segunda-feira, 24 de julho de 2017

Alecrim ou rosmaninho?

             Puseram-me na frente o prato com aquele requinte ora em uso: pouca comida disposta com elegância, pois sempre se disse que os olhos também comem.
            ‒ Alecrim, disse eu – e apontei o raminho que dava ao prato esse toque de requinte.
            – Rosmaninho – corrigiu o meu amigo italiano.
            E eu, que sempre ouvira falar em alecrim e em rosmaninho como sendo duas ervas aromáticas diferentes, ia armando uma discussão botânica entre os colegas, toda a gente a pegar nos telefones e a aceder ao Google para saber quem tinha razão.
            Pasmei: em italiano, alecrim diz-se «rosmarino»! E, regressado a Portugal, lá tive de recorrer à nossa são-brasense especialista em ervas aromáticas, a Doutora Maria Manuel Valagão: que sim, rosmaninho é uma coisa e alecrim outra! Acontece que só nós é que temos essa diferença vocabular, resultado do nosso ancestral contacto com os Árabes:
            – alecrim vem do árabe «al-iklil» e Lineu chamou-lhe Rosmarinus officinalis»;
            – rosmaninho, ao invés, é de origem latina, «rosmarinus».
            Ficou claro? Não! É que no sábio Dicionário da Academia, por exemplo, na palavra «rosmaninho», declara-se: «Do lat. Rosmarinus ‘alecrim’» e que tem como nome científico, dado por Lineu, «Lavandula Stoechus».
            Ora bolas!... Em que ficamos? No livro «Tradição e Inovação Alimentar» (Colibri, Lisboa, 2008, p. 186), de M. M. Valagão, fala-se na «utilização de rosmaninho ou de alfazema para preparar sobremesas à base de frutas». Pronto: está nova confusão instalada!
            À alfazema também se dá o nome de lavanda, mas da lavanda só se diz que é boa para a perfumaria, utilização comum à alfazema (do árabe «al-khuzāmâ»)!... E para a alfazema escolheu Lineu um outro nome: «Lavandula spica».
            Portanto, uma conclusão é certa: tanto o alecrim como o rosmaninho são… «rosmarini» e… cheiram bem! O resto… os botânicos que se entendam!

                                                           José d’Encarnação
 
Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 223, Agosto de 2017, p. 15.
Moita de alecrim selvagem (alfazema?) numa encosta
perto da aldeia de Dornes (Foto de Ana Júlia)
Moita de alecrim, no Hyde Park, em Londres (Julho de 2017)


10 comentários:

  1. Pois em Portugal sempre ouve esta confusão entre alecrim e rosmaninho com em zona de lingua alemã entre bela luisa e erva cidreira. O que conta é naturalmente o nome latim dos botânicos que internacionalmente estabelece a diferença.

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  2. Luisa Bernardes Ontem às 12:52
    O Lineu é que a sabia toda, eheh!

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  3. Fabio Liborio Rocha Ontem às 13:23
    Interessante mesmo.

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  4. Isilda Marques Ontem às 13:26
    E além de cheirar bem, o rosmaninho ou alecrim dourado, que nasce no campo, sem ser semeado, como canta povo e bem, também se utiliza na gastronomia, eu pelo menos uso em vários pratos. tem um cheiro e sabor único. Um abraço, boa semana.

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  5. Clara Costa Ontem às 15:04
    Alfazema ou Rosmaninho
    12-03-2014
    Nome Científico: Lavandula
    Família: Lamiaceae
    Nome comum: Alfazema, Rosmaninho ou Lavanda (em português do Brasil)
    Muitas pessoas confundem o Alecrim (Rosmarinus officinalis) com o Rosmaninho (Lavandula sp.), graças à relação fonética próxima com o nome do género que identifica a primeira planta.
    Todos os rosmaninhos pertencem ao género Lavandula.
    Em Portugal, surgem cinco espécies de Lavandula: L. pedunculata (dividindo-se nas subespécies pedunculata, sampaiana e lusitanica), L. luisieri, L. viridis, além da L. latifolia e L. multifida, duas espécies menos abundantes e distintas das primeiras. Todos são pequenos arbustos lenhosos, facilmente identificáveis pelo aroma e pelas espigas violetas que coroam a pequena copa.

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  6. Fabio Liborio Rocha Ontem às 15:44
    Oi amigos, estamos a falar cá em Brasil, as duas palavras, sobre o mesmo objeto: lavanda ou alfazema. Eu uso como perfume. Bom enquete, belo

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  7. Vasco Silva
    alecrim para o Rosmarinus officinalis e rosmaninho para as espécies de Lavandula espontâneas no país, deixemos alfazema e lavanda para as Lavandula francesas, algumas destas cultivadas.

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  8. Fremioth Viegas
    Sabia que era diferente, fiquei a saber a origem das palavras.

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  9. Antonio Sartori
    domingo, 30 de Julho de 2017 11:01

    Caro José,
    leggo la tua dotta disquisizione ‘rosmarinica’ e vedo che sei arrivato ad un punto fermo: la massima incertezza!
    Ricapitolo dall’Italia: per noi rosmarino è uno e uno solo e inconfondibile: la pianta ha portamento strisciante allo stato libero, ma facilmente eretto se appena indirizzato. Anche i fiori sono inconfondibili: piccolissimi a calice di colore azzurro chiaro (non altro mai), raccolti non in spighe (come molte varietà di lavanda o lavandula), ma distribuiti lungo la sommità dei rami ‘nuovi’, cresciuti e spuntati nell’anno, teneri e non ancora legnosi come quelli più vecchi. Infine, inconfondibile anche profumo e sapore, presenti sempre nelle preparazioni di cibi arrostiti o fritti (anche con olio, ma specialmetne con il burro). Per me rimane l’equivoco, perché se alecrim corrisponde a lavandula spicata, non so se può trovare impiego in cucina (sì comeodore antizanzara, sì come profumo nei cassetti della biancheria, ma non – o forse sì – nei cibi).
    Antonio

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