sexta-feira, 1 de julho de 2016

Fizeram da língua uma coisa estuporada!

                       Acabo de ler, de rompante, o livro «o eu desconhecido», de Carlos Carranca. 76 páginas, cada uma com 3 linhas apenas, em jeito de máxima que te obriga a reflectir. Ou seja, primeiro fazes como eu e lês tudo duma assentada, um terceto atrás do outro, sem parar. Chegas ao fim, anotas que leste e… ficas com a ideia clara de que, de facto, não leste. Porque ler implica assimilar, ver o que está por detrás da palavra. Por exemplo, umas das frases (o autor deve chamar-lhe ‘poema’ e poema será decerto), uma das frases reza assim
                           Na tua morada
                           sabes quem lá mora
                           ou habitas sozinho?
            Ora bolas! Eu tenho mesmo de parar. Que morada é essa? E quem é que está a teu lado? Sabes mesmo? Tens consciência disso?
            Engraçado! Creio que vou parar um pouco todos os dias e agarro numa frase para meditação.
            Mais engraçado ainda é que demorei menos tempo a ler o livro inteiro do que a saborear a redacção de português que fingidamente Teolinda Gersão fez para os netos, e que está acessível na Internet. Estavam atrapalhados os mocinhos – que iam chumbar a Língua Portuguesa porque também a professora já não conseguia entender-se com as regras:
            «Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais?»
            Eu nunca fui bom a Filosofia. Sempre achei que Filosofia era uma disciplina que apenas nos ensinava a pensar e que, para isso, serviam as palavras. As do Carranca servem. Agora o que Teolinda Gersão nos conta, aparvalhada também ela, só podiam ter sido inventadas por «filósofos» despudorados, tolhidos em tenebrosa teia de mui estranhos conceitos.
            E eu que ando sempre a falar em substantivo próprio e comum, concreto e abstracto, em adjectivo… Pelos vistos, um atrasado mental no que aos novos paradigmas diz respeito. E agora percebo porque se quer o Inglês! É que, ali, é tudo fácil e não há «polaridade negativa» nem «verbos epistémicos» nem nada que se lhes pareça!... É down para baixo e up para cima – e já está!

                                                                       José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 688, 01-07-2016, p. 12.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário