segunda-feira, 18 de abril de 2022

Ensaio sobre a porcaria

            Pretensão não, claro! Jamais teria competência para escrever ensaio digno deste nome e, muito menos, sobre tema tão arrojado. Senti, porém, a necessidade de me sentar nesta falésia sobre o mar da Arrifana a reflectir, na serenidade do sol-pôr, acerca da frequência com que se usam expressões como «Isto está uma porcaria!». Porcaria práqui, porcaria práli. Como quem diz: «Nada se aproveita!».

            Impunha-se-me defender o animal.
            Primeiro, porque, apesar do chiqueiro em que eles se moviam e de mui bom grado chafurdavam, sempre gostei de ver os porcos que meu avô paterno e minha avó materna foi tendo. Depois, porque, embora não quisessem que eu visse, o ritual da matança do porco era… um ritual! Em 3º lugar, desde cedo compreendi que, do porquito longamente alimentado com restos de comida e lavadura, tudo se acabava por bem aproveitar. Finalmente, muitas histórias de criança metiam simpáticos porquinhos pelo meio.
         Não há, pois, direito que se dê à palavra «porcaria» a conotação hedionda com que diariamente a pronunciamos.
Não há direito!
E até me recordo, com ternura, das vezes em que meu pai me pedia:
– Pega aí numa mortalha e tira-me a porqueira que me foi prá vista!
Ele dizia «porqueira»! Uma lasquinha mínima de pedra que lhe saltara, quando abria os caboucos nos bancos da pedreira. Porqueira!
Assusta-me a conotação negativa. Sobretudo, a entoação pérfida facilmente atribuída àquilo que qual porcaria se classifica.
Não me parece bem.
Denuncia, da parte de quem a pronuncia, sistemático olhar de desagrado, mal cheiroso, perante a realidade e as circunstâncias da vida. Bem contrário, aliás, ao constantemente apregoado mas não entendido «Crise também é oportunidade!». Ou a uma frase que, em jovem, desde logo retive, ao ver pela primeira vez o filme «Os Dez Mandamentos» de Cecil B. Demille:
 «Também na lama do Nilo vicejam as flores de lótus!».
            Sim, acredito, crónica sobre a porcaria é, sem dúvida, uma porcaria. Mas… também pode não ser!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 820, 15-04-2022, p. 12.

 

7 comentários:

  1. Gostei. Ensaio limpo sobre tema difícil de abordar.

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  2. Vanda Amaro
    20 de abril de 2022 19:29

    Gostei muito deste ensaio, porque tenho respeito pelos animais que nos alimentam e acho a expressão do teu pai ( porqueira) mais adequada. No entanto e para mim, actualmente, vejo o mundo com grande pessimismo ,uma parte de bichos humanos imundos e nojentos a explorar e massacrar outros bichos humanos ingénuos e inocentes! Estou farta de pandemia, guerra, ganância, mentira, desinformação, oportunismo...
    Esperemos que haja uma Páscoa mesmo verdadeira!

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  3. Meu amigo, gostei da sua crónica sobre a porcaria sobretudo porque cada vez há mais dela na universal porqueira... e pensar que até o coração do pobre porco serve para substituir o humano... olhe, sugestão: comecemos a dizer "isto está uma humanaria"! Faz mais sentido. Um abraço julieta

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  4. Teresa Meira 21 de abril de 2022 11:41

    Verdade, verdadinha! Palavra que está a ser usada para tudo. Faz-me confusão ouvir crianças à mesa, quando não conhecem um prato, dizerem de imediato «Não gosto. É porcaria!» sem sequer provarem. E ninguém os repreende…

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  5. Karl Heinz Delille
    21 de abril de 2022 19:50

    Prezado Colega e Amigo
    Gostei das suas ambulações em volta de «porco» e «porcaria»; em alemão encontramos o mesmo (como em outras línguas do nosso círculo cultural também). Diz-se jocosamente: “Das Schwein [o porco] hat seinen Namen zurecht [merece o nome que tem], denn es ist auch eins [pois é isso mesmo (ou seja: porco)]. E, ao mesmo tempo, sabe-se (o que a maioria talvez não pense) que o porco (segundo uma reportagem televisiva centrada numa investigadora norte-americana especializada na matéria) é o animal com o mais alto quociente de inteligência. Acontece o mesmo (oriundo sobretudo, linguisticamente, da “sabedoria popular”) com outros animais, com plantas (alemão “Unkraut” [plantas daninhas], por vezes, visto de perto, de grande beleza), com povos («Judeu») e o., tratando-se de um tesouro lexical idiomático que, acriticamente enraizado e transmitido nas escolas, facilmente criará preconceitos. (A língua tem esses perigos; bem o sabem os ditadores…).
    Ex corde
    Karl Heinz Delille

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  6. Alberto Correia
    21 de abril de 2022 22:01

    Li e gostei. Cheirando a flor de Lótus, referenciadas...

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  7. Nunca podia ser uma porcaria esta crónica, depois da perfeita estruturação do texto. Fez-me pensar quão mal, às vezes, empregamos as palavras. É bem verdade que os simpáticos (e dizem os homens de Ciência que mais inteligentes que os cães) suínos gostam de chafurdar na lama, mas se até é moderno e favorável à saúde da pele das pessoas! De agora em diante, e por respeito aos porquinhos das histórias da infância, jamais direi "esta porcaria". E guardarei ainda maior respeito pelo sofrimento, ou deploráveis condições de "vida", a que sujeitam os animais para abate. Muito grata pelo texto.

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