sábado, 24 de janeiro de 2026

Desforrei-me!

            Afinal, o leitor não lê apenas com o olhar, mas com toda a sua ideologia e antecedentes. Arqueólogo historiador lê um romance com olhos bem diferentes dos de um arquitecto paisagista ou de um antropólogo. Quis ler O País das Uvas para encontrar referências ao sítio arqueológico que a minha equipa escavara. Não achei. Quero agora desforrar-me!

Canova. Paulina Bonaparte como Venus vitoriosa, 1804-1808

Primeiro, sempre alerta como estou para as alusões ao hábito de «ir a banhos» – eco de a Família Real ter vindo para Cascais no final do Verão, a partir da década de 70 do século XIX – topei este sugestivo pormenor, no conto «A divorciada»: «Berta tem todavia a história mais planta de estufa que eu conheço. Aos quinze anos valsou com o Jorge, na Figueira, uma estação de banhos – Jorge, o que está secretário do ministro, o bem conhecido Jorge» (p. 79-80).

Figueira da Foz, célebre estância balnear do Centro do País, onde, na altura, antes do Casino Peninsular, o Theatro-Circo Saraiva de Carvalho (inaugurado em 1884) organizava bailes, em que, como se vê, até gente do Poder não hesitava em marcar presença. Tinha que ser!
Aqui, o historiador: a remeter para a minuciosa investigação levada a efeito pela Doutora Irene Vaquinhas – O Casino da Figueira. Sua evolução histórica desde o Teatro-Circo à actualidade (1884-1978).
A desforra do arqueólogo veio quando li esta passagem no conto «A princesinha das Rosas»: «O pai era cristão; não consentiu Deus que a pequenina vivesse a vida monstruosa dos pais, nos palácios da Babilónia submersa».
Poder-se-ia remeter para a Babilónia falada na Bíblia; há, porém, que notar quanto já se admiravam as descobertas arqueológicas feitas por Robert Koldewey, nomeadamente na cidade mesopotâmica de Babilónia…
Voltemos à Berta: Berta, explica Fialho, tinha um nariz «desmedido e fero, cujo modelo recusara sempre ao gesso dos museus de raridades».
É natural que se não entenda plenamente, à primeira vista, o significado desta frase. Refere-se ao hábito, que então se generalizou, de se fazerem moldes em gesso das mais notáveis esculturas clássicas (gregas e romanas) para se mostravam nos museus, quais verdadeiras gipsotecas, para os estudantes poderem, assim, apreciá-las.
            A Universidade La Sapienza, de Roma, dispõe de uma magnífica gipsoteca e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra viria a criar também, logo nos primórdios do século XX, um Museu Didáctico com a reprodução de peças arqueológicas achadas em território português, nomeadamente artefactos pré-históricos e inscrições romanas.
Creio, porém, que a alusão de teor arqueológico mais significativa do livro está, de certo modo, oculta nesta frase do conto «As vindimas».
«Tal é a evolução mitológica de Baco: psicologia do vinho, esmaltada num quadro alegórico, que eu vejo e revejo nas suas maravilhosas contramarchas, com os olhos absortos de Canova contemplando os frisos do Pártenon».
Mostra, em primeiro lugar, o conhecimento da obra do antiquário, arquiteto e escultor italiano Antonio Canova (1757-1822), justamente célebre pelas suas extraordinárias esculturas de divindades e personagens gregas e romanas, duma beleza sem igual.
Depois, sim, Canova admirou, sem dúvida, os frisos do grandioso templo erguido na acrópole ateniense, frisos em baixo-relevo que se devem a Fídias e cuja perfeição depressa se tornou quase lendária. Então, os pormenores da aí representada Procissão das Panateneias, a festa maior em honra da deusa Atena, encantavam de verdade!…
Por conseguinte, numa singela frase se denuncia como Fialho de Almeida – e, certamente, os intelectuais portugueses do seu tempo – estavam a par das descobertas arqueológicas da época. E, voltando à menção anterior, há ainda um pormenor que Fialho de Almeida não olvidou: o nariz. Certo é que a frase de Pascal (1623-1662) alusiva ao nariz de Cleópatra – «Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da terra teria mudado» – poderia, desde há muito, ter atravessado fronteiras; anote-se, contudo, que é o nariz que mais trabalho dá ao escultor, a ponto de necessitar sempre de o ter em conta quando se decide a esculpir a figura humana. Nesse âmbito, a real perfeição das esculturas de Antonio Canova concitam, de facto, a admiração universal.
E, por conseguinte, a possibilidade de assim evocar Babilónia (e – porque não? – a sua magnificente Porta de Istar, patente no Pérgamon, em Berlim), os frisos do Pártenon e o imortal Canova leva-me a perdoar a Fialho de Almeida não ter reparado nas ruínas de S. Cucufate. Desforrei-me!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas,  24-01- 2026: https://duaslinhas.pt/2026/01/desforrei-me/

Tudo tem o seu preceito!

           Há mesmo, na Instrução Primária, disciplinas escolares a ensinar os preceitos, complementando a educação recebida em casa, desde menino: «Não se come com a boca aberta!»,  «Não se olha para o telemóvel enquanto se come!»,  «Não digas palavrões!»…
Curiosamente, qual autómato, o que me surgiu na ponta da esferográfica foi o «não». Como os preceitos maiores que nos ensinaram, os mandamentos da Santa Madre Igreja, onde o ‘não’ predomina: «Não matarás!», «Não cometerás adultério»…
Aprendi a evitar o ‘não’ e a privilegiar o ‘sim’ –  que o fruto proibido, sabe-se, acaba por ser o mais apetecido.
A ideia de escrever esta crónica sobre o preceito, ou seja, da norma, do hábito,. do modo de fazer, adveio-me – imagine-se! –  da máquina de lavar loiça.
.Não me passara pela cabeça que havia preceito para pôr a loiça na máquina. Não há, é verdade, oficialmente. A não ser que os talheres se põem aí naquele recipiente expressamente preparado para isso, habitualmente no tabuleiro de baixo, num sítio certo.  O demais depende exclusivamente de cada um.
E não é que a acção de pôr a loiça na máquina constitui um dos mais inegáveis preceitos domésticos?
Primeiro: a quem compete essa missão? Ao marido? À mulher? À filha mais velha?
Depois, tem preceito. Se o homem calha a arrumar à maneira dele, lá vem a mulher: não é essa a posição do prato! E muda a posição. E vice-versa.
Não frequentei nenhum curso sobre comportamento matrimonial. Acredito, porém, que, no lar, normalmente, se outros ingredientes há passíveis de macular a relação quotidiana, este pôr-a-loiça-na-máquina pode constituir um dos itens a ter em conta.
Quem diria? Pode fazer-se uma ‘guerra” devido a aselhice simples:
– Não vês que os pratos não se põem assim? Quantas vezes é que eu preciso de te ensinar, caramba!

                                                                                   José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 350, 20-01-2026, p. 13.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pensar, pensar, pensar...

        Imagens de esculturas a que se convencionou dar o nome de «O Pensador» estiveram na base da reflexão que já se partilhou aqui Quiçá o tema seja, porém, inesgotável.
        Em primeiro lugar, porque «O Desterrado» – escultura em mármore de Carrara, que constituiu, em Roma, no ano de 1872, a prova final do curso de Escultura de Soares dos Reis – também poderia incluir-se nesse tipo de imagens, ainda que, neste caso, porque inspirado no poema «As Tristezas do Desterro», de Alexandre Herculano, possa constituir a saudade o sentimento maior que dessa imagem promana e não uma reflexão geral sobre a vida humana.
Depois, se a escultura tradicional angolana está envolta, como vimos, em multissecular halo espiritual, a peça escultórica carece de uma explicação que se não deu, mormente devido à singularidade esquemática do seu perfil. Daí que Helena Ventura haja comentado:
        «Não me importava de ter uma peça semelhante que, atendendo a tão remota Era, é perfeita tanto na beleza do material usado (basalto, turmalina?) como no posicionamento de tronco e membros.
        E é aqui, nesta semelhança entre mais e menos antigas, próximas e distantes, que o acto de pensar parece unir os homens de todas as gerações».
        E quase foi no mesmo sentido o que, por seu turno, Helena Coelho houve por bem escrever:
       «A imagem pré-histórica do Pensador é impressionante. Poderia ser uma escultura bem representativa do século XXI. Realmente o Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».
        Importa, pois, dar conta, desde logo, que a fotografia mostra a réplica oferecida, em Abril de 2012, pelo director do Museu Nacional de História da Roménia, de Bucareste, por ocasião da visita aí realizada por elementos do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa). A peça detém no museu o nº de inventário 15 906.

          

                                            O «casal» da época neolítica

        Trata-se de uma terracota e o que se apresentou foi apenas o elemento masculino de um casal – em inglês, «The Thinker and the Sitting Woman» – pertencente à chamada «Cultura Hamangia», datada do Neolítico Final, ou seja, aproximadamente de 5000 anos antes de Cristo. Mede 11,5 centímetros de alto e 7,5 de largura.
        A descoberta ocorreu em 1956, perto da povoação romena de Cernavodă, região de Constanţa, na bacia hidrográfica do rio Danúbio.
        Oportunas, sem dúvida, também pelo que ora acaba de se explanar, as palavras de Helena Coelho: «O Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».

                                          José d'Encarnação                                                                                

Publicado em Duas Linhas, 6 de Janeiro, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/01/transformar-a-pedra-bruta/

domingo, 4 de janeiro de 2026

Aquela imensa tristura…

             Olhava para o sítio dele. Ouvia-o chorar. Também me vieram hoje lágrimas aos olhos. Lágrimas que, subtilmente, pareciam rolar paredes abaixo até lá ao fundo, de onde eu ouvia outras lágrimas a pingar.
Transformavam-se elas em sorriso, quando sentiam o pequeno balde de zinco aproximar-se, sofrer um ajustado safanão que o deixava à banda, mesmo a jeito de receber uns escassos dois litrinhos de água bem fresquinha, vinda, não há muito, das entranhas mais profundas. Endireitava-se o balde e, à força de braços, vinha até cá acima beijar o luzidio da cimalha, ela a mostrar, ufana, os sulcos que o roçar das cordas, ao longo de décadas e décadas, lhe tinham feito.
Estou eu em crer que, há muitos anos, os baldes subiam cheios. Na década de 50, já pouco de meio passavam e era preciso ir de madrugada a apanhar a água acareada durante a noite.
 O poço do Corotelo ajudou-me a crescer. Sentia-me gente ao acordar manhãzinha cedo, antes do resto da família, para «ir ao poço». Sentia-me gente quando minha tia Chica me deixava ser eu a puxar o balde.
Por isso, tristura sofria nas últimas décadas, ao vê-lo envolto no mais incompreensível desprezo, só possível porque as chamadas ‘novas gerações’ não sabiam o que era ter sede e pareciam desconhecer o significado de nível freático.
Ali jazia a um canto, dir-se-ia,  o meu pobre amigo das infantis madrugadas.
Rejubilei, pois – não podia deixar de ser! –, quando, após tantas décadas de esquecimento, o Amigo Vítor Barros me enviou foto da jubilosa placa a perpetuar a iniciativa da Junta de Freguesia. Que bom!

Confidenciou-me o poço – com a mais que septuagenária amizade que nos liga – que voltar a ser o que era dantes, a dar de beber a quem tinha sede (era assim que rezava a obra de misericórdia…) o enchera de alegria! E compreendia bem que, na natural impossibilidade de se abrir de novo (os tempos bem são outros, amigos!...), a ideia de se mostrar bonito, caiado e com banda azul o redondo da sua boca, e a oportunidade de, através de pequena abertura gradeada, ser possível ver-lhe a fundura e, quiçá, em determinados momentos, até ouvir um saudoso pingar fresquinho.
Ideia boa, presidente João Rosa! Prossiga nesse caminho – que, aí, nós estamos sempre consigo!

                                               José d’Encarnação 

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 349, 20-12-2025, p. 17.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Natais em vias de extinção

            

            Sempre há lugar para a recordação do madeiro do Natal; das filhoses feitas ao lume das lareiras; daquele copinho na adega, vinho novo a sair da pipa; do encontro na  «missa do galo»; dos cânticos ao Menino Jesus…
Lembranças de anciãos serão; mas, felizmente também, vontades há de gente nova a consciencializar-se de que, em comunitária celebração, amizades se cimentam e, afinal, sempre é salutar manterem-se e renovarem-se tradições.
Raízes das árvores que somos, individual e colectivamente. Os ramos cortam-se uns, ajeitam-se outros; as raízes, essas, hão-de merecer todo o carinho e atenção.
Aqui e além, tanto no sofisticado Portugal urbano como no maior sossego do Interior – longe do movimentado bulício das «cidades-natais» e das «aldeias-natais», dos canitos vestidos «à Pai Natal», fogos-fátuos do mercantilismo balofo… – há ressurreições que se aplaudem, a recuperar (abençoadas!) o que outrora fazia sentido e fomentava comunidade familiar e vicinal.
E artistas há, que, à semelhança de Fra Angélico e da sua «Adoração dos Magos», dão largas a mui terna sensibilidade e plasmam de mil e uma maneiras, em todos os formatos e na maior diversidades de materiais, a eterna cena da Natividade. Isoladamente, apenas com três ou quatro pastores, ou, em explosão de alegria e convocando (dir-se-ia) o Universo inteiro, como nos presépios de Eugénio de Castro.
Veio a festividade cristã do Natal implantar-se na solenidade romana do «Dia Natal do Sol Invicto». Sol Invicto era uma divindade; o Menino, na Sua nudez, também.
Confesso desconhecer o significado último da expressão (e do voto) «Feliz Natal». Tenho dificuldade em usá-la. Prefiro desejar para essa derradeira semana do ano civil serenidade e saúde, no voto de que todos aprendamos a viver mais devagar.

José d’Encarnação 

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 885, 20-12-2025, p. 10.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Impulso feito papel

             Síntese de uma larga experiência que não resulta de aprendizagem mas intimamente se insere na sua própria vivência atual e anterior, compendia este livro o que Sofia Teixeira vem, desde há muito, experienciando, em si e em todos os que com ela se estão cruzando.
Noções fortes, convicções profundas, dia após dia fortalecidas, comprovadas, vividas – em si e nos outros.
 Tem-nas partilhado com quantos procuram nas suas palavras e no seu olhar solução para uma vida mais autêntica, mais consciente, mais serena. Sentiu, porém, a necessidade – impulso feito papel… – de,  também ela, a partilhar em livro, a fim de, tendo-o à mão, na mesinha de cabeceira ou naquele ângulo especial da sala-de-estar, facilmente se pudesse ceder  – mesmo que, aparentemente dito como “por acaso” (que nunca o é!) – ao impulso sentido de buscar, no instante, Iluminação.
 Foi por isso – quiçá inconscientemente – que Sofia não deu aos capítulos – não pôde dar! – aos oito capítulos títulos simples, lapidares, como seria habitual. E se, no último, quis partilhar testemunhos e, no penúltimo, nos desvenda sua alma e seu trajeto juvenil, logo o segundo acentua uma verdade fundamental a urgentemente consciencializar: «Todas as doenças têm uma origem emocional» – e há que olhar para os sintomas físicos como reflexo directo dum pensamento negativo.
Amiúde se fala, de facto, da fortíssima carga que o pensamento acarreta em todos os sentidos, no bom e no mau. Já em 1974 Emmet Fox o proclamava em Le Sermon sur la Montagne: «O que o homem semeia em pensamento o colherá sob forma visível e tangível». Para, de seguida, ser mais peremptório: «Nós escrevemos a história futura da nossa vida com os nossos pensamentos de hoje. Tenhamos os pensamentos certos e, mais tarde ou mais cedo, tudo correrá pelo melhor».
É justamente nesse sentido que singra toda a mensagem de Sofia Teixeira: que é isso de abandono, rejeição, humilhação, injustiça, fobias, depressão (capítulo 3º)? Vamos parar, fazer silêncio, escutar, auscultar mesmo! E se descobrirá a razão. E se lançará mão da “medicação” adequada.
Tudo neste livro é, pois, para se ter na devida conta. Permita-se-me, no entanto, que encareça, desde logo, duas atitudes – como elas andam cada vez mais alheadas deste mundo!... – a gratidão e a humildade.
Começa o cânone da missa católica com a frase «É verdadeiramente digno e justo, razoável e salutar dar-vos graças, Senhor, em todos os lugares e sempre!». Tantas vezes o ouvimos; decerto, poucas serão as que o pomos em prática. E nem sequer nos apercebemos duma das palavras que aí está: salutar!
Depois: humildade. Quanto mais experiência vamos adquirindo, mais nítido se nos antoja o imenso horizonte do que não sabemos, da pequeníssima gota que somos na infinita imensidão do Universo.
Finalmente, e que Sofia me perdoe se é esse o aspecto que vou acentuar: o que chama «Curas na Natureza». Já passámos milhares de vezes por aquela árvore, por aquela hortênsia lilás… E quantas vezes decidimos parar junto delas uns segundos a admirar-lhes a beleza, a acariciar-lhe o volume da corola, a… agradecer a sua existência a nosso lado?
 Bem hajas, pois, Sofia, por existires nas nossas vidas e pela partilha que, mui ternamente, ora nos vens oferecer!

Cascais 19/06/2025
 

Prefácio ao livro Despertar a Alma… Re-conhece o Divino que há em ti, de Sofia PsiLuz Teixeira. Carnaxide: Cordel d’Prata, 2025, p. 13-15. ISBN: 978-989-790170-6

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Os velhos, ai, os velhos!...


Nas suas «Digressões Interiores», o Doutor João Lourenço Roque assume a sua velhice – 80 anos recentemente completados – e se, aqui e além, nas suas crónicas, declara ter largado a investigação histórica em que a sua docência se alicerçava («encerrada a vida maior na universidade», escreve) certo é que – dedicado à agricultura, à pastorícia e à apanha de frutos silvestres (Digressões Interiores 4, 2025, pág. 57), considera – e bem!  que são os seus livros «vozes, ecos e rastos do interior profundo». Ou seja, deixou, oficialmente, de ser professor, mas nunca esse jeito perdeu.
A docência sempre foi encarada por ele como reflexão, ou não fora a História, como escreveu Cícero, “mestra da vida”. Por isso, seus gritos d’alma aqui estão para serem ouvidos, mesmo que o asfixiante turbilhão em que os governantes se movem lhes não deixe espaço nem tempo para parar. E deviam. Todos, aliás, devíamos saber parar e atentar, por exemplo, neste drama (cito João Lourenço Roque):
«O que realmente me pesa e perturba são as agruras que, a cada passo, espreitam e atingem os idosos. Sobretudo os idosos não digitalizados, Se lhes faltam mãos amigas, estão perdidos. Basta pensar no que lhes acontece quando, na boa fé, telefonam para algumas entidades públicas ou privadas a fim de resolverem pequenos ou grandes problemas e dificuldades. Ficam pendurados a ouvir música e anúncios ou sujeitam-se à ladainha de “vozes gravadas” que repetidamente os dizem marque 1, marque 2, marque 3, marque 4… – e a mensagens escritas que os “encaminham” para a internet através de gatafunhos digitais. Pobre de quem é velho e analfabeto como eu!».

Que valente punhada esta, senhores!

                                                                       José d’Encarnação

    Publicado em Renascimento  (Mangualde), nº 884, 24-11-2025, p. 24.