quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A tempestade somos nós!

            Ainda que já tenham acabado as representações – que perduraram pelo mês de Julho, no Teatro Municipal Mirita Casimiro – acho que merece ainda uma referência a peça «A Tempestade», de Shakespeare, encenada por Carlos Avilez, na intenção de servir como Prova de Aptidão Profissional dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais.
            Anabela Gonçalves teve a gentileza de nos enviar a versão integral do texto, em tradução de Fátima Vieira, a ficha técnica do espectáculo e uma sinopse.
            Li o texto e pensei de mim para comigo: como é que Carlos Avilez irá pôr em cena algo tão arrevesado, tão longe de nós, tão complicado?
            Conta a sinopse:
Próspero e Ariel, em conluio...
            «Uma ilha é habitada por Próspero, duque de Milão, mago de amplos poderes, e sua filha Miranda, que para lá foram levados à força, num acto de traição política. Próspero tem a seu serviço Caliban, um escravo em terra, homem adulto e disforme, e Ariel, o espírito servil e assexuado que pode metamorfosear-se em ar, água ou fogo. Os poderes eruditos e mágicos de Próspero e Ariel combinam-se e, depois de criar um naufrágio, Próspero coloca na ilha seus desafectos (no intuito de os levar à insanidade mental) e um príncipe, noivo em potencial para a filha».
            Acrescenta-se que «o amor acontece entre os dois jovens», «a vingança de Próspero é bem sucedida», «Caliban modifica-se quando conhece os poderes inebriantes do vinho». Enfim, «uma história de dor e reconciliação».

Minimalismo e pedagogia
            E assim foi posto à prova o engenho do encenador e dos seus mais directos colaboradores – Fernando Alvarez (cenografia e figurinos), Rui Rebelo (música original), a coreógrafa Olga Roriz e Miguel Graça (dramaturgia).
            Como se simula uma ilha? Como vai representar-se Ariel? Como será a tempestade e o naufrágio? E é na resposta a perguntas deste género, mormente tendo em conta que se trata de pôr em cena actores consagrados ao lado de finalistas de uma Escola de Teatro que estão a prestar provas, é aqui que se manifesta, de facto, toda a longa experiência acumulada.
            A opção foi minimalista: mais sugerir – pelo gesto, pelo som, pelas luzes, pela coreografia… – do que efectivamente mostrar no concreto, pois o espectador deve entrar no jogo da imaginação e deixar-se inebriar pelo entrecho. Por isso, o cenário é mínimo e o guarda-roupa sem preocupações de rigor histórico, uma tentação em que se poderia cair, atendendo a que o enredo – escrito na primeira década do século XVII – retrata lutas e intrigas entre nobres mercadores da Itália do século XVI, dividida então em prósperas repúblicas rivais.
            Assim, esquecem-se os séculos e até somos capazes de transpor essas rivalidades e tramóias, numa escala ainda maior, para estes primórdios do belicoso século XXI. O minimalismo serve às mil maravilhas!
            E a pedagogia. Confidenciava-me José Raposo, o protagonista, que estava a ser para ele experiência ímpar contracenar com jovens que estavam a dar tudo para se embrenharem nos diversos papéis a desempenhar. Situações criadas para que os alunos a elas se adaptassem, «dançando» quer ao fragor da ondulação quer ao sabor de mui suave melodia…
Cena da tempestade, um teste à capacidade de expressão corporal
Dualidade: a tempestade somos nós!
            Escreve-se no texto que nos foi remetido que estamos perante «uma história de vingança e amor», «de conspirações oportunistas», que contrapõe os instintos animais do homem às suas mais altas aspirações, como «o desejo de liberdade e a lealdade grata e servil».
            Assim é; contudo, Ariel é como o génio da lâmpada de Aladino, como a Sininho do Peter Pan… O homem nas suas duas dimensões: a concreta e a «outra», a do desejo, que, ao ser fortemente vivido, acaba por se concretizar – ou nós gostaríamos que no dia-a-dia se concretizasse. O não-poder e o «outro» poder, o da mente, capaz de superar todos os obstáculos ou de os criar; capaz, enfim, de obter reconciliações tidas como impossíveis. Uma dualidade – o real e o imaginado – que tão bem se tem retratado na Literatura (recordo o realismo mágico de «O Dia dos Prodígios», de Lídia Jorge, e que não deixa de estar presente também em alguns dos contos de «Cal», de José Luís Peixoto, só para citar dois exemplos).
            Um retrato que, reflexão feita, se revela bem real.
 
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 153, 31-08-2016, p. 6.
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A cidade romana de Tongobriga em exposição permanente

            Vale a pena visitar a exposição permanente que visa complementar uma visita às ruínas da cidade romana de Tongobriga (Freixo, Marco de Canaveses).
            Dir-se-á, para já, que o catálogo, coordenado pelo actual responsável pelo sítio, Dr. António Manuel Lima, merece demorada leitura e constitui, aliás, um deleite para os olhos também.
            Sob o mote Mudar de Vida, escalonam-se os capítulos em que se retratam as fases da vida humana: nascer (o princípio da vida), sobreviver (assegurar a vida), viver (organizar a vida), desfrutar (exaltar a vida), orar (pensar a vida), morrer (para além da vida)… António Manuel S. P. Silva assina o capítulo que foca a transição - «do galaico ao romano» - e os capítulos seguintes, a introduzir cada conjunto exposto, são da responsabilidade de António Manuel Lima, Virgílio Hipólito Correia, Rui Morais, Maria Pilar Reis, José d’Encarnação e Filipa Cortesão Silva, respectivamente.
            Mui excelente apresentação gráfica, nomeadamente as ilustrações, de rara beleza. Logo na capa, um medalhão monetário – um aureus do imperador Galieno; depois, fíbulas anulares de bronze, decoradas; a pedra de anel de Valéria, que serviu de sinete também; outra pedra de anel, de cornalina, ostentando Apolo com sua cítara… Enfim, um regalo!
            160 páginas em bom papel couché. Concepção e design editorial de Rui Mendonça, com a colaboração de Noémia Guarda. Edição da Direcção Regional de Cultura do Norte, apoiada nomeadamente pela Câmara Municipal de Marco de Canaveses. ISBN: 978-989-20-6864-0.
            Transcreva-se, pelo seu significado como «guião» que presidiu à elaboração deste roteiro, o texto da pág. 5:
            «Para uns, o romano seria uma fonte de admiração. Transformar-se num deles seria uma legítima aspiração pessoal. Para outros, uma inaceitável negação da sua identidade. Para outros ainda, apenas uma estranha forma de vida. Para todos, em duas ou três gerações, seria uma realidade. E, menos de um século, todas as resistências e inércias seriam vencidas, E, do nascimento à morte, todas as etapas da vida estariam impregnadas de romanidade».
            Um entrecruzar de culturas que, hoje, mercê do instantâneo contacto que a todo o momento temos a nível global, muito melhor logramos compreender do que o indígena peninsular postado perante novas ideologias, novos trajares, novas formas de encarar a existência.
 
                                                                               José d’Encarnação
 
                   Fotos retiradas, com a devida vénia, do catálogo em apreço.
Pedra de anel: Apolo com sua cítara
A pedra de anel de Valeria



              
           

A inscrição da pedra de anel, após impressão

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Miradouros dos três sentidos!

             Franziram o sobrolho os meus estudantes de Política Cultural Autárquica, quando, pela primeira vez, há largos anos, lhes falei dos miradouros, no quadro da valorização do património paisagístico. Claro, a palavra não lhes era estranha, até porque já tinham estado em alguns; mas não haviam consciencializado a sério o significado que o miradouro deve ter.
            A palavra formou-se a partir do verbo mirar, que, por sua vez, vem do latim mirari, que significa admirar-se, ficar assombrado, surpreendido. Por conseguinte, essa a função do miradouro: surpreender.
            Diria que, no miradouro, há três sentidos que devem estar bem alerta: a visão – para se apreciar o panorama; o ouvido – para nos apercebermos dos sons naturais que nos envolvem (é crime de leso património ir a um miradouro de auscultadores nos ouvidos!...); e o olfacto – para sorvermos a longos haustos o que ali é natural.
            Cientes da relevância que os miradouros detêm, as autarquias começaram a dar, nos últimos anos, maior atenção a esses sedutores pontos-chave oferecidos pela paisagem. Guardei, por exemplo, o convite que o Presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel me endereçou para participar na cerimónia de inauguração do Miradouro da Cabeça de Velho, no começo da tarde de 24 de Março de 2007. Também nesse aspecto, a nossa autarquia tem sido precursora.
            O miradouro será, pois, naturalmente, o transmissor de um sentimento positivo, de bem-estar, de descoberta, de comunhão com a Natureza. A deixarmo-nos embeber de tudo aquilo que de bom derredor nos pode ser transmitido. Fotografar? – Sim, mas selectivamente e só depois dos tais longos momentos de saboreio, para não nos acontecer como aquele oriental a quem perguntaram se tinha gostado da viagem e ele respondeu:
            – Ainda não sei bem, porque ainda não vi as fotografias todas!...                       

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Noticias de S. Braz [S. Brás de Alportel] nº 237, 20-08-2016, p. 11.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Peripécias de um cidadão na vila de Cascais

             8 de Agosto. Segurança Social. Sou o nº 101. Capicua. Vou ter sorte, apesar de o quadro dizer que é o 10 que está a ser atendido.
            Olho para a sala. Não estão mais do que 25 cidadãos, embrenhados nos seus pensamentos. Poucos a acariciar o telemóvel (iphone ou ipad ou tablet, esses instrumentos de evasão). Estrangeiros a maior parte, a carecerem de regularizar situações, ou pessoas de meia-idade. Muitos se atrevem a interrogar o segurança. A pergunta, sempre a mesma:
            ‒ Eu sou o nº tal… Quanto tempo acha…».
            A frase não se completa nunca, porque o segurança, mui simpaticamente, atalha, invariável:
            ‒ Lamento, mas não posso dar uma previsão.
            A mim acrescentou:
            ‒ Um dia, vi 50 números voarem em menos de um quarto de hora. E, nesse dia, muita gente ficou prejudicada e alguns quiseram culpar-me a mim, porque lhes dera uma previsão…

Serenidade
            Olho novamente derredor. A maior parte dos rostos, serenos, dobrados sob um destino que os obrigou, nesse dia, a essa longuíssima espera, porque o Estado – ou lá quem é – tal determinou. O peso do destino. Há quem aproveite para desabafar pelo telemóvel. Já nem se olha para o quadro que a espaços apita, porque se sabe «a minha vez ainda vem longe!».
            Aguarda-se, porém, um milagre. Se vários tiverem desistido ou perderem a vez… Poucos pegaram num livro, decerto por não terem pensado que iriam passar ali tanto tempo, digo eu.
            Cheguei às 10.01 h. Estacionei a viatura num parque pago. Hoje, a Cascais Próxima vai enriquecer mais um pouco à minha custa. Foste palerma, Zé! Quem te manda a ti pertenceres à classe dos que usam viatura para se deslocarem?
            O senhor de calças cinzentas começa a inquietar-se. Deixa cair a cabeça, num desalento; já não sabe onde pôr a pasta do computador: se no banco vermelho ao lado ou sobre as pernas cruzadas.
            Telefonam-me do hospital: a minha consulta pode ser antecipada para amanhã. Nem tudo são más notícias. A do parque pago é sempre má, mas paciência! Pode ser que, um dia, a gente consiga fazer com que as sanguessugas nos suguem o sangue docemente, como nos tempos medievais, quando se aplicavam no corpo doente para só chuparem os humores malignos…
            Estou aqui há uma hora e o meu grupo já vai no 25. Não pode dizer-se que seja um mau ritmo para 2ª feira de tórrido Agosto. Aliás, mais agradável é estar aqui do que na praia. O ar condicionado a uma temperatura aceitável, ambiente calmo… Já Pinheiro de Azevedo garantia no Verão quente de 1975: «O Povo é sereno!». É, pois.
            ‒ Olhe que a hora do carro está a acabar, veja lá! – era a filha a avisar a mãe, que, confiante na sorte, encolheu os ombros.
            Deve ter o carro na rua. Eu, por via disso, pus no Cascais Center (nome chique, não é?). Cá fora, basta passarem uns minutos da hora-limite para, por artes mágicas, aparecer logo um vermelho a passar o papelinho fatídico! Mais 30 euros pró cofre!... Por isso, dentro do Cascais Center (nome giro, não é?) é que é bom! A não ser, como aconteceu comigo, que, dado que a máquina não recebe notas de 10 euros e a Cascais Próxima não dispõe de verba para pagar a um funcionário permanente, se tenha de ir esmifrar as senhoras da pastelaria ao lado e ser forçado a beber um café e as senhoras a queixarem-se «levou-me os trocos todos!». Tive pena. Mas é o que temos – que havemos de fazer?

                                                                               José d’Encarnação

P. S.: Fui atendido passava das 16 horas. Deu-me tempo para ler, inteirinho, o livro Verbetes para um Dicionário Afetivo, que vivamente recomendo.

Publicado em Costa do Sol Jornal, nº 151, 17-08-2016, p. 6.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A singularidade da «Egoísta»

            Não causa admiração que a revista Egoísta acumule prémios sobre prémios.
            Primeiro, porque usa o papel – e que papel! Aquele papel de gramagem alta, que a gente sente bem nas mãos, na volúpia de lhe passar os dedos por cima, no momento em que os ditos ‘luminares’ da civilização decadente optam pelo digital, pela nuvem, pelo etéreo... Aqui, não: estamos com os pés bem agarrados à terra, os braços a sentir o doce peso das páginas!...
            E, depois, cada volume é uma surpresa mesmo nesse aspecto sensorial. Escrevia, atrás, sobre a volúpia: e quem vai resistir à volúpia de passar as mãos três quatro vezes pela capa deste nº 58, de Junho, dedicado à «Mulher Lisboa»? As plumas são negras, está bem, mas o resto e as mãos respiram suavidade e não é um grito que ali está mas a vontade de tudo agarrar!...
            O papel permite o recorte, a isolar o pormenor, a chamar a atenção.
            Eu creio que já está na altura de a Egoísta merecer dissertação de mestrado numa escola de Comunicação Social. Tese de doutoramento não ousaria propor, porque temo não haver garras suficientes para sorver até ao tutano as mensagens que, revista a revista, ali nos são servidas pela pena de mui ilustres escritores, sempre precedidas pela apropriada reflexão do senhor director (Senhor, sim!), Mário Assis Ferreira!
            Não é possível esgotar numa crónica, por maior que seja, o que uma revista como este nº 58 nos desperta. Aliás, eu acho que, ao contrário do que se poderia pensar, a revista não é para se ler de afogadilho como quem desfolha as revistas da «sociedade» e das coscuvilhices da «Alta». Não. Hoje, lê-se um texto; logo, um outro; amanhã, vai-se mais adiante. Porque cada imagem foi propositadamente escolhida e é um mundo; cada texto tem um objectivo e há que apreendê-lo.
            O texto L., de Patrícia Reis (a editora), por exemplo. Entrecortado de ilustrações densas, obriga a parar, na (também) densa poesia que das suas frases se evola:
            «Foi naquela noite sem paz, horas nos carrinhos de choque, eu a fumar e tu a rir, que vi que a tua nudez era uma selva onde teria medo de entrar. Não sei como conseguimos regressar a casa, não sei como te vi dormir» (p. 101).
            E a epígrafe de Teolinda Gersão:

«Por vezes o que parece
Um imenso buraco negro
Converte-se, inesperadamente,
Numa janela de esperança».
                                                                       (p. 75).

            Como se disse, o Director não se inibe de escrever o intróito, de leitura sempre obrigatória. Desta feita, noctívago como é, «de nascença» (confessa), sente que Lisboa «só desperta ao entardecer». Contudo, para além do intróito, Assis Ferreira faz questão de acompanhar o volume com uma explicação manuscrita: sim, «Já tudo foi escrito sobre Lisboa», mas nós «escolhemos abordá-la em escrita com o coração, em mescla de vivências e emoções, em devaneios de ficção. Uma Lisboa diferente, tão terrena quão etérea, tão prosaica quão sublime. Talvez não saibamos habitar nessa Lisboa: mas ela, seguramente, habita em nós! Porque o coração é vitalício…».
            Vestido longo todo bordado a penas. O modelo é Leonor Poeiras; o estilista, João Rolo; os cinco postais do sobrescrito, convite à comunicação; as 130 páginas (não resisto a repetir), uma voluptuosa Lisboa!
                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, 04-08-2016:

Pintura naïf causa espanto no Casino

Consoada na aldeia, de Alcindo Barbosa
Ponte D. Maria Pia, de Alcindo Barbosa
            Trata-se, sem dúvida, de uma linguagem pictórica singular, porque – como o próprio nome francês indica – está toda ela impregnada de ingenuidade, como que num retorno à origens. Às origens nossas, de cada um, quando ensaiava os primeiros passos na tentativa de desenharmos o que víamos (as árvores, as galinhas, a torre da igreja, as flores, os pássaros…); e às origens nossas, da comunidade, porque ali se retrata uma realidade na sua maior parte desaparecida – na paisagem, no casario antigo, nas tradições vetustas…
            Ao longo de 36 anos, pelas mãos firmes e teimosas de Nuno Lima de Carvalho, a galeria do Casino tornou-se expoente máximo – não tenho medo de acrescentar: «a nível internacional»! – do apoio e da divulgação de uma forma de transmitir Arte e Beleza que, mediante a garridice do seu colorido, não deixa de nos surpreender e seduzir.
            Surpreenda-se! Deixe-se seduzir! Vivamente lhe recomendo uma visita.
            A mostra estará patente todos os dias, das 15 às 24 horas, até 13 de Setembro
            Entrada livre.
                                                                       José d’Encarnação
Publicado em Cyberjornal, 04-08-2016:

Pensar a vida

             Gostava de ter ainda mais posses, a fim de lhe mandar erguer um altar verdadeiro, sobre o qual lhe pudesse imolar um boi ou cordeirinho de leite. Mas não, não se atreveria a tal, até porque logo lhe perguntariam: «E onde é que o colocamos, se o templo do fórum se reveste, sobretudo, da majestade imperial e dos seus númenes protectores?!...».
            Valerius Paternus olhava, meditabundo, o sol, duma serena tonalidade rosada, a descer, suave, além, na volúpia quase infantil de se esconder por detrás das colinas…
            Sabia quanto o Sol lhe era propício no amadurar dos frutos; não ousaria, porém, consagrar-lhe ofertas – que aos mais nobres e aos iniciados nesses mistérios era múnus ciosamente reservado. À deusa Fortuna, qual mulher amada, sim, em honra dela mandaria lavrar altar pequeno mas gracioso, na demonstração do seu reconhecido carinho e no dos seus familiares, pois também eles usufruíam agora das benesses que os sacrifícios haviam logrado obter. Fortuna fora-lhe propícia.
            Amanhã demandaria a oficina do canteiro e com ele acertaria pormenores. Queria o altar em dimensões adequadas ao seu lararium. Singelo, sim; no granito róseo local; o seu nome, Valerius Paternus, após a identificação da deusa. Pôr-se-ia em siglas – toda a gente entendia… – a informação de que a considerava dea sancta, tamanhos haviam sido os benefícios outorgados; o nome da família, por de mais conhecida na cidade, poderia vir em abreviatura: VAL(erius); gostava do seu cognomen, Paternus, viria por extenso, a sublinhar até o espírito de família; finalmente, a fórmula habitual: EX V(oto) P(osuit) colocou, por à divindade ter feito a promessa.
            Assim o pensou, assim o disse ao canteiro.
            – Não queres, antes, V · L · P? – votum libens posuit?
            – Não. Fortuna sabe bem que o faço de livre vontade. Ah! Mas falta um pormenor!
            Queria o capitel bonito! Não apenas com o fóculo, a simbolizar a sua perene vontade de nele queimar olorosas essências em sua honra, mas também – gravado em meio de volutas – estilizado ramo do teixo, sua árvore totémica, protectora, cujas propriedades curativas (e mortíferas!...) já os seus antepassados conheciam…
            O canteiro acabara de ajeitar o altarzinho que Albuia Paterna lhe encomendara por devoção à Mãe dos Deuses, Cíbele, uma daquelas divindades de mui ancestral culto no Oriente e cerimonial apenas acessível a iniciados. E também ali estava – o cliente viria buscá-lo à tarde – outro altar; este, porém, a I · O · M. Todos conheciam o significado destas siglas: Iovi Optimo Maximo, Júpiter, o deus maior dos Romanos, o melhor de todos! Até os indígenas cedo começaram a venerá-lo, porque, venerando-o, queriam proclamar que de boa mente acatavam as novas concepções romanas, cientes de que, na verdade, era, afinal, o mesmo universo em que todos se moviam – e os deuses carreavam esperança…
            Paternus acertou o preço, combinou o prazo.
            Quinze dias depois, era grande o alvoroço dos seus três filhos, Maximus, Rufinus e Amoena, a mais pequenina. O avô Quintus Valerius Rufus explicara-lhes tudo. O cerimonial ia cumprir-se.
            Nascia a lua nesse auspicioso mês de Agosto. Rufinus e Paternus envergavam túnicas brancas e quiseram ornar suas frontes com verdejante ramo de louro. Sua mulher, Fausta, pusera a túnica rosa preferida; os filhos vestiram de verde e Amoena de rosa, como a mãe.
            Solene, o ancião acendeu a vetusta lucerna de bronze, que herdara, Paternus pegou na de barro; atrás, Fausta, Amoena, Maximus e Rufinus. Os instantes eram de mui respeitoso silêncio, na meditação e na acção de graças. Pensavam no bom que era ter a Fortuna do seu lado. Chegado ao lararium, Rufus retirou suavemente o véu de pura lã. Oh!... Ali estava, como que num trono, o elegante altar! Fez-se a vénia ritual e o fogo das duas lucernas contagiou o incenso do fóculo, donde perfumada nuvem se evolou. Não foram precisas palavras. Abraçaram-se, na intimidade com o Divino. A ceia culminou a cerimónia.
            Lá fora, por entre as franças do arvoredo, brilhante luar de Agosto espreitava, deliciado…
                                                                                
                                                                    José d'Encarnação
                                                                                               
 
Para saber mais
  • ENCARNAÇÃO (José d’), capítulo VI («A religião», p. 442-461) do I volume da Nova História de Portugal, Lisboa, 1990.
  • ENCARNAÇÃO (José d’), «Das religiões e das divindades indígenas na Lusitânia», in RIBEIRO (José Cardim) [coord.], Religiões da Lusitânia – Loquuntur Saxa, Lisboa, 2002, p. 11-16. http://hdl.handle.net/10316/27809
  • ENCARNAÇÃO (José d’), «O mágico simbolismo de uma árula conimbricense», Boletim de Estudos Clássicos, 58, 2013, p. 147-151. http://hdl.handle.net/10316/25163
  • ENCARNAÇÃO (José d’), «Manifestaciones religiosas en la Lusitania romana occidental», in J. M. ALVAREZ MARTINEZ, A. CARVALHO e C. FABIÃO [edits.], Lusitania Romana – Origen de Dos Pueblos, Mérida, 2015, p. 267-273. http://hdl.handle.net/10316/28664
Publicado in LIMA (António Manuel), Mudar de Vida, Marco de Canaveses, 2016, p. 122-125.