domingo, 4 de janeiro de 2026

Aquela imensa tristura…

             Olhava para o sítio dele. Ouvia-o chorar. Também me vieram hoje lágrimas aos olhos. Lágrimas que, subtilmente, pareciam rolar paredes abaixo até lá ao fundo, de onde eu ouvia outras lágrimas a pingar.
Transformavam-se elas em sorriso, quando sentiam o pequeno balde de zinco aproximar-se, sofrer um ajustado safanão que o deixava à banda, mesmo a jeito de receber uns escassos dois litrinhos de água bem fresquinha, vinda, não há muito, das entranhas mais profundas. Endireitava-se o balde e, à força de braços, vinha até cá acima beijar o luzidio da cimalha, ela a mostrar, ufana, os sulcos que o roçar das cordas, ao longo de décadas e décadas, lhe tinham feito.
Estou eu em crer que, há muitos anos, os baldes subiam cheios. Na década de 50, já pouco de meio passavam e era preciso ir de madrugada a apanhar a água acareada durante a noite.
 O poço do Corotelo ajudou-me a crescer. Sentia-me gente ao acordar manhãzinha cedo, antes do resto da família, para «ir ao poço». Sentia-me gente quando minha tia Chica me deixava ser eu a puxar o balde.
Por isso, tristura sofria nas últimas décadas, ao vê-lo envolto no mais incompreensível desprezo, só possível porque as chamadas ‘novas gerações’ não sabiam o que era ter sede e pareciam desconhecer o significado de nível freático.
Ali jazia a um canto, dir-se-ia,  o meu pobre amigo das infantis madrugadas.
Rejubilei, pois – não podia deixar de ser! –, quando, após tantas décadas de esquecimento, o Amigo Vítor Barros me enviou foto da jubilosa placa a perpetuar a iniciativa da Junta de Freguesia. Que bom!

Confidenciou-me o poço – com a mais que septuagenária amizade que nos liga – que voltar a ser o que era dantes, a dar de beber a quem tinha sede (era assim que rezava a obra de misericórdia…) o enchera de alegria! E compreendia bem que, na natural impossibilidade de se abrir de novo (os tempos bem são outros, amigos!...), a ideia de se mostrar bonito, caiado e com banda azul o redondo da sua boca, e a oportunidade de, através de pequena abertura gradeada, ser possível ver-lhe a fundura e, quiçá, em determinados momentos, até ouvir um saudoso pingar fresquinho.
Ideia boa, presidente João Rosa! Prossiga nesse caminho – que, aí, nós estamos sempre consigo!

                                               José d’Encarnação 

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 349, 20-12-2025, p. 17.

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