei 11/2014. A alteração foi aprovada pela Assembleia da República a 24 de Janeiro; promulgada pelo Sr. Presidente da República, a 21 de Fevereiro; referendada, com assinatura do Sr. Primeiro-ministro, a 25 de Fevereiro; e publicada no Diário da República de 6 de Março.
            Ou seja, a alteração passou por todos os trâmites habituais – Assembleia da República, Presidência da República e Conselho de Ministros. Foi, por conseguinte, analisada com o rigor que caracteriza esses órgãos do poder. E, assim, temos de pensar que, ao ser proposto que se proíba aos aposentados do Estado o exercício de funções públicas, deixando ‘cair’ o que estava determinado no art.º 78º – a incompatibilidade do exercício de funções públicas remuneradas – houve, por parte do proponente (uma pessoa ou um grupo de pessoas), a consciência clara do que estava a fazer: impedir aos aposentados o exercício de funções públicas, independentemente de serem remuneradas ou não, ao serviço do Estado e demais entidades públicas, salvo autorização superior, dada caso a caso!...
            Bagão Félix, no seu comentário televisivo de 16 de Julho, teceu duras considerações a esta alteração: é o “cúmulo de estupidez legislativa”, disse, uma «eutanásia»! O Prof. Jorge Miranda, por seu turno, em artigo publicado a 31 de Julho no jornal Público, afirmava ser esta lei uma «afronta», a revelar clara «inépcia legislativa». E a sua argumentação, lógica e cerrada, vai mesmo no sentido de explicar que a determinação – além de contrária ao senso comum – carece de legitimidade constitucional.

Importa saber quem foi
            Depois de tão ilustres comentadores, nada deveria eu acrescentar, porque… está tudo dito! Permita-se-me, porém, que volte um tudo-nada atrás, para perguntar: quem é que foi a mente iluminada que riscou do decreto-lei a palavra ‘remuneradas’? E que razões aduziu para isso? E não houve, no seio da nossa mui digna Assembleia da República, um deputado coca-bichinhos, nem à direita nem à esquerda, que tivesse esmiuçado essa lei 11/2014, que até nem é tão grande assim (apenas 4 páginas, com espaços!)?
            Se todos leram em diagonal, aqui fica o alerta à navegação: qualquer dia, há um menino rabino que altera a vírgula, ninguém repara e… pode ser o cabo dos trabalhos! Se não leram em diagonal – e vamos pensar que sim, que temos grupos parlamentares conscienciosos e que sabem bem o que estão a fazer –, a intenção é mesmo a de mandar às urtigas aqueles aposentados da função pública que ainda se consideravam em condições de transmitirem aos demais algo da experiência adquirida. E mandar às urtigas em nome de quê? Do lugar que esses velhos ocupam, ainda que nada custe ao erário, e que, retirando-se eles, pode vir a ser ocupado por outrem – e assim se cria mais emprego?

O conluio contra a velhada
            Não acredito que os senhores deputados e o senhor presidente e o senhor primeiro-ministro desconheçam o papel fundamental que os velhos continuam a ter nas famílias e na sociedade. Acredito que sabem muito bem que vivem dos aposentados as universidades seniores e as instituições de solidariedade, por exemplo.
            Acredito igualmente que alguém da sua caterva de assessores lhes haja, algum dia, feito chegar às mãos os comentários que enxameiam os jornais a invectivar o modo como, fiéis a um paradigma suicida, os ‘governos’ europeus maltratam os velhos.
            1 «Com a reforma (…) cessa a vida profissional, mas não acaba uma competência desenvolvida ao longo da vida. [O reformado] deverá ter oportunidade de servir a comunidade, de fazer voluntariado, onde puder e quiser.» (Público, 4-11-2012: «Idosos, ética e reforma», de Frei Bento Domingues, da Ordem dos Pregadores parece-me, todavia, que está a pregar num deserto!…).
            2 – «Portugal não é país para velhos. Os políticos devem pensar que os nossos velhos já estão mortos e que, no fim de contas, estamos todos mal enterrados...» (Joaquim Letria, 12.11.2012).
            3 «Velhos são velhos. Desossem-se. Já estão descarnados. Em 2014, de corte em corte […] [o governo] organizará e subsidiará, com o Orçamento do Estado, o seu funeral colectivo». (Alberto Pinto Nogueira, «A broa dos velhos», Público, 4-9-2013).
            4 «Na verdade, quando se assiste a este ataque à condição de se ser mais velho […], será que não seria possível ir um pouco mais longe e “ajustá-los”, ou seja, exterminá-los?» (José Pacheco Pereira, 21-3-2014).
            Pronto, já meti de novo a viola no saco – que esta letra e esta música, afinal, são conhecidas de mais!...
 
Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 57, 13-08-2014, p. 6.

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Milhares de páginas inéditas de um escritor neo-realista perseguido no Estado Novo entregues à Faculdade de Letras de Coimbra

            O espólio do escritor Joaquim Ferrer vai ser entregue à Faculdade de Letras – Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, da Universidade de Coimbra. O acto de entrega está previsto para o próximo dia 7, quinta-feira, pelas 14h30, na Sala dos Conselhos daquela Faculdade. Na circunstância, usará da palavra o Doutor Carlos Reis, que apresentará Joaquim Ferrer e a sua obra.
A notícia, dada desta forma, até pode passar despercebida, que é como quem diz: «Mais um que não sabe onde pôr os livros!». Contudo, uma leitura mais atenta poderá, afinal, provocar outra reacção, mormente se atentarmos que estamos perante um escritor praticamente desconhecido do actual grande público, mas que se insere na mais lídima corrente do neo-realismo português, tendo sido, por isso, perseguido pela censura de Salazar.
Nasceu Joaquim Falcão Marques Ferrer (de seu nome completo) em Miranda do Corvo, a 29 de Junho de 1914; faleceu em Lisboa, a 18 de Setembro de 1994. Fez os primeiros estudos em Miranda do Corvo, os estudos secundários em Coimbra e Lisboa, e formou-se em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Ligado sempre ao movimento literário e artístico em Coimbra, Lisboa e, posteriormente, também em Paris, São Paulo e Rio de Janeiro, residiu na Suíça durante dois anos na sua juventude, e publicou, em 1941, o seu primeiro romance, Rampagodos, com capa de António Augusto de Oliveira, onde relata a infância no Portugal rural da época. O livro foi apreendido pela censura, o que muito reduziu a sua circulação; aliás, figura actualmente no rol dos livros raros e proibidos. Publicou, em 1945, com capa de Victor Palla (um conceituado nome na ilustração gráfica), outro romance, Ilha Doida, que retrata a vida num colégio interno e sobre o qual Eduardo Lourenço viria a escrever: «É uma mistura de queirozianismo e de realismo concreto, cru e chão dos nossos neo-realistas».
A situação não era, porém, a mais adequada aos seus propósitos e ideais, pelo que, no ano seguinte (1946) decide mudar-se para França, onde desempenhou funções no consulado português em Paris, até ser dispensado em 1949, por razões políticas.
Como pintor amador, apresentou a primeira exposição de arte abstracta em Portugal na galeria do Diário de Coimbra em 1950, exposição que causou escândalo na época.
Em 1951, partiu para o Brasil em digressão com o TEUC. Não tendo regressado com a Companhia, instalou-se em São Paulo como jornalista do Estado de São Paulo, e dirigiu a revista Atlante, de promoção da cultura luso-brasileira, onde defendeu a criação de uma comunidade de estados de língua portuguesa.
Continuando a escrever e a pintar, mudou-se em 1959 para o Rio de Janeiro, onde permaneceu, até regressar definitivamente a Portugal após o 25 de Abril.
Como alguém sublinhou, ao saudar a publicação, de A Morte Segundo Estácio de Saa (Livros de Portugal, Rio de Janeiro, 1968), «vindo de longo interregno, Joaquim Ferrer regressa à literatura com uma obra lírica», que Vitorino Nemésio não hesitou em qualificar de «raro e belo testemunho do espírito urbano de hoje». Seguir-se-ão, também em poesia, Objectos Recuperados (Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1969) e Ornitorrincos (Lisboa, 1970), este último de capa assaz curiosa pelo grafismo espalhado do título, como quem pretende debicar aqui e além…
A Revolução de Abril permitiu-lhe, enfim, respirar fundo; mas não voltou a tentar publicar o que, em prosa e poesia, foi escrevendo ao longo de décadas. Permitiu-lhe, também, ser reintegrado, de modo que o vemos em Lisboa, a trabalhar, a partir de 1976, na Secretaria de Estado da Cultura, no Gabinete de Relações Culturais Externas e no Instituto Português do Livro até 1984, ano em que se aposentou por limite de idade.
Continuou, porém, a escrever; e, por isso, é um vasto espólio de inéditos, dactilografados, em diferentes estados de acabamento que ora vai ser entregue à FLUC pela família: milhares de páginas (‘mais de três metros de estante’, confidenciou-me a Doutora Rita Marnoto, que gentilmente me facultou alguns dos elementos de que me estou a servir) de poesia, um romance, algumas centenas de contos e outras narrativas breves com tópicos da vida rural portuguesa, da vida urbana no Brasil, entre outros temas variados, pensamentos, além de cadernos manuscritos e diversos documentos biográficos do autor.
Não resisto a anexar a esta nota a página dactilografada em que Joaquim Ferrer traça, em pinceladas breves, o que foi a sua vida. No fundo, aquilo que ele gostava que ficássemos a saber dele. Ficamos, no entanto, a saber muito mais, porque – por detrás do que está explícito – há um mundo implícito por desvendar. E estou certo que, nesta descoberta, muitos estudos passarão doravante a ser feitos, a partir dos escritos que nos legou.

Divulgado através da histport, a 31-01-2013: http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/histport/msg06045.html
Publicado em Cyberjornal, 16-02-2013:
Transcrito nas p. 78 a 81 da dissertação de Mestrado apresentada por Luína Hilda Lima Alves David Soares ao Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 2014, intitulada O Arquivo Pessoal de Joaquim Falcão Marques Ferrer: Da Análise Bibliográfica à Organização da Informação. (acessível em http://hdl.handle.net/10316/26556).

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

Evocação de António Feio

             A fase terminal da vida de António Feio constituiu, a todos os títulos, uma lição; e a Família Feio, designadamente seu irmão mais velho, o Carlos, tem-se desdobrado em iniciativas que visam manter bem alta essa memória e esse exemplo.
            Aproveitem a Vida (1ª edição, Agosto de 2010) é livro de leitura obrigatória. Uma biografia, uma autobiografia sentida e partilhada, um depoimento vivo sobre o que é esta nossa passagem pelo mundo:
            «Ganhei a noção de que se perde muito tempo a não fazer nada. […] Acabamos por viver a vida de um modo muito pequenino, nos nossos cantinhos, cada um dentro do seu, acabando por perder contactos, experiências, convívio, especialmente por, às vezes, não estarmos mais abertos aos outros» (p. 47).
            «Têm de acreditar nos seus sonhos e têm de se mexer. Não podem ficar à espera que as coisas aconteçam» (p. 67).
            O António teve a convicção, a partir de determinado momento, de que a sua «atitude positiva» acabara «por funcionar de um modo inspirador»; como que herdara «uma espécie de responsabilidade social» de «embaixador contra o cancro» (p. 77).
            E essa mensagem a realçou muito bem o Dr. Nuno Gil, no posfácio que também se inseriu no livro (p. 189-195). Eu achei comovente e pleno de sentido este posfácio, de um médico que passa a vida a cuidar de cancerosos: «Há muito mais vida para além de um tumor, muito mais, e é isso que procuro ensinar-lhes», escreveu (p. 193), depois de haver recordado a frase do António “Aproveitem o dia-a-dia, tenham consciência do presente e agradeçam” e sublinhado: «Ninguém agradece hoje. E ele disse isso» (p. 190).
            Há, pois, que agradecer a Carlos Feio por nos ajudar a manter viva uma chama, a nunca desistirmos do sonho acalentado.
            Por isso, na próxima sexta-feira, 8, no Bistrô 19, que fica em pleno centro histórico da vila de Cascais, mesmo por detrás dos Paços do Concelho, haverá mais um sarau evocativo: poesia, música, imagem, a celebrar a vida de António Feio, a ouvir a poesia do Carlos. Estarão presentes José Proença de Carvalho, Jorge Castro e Hugo Sampaio – nas palavras e na música. A partir das 21.30 horas.
            Todos serão bem-vindos!

Publicado em Cyberjornal, edição de 04-08-2014:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=734:evocacao-de-antonio-feio&catid=37:varios-cultura&Itemid=30

Está manhoso

            ‒ Hum! O tempo, hoje, está manhoso, a ameaçar chuva da grossa. Se calhar, ele não vem!
            ‒ Nam acredito! Disse que vinha de tèmêdia e vem, que o miúdo é uma cegueira pelo avô e não descansa.
            ‒ Mas já viste? Numa jingajoga daquelas, caminhos maus, é capaz de desistir!
            Gostei de as ouvir.
            Primeiro, porque ‘manhoso’ é mesmo a palavra certa para dizer que ‘tem manha’, não se pode confiar nele! Aliás, em tempo de crise, é, se calhar, palavra bem ajustada, porque tudo agora está manhoso, não se pode confiar, que não há brio profissional como dantes! Nem no tempo!...
            Depois, aquele «tèmêdia» encheu-me as medidas. Forma sincopada de dizer «até ao meio-dia», expressão longa de mais para uma conversa rápida.
            Finalmente, jingajoga, que nem sei se a hei-de escrever como já vi por aí, jigajoga, com esse significado de engenhoca; se com g, a aparentá-la com o verbo gingar, porque, aplicada a um carro, uma pessoa pensa logo que aquilo baloiça tudo, tem-te não caias.
            Ah! E a cegueira pelo avô? Como quem está cego para tudo o mais!...
            Não sei como acabou a história. Se o filhote, que prometera trazer o garoto, sempre veio de tèmêdia; se a jingajoga (que comprara praí em 4ª mão!...) sempre aguentou o caminho; se o tempo desanuviou e o vento levou as nuvens cinzentas para o lado do mar. Tudo deve ter acabado em bem, acredito!

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 187-188, Agosto/Setembro de 2014, p. 10.

 

domingo, 3 de Agosto de 2014

Ao rubro, a polémica sobre a avaliação da actividade científica

A situação
            A investigação científica, nomeadamente a ligada às universidades, faz-se em centros financeiramente dependentes da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
            São esses centros avaliados por comissões de peritos – nacionais e estrangeiros – e é essa avaliação que determina o montante do financiamento a atribuir.
            Na avaliação entram em linha de conta os projectos em curso e os propostos, ajuizando-se do seu interesse para o progresso da Ciência. A craveira dos investigadores é avaliada, de modo especial, pela repercussão que os seus escritos detêm a nível nacional e internacional. Para isso, criaram-se modelos importados do estrangeiro, que, por exemplo, só determinam validade aos escritos em língua inglesa e em publicações que tenham avaliadores a quem são previamente submetidos os trabalhos candidatos à publicação.

A minha opinião
            Adianto a minha opinião, antes de me fazer eco da polémica em curso.
            1º) Existe a língua portuguesa há 800 anos e é – dizem – uma das cinco mais faladas no mundo. Para a FCT isso não interessa nada e, em vez de privilegiar a nossa língua (que, diga-se, no menu do computador, só tem duas variantes, enquanto o Inglês tem… 18!...), dá-se absoluta prioridade ao inglês! Não se me afigura politica correcta. Estou contra.
            2º) Apressaram-se as revistas a criar um corpo credenciado de avaliadores, porque é essa uma condição sine qua non para serem tidas em consideração. Acho bem. Contudo, direi que até nem me estou a sentir mal como responsável de uma revista da minha especialidade, na área das Ciências Humanas, onde publico os textos que previamente analiso (e, se tenho dúvidas, consulto os meus colegas) e que se me afiguram de interesse, ainda que não esgotem o assunto, mas lançam pistas para serem discutidas – porque, reitero amiúde, o mais importante não é resolver os problemas, mas saber colocá-los. Só depois de um longo processo de creditação, uma revista consegue entrar no rol das revistas dignas de universal aceitação. A ‘minha’, digo-o desde já, foi considerada lixo, ainda que os artigos nela publicados sejam citados centenas de vezes, em Portugal e no estrangeiro! No quadro de avaliação da FCT… não existe!

A polémica
            Conhecidos os resultados da avaliação dos centros, rebentou a polémica um pouco por toda a parte, atendendo ao descontentamento generalizado, a que a direcção da FCT reagiu.
            Escreveu o Sindicato Nacional do Ensino Superior, em comunicado do passado dia 29:
            «Tal como anunciámos, foi hoje entregue no MEC o pedido de suspensão do processo de avaliação das Unidades de I&D, de forma a que possa ser desenvolvida uma reavaliação das Unidades. Este pedido foi entregue por uma delegação composta por diretores de unidades de investigação, docentes e investigadores.
            O pedido de suspensão foi também solicitado e entregue pelo SNESup, SPGL-FENPROF, SPN-FENPROF, SPRA-FENPROF, ABIC e Plataforma pela Ciência.
            A forma como todo este processo foi desenvolvido obriga a uma tomada de posição em defesa da ciência. […]
            A indignação da comunidade académica e científica, bem como da sociedade em geral, demonstra que este é um processo extremamente grave. É necessário que seja completamente reapreciado, de forma a garantir o cumprimento dos princípios elementares, sob pena de denegrir o próprio conceito de avaliação.»
            Respondeu a direcção da FCT, refutando as acusações feitas, nomeadamente as que se prendiam com a inexistência de avaliadores directamente ligados às áreas de investigação dos centros; e com a suspeita de que a baixa avaliação constituía forma de eveotar financiamentos. Recorto alguns desses pontos do «Esclarecimento da direção da fct sobre o exercício de avaliação das unidades de investigação» enviado, por correio electrónico, a 30 de Julho, a todos os investigadores inscritos.
            Depois de sublinhar que «os resultados de qualquer avaliação científica produzem desapontamento junto daqueles cuja classificação ficou aquém das suas expectativas», afirma a direcção:
            «Não podemos aceitar que subsistam dúvidas ou equívocos relativamente à robustez, rigor e isenção do processo de avaliação, que foi cuidadosamente desenhado e implementado, de forma profissional e no cumprimento das melhores práticas internacionais.» [o itálico é original].
            E mais adiante:
            «Não é verdade que as unidades não tenham sido avaliadas por especialistas na sua área científica. Cada unidade foi avaliada inicialmente por três avaliadores independentes, dos quais no mínimo dois são especialistas na área de investigação da unidade. Numa fase seguinte, e depois de ouvidas as unidades, cada candidatura foi avaliada por um painel coletivo no domínio científico da unidade composto por cientistas com experiência de gestão e de avaliação de Unidades. O resultado final da avaliação corresponde a uma decisão colegial e tomada por consenso.» [o realce a negro é do original]
            Logo no dia seguinte, no seu boletim informativo, o SNESup prometia responder ao comunicado da FCT, ironizando, desde logo, pelo facto de «um ministério da educação e ciência liderado por um matemático (eleito com um discurso sobre o rigor)» escrever que «66% corresponde a 7 em cada dez investigadores»: «Obviamente que os 4 investigadores em cada 100 que saem deste arredondamento (70-66) importam, até porque na realidade ela não se situa na ordem das centenas, mas sim na dos milhares».
            A polémica está, pois, para durar.

Voltando à ‘vaca fria’
            Um dos centros passou de ‘excelente’ para ‘suficiente’. E quando se viu em que documentos a comissão de avaliadores se baseara, verificou-se, por exemplo, que um dos catedráticos com maior renome na sua área em Portugal, altamente considerado no estrangeiro entre os seus pares, que publicara – em português! – uma série de livros e de artigos nos últimos anos, constava na lista com apenas uma publicação! E até publicara em revistas com os chamados avaliadores (referees, para se usar o estrangeirismo corrente!). Assim, pudera! Tinha que ir para ‘suficiente’ a sua unidade de investigação. Ora, entre os membros da comissão de avaliação estavam pessoas que conheciam muito bem o trabalho desse e doutros investigadores; mas certamente nada puderam fazer porque… regras são regras e esses livros e esses artigos só poderiam ser considerados se devidamente inscritos numa qualquer plataforma científica recentemente inventada por um grupo de luminares. Tens o teu trabalho lá inscrito? Serve! Não tens? – Azar o teu!
            Sucede, porém, que esse investigador, tal como eu, é da área das Ciências Humanas, também já está jubilado, mas ainda se sente com vontade de dar a conhecer o que investigou ao longo de décadas e nada se preocupa com currículo, porque já dele não carece (continuarão a cortar-lhe na mesma a pensão!...). E escreve em português!
            Não entro num outro campo deveras resvaladiço que é o dos avaliadores. Há-os deveras conscientes, mas – ainda que mal pergunte!... – não se está a correr o risco de criar conluios? É que já tenho exemplos de investigadores que não conseguem publicar em determinadas revistas, por terem opiniões não inteiramente coincidentes com as das respectivas direcções e, também, porque (sabes…) não interessa que fulano publique, porque, no concurso X, ele pode vir a fazer-me sombra!...
            Protestar? Para quê? Quando há antolhos que determinam que só numa direcção se enxergue, não há protesto que valha!
            O importante é que se lhes tirem os antolhos!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 03-08-2014:

sábado, 2 de Agosto de 2014

Faleceu Isolina Alves Santos - uma poeta popular

             Confortada com os sacramentos da Santa Madre Igreja, adormeceu no Senhor, no passado dia 28, Isolina Alves Santos, com 93 anos de idade (Pedrógão Grande, 28 de Junho de 1921).
            Anunciado desta já inusitada forma, o falecimento pode causar admiração; corresponde, porém, a uma bem reconfortante realidade, pois retrata o que foi a existência desta «pastora virgem de letras», que «compôs poesia desde sempre, por um imperativo iniludível de expressão interior», como escreveu o Prof. Ernesto Guerra da Cal.
            De enorme simplicidade e de intensa fé, Isolina Alves Santos escreveu, aos 87 anos, o poema “Sem valor”, para ser lido no dia do seu funeral, em que se despede de todos com gratidão, proclamando a sua fé em Deus e Nossa Senhora, pedindo que por ela não chorem, porque, para ela, a caminhada fora cumprida.
            O poema foi lido no começo das exéquias, celebradas pelo Padre David Bernardo, Director dos Salesianos de Manique, na igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, em Bicesse (localidade onde Isolina viveu e onde uma rua com o seu nome a perpetua desde há alguns anos já), e antes de seu corpo descer à terra, na quarta-feira, dia 30, no cemitério de Trajouce. Aliás, teve o Padre David palavras de muito apreço pelo enorme e sentido exemplo que a defunta nos deixa, consubstanciado nos muitos versos dos seus livros.
            Coube à Associação Cultural de Cascais, em estreita colaboração com a Junta de Freguesia de Alcabideche, a publicação de quatro livros de versos de Isolina Alves Santos, seleccionados a partir das larguíssimas centenas que tinha nas gavetas, porque tudo podia servir de pretexto para escrever, pois, como salientou Guerra da Cal no depoimento que tivemos ensejo de publicar na 2ª edição (1996) do seu primeiro livro, Semeei Rosas ao Vento: «Muito antes de que nos palácios dos grandes senhores e nas cortes dos grandes monarcas se trovasse, já o povo improvisava as suas canções, danças e recitativos», e Isolina era representante «desses ‘poetas naturais’, que outrora supriram as necessidades líricas de todas as populações rurais; que deles também dependiam funcionalmente, para as letras de cantigas e bailados, baptizados, casamentos, aniversários e festas patronais».
            A Semeei Rosas ao Vento (1991) seguiram-se: Percorri A Minha Terra (1993), uma viagem poética de Norte a Sul do País; Mão Cheia de Tempo (1994), um elogio ao viver quotidiano; Alcabideche no Sabor dos Versos Meus (2003), eloquente reflexão sobre esta freguesia e as suas gentes.
            A enorme estatura moral de Isolina, que estudos não tivera, pode ilustrar-se na quadra donde me pareceu relevante colher o título para esse seu primeiro livro:
          
            Semeei rosas ao vento
            Só os espinhos colhi
            De que vale o meu lamento?
            Rosas não são para mim!
 
            Claro que teve um braçado de rosas no dia do lançamento do livro e teve-as também, singelas mas bem perfumadas, no dia do seu funeral. Toda uma despretensiosa dádiva de vida aqui mui singelamente consignada!
            E o outro gesto que muito me sensibilizou: vendo na televisão o massacre de Santa Cruz (Timor), ouviu as preces em fundo; correu para a mesa onde tinha o caderno de apontamentos e redigiu dois poemas sobre os direitos humanos e um deles termina assim (e é um dos que incluí na sua viagem por terras de Portugal):
           
                           Estão tão longe de nós
                           Ou estão perto outra vez
                           Porque a sua triste voz
                           Ainda reza em português.
 
            Que descanse em paz!
           À família enlutada, nomeadamente ao filho Carlos e sua mulher, bem como aos netos, apresentamos os mais sentidos pêsames.

Publicado em Cyberjornal, edição de 02-08-2014: