terça-feira, 17 de abril de 2018

A cabeça no ar?

            Quanto me não ralhou minha mãe sempre que eu me esquecia dum compromisso:
            ‒ Cabeça no ar, é o que é! Quando é que vais aprender a ter juízo?
Retirado, com a devida vénia,
da história de Johnny
cabeça no ar
            Acho que algum já terei. Não muito, é certo; mas, se calhar, também ter muito juízo é capaz de não interessar. Se o tivesse, não me disporia a redigir esta crónica, que trata de pessoas desajuizadas. Eu conto.
            Enviaram-me por correio electrónico a informação, com calendário apenso, de que este mês de Maio iria ter cinco sextas-feiras, cinco sábados e cinco domingos. De acordo com uma crença chinesa, dizia, não só essa oportunidade só acontecia uma vez na vida da gente (de 823 em 823 anos!), como era de muito bom agoiro e haveria fortes possibilidades de, em quatro dias, eu vir a encher os bolsos de dinheiro! Achei piada, porque já o ano passado me haviam dito a mesma coisa e… dinheiro, viste-o?!...
            É, porém, tão grande a vontade de se enriquecer facilmente (bastava colar a mensagem no mural…) que nem sequer se olhava para o que nos diziam, assim com olhos de ver. É que o calendário não era o de Maio nem tinha esses tais dias cinco vezes seguidas e, além disso, já em Dezembro passado se verificara essa sequência, que voltará a acontecer em Março do próximo ano e, se Deus quiser, ainda havemos de cá estar.
            Outro caso: uma das minhas vizinhas começou a achar estranha tanta chilreada. Donde é que vem, donde é que não vem… Vinha do contentor do lixo. Alguém pusera lá uma gaiola com três bonitos canários, que, resgatados, foram, naturalmente, distribuídos pela vizinhança. Nem ouso comentar!
            Recorro amiúde aos serviços de uma instituição de saúde, obviamente muito frequentada nos tempos que correm. Há sempre mais anciãos do que eu a entrar ou a sair ou pessoas com canadianas ou senhoras. Gentilmente, porque minha mãe assim me ensinou, abro a porta e deixo passar. Agradeces tu? Assim agradecem eles! A maior parte das vezes nem «água vai!». Outro dia, voltei-me para a menina da recepção:
            ‒ Já viu? Nem boa tarde dizem!...
            ‒ Ah! Sr. José, não ligue! É assim, raramente alguém agradece, quando facilitamos a entrada ou a saída. É assim.
            E dei comigo a interrogar o Bom Senso e a Boa Educação:
            ‒ Por onde é que andam vocês, meus malandros?
                          
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 729, 15-04-2018, p. 11.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

«Como Vos Aprouver», em cena no Mirita Casimiro

             Estreada a 27 de Março, vai estar em cena no Teatro Mirita Casimiro até 29 do corrente mês de Abril a peça «Como Vos Aprouver», de William Shakespeare, a 154ª produção do Teatro Experimental de Cascais, integrada na programação de Cascais 2018 Capital Europeia da Juventude.
            Encenação de Carlos Avilez, tradução de Fátima Vieira, dramaturgia de Miguel Graça, cenografia e figurinos de Fernando Alvarez, musical original de Tiago Machado, coreografia de Natasha Tchitcherova. Apoio de toda a habitual equipa do TEC. Interpretação a cargo de elementos da companhia e de alunos ou antigos alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais.

A discussão sobre o texto
            Prestou-se a discussão, ao longo dos tempos, a interpretação do título original inglês «As you like it». Fátima Vieira justifica a opção por «Como vos aprouver» ‒ que, além do mais, se reveste de mui vernácula roupagem – mas já Miguel Graça, em jeito de provocação, optou por «Como vocês gostam», no comentário inserto na folha distribuída aos espectadores. ¿Ter-se-ia Shakespeare dirigido aos leitores, como que a dizer-lhes «Aí têm, como é do vosso desejo», ou a fala foi para os actores e encenadores «Façam como acharem melhor!»?
            Cumpre salientar, a este propósito, que dispomos, nos Textos de Apoio, de um excelente ensaio, de 25 páginas, sem assinatura mas que se pressupõe ser da autoria de Fátima Vieira, professora associada com agregação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde, no âmbito do Instituto de Estudos Ingleses, lecciona desde 1986 e onde se doutorou, em 1998, com uma tese sobre a obra de William Morris e a tradição de literatura utópica inglesa. Um ensaio em que, com erudição e saber, trata do texto, das representações e das fontes; dos diferentes modos de ‘ler’ esta peça; do retrato que o autor faz do mundo político, levando, por exemplo, os seus personagens a refugiarem-se na floresta de Arden, sob a égide benevolente do Duque Sénior, na busca de uma liberdade que a ordem imposta pelo Duque Frederico lhes não permitia usufruir; da sexualidade e das convenções sociais (o costume de as personagens se travestirem e o que isso queria significar); da caracterização das personagens; das canções e da tradução.
            Congratulo-me, naturalmente, com o facto de o TEC haver optado pela colaboração com uma universidade para a fixação do texto, que, diga-se, é realmente bonito de se ouvir, muito cuidado. Foram investigadores do atrás referido Instituto que lançaram mãos à obra, «no âmbito de um projecto de investigação apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia», iniciado em 1998, e que «tem como objectivo principal a tradução da obra dramática completa de Shakespeare e a sua divulgação (com uma vertente de reflexão histórico-crítica) no mercado português». Dir-se-á ainda que cada tradução, «embora sendo da responsabilidade do membro do grupo que a assina, beneficia da discussão participada por todos os membros», o que também é digno de registo.

A encenação e os actores
            Temos, pois, um texto muito bom. Sobre a forma como ele nos é apresentado, escusado será dizer que, por mais tratos que, lendo o texto, cada um de nós desse à imaginação «como é eu apresentaria isto?...», dificilmente conseguiria lograr atingir (nunca atingiria!) a genialidade que nos é mostrada no Mirita Casimiro.
            Primeiro (não havendo, nesta sequência, nenhuma ordem de importância relativa): mais uma vez se deve brindar com entusiasmo ao espírito criativo de Fernando Alvarez. Se nos figurinos e no guarda-roupa se revela o seu extraordinário bom gosto, a opção por a floresta nos ser minimalmente sugerida por fios de nylon pendurados resultar muito bem e é, de facto, um verdadeiro achado.
            Temos depois a direcção de actores. Bárbara Branco revela-se, mais uma vez, na sua juventude, bem promissora actriz: dicção excelente, expressão natural e sempre ajustada a cada passo. Um nome a fixar. Os parabéns a Carlos Avilez pela arguta formação que lhe deu.
            Todos vão bem, desde o nosso querido Ruy de Carvalho, na veste de um Adão ancião, aos elementos que há muito integram a Companhia, passando pelos jovens da Escola, um estabelecimento de ensino que vai merecer – não tenho dúvida! – cada vez maior atenção, mormente tendo em conta a fama que goza junto de instituições congéneres e universidades estrangeiras, onde os sues antigos alunos depressa se evidenciam pela técnica, pela presença e pela experiência de palco que os responsáveis da Escola desde cedo lhes proporcionam obter. Registe-se, para que conste, a informação de Miguel Graça: «Dos 21 actores e actrizes que estão em cena 15 formaram-se ou estão a formar-se na Escola Profissional de Teatro de Cascais»!
            Permita-se-me, todavia, que realce Renato Godinho, cujo crescimento no TEC se tem revelado de espectáculo para espectáculo. Não creio sofrer contestação que Renato tem na figura do bobo Bitolas a sua melhor interpretação de sempre. Encaixa às mil maravilhas o seu perfil habitualmente gozão aos ademanes e aos chistes irónicos e acutilantemente críticos de um bobo, realçado, de resto, pelo facto de Carlos Avilez o ter posto a deslocar-se em cadeira de rodas (os bobos sofriam, habitualmente, de corpóreas mazelas, eram anões ou aparentemente lerdos…). Inscreva-se já o nome de Renato Godinho no rol dos actores a galardoar em 2018!

A cadeira de rodas e a interculturalidade
            Esta referência à cadeira de rodas leva-me a focar ainda um outro aspecto neste espectáculo: a interculturalidade, tópico que sempre, aliás, preside às encenações de Avilez: adaptar aos nossos dias cenas que originalmente se passam há muito tempo (a comédia As You Like It foi escrita, pensa-se, mesmo no final do século XVI e supõe-se que representada pela primeira vez em 1603), em contextos e ambientes bem diferentes dos da actualidade.
            Assim, a cadeira de rodas é dos nossos dias (oh se é!...); a moda de mulheres se vestirem de homens e vice-versa, se constituía, outrora, como nos carnavais de sempre, mera brincadeira, reveste-se, aqui, como algo de mais profundo: o natural reconhecimento da homossexualidade.
            Por outro lado, português que se preze promove a interculturalidade. A palavra está hoje de moda; mas há muito que nós a assumíamos e carlos Avilez não hesitou, neste caso, em pôr em lugar de destaque, no final, um negro como sacerdote do Altíssimo, o sacerdote que poderia abençoar os quatro casamentos (‘apraz-nos’ que os enredos acabem em alegres casamentos, o de Rosalinda e Orlando, de Célia e Olívio, de Sílvio e Febe, de Bitolas com Aurora), ainda que sejam, na peça, «relegados para um momento posterior» a que já não assistimos.
            É de norma terminar a apreciação de um espectáculo, quando dele se gostou e se considera válido, incitando o leitor a ir ver. Creio, porém, que facilmente se depreenderá do que escrevi que posso perfeitamente dispensar tal incitamento, pois, na verdade, esta interpretação do Como Vos Aprouver ficará nos anais do Teatro nacional e, por isso, não se pode mesmo perder!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 15-04-2018.

 

domingo, 15 de abril de 2018

Dois concertos memoráveis

             Corro o risco, consciente, de usar um adjectivo passível de ser interpretado como lugar-comum. De facto, porém, tanto o concerto de Luísa Sobral, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, no passado dia 13, como o de Camané no dia seguinte no mesmo local merecem, de pleno direito, cada um no seu campo, tal adjectivação.
            Primou o de Luísa Sobral pelo intimismo, num palco onde o desenho de luzes jogou, na verdade, um papel de excelência, a sublinhar a envolvência suave e – ouso dizê-lo! – doce que a cantora quis imprimir à sua actuação. Foi o de Camané o de um ambiente de fado, invulgar no grande salão, habitualmente desprovido dessas características.

Luísa Sobral
            Entraram os músicos um a um e cumprimentaram o seu instrumento com uns acordes, num clima de jaze: foi João Salcedo para os teclados; pegou Mário Delgado na guitarra; sentou-se Carlos Miguel Antunes à bateria; e abraçou João Hasselberg o contrabaixo. Um foco para cada um, o resto do palco às escuras. Pausa para a entrada da artista. Veio, gravidíssima e descontraída, e entrou na música.
            Esse, o clima que perdurou: o da simplicidade, o da voz bem timbrada, o do virtuosismo dos executantes, o da conversa quase informal, com histórias de vida («Quando eu dancei esta e disse à minha mãe que tivera três contracções, ela entrou em pânico; desta vez só foram duas!...»). Encanta Luísa Sobral por este à-vontade com que está em palco, como, supomos, estará em sua casa. E os músicos deliciam-se, eles também, a acompanhá-la nesse jeito de quase confidência.
            Chamou o irmão (era inevitável!) e interpretaram («Achas que eles sabem o que a gente vai cantar?...» a canção com que arrecadaram o prémio do Eurofestival. Nada de bazófias ou de ares de pompa… «Olhem, tanto o João como o Carlos foram pais no mesmo dia e ambos de uma Maria. Eu, se este for rapariga será Maria também, se rapaz vamos chamar-lhe José. Não sei se terá a profissão que o João Monge deu a um José do seu «Jardim Roma»: carteirista!...». «Jardim Roma», um texto ímpar que é apresentado como «dedicado a todos os piratas e as princesas que brincam e que sempre brincaram nos jardins desse mundo a sonhar com o que seriam no futuro». Divertimo-nos. Com esse e com o «paspalhão», também de João Monge, a história da menina que se faz ao piso a um paspalhão, porque… «Já bebi pelo teu copo / Deixei os lábios marcados / Não entendeste o piropo / Que é coisa de namorados»… Assim. Uma delícia. Memorável. «E agora eu faço aquela cena de me ir embora e vocês continuam a bater palmas, a bater, e eu sou forçada a voltar». Voltou. Com o irmão, que imitou, com a voz, um trombone.
            Ah! Não poderia esquecer de assinalar que o atrás referido «clima de jaze» se manteve, porque, de quando em vez, um dos músicos saltava para a ribalta a solo, mostrando quanto sabia. E brilhava. E era saborosamente aplaudido.

Camané

            Deliciou-me também o concerto de Camané, pretexto para – além de nos cantar os êxitos maiores do seu repertório («Sei de um rio / Rio onde a própria mentira / Tem o sabor da verdade […] Meu amor, dá-me os teus lábios! Dá-me os lábios desse rio / Que nasceu na minha sede!») – nos encaminhar para o mundo antigo e venerando do Marceneiro, tema maior do seu último disco.
            Casa Camané, pelo timbre grave da sua voz e pela suavidade que empresta ao seu cantar, o fado doutras eras, clássico sem nunca cheirar a bafio (será sempre eterna a Casa da Mariquinhas!...), com as novas ressonâncias de agora.
            Sim, Camané trouxe fado genuíno. ¿ Mas quem ousaria falar deste concerto sem realçar o virtuosismo (cá está outra palavra delida, mas não tenho outra, caramba!) do José Manuel Neto a tratar por tu, extraordinariamente, a guitarra portuguesa, bem acompanhada sempre, nos seus desvarios deliciosamente excêntricos, pela viola de Pedro Castro e pela bem compassada sonoridade grave do contrabaixo de Paulo Vaz.
            Depois da tal cena da saída, com os fartos aplausos, de pé, a postularem encores (que é como quem diz, assim mais um ou dois fados para o deleite…), Camané voltou e quis homenagear João Ferreira-Rosa (que, aos 80 anos, em Setembro passado nos deixou), «chamando» de novo, a terminar, Alfredo Marceneiro e o seu «sonho dourado», o de qualquer fadista de raça: «Sonho que minha alma quer / Que é morrer cantando o fado / Nos braços de uma mulher»!
            E lá vai mais um lugar-comum a que não resisto: na noite do dia 14, sábado, o Fado morou no Estoril!
Agradecimento: fotografias gentilmente cedidas pelo Gabinete de Comunicação do Casino Estoril.
 
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Cyberjornal, edição de 15-04-2018.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Balas e Purpurinas

            «Balas» a gente sabe o que são: atiram-se com intenção de magoar e, até, de matar. «Purpurinas» já é mais complicado e há que ir ao dicionário. Lá diz que é um «insecticida extraído da raiz da ruiva» ou, ainda, «bronze moído, misturado com óleo, e que forma uma espécie de verniz». Insecticida e bronze moído… que irá sair daí? Coisa boa não será, decerto! Venenosa há-de ser!

            Pois «Balas e Purpurinas» foi o título dado pela ArtFeist (a companhia que tem como ícones os irmãos Feist, Henrique e Duarte) ao espectáculo que estreou, a 29 de Março, no auditório do Casino Estoril e que aí vai manter-se até ao próximo dia 29, de quinta a sábado, às 21h30, e ao domingo às 17h00. Em subtítulo se explicita o conteúdo: «O Lado B da Eurovisão».

            Compreende-se: uma viagem pelos bastidores, por aquilo que pode suspeitar-se, se suspeitou, mas não se viu. Uma hora de bem divertida panorâmica disso mesmo, da influência das políticas nos insondáveis pormenores de um espectáculo que move milhares, encanta milhões e, por isso mesmo, os poderes têm o olho nele, não vão os actores pôr o pé em ramo verde e daí venham maus tratos para os interesses instituídos e em jogo.

            Rimo-nos, pomos a mão na consciência, ficamos esclarecidos e, sobretudo, encantados com o dinamismo sequencial do espectáculo e as brilhantes actuações de vozes bem modeladas, versáteis, capazes de se adaptar aos mais diversos estilos musicais. Dora, Catarina Pereira, o próprio Henrique Feist (o irmão, o Nuno assina a direcção musical), Valter Mira e Augusto Gonçalves deliciam-nos com o seu virtuosismo vocal, servido pela ajustada coreografia de Marco Mercier.

            Por conseguinte, como é natural, um espectáculo que vivamente se recomenda.


                                                                       José d’Encarnação


Publicado em Cyberjornal, 2018-04-12:

http://www.cyberjornal.net/cultura/cultura/teatro/balas-e-purpurinas

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Distracções…

Era graciosa hortinha, que dava gosto ver. Um projecto camarário
ainda por concretizar obrigou ao seu imediato abandono.
Cresce a erva, suspira a estrelícia e... mais de dez anos passaram!
            Para aproveitar o abrigado logradouro do prédio, um dos vizinhos, ancião, decidiu utilizá-lo para pequena horta e, até, para algumas flores. A sua entretenha. O recanto, um mimo! Passaram os senhores da Câmara e ordenaram a imediata destruição de couves, alfaces, cebolas… que nesse espaço, por detrás dos prédios, ia ser feito um jardim. E o ancião, de lágrimas nos olhos, destruiu. Há dez anos. No lugar da inocente hortinha cresce agora a erva, há um pé de salsa aqui e ali, uma estrelícia tenta sobreviver… Do jardim camarário… nem o cheiro!...
            Distracções.
            Tinha a equipa de obras 5 pessoas. Uma sofreu um acidente, está de baixa; outra tem um reumático danado; as três restantes optaram por ir ao médico de família, que andavam mal da cabeça. Coisas da psiquiatria. O médico de família não podia passar baixa por essas coisas da cabeça, mas passou. Baixa prolongada. Distraiu-se. E os 5, uma pechincha a não desaproveitar, porque, pela ADSE, ganham mais de baixa que ao serviço! Não há equipa para obras? Que se danem!
            Excelente oportunidade, aquele espectáculo de lotação esgotada, 200 pessoas. Oferece-se cocktail de boas-vindas e, assim, dão-se a conhecer os nossos vinhos: tinto, branco, rosé. Distraíram-se, porém, os promotores. Para 200 pessoas, uma senhora só, por mais eficiente que seja, é pouco. Formaram-se filas. Rosé tem de ser bem fresco – e esqueceram-se de mais recipientes com gelo.
            No recanto do átrio espalharam-se três mesas de pé alto para os pratinhos dos salgados. Olha, é óptima para nos encostarmos à conversa! E as duas senhoras plantaram-se ao redor da mesa, acompanhadas por um cavalheiro que puxou do telemóvel e o pôs ao lado dos pratinhos, tranquilamente a ver as mensagens… As senhoras na conversa. E os convidados pediam licença para tirar um salgado. E as senhoras, concentradas na conversa e distraídas do cocktail para 200 pessoas, não arredaram pé, até que a porta do teatro abriu.
            Entre as mensagens que me pedem para divulgar há os call for papers. As revistas ou os organizadores de reuniões científicas utilizam a Internet para publicitarem as edições ou os temas das reuniões e a sua calendarização. Apelam, por isso, a quem se disponibilize com um artigo ou comunicação, o que, em inglês, se diz paper, «papel» – que é, aliás, cada vez menos papel e mais escritas no mundo digital.
            Já sei que, embora me dê ao trabalho de pôr no «assunto» o título certo e mude para português de gente tudo o que é «flyer», «call», «info sheet», «newsletter», «abstract», «website» and so on (que quer dizer: etc.), já sei que tenho de estar muito atento, pois é assaz frequente que amigos meus aproveitem a boleia do título e, até, mantendo o que lhes enviei, me escrevam a tratar de um assunto pessoal que nada tem a ver com o «subject» (leia-se «assunto») em epígrafe. Distracções! Ou será preguiça? Ou um viver bem apressado, não tenho tempo para nada, isto é um horror!...
            Confesso, porém, que pasmei outro dia. Já não tenho idade para pasmar; mas desta vez pasmei mesmo e até perguntei ao meu amigo se fora ele que escrevera. É que eu anunciara (também em título) um desses call for papers (claro, pus «chamada de colaborações»…); ¿ e não é que esse amigo, que até é licenciado há um ror de anos e ocupa cargo de responsabilidade, me respondeu assim:
            “José, agradeço .houve este ano enviar .conta comigo.um abraço”
            Tal e qual. Com os pontos onde estão e este «houve» que deve ser algo como «eu vou» disléxico!...
            Uma linha só e sem qualquer sentido. E para mim que nada tenho a ver com a revista anunciada!... Fiquei altamente preocupado, confesso.
            E distracções destas eu presencio às dezenas todos os dias.
            Onde é que vamos parar?
                                                           José d’Encarnação

Publicado em Costa do Sol Jornal (Cascais), nº 227, 2018-04-11, p. 6.

Camané canta Marceneiro

            Constitui sempre um bom acontecimento o facto de se projectarem sessões de fados nalguma das salas do concelho de Cascais.
            Será saudosismo da minha parte esta afirmação, porque vivi com alguma intensidade os anos 60, quando Cascais era, noite afora, o «fado fora de portas», designadamente em Birre e também na Torre e nós íamos ao Estribinho (depois, D. Rodrigo) ouvir a Teresinha Tarouca, o Manuel de Almeida, o Rodrigo (claro!) e tantos outros! Na vila, era o Arreda (com o saudoso Chico Stoffel!...) e também o Estoril não ficava atrás.
            Congratulo-me, por isso, com o concerto, previsto para o próximo sábado, a partir das 22 horas, no Salão Preto e Parta do Casino Estoril. Primeiro, porque o Camané representa, a meu ver, aquela fase de transição entre o fado à maneira antiga e o fado da nova geração: não deixou de ter esse estilo dos anos 60 e soube envolver fados em roupagens de agora. Depois, porque, nesse espírito, andou muito bem ao agarrar no património que Alfredo Marceneiro nos legou.
            O serão de sábado poderá ser, pois, assaz agradável encontro para duas gerações!

                                                           José d’Encarnação

Publicado no Cyberjornal, 2018-04-11:

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O catedrático regressou às origens

             Não, não vou escrever sobre esse, que é equiparado; escrevo sobre um verdadeiro, que o é desde 05-06-1991 e que, tendo-se aposentado, largou a Lusa Atenas e demandou o lugar de Calvos, na freguesia de Sarzedas (Castelo Branco), onde nasceu a 19 de Outubro de 1945. Exacto: João Lourenço Roque, que foi docente de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Em sítios assim, corriam
as palavras e os sonhos
que eram só nossos...
            Uma vida, agora, de agricultor e de aldeão empenhado, que mensalmente vai retratando nas crónicas que envia para o Reconquista, de Castelo Branco. Retratos d’alma, retratos das gentes, apontamentos das vidas, reflexões que o dia-a-dia lhe proporciona… Pelos seus escritos perpassam os nomes de vizinhos e de familiares, conta-se dos muitos que vão fenecendo numa região privada de juventude… Os nomes: a prima Alice, o Ti Luís, a prima Maria Rosa... Não há já quem queira, na maior parte dos jornais locais, ter a secção de necrologia, seguramente a mais lida de todas; e João Lourenço Roque não hesita, também por isso, consciente ou inconscientemente, em dizer o nome de quem saudosamente partiu.
            O ciclo da aldeia. O varejo da azeitona, a apanha dos tortulhos, o voo da cotovia, o primeiro sinal do cantar do cuco (ai, os tortulhos «cuquedos» que já não prestam!…)… O desejo de um melhor viver para anciãos e não só. Os poços que são ratoeira e que importava sinalizá-los ou vedá-los. As noites de lobisomens, as bruxarias. O ronronar das gatinhas meigas, uma companhia quando outras já vão faltando. A importância enorme dos animais domésticos. As moças bonitas da cidade («Teus olhos é que me matam!»). As festividades tradicionais.
            O mundo está, todavia, ali. Não apenas os versos de António Salvado ou as letras dos fados de Ana Moura, mas a tragédia do Chapecoense, o horror da estrada de Pedrógão Grande, a busca dos pokemons, o Marcelo que aparece agora todos os dias…
            Se, ao longo das páginas destas «Digressões Interiores 2» (edição de Palimage, 2017), com 59 crónicas, de 2011 a Julho de 2017, João Roque não hesita em empregar a típica terminologia aldeã – atitude de muito aplaudir! – o certo é que não resistiu a, na crónica 52 (p. 219-222), esboçar eloquente glossário de termos próprios dali. «Chicolate», «braboleta», «linterna» serão, por exemplo, formas que noutras regiões se encontrarão, como deformação oral, mas quem há aí que saiba que escamunguer é estragar ou que infoucedo é… um fraco? O que o Povo sabe!...

                                                                                José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 728, 01-04-2018, p. 11.