sexta-feira, 24 de abril de 2015

A turbulência na Academia foi explicada!

            Na presença de meia centena de amigos do autor e no vetusto aconchego dos baixos abobadados da centenária Livraria Ferin (desde 1840, na Lisboa pombalina!...), foi apresentado, ao final da tarde de quinta-feira, 23, Dia Mundial do Livro, o mais recente romance de Júlio Conrado: Turbulência na Academia do Amor.
            João Paulo Dias Pinheiro, em nome desta livraria resistente numa Baixa «desertificada», deu as boas-vindas e regozijou-se por a apresentação coincidir com um dia em que, pela Baixa, se espalharam bancadas a incitar à leitura. Baptista Lopes, em nome da editora, Âncora, saudou os autores presentes e disse do seu agrado em poder continuar a ser editor em época de tamanhas resistências.
            A escritora Teolinda Gersão fez a apresentação. O leitor, sublinhou desde logo, ficará admirado com este livro-surpresa, pelas múltiplas pistas que sugere, pela multiplicidade de personagens (de repente, entra um de quem não estávamos à espera e ganha posição no palco…), pelo «muito que deixa à imaginação» de quem ler. Um retrato de muitas entidades nossas contemporâneas, amiúde ‘vespeiros de intrigas’: empresas, bancos, governos (as teias de que os governos se entretecem…), as reuniões dos ‘grupos de trabalho’ (p. 123-133)... A realidade de mãos dadas com a ficção. Mais do que um narrador e mais do que um estilo. No enredo, começa-se, por exemplo, a ler um livro e depois ele fica a meio. A ironia sempre presente, assim como o lado rocambolesco e até grotesco das histórias. Todas as histórias do livro são – como o próprio título preconiza – histórias de amor; o autor nunca é romântico, acredita no amor, mas…
            A apresentadora traçou uma panorâmica do enredo e mostrou, inclusive, o seu agrado por não ter sido escrito em obediência ao chamado «Novo Acordo Ortográfico» – o que lhe emprestou ainda maior encanto.
 
As personagens existem!
            Júlio Conrado não se limitou aos agradecimentos formais. Quis informar da existência real de três personagens cujas histórias de vida foram por ele incluídas nesta Turbulência: um juiz desembargador, que não pôde estar presente; Diana Duarte Gomes, nadadora que, aos 14 anos, bateu todos os recordes (que ainda mantém) e foi, nos Jogos Olímpicos de Atenas, a mais jovem atleta portuguesa olímpica de sempre, que ali se sentou, ao lado de Teolinda; João Orlando dos Santos Martinho, o contabilista que viveu no Brasil dos 18 aos 28 anos e que apertou a mão a Che Guevara, conviveu com o arquitecto Oscar Niemeyer, assistiu ao lançamento da 1ª pedra de Brasília… e o mais que se lerá! O Amigo também lá esteve!
            Explicou o Autor: homenagem minha, portanto, à Justiça e ao Direito, ao Desporto (através de uma notável figura da natação, hoje arquitecta e empresária), à odisseia da diáspora que foi – e é tributo a pagar por muitos portugueses.
            Terminou com palavras de reconhecimento ao editor, aos presentes, à família. E anunciou que, na abertura da temporada teatral, vai passar a ser também dramaturgo, pois o Teatro Experimental de Cascais tem na programação levar à cena o seu livro O Corno de Oiro.

            Bebi um cálice de porto; saboreei apropriado mil-folhas (era o Dia Mundial do Livro!...); deitei um olhar arqueológico às seculares arcarias pétreas; e, à saída, regalei-me com os letreiros em língua francesa (atelier de reliure, imagine-se!). E vim de alma lavada!
 
                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 24-04-2015:



 

O grande sentido da vida é vivê-la

             Confesso o meu fracasso: não consegui ler mais do que as duas primeiras páginas do ensaio «Estética do guardar-como», assinado por Domingo Hernández Sánchez, docente na Universidade de Salamanca, incluído a páginas 221-235 do número 11/12 (2012), da «revista de comunicação e cultura» Caleidoscópio, que é editada pelo Departamento de Ciências da Comunicação, Artes e Tecnologias da Informação, da Universidade Lusófona.
            Ao folhear a revista, especialmente dedicada a Carl Einstein (1885-1940), conhecido crítico de arte, chamou-me a atenção o inusitado do título do ensaio, decerto porque «guardar ou não guardar» constitui uma das questões mais frequentes no meu dia-a-dia e, por outro lado, optando eu por «guardar», importa sempre saber como o vou fazer, para que facilmente esteja disponível quando disso eu precisar. Criamos inúmeras «pastas» no computador, mas com frequência acabamos por não saber onde é que está isto ou aquilo e lá temos de lhe dar duas ou três pistas a fim de que o seu cérebro o encontre.
            Outro chamariz houve no texto: em itálico, frases e palavras como Dicionário das Ideias Feitas (um livro de Flaubert), copiar, ideias recebidas, a culminar, porventura, na afirmação «a nossa cultura actual é uma cultura da cópia». Já explico porquê, porque, antes, importa esclarecer porque fracassei: foi porque o texto do professor documenta às mil maravilhas o que, eventualmente, pretenderá criticar, pois não há parágrafo que não tenha a reprodução da frase de alguém. Mesmo a afirmação da «cultura da cópia» é retirada de La Cultura de la Copia. Parecidos sorprendentes, facsimiles insólitos, título de um livro de Henry Schwartz. Não resisti a estar constantemente a ter de ir ver as notas para saber donde é que a frase fora retirada e, além disso, acabei por não saber, três páginas lidas, que haveria de novo nessa enorme recolha de citações. Erro meu, claro, que sempre me considerei terra-a-terra, avesso a elucubrações – e peço desculpa por isso.
            Interessou-me, todavia, saber desse dicionário de Gustavo Flaubert, que se destinava, segundo o próprio autor, a reunir, por ordem alfabética, «tudo o que há que dizer em sociedade para se ser um homem decente e amável sobre todos os temas possíveis» (ibidem, p. 221). Boa ideia!
            E recordei de imediato duas das iniciativas de Celestino Costa, a que a editora Apenas Livros dera a mão: Dos Outros para mim (2014), colectânea de frases de homens célebres, livro de cabeceira a consultar «naqueles derradeiros minutos de vigília quotidiana», como tive ensejo de escrever, no prefácio; e Contos Recontados (2015), a recolha de casos divertidos retirados das biografias de ilustres, «que paulatinamente foi copiando, qual solitário monge em mui recatada cela…».
            Confidenciava-me o autor: estou mesmo no fim da vida, já nada faço de novo, limito-me a copiar o que outros fizeram…
            É curioso: longa caminhada feita, atingido o destino fixado, não deixa de ser aliciante olhar para trás, anotar o caminho percorrido, as peripécias passadas, os medos e as alegrias… «Experiência» assim cabalmente se designa o que a vida ensinou. E, ao que consta, será essa uma das grandes distinções a caracterizar o ser humano: a capacidade que tem de aprender e, sobretudo, de transmitir aos outros o que acaba de aprender.
            Frequentemente referia aos meus estudantes: Ora aí têm! Eu, com 40 anos, com 50 anos, com 60 anos, só agora é que tomei consciência desta situação e da forma mais correcta de a aproveitar; vocês têm 20 e já ficam com o meu testemunho; podem aproveitá-lo ou não, é decisão que lhes compete, a mim aquela de, como docente, a partilhar.
            Alguém, outro dia, referindo-se ao comentário jocoso de um veterano, escreveu ao amigo: «Eu fui ver e acho que a opinião está fora do contexto (sem comentários para quem se acha professor de todos)».
            Esse – suponho que jovem – ‘acha’ muito; oxalá continue a achar, porque significará que adoptou uma consciente atitude de pesquisa! Decerto, porém, não cairá na asneira de seguir carreira de professor, porque, se a seguisse por vocação, bem depressa compreenderia essa natural característica do homem para a partilha da experiência adquirida, sabe-se lá (quanta vez!) à custa de árdua procura e muita reflexão!
            Encanta-me recortar dos livros – mesmo dos de ficção – aquelas frases lapidares, diria que esculturalmente bem buriladas, que retratam um estado de alma e que pululam hoje nos sítios da Internet sob o título «as frases de…». Cristalizam uma ideia, um lema de acção, um sentimento único. Assim como o instantâneo captado pelo pintor ou pela objectiva do fotógrafo – e que, de seguida, o não guardam para si e no-lo disponibilizam. Do livro «O Segredo Perdido», de Júlia Nery, guardei, por exemplo, entre muitas outras: «Lisboa depressa odeia os que muito aclama»; e: «Aprendi que o grande sentido da vida é vivê-la».
            Esses, também, grandes segredos a partilhar!
                                                                            José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais, nº 89, 22-04-2015, p. 6.

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Faleceu padre salesiano, com a provecta idade de 103 anos!

            Encontrava-se na Residência B. Artémides Zatti, anexa à Escola Salesiana de Manique, o Padre Manuel Geraldo Gonçalves, que faleceu na passada terça-feira, 14, no Hospital de Cascais, com a provecta idade de 103 anos.
            Celebraram-se, no dia seguinte, na capela da escola, as exéquias fúnebres, com a presença de irmãos das várias comunidades salesianas, seguindo-se o funeral para o cemitério da Galiza.
            O Padre Manuel Geraldo fez a profissão religiosa em 1934, entrando assim para a Congregação Salesiana e foi ordenado sacerdote em 1943.
            Partiu em 1955, como missionário, para Moçambique, onde permaneceu até 1974, desenvolvendo aí intensa, variada e prestigiada actividade pastoral e organizativa, afirmando, dessa forma, a presença salesiana.
            Recorde-se que, além das escolas que asseguram no continente, os Salesianos alargaram a sua acção educativa e missionária à Madeira (Escola de Artes e Ofícios do Funchal), a Cabo Verde, a Moçambique, Goa, Macau e Timor. Neste último território realcem-se as figuras de D. Ximenes Belo, bispo salesiano, e Xanana Gusmão, antigo aluno. Em Moçambique, a actividade – a que esteve intimamente ligada a figura do Padre Geraldo ora falecido – foi (e continua a ser!) a todos os títulos meritória, mormente no apoio à juventude carenciada, bem como à população em geral. Seguindo as pisadas do seu fundador, S. João Bosco, os Salesianos foram pioneiros na criação e manutenção de escolas de ensino técnico-profissional.
            À família salesiana enlutada apresentam-se os mais sentidos pêsames, na certeza de que são exemplos de dedicação ao próximo como o que o Padre Geraldo legou que continuarão a ser fortes testemunhos para todas as gerações.
            As fotos que ilustram este apontamento foram gentilmente cedidas pelos serviços de Relações Públicas da Congregação. Bem hajam! Ilustram um instantâneo da vida missionária do venerando sacerdote e um outro da comemoração do seu centenário, na comunidade de Manique.

                                             José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 16-04-2015:

A pétala que na página se guarda

            Tempos houve em que pegávamos na perfumada pétala rosada e delicadamente a guardávamos no livro de cabeceira, na vontade de assim perpetuarmos doce lembrança. E quando, antes de adormecer, lemos mais umas linhas, daquelas que nos alimentam a alma, amiúde a pétala nos sorri.
            Essa, a primeira imagem que me ocorreu quando aceitei de bom grado o pedido da comissão organizadora da homenagem a Helena Frade para organizar este opúsculo e alinhavar sobre a Amiga um depoimento. Decerto muitos outros amigos quereriam estar aqui presentes; estes foram, porém, aqueles de que nos lembrámos agora – e peço desculpa pelos naturais esquecimentos. Assevero, porém, que tenho a mais funda convicção de que todos se irmanariam também não apenas em mostrar a pétala religiosamente guardada, mas, de modo especial, em prontamente colaborar na vistosa composição de mui sentido ramalhete que nestas páginas se ostenta.
            Quando nos apercebemos de que, embora lindas, as flores murcham, rápidas, sobre a terra fresca da sepultura, olhamos para o canteiro e pedimos-lhe que perpetue na pedra uma grinalda, um botão, uma coroa – que eternidade exigimos na dor e na ternura!... Um livrinho como este, ainda que de modestas proporções, é grinalda esculpida, botão sempre viçoso, precioso escaninho de saudade…
            Nunca chegaste a ser, oficialmente, minha aluna; contudo, ao recordar os meus primeiros tempos em que, na mesa grande do Instituto de Arqueologia, nos ‘fundos’ da Faculdade, todos nos sentávamos, docentes e estudantes, numa partilha de conhecimentos, de conversas, de vidas, a imagem da Lena Pequena e da Lena Grande surge de imediato.
            Não andarei longe da verdade se disser que, ali, nessa segunda metade da década de 70 do século XX, também encetámos uma revolução no relacionamento mais próximo entre docentes e estudantes. Aliás, tivera eu a dita de ir leccionar a alunos que eram quase da minha idade, alguns, já, como eu, pais de filhos e filhos da mesma idade dos meus. E o entusiasmo pela História Antiga, pela Arqueologia, pela Epigrafia (que então passara a ter, por mui lúcida proposta do Doutor Alarcão o estatuto de disciplina anual). E também tu, Leninha, ainda que não aluna, por essas ‘pedras com letras’ te acabarias por deixar seduzir e, assim que o Ficheiro Epigráfico surgiu, lá veio o teu artigo, em 1982, logo no nº 2, sobre uma estela funerária do Crato. Foi o teu primeiro artigo em letra de forma, não foi?
            Recordo o entusiasmo com que aí, no Crato, a terra natal do Zé Carlos, te entregaste à escavação da necrópole da Lage do Ouro, um trabalho modelar, a ombrear com o que, anos antes, a equipa do Instituto levara a cabo em Santo André (Montargil)… Lembro-me quanto admirei a minúcia como tudo nos apresentaram e as conclusões inovadoras que daí foi possível retirar. E logo o Zé Carlos se revelou aquele ‘menino’ de um rigor no desenho e no trabalho. Estavam, também nessa atitude científica, irmanados por completo. Tornaram-se autores de referência obrigatória no que concerne às práticas funerárias romanas.
            Como técnica do Serviço Regional de Arqueologia da Zona Centro, demandaste, com José Beleza Moreira, S. Pedro do Sul. As termas. E – como não podia deixar de ser – toda a problemática do aproveitamento das águas termais ao longo dos tempos te seduziu. E, mais uma vez, o teu nome passou a referência a nível peninsular (e não só), de modo que foste convidada a ser a representante portuguesa no grupo de peritos que por essas questões expressamente se interessava: o Grupo de Trabajo ATA – Atlas de Termalismo Antiguo, com sede em Madrid.
            Com Clara Portas foste para Bobadela – e correu mundo a descoberta do anfiteatro! E integraste, por via disso, o Réseau Européen des Lieux Antiques de Spectacle. Demandaste Centum Cellas – e as reflexões que o teu meticuloso labor determinou geraram mui proveitosa polémica. Ah! E o extraordinário altar erigido pela civitas Cobelcorum ao deus maior dos Romanos, que permitiu (além de a vossa cadela ter sido «Cobelca»…) fazer jorrar inesperada luz sobre o que se (des)conhecia acerca das organizações pré-romanas dessa Beira Interior?!... E o excitante lararium, ainda de Centum Cellas?!...
            Não hesitei, pois, em propor a Attilio Mastino que te convidasse a participar em Cartago, no XI Convegno Internazionale di Studi L’Africa Romana, cujo tema era "La scienza e le tecniche nel Mediterraneo classico", e tu apresentaste aí uma comunicação, que foi muito bem acolhida, sobre técnicas construtivas de monumentos da Lusitânia. Ana e eu e Catarina Leal bem recordamos esses dias de Dezembro de 1994 e as singulares peripécias nas lojas de Sidi-Bou-Saïd!...
            Entretanto, viera – muito antes!... – a experiência ímpar de S. Cucufate, a grande Escola que nos foi proporcionada no fim da década de 70 e primeira metade dos anos 80. Escola de Arqueologia, escola de Vida, alfobre de cumplicidades que fomos mantendo vida afora! S. Cucufate, também esses uns Verões que jamais se esquecem. E eu, que fazia de vez em quando o caderno de campo com Françoise Mayet, posso atestar quanto eras rigorosa na metodologia seguida, minuciosamente anotando tudo, mesmo que não fosse romano, porque sabias que um sítio tem um antes e tem um depois…. E viviam-se em comum praticamente as 24 horas do dia. Por vezes, após a quente jornada, a caneca de ‘saboroso néctar’ a escorrer das grandes talhas, na adega dos irmãos Parreira, em Vila de Frades, com um bom naco de queijo e aquele pão que não nos cansávamos de saborear! Ah! Fresquinho Vidigueira de tom levemente rosado!... Sabes, Lena, ainda guardo o papelito de rascunho em que o Chefe anotou a «Constituição da equipe portuguesa» em 1981: lá vem o teu nome, com a indicação «professora do ensino secundário»!
            Visitámos-te no hospital aquando da última operação a que tiveste de ser submetida. Desses momentos, recordo a tua vontade de aproveitar o tempo, de «dar a volta por cima». Senti que, vinda a forçada aposentação, haveria necessidade de maior ânimo ainda para reformulares o dia-a-dia, sem o aguilhão dos processos, dos pareceres, das reuniões, das ‘inspecções’ em que as horas se esgotavam e te esgotavam, impedindo a dedicação a uma investigação a que mais gostarias de te entregar.
            Assim não aconteceu, Lena! E partiste mais cedo do que todos esperávamos. Sugeriu Escrivá de Balaguer: «Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto». Descansa em paz, Lena: a tua vida não foi estéril! Foste útil, deixaste rasto! E nós vamos sempre recordar as tuas inconfundíveis gargalhadas, assim como – desculpa lá, mas isso também é bom!... – as alfinetadas que não hesitavas em dar! Alfinetadas e gargalhadas tudo fazia parte de uma vida, que foi curta, bem no sabemos, mas… deixou rasto!
José d'Encarnação
in ENCARNAÇÃO (José d') [coord.], Helena Frade, Sociedade dos Amigos do Museu de Francisco Tavares Proença Jr., Castelo Branco, 2015, p. 20-22.

Então, vá!

             Ao analisar uma dissertação de doutoramento, encontrei, entre outras de idêntico teor, esta frase, que vem na sequência da opinião de que não se deve considerar o aspecto físico da sepultura para daí tirar garantidas conclusões acerca de quem nela está sepultado. De facto, amiúde não há testamento nesse sentido e o monumento funerário é o resultado das intenções da família. Isso quis dizer o autor da dissertação ao escrever:
            «… O que pode dar uma imagem errada do estatuto social dos cadáveres, pois muitos tornavam-se na morte aquilo que não foram em vida».
            «Quis dizer» mas, lendo melhor, é bem provável que não tenha dito. Primeiro, porque o estatuto social do cadáver é… ser cadáver e daí não podemos sair. E que os cadáveres se tenham tornado na morte aquilo que não foram em vida é, no mínimo, estranho, porque não há cadáveres vivos, quanto se saiba!... Em sentido real, entenda-se, porque no figurado até parece que – feliz ou infelizmente – andarão por aí bastantes!...
            Claro, o autor queria referir-se era aos mortos, aos indivíduos e não aos seus cadáveres! E aí tem razão: há pessoas que a morte vem transformar! Já lá dizia Celestino Costa, num dos seus poemas: «Prós poetas, Pátria querida / És madrasta toda a vida / Só és mãe depois da morte!». E com frequência se observa: «Olha, aquele foi preciso morrer para lhe darem importância!». Por isso, Herberto Hélder, recentemente falecido, sempre disse que não queria louvores em vida nem depois de morto!...
            Este caso levou-me, contudo, a reflectir sobre o facto de tantas vezes usarmos expressões sem sentido. Já não me refiro ao ããã… que antecede tantas frases e que só sai porque a boca está aberta. E admiro-me como, em televisão e rádio, isso não seja insistentemente corrigido, porque, além de nada significar, incomoda!
            Coligi, duma assentada:
            «A colectividade tinha uma sede e mais não sei o quê!»
            «Não sei se estás a ver…»
            «Dá-me aí o coiso!»
            «Então, vá!»
            Todas elas são uma maravilha, a denotar grande falta de rigor do pensamento e imprecisão vocabular. Agora, o «então, vá!» com que se terminam tantas conversas é, para mim, o máximo!... Então… vá! Vá para onde, senhores? Não estão a mandar o interlocutor a nenhum sítio esquisito, ora não?

                                                                                  José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde). nº 660, 15-04-2015, p. 12.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ena, pá! Tanta foto!

            Só uma daquelas sessões propensas a desfiles e apresentação de farpelas novas por parte de muitas estrelas da sociedade e muitos fotógrafos a disparar para as revistas da society (desculpem, aqui tem de ser, eu não poderia usar o corriqueiro ‘sociedade’, acham?!...), só aí é que se poderão contar mais fotografias do que na Ceia Medieval do passado dia 8, no Grupo Recreativo e Dramático 1º de Maio, de Tires! Tudo quanto era máquina e telemóvel, do mais simples ao mais sofisticado (que dão por aqueles nomes estranhos…), tudo fotografava, minha gente!
            E porquê?
            Porque a Organização achou – e muito bem! – que ceia medieval, para o ser, tinha de o ser a preceito e, vai daí, todos os convivas haviam de enfarpelar-se! Ele foi, pois, uma mão-cheia de pajens, de fidalgos, de princesas, de cavaleiros, de causídicos, de cirurgiões, de frades… Espera lá! Não vi ninguém vestido de bobo! Pois não havia bobo enfarpelado, não, senhor! Mas todos quisemos pousar para as sedentas objectivas, que é uma vez na vida que a gente regressa assim aos tempos dos nossos reis!...
            Uma sala cheia! Uma animação! E o arauto cedo nos esclareceu estarmos ali, porque el-rei D. Fernando, de mui saudosa memória, por carta de 8 de Abril de 1470 (ponho já a era cristã, para não lançar a confusão!), ou seja, há 645 anos, cedeu Cascais a Gomes Lourenço do Avelar e teve o cuidado de bem esclarecer na carta quais eram os limites do que lhe dava. Trata-se, pois, do 1º documento oficial em que se declarou, o preto no branco, que o território hoje de S. Domingos de Rana ficava integrado no concelho de Cascais. E este passará a ser o dia oficial da freguesia!
            Aproveitou-se o ensejo, quase em jeito de entremez (salvo seja!), para a senhora presidente da Junta de Freguesia, «alcaide-mor deste dominicano castelo» (digo eu!), dizer de sua justiça e mostrar quão empenhada está em fazer o que el-rei há tanto tempo mandara: pelejar sem descanso pelo bem-estar das suas gentes! Ao que outro alcaide-mor, o do concelho, também ele vestido a rigor, garantiu que assim se fazia e se faria, pelo que dele dependesse, até porque desse termo era nado e criado!
            E como – lá dizia a carta régia – é «apanágio da nobreza e alteza dos reis e dos príncipes remunerar e galardoar aqueles que bem servem», ali mesmo foram galardoadas pessoas e entidades que, nos mais diversos domínios da actividade (inclusive do «empreendedorismo», vocábulo nada medieval que muito entaramelou – e tem razão! – a língua do arauto!...), se haviam distinguido a bem do Povo!
            Comeu-se em loiça de barro da Taberna do Rei, como convinha; saborearam-se uns nacos de pernil, uma açorda de javali, panito acabado de fazer e escorropicharam-se pichéis de bem apaladado tinto.
            Numa peça de teatro, uns senhores de mau agoiro vieram recordar-nos que rico ou pobre, fidalgo ou monge, homem ou mulher, parvo ou assisado, a todos, um dia, há uns esbirros que, a mando de tenebrosa senhora, os vêm buscar – e aí todos se igualam! Alembrou-me o Gil Vicente, ainda que este medieval não fosse, mas andava lá perto nos seus autos! Houve danças e a Senhora anfitriã fez questão em vir cumprimentar os comensais e…
            … para o fim-de-semana, a festa promete continuar na Feira Medieval!

                               José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 09-04-2015:


 

 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Memórias do Casino vão agora reviver!

            Rodeado por todo o elenco d’A Noite das Mil Estrelas, Filipe La Féria manifestou o seu contentamento por voltar ao Casino Estoril, na conferência de imprensa que serviu, ao final da tarde do dia 7, para apresentar o novo espectáculo a servir no Salão Preto e Prata, com estreia no dia 9, e depois semanalmente, de quinta a sábado, às 21.30 h., tendo, aos sábados e domingos, uma sessão às 17 horas.
            Estava francamente satisfeito por recordar o que foi o passado desta casa e as «mil estrelas» que por aqui passaram desde os tempos do senhor Teodoro dos Santos até mui recentemente, quando o Casino era o palco invejado de todas as estrelas do music hall internacional. Poucas terão sido, de facto, as que por aqui não passaram e não arrecadaram triunfos. Filipe La Féria evocou também as imagens que guardava da sua infância: a girafa do Dali em tempo de animado corso carnavalesco, por exemplo.
            O certo é que, garantiu-nos, a sua gente – também todos eles visivelmente deslumbrados com a nova oportunidade que iam ter e, além disso, vestidos a rigor, para ‘revista’ ver e futuros espectadores apreciarem!... – a sua gente vai fazer reviver esses grandes nomes com uma maestria sem igual. Conhecendo nós como conhecemos o rigor de La Féria e o profissionalismo de uma Alexandra (oh! a Alexandra!), de um Gonçalo Salgueiro, da Vanessa, do Pedro Bargado, do Rui Andrade, do David Ripado, da Dora (pois, da Dora!), do João Frizza, da Cláudia Soares, da Catarina Mouro e da Inês Herédia, estamos bem cientes de que nos vão, sem dúvida, encantar.
            Marco Mercier desenhou as coreografias; Mestre José Costa Reis esmerou-se nos figurinos, que muito gozo lhe deram criar. E, aliás, também agradaram sobremaneira aos intérpretes, pois vários deles (sobretudo elas!) não hesitaram em apresentar-se já com a imagem que deles o programa mostra.
            Prometido está que o glamour vai voltar ao Salão Preto e Prata. Sim, tive de escrever glamour, que é a palavra que melhor se entende nestas andanças. Porque embora o Dicionário da Academia nos diga que é anglicismo a substituir por encanto, eu acho que, também neste caso, «encanto» é pouco e «sedução» é susceptível de nos levar a pensar noutras coisas… E glamour é assim como que uma sensação boa, «está-se bem», a melodia agrada-me, a vista regala-se, a emoção desabrocha e o pensamento voa!...
            Foi glamorosa a apresentação, com as tasquinhas de «comida de rua» por fundo, e viemos de lá com uma vontade danada de ir reviver as noites grandes d’outrora!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 08-04-2015: