sábado, 30 de agosto de 2025

Cumplicidades políticas… há 2000 anos!

             Por se tratar de mui desajeitada pedra que, provavelmente, um dia até escacilharam para dela fazerem cunho de abóbada; por ter, devido a isso, sofrido tratos de polé, e poucas letras lhe restarem – não mereceria, de facto, a atenção de algumas linhas de texto.
Decerto foi isso que aconteceu, nessas mudanças de espólio do Palácio Episcopal do Senhor Dom Frei Manuel do Cenáculo para Évora: deixaram da mão a coitada, que já tivera como destino consolidar o alicerce duma construção.
Sucedeu, porém, que o Senhor Bispo, ainda que vendo-a assim tão maltratada, não esteve com meias medidas e mandou que a desenhassem e que constasse o seu achamento na Rua do Touro, no alicerce das casas de José Joaquim de Oliveira, nesta cidade de Beja.
 
  
 
Como se vê pelo desenho, que tem o número 43 na pasta que o prelado nos deixou e está na Biblioteca Pública de Évora, pouco se enxerga ler que jeito tenha. Frei Manuel do Cenáculo ainda acreditou que ali se falava de um tal Clódio mas nada mais adiantou.
Coube ao investigador alemão Emílio Hübner dar conta, no relatório que, em 1861, apresentou à Academia das Ciências de Berlim, que, com um pouco de imaginação e alguma sabedoria, esta pedra romana com letras poderia ser o testemunho vivo da homenagem que um servo, Modesto de seu nome, teria prestado, a expensas suas, ao seu senhor, um cidadão muito possivelmente chamado Clódio Quadrado e que fora edil, função que aparecia nomeada isoladamente, em boa letra e bem centrada, na linha 3.
Nada de especial até aqui, pois que, amealhando pecúlio ao longo dos anos, um servo poderia dar-se ao luxo de gastar parte dele em gesto seguramente de gratidão.
Há, no entanto, um pormenor não de somemos: é que Quadrado recebe a homenagem na qualidade de edil! E esse aspecto carece de ser bem assinalado, pela significativa importância que detém. Daí estar isolado e centrado na linha!
Todavia, antes de se explicar o que é isso de ser edil e o que poderia estar, afinal, por detrás da (aparentemente singela) homenagem de um servo ao seu senhor, importa que se diga ter sido aceite pelos investigadores subsequentes a interpretação inicial proposta por Hübner.
Assim, ele próprio a incluiu, com o nº 50, no seu Corpus das Inscrições Latinas da Península Ibérica publicado em 1869. E daí passou, sem objecções, para o catálogo das inscrições latinas da Espanha romana elaborado por José Vives, em 1971, sob o nº 552. O professor Júlio Mangas, que escreveu um livro sobre escravos e libertos na Espanha romana, também datado de 1971, não se esqueceu de aludir a esta epígrafe na página 62, por referir um servo, datando-a do século I. Também Julian de Francisco Martin, no nº 1 da revista «Memorias de Historia Antigua» (1977, pág. 238) cita Cláudio Quadrado como edil de Pax Iulia, acrescentando:
«Contamos com um Lúcio Clódio Salviano, filho de Marco, o mesmo que o nosso edil e também da tribo Galéria, como ele, flâmine de Pax Júlia. É, pois, lógico pensar que estavam aparentados e, inclusivamente, que se trata de dois irmãos. Mas não temos informação acerca do montante que o servo gastou».
Anote-se que esta referência de Julian de Francisco se baseia numa informação hipotética, o que não invalida a afirmação de que haja, em Pax Iulia, outros membros desta família Clódia.
 A leitura interpretada de Hübner não sofreu, por conseguinte, contestação e, à falta de alternativa, foi aceite e integrada em posteriores catálogos das inscrições romanas, nem sempre os autores se dando conta de estarmos, de facto, perante um texto deveras de interpretação duvidosa.
 E onde está, então, a cumplicidade política de que se fala no título?
 O servo poderia estar grato ao senhor; poderia ter no bolso a quantia necessária para pagar ao canteiro. Mas… o seu senhor não era um senhor qualquer! E o cargo que ocupa no momento em que a homenagem lhe foi feita é um cargo municipal de grande importância, porque o edil ‘mexia’ nas finanças locais! Não dizemos nós, hoje, por vezes, que o presidente da câmara é o edil máximo?...
Se o servo se sai bem do empenho, melhor se sai o seu senhor, porque vê o seu nome perpetuado num monumento público! E – aqui para nós – será grande maldade pensar que o próprio senhor secretamente instigou o servo a tomar a iniciativa de o homenagear? Não encontramos nós homenagens desse tempo em que o homenageado, ‘contente com a honra, pagou as despesas’ e faz questão de isso mandar gravar na inscrição? Porque seria? E quando, por exemplo, na cidade romana de Balsa (a actual Tavira) Mânlia Faustina consegue que os decuriões (o equivalente à nossa Assembleia Municipal) a autorizem a organizar um banquete público em homenagem ao irmão, Tito Mânlio Faustino, ‘modelo de piedade’, que foi duas vezes duúnviro (magistrado municipal) terá sido esta uma homenagem… inocente? Não estariam os Mânlios Faustinos em campanha eleitoral?

Essas são, na verdade, as cumplicidades políticas doutrora. Muito diferentes das de hoje?

José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo, nº 2262 (II série), 29-08-2025, p. 11.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Um mosaico romano com história para contar (III)

           
             
Escolhido o local e aceite pelo encomendante o tema decorativo proposto para o mosaico, havia que deitar mãos à obra.
Deve-se a Carlos Beloto –  além da paciência, da técnica e do saber com que foi, sob sua orientação e de Adília Alarcão, foi levantado e restaurado o mosaico do Oceano de Faro – o cuidado que teve em preparar também uma síntese acerca do que eram, ao tempo dos Romanos, as fases de construção de um mosaico. Com a devida vénia desses seus elementos me vou servir.
O primeiro passo era cavar o chão, aproximadamente com 50 cm de profundidade.
O fundo era, então, bem prensado e consolidado com placas de madeira e coberto com uma camada de pedras (statumen), que tomava normalmente a altura das pedras que o compunham. Seguia-se-lhe uma outra camada de argamassa grossa (rudus) e, finalmente, uma camada de argamassa (nucleus), na qual o tesselatum seria embutido.

Sobre esse nucleus viriam trabalhar o pictor imaginarius (o pintor das imagens), que concebera a imagem e as cores, e o pictor parietarius, que transferia e redimensionava o desenho para o pavimento.

            Ao levantar-se o mosaico de Faro, teve-se a grata e mui rara surpresa de verificar que algumas das tesselas estavam ‘manchadas’ pela tinta com que, na argamassa, se elaborara o desenho dos motivos.
Além dos dois pictores atrás citados, a confecção do mosaico exigia a presença do calcis coctor, que fazia o cimento; do pavimentarius, que preparava a superfície na qual o mosaico iria ser construído; do tessellarius, que se ocupava das partes mais simples do mosaico; e do musearius, a quem eram confiadas as partes mais complexas e as figuras.
Os pavimentos eram construídos in situ. E podemos imaginar tanto os pavimentarii como os tessellarii a trabalharem de joelhos ou agachados no chão. Calcula-se que poderia demorar a construir muito perto de três meses um suporte de mosaico desde o início (escavação do terreno) até à construção do tesselatum. Uma tarefa ingente!
Mais não fosse por isso, a preservação e recuperação deste mosaico logrou merecer todo o empenho da equipa do Museu de Conímbriga, especializada nesse tipo de trabalho. Nas páginas 225-226 do nº X dos Anais do Município de Faro (1980) minuciosamente descrevem Adília Alarcão e Carlos Beloto todas as fases por que passou o processo de restauro e consolidação desse extraordinário monumento histórico.
E cumpre, mais uma vez, lamentar que, logo no primeiro momento em que se procedeu à abertura da vala para as infraestruturas urbanas, não tenha havido quem, avisado e solícito, chamasse a atenção de quem de direito para as estranhas pedrinhas de cor que estavam a ser encontradas. Esse troço definitivamente se perdeu. Mais tarde, de boa parte se logrou salvaguardar.
E do que, resolvido todo esse moroso processo, hoje nos é dado observar há, por conseguinte, obrigação de contar. E isso é, aliás, o mais significativo: mostrar que interesse detém este mosaico para a história de Ossonoba.
Tema, pois, para a crónica do próximo mês

                                                           José d’Encarnação 

Publicado em Sul Informação, 25 de Agosto de 2025 

 

 

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

aculturações

     

   
    Falavam os historiadores de ‘romanização’ para identificar a influência exercida pelos Romanos colonizadores sobre as populações indígenas.
O fenómeno estava bem patente, por exemplo, nos monumentos epigráficos, uma vez que, por eles, se verifica claramente que mesmo os textos referentes a indígenas passaram a ser redigidos em latim e tanto os nomes de pessoas como os de divindades chegaram até nós latinizados.
Quando, porém o movimento descolonizador ganhou maior força no Ocidente, começou a proclamar-se que o uso da palavra estava errado, porque não houvera, da parte do governo central romano, uma ordem expressa para que tudo passasse a ser à romana. Daí que – até à semelhança do que ocorrera mais perto de nós, no contacto de civilizações diferentes – o termo ‘aculturação’ passasse a ser o preferido, porque, na verdade, ambas as partes em confronto acabavam por contribuir para o resultado final.
E, no caso português (o português nosso e o português do Brasil), há exemplos deveras curiosos nesse sentido:
– Camone: é um turista estrangeiro; a palavra deriva da expressão ‘come on’, «anda cá!», amiúde utilizada pelos turistas nos primeiros tempos.
– «à la guilho» é estranha e desajeitada corruptela, de uso culinário, da expressão castelhana ‘al ajillo’, literalmente ‘com alhinho’.
– Gilete: lâmina ou utensílio de barbear; vem do nome do seu inventor, o norte-americano King Camp Gillette (1855 1932).
– No português do Brasil uma fotocópia diz-se xerox, fotocopiar é xerocar, da marca inglesa Xerox. Inventado, em 1948, pelos físicos Chester Carlson (norte-americanos) e Otto Kornei (austríaco), este processo tem designação etimologicamente grega: de ‘cserós’ (seco) e ‘gráfo’ (escrever), por não usar tinta.
– Kodak foi, até à década de 90 do século passado, o nome corrente para designar máquina fotográfica, nome que deriva da marca, criada, em 1888, pelos norte-americanos George Eastman e Henry A. Strong.
– Freezer, em português do Brasil, é congelador, a palavra foi diretamente importada do inglês em que «to freeze» significa congelar.
Enfim, neste nosso mundo global, o que mais interessa é que, independentemente das palavras, os actos contribuam para uma cada vez mais desejável convivência pacífica.             

                José d’Encarnação

 Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 345, 20-08-2025, p. 13.

 

domingo, 3 de agosto de 2025

Conversar com flores

 

Reparaste em mim. Fico feliz. Viste as minhas florinhas? Sabes, ninguém repara nelas e a mim custa-me! Ah e a mim cortam-me! Nunca me deixam crescer. É raro eu conseguir mostrar a beleza das minhas corolas. Qualquer gretazinha em muro ou no chão me serve para eu me aninhar e viver. Vivo de pouco e cá vou ficando, enquanto me deixam. A ver as pessoas que passam. Tenho sempre um medo terrível que me pisem.

Vejo o teu cão, vejo os pardais e as rolas e os melros a beberem e, por vezes, a tomarem banho na pia que lhes destinaste. É a vida à minha volta. Eu gosto. Depois, aqui escondida na dobra deste degrau, sinto quantos entram e saem da tua casa. Apressados, uns; mas, de um modo geral, tranquilos, sem correria. Oiço o trinco do portão a avisar-me: «Vem gente!». Eu fico curiosa: «Quem será?».

 

Fotografaste-me com a sábia aplicação identificativa de plantas e, já percebi, ficaste a saber tudo sobre mim. Até deste um pulo – bem eu vi! – quando, arqueólogo como és, te apercebeste do meu nome: ruínas! E a seguir vem informação sobre o cientista que, pela primeira vez, me identificou: o botânico alemão Philipp Gaertner (1754-1825). Chamou-me cientificamente, em língua latina (fiquei toda babada): Cymbalaria muralis! Já viste? Nome bonito. Muralis, porque o meu reino é o dos muros, como tu, que gostas de encontrar as estruturas arqueológicas. E cymbalaria é giro, não é? Nada tem a ver com o cimbalino do pessoal do Porto, nome de bica por lá, devido à máquina La Cimbali que o prepara. Mas, se calhar, até tenho algo a ver com isso, porque… Olha lá o que diz o dicionário acerca de cymbalum, o címbalo: «Instrumento musical constituído por dois pratos ocos, de metal, que soam quando batem um no outro». Eu acho que não emito som nenhum. Mas gostava. Já viste o que era eu a saudar melodiosamente quem pisasse o degrau e viesse visitar-te? Já agora, diz-me lá o que mais dizem sobre as minhas características.

Está bem, faço-te a vontade, embora esta linguagem dos botânicos seja um tudo -nada hermética: «Erva vivaz, de glabra a pilosa, de caule até 60 cm». Puxa! Cresces bastante! Bem vejo as tuas amigas ali adiante a ganharem cada vez mais espaço, como quem se espreguiça na praia… Olha, diz aqui que as tuas flores parecem um rosto, de palato amarelo! É verdade: lembram-me as flores das orquídeas em miniatura muito miniatura. Vou mostrar aos meus amigos.

Bem hajas! Fico mesmo muito contente por teres conversado comigo. No fundo, sabes, é bem triste a vida de uma… ruínas! Acontece-lhe com muita frequência o que às outras ruínas, as das casas, sabes, acontece: deixam-nas arruinar-se ainda mais e lá vem o dia em que tudo arrasam, sem sequer fazerem o desenho do que restava. Hoje, porém, deste-me uma alegria… Obrigado!… Espera aí, não te vais embora ainda, porque tenho mais um segredo para te contar: é que eu pertenço à família das escrofulariáceas! Sabes porquê? Porque, outrora, os antigos, que percebiam dessas mèzinhas, usavam-nos para tratar das escrófulas, aquelas inflamações ulcerosas que tanto molestavam as pessoas, davam uma comichão danada e mau aspecto. Ora aí tens mais uma novidade para contar. Vês como, afinal, mesmo assim pequenina até eu servi para alguma coisa?!…

                                                                 José d'Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 3 de Agosto, 2025: https://duaslinhas.pt/2025/08/conversar-com-flores/

sábado, 2 de agosto de 2025

O imprevisível «apoio ao cliente»

            Nunca se sabe o que vai acontecer quando recorremos ao serviço de apoio ao cliente obrigatoriamente disponível em todas as empresas. É imprevisível.
Eu não hesito em contactá-lo, sempre que se me afigure de interesse. Interesse meu ou também de eventual interesse para a empresa.
Exemplifico.
Mudaram o sistema de abertura da embalagem de um produto de meu uso habitual. Uma mudança errada. Chamei a atenção. Alteraram. Congratulei-me.
Outro caso: sem razão plausível, o cereal dum lote chegou-me estragado. Tomei nota. Fotografei. Contactei. Pouco tempo depois, recebi uma embalagem em ordem, com o agradecimento da empresa. Eu próprio agradeci. Continuei cliente.
Duma outra empresa fui recebendo brindes por ser cliente fiel. Preparei com eles, em casa, um recanto simpático, que se me afigurou passível de também ser simpático para a empresa. Nada lhe pedi em troca; limitei-me singelamente a dar-lhe conhecimento do que preparara e que nos dera gozo criar. Certamente pensaram que desejávamos contrapartidas e nem sequer acusaram a recepção da foto enviada.
 
Muitas das embalagens de uso cotidiano apresentam, num canto, a expressão «Abertura fácil». Por experiência, afigura-se-me que nem sempre é fácil de todo. Achei, porém, a embalagem de um produto nacional em que – pasmei! - a abertura era mesmo extraordinariamente fácil! Dava-me gosto abri-la os tais dez minutos aconselháveis antes do consumo. Confesso que fiquei tão contente com a escolha que fizera – andava há muito tempo à procura de um enchido saboroso e simples para o pequeno almoço… – que me decidi comunicar o meu contentamento à empresa, salientando o caso da abertura fácil com que vivamente me congratulava. Nunca recebi qualquer eco.
Além do livro de reclamações, começou também, não há muito, a disponibilização de um livro para o elogio: «Aqui também pode elogiar!». Suspeito que de pouco servirá. Elogiar? Que é que isso interessa? É pena não haver esse hábito do elogio saudável e sincero. É pena o algoritmo do serviço de apoio ao cliente também não estar preparado para responder ao elogio, à sugestão construtiva. Urge fortalecer uma mentalidade em que o relacionamento com o cliente seja efetivo, eficiente e agradável.

Publicado no jornal Renascimento (Mangualde), nº 880, 21-07-2025, p. 10.

                                            José d'Encarnação 

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Bajoulo

            – Eh, môce! Aquilo são tudo fezes sem mezinha! Não há meio de o pessoal se entender! Foi assim a modos de um bajoulo que prantaram na estreiteza da vereda e não se pode mesmo passar! – queixava-se-me o Jòquinzito, embrulhado que está na teia da herança.
 – Mais valia uma pessoa não ter nada! – desabafava. –  É porque tem uma parcela 4 pés de figueira e a outra só tem 2;  ou porque, naquela, o valado tá fêto e nas outras não… Uma afeleação  pegada. E lá fomos pra tribunal.
– É o pão-de-cada-dia, amigo, o pão-de-cada-dia – retorqui-lhe eu, em vã tentativa de consolo.
 Ficou-me, porém, essa do bajoulo. De onde é que a palavra virá?
 No Dicionário do Falar Algarvio até se indicam sinónimos: bogueixo, bajalôco, jabôlo. Desses nenhum eu ainda ouvira falar nem constam dos dicionários; mas bajoulo já. E cá para mim – pasme-se! – eu acho que vem mesmo do nome latim «bajulus», que significa ‘carregador’, ‘galego’. ‘Bajulus,’ que está ligado (imagine-se!...) ao verbo ‘bajulare’, levar às costas!... Quem diria!?...
 Por uma daquelas estranhas veredas por onde a língua nos leva – a metonímia, por exemplo – aqui não foi o continente que serviu para designar o conteúdo, mas o agente carregador que serviu para dar nome ao que bem gostaria de carregar, se para tal força houvera. Não houve – e o bajoulo ficou no chão.

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 344, 20-07-2025, p. 13.

O bajoulo

sábado, 12 de julho de 2025

A lição do alperce

                

            Preocuparam-se muito os estudiosos da vida dos povos que viveram no território hoje português antes da invasão romana, no século II a. C., com o facto de o nome das divindades que apareciam nos ex-votos nem sempre serem os mesmos.

            O caso mais conhecido era o de uma divindade que tivera o seu templo em Terena, concelho do Alandroal, lugar de culto que viria a ser, desde cedo, ‘cristianizado’, pois aí se fez erguer uma igreja da invocação de São Miguel-o-Anjo. As escavações levadas a efeito nas proximidades comprovaram a existência de ruínas romanas e até se encontraram mais lápides dedicadas a essa divindade, conhecida dos historiadores desde mui remotos tempos.

            Só tivemos, porém, conhecimento da sua prístina existência porque os Romanos, em exemplar atitude de pacífica coexistência religiosa e cultural, não só permitiram que a população autóctone continuasse a prestar culto à sua divindade, como eles próprios não hesitaram em, também eles, lhe agradecerem favores concedidos ou lhe solicitarem protecção. Faziam-no, é bem de ver, à sua maneira,: em língua latina, de acordo com os seus formulários e, como os indígenas usavam palavras para eles estranhas, acordaram em dar a essa taumaturga divindade o nome que lhes parecia ter percebido quando perguntaram aos locais como é que ela se chamava.

Compreende-se, por conseguinte, o que aconteceu: cada qual acabou por entender à sua maneira e, se a maior parte dos ex-votos conhecidos aponta para a existência de um nome mais vulgarizado, Endovellicus (com dois LL ou só com um), certo é que se registaram já as seguintes variantes: Endovelecus, Enobolicus, Endovollicus, Endovolicus, Ennovolicus.

            Sim, amigo, tem razão: estou a falar do deus que sugeriu ao saudoso João Aguiar o romance A Voz dos Deuses (Memórias de um Companheiro de Armas de Viriato), editado, em 1984, por Perspectivas & Realidades, de Lisboa. Esse guerreiro era precisamente, no romance, um sacerdote de Endovélico!”

            Voltando à grafia do teónimo: a princípio, linguistas e epigrafistas demoraram-se a procurar etimologias diversas, susceptíveis de, por um lado, explicarem as prerrogativas da divindade (o nome podia estar ligado a isso, como se deu nome a Nossa Senhora do Ó na sua acepção de protectora das grávidas), ou, por outro, a pertença a diferentes estratos linguísticos primordiais. Na actualidade, porém, já essas concepções se estão a deixar de parte.

            E aqui entra a lição do alperce.

            Para mim, em pequenino, essa bem deliciosa fruta — que se arroga o direito de ser pêssego em miniatura e muito mais saborosa!... – não era alperce. Começou por ser almecoque, à boa maneira do Barrocal algarvio. E quanto me agradava (meu pai ensinou-me!...) raspar o caroço num pedaço de arenito até abrir uma fenda, tirar de dentro a polpa e fazer dele um assobio!...

Também lhe chamávamos albricoque e abricoque; e há quem diga existirem também as formas abrinocoque, albaricorque, albercoque, albicoque, alcócaro, alcocre e alvaricoque! Alperce, alpece ou alperche só vindo para a Grande Lisboa é que eu percebi que era a mesma fruta que o almecoque (também eu chamava alcagoita ao amendoim). E é, ainda que os dicionaristas acabem, às vezes, por pôr os pés pelas mãos.

Ora veja-se:

O meu velhinho Dicionário Complementar da Língua Portuguesa, de Augusto Moreno, dicionário que se proclama «ortoépico, ortográfico e etimológico», de que me sirvo da 5ª edição «melhorada e em rigorosa harmonia com as Bases do Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro de 1945», edição datada da 1946 e publicada pela Editora Educação Nacional, do Porto, pois esse meu companheiro diário garante-me que a palavra alperce ou alperche é um «damasco grande, de cheiro semelhante ao do pêssego» e é também «diospiro»! Seria, porventura, nessa longínqua década de 40, hoje não é. E, embora nada se tenha contra a cidade de Damasco, capital da Síria, raramente se ouve o nome de damasco para designar o pêssego, qualquer que seja o seu tamanho; poderá ser uma variedade, cuja origem radica no Médio Oriente. Agora, diospiro, amigo Augusto Moreno, essa é fruta bem diferente!

Informa ainda Augusto Moreno que, do  ponto de vista etimológico, «alperce» veio da palavra grega ‘persikós’ (περσικός), que significa literalmente ‘pérsico’, donde poderá ter vindo o árabe ‘albérchiga’. O fruto, dizem, terá vindo da China e, por isso, uma ligação ao Golfo Pérsico não parece despropositada. Já quanto a ‘albricoque’ viria do grego ‘praikókion’ (com o significado de ‘damasco’, dizem, mas eu não encontrei essa palavra), que teria dado, em árabe, «albarkuk».

Quiçá, porém, no meio deste enredo todo, algo de ainda mais interessante se possa apontar: é que «abricó» ou «abricotre» são palavras que existem no português do Brasil e os dicionários chegam a esclarecer que se trata dum «fruto brasileiro semelhante ao pêssego e ao damasco». Ora toma! Qual brasileiro nem meio brasileiro! É mesmo português de origem e fomos nós que o levámos para lá, à maneira antiga, na medida em que – sabe-se bem! – aí se continuam a usar vocábulos ‘clássicos’, nossos, d’outrora: veja-se ‘tombo’, ‘esteira’…

Posto isto, voltamos então à lição do alperce que nos levou ao, ainda mais longínquo, Endovélico: é grande a versatilidade da língua e o que interessava mesmo era que, apesar da versatilidade, todos nos entendermos! Pelo som das palavras e não pelo estampido das armas!

                                                        José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 12 de Julho, 2025: https://duaslinhas.pt/.../albricoque-almecoque-alcocaro.../