Olhava para o
sítio dele. Ouvia-o chorar. Também me vieram hoje lágrimas aos olhos. Lágrimas
que, subtilmente, pareciam rolar paredes abaixo até lá ao fundo, de onde eu
ouvia outras lágrimas a pingar.
Transformavam-se
elas em sorriso, quando sentiam o pequeno balde de zinco aproximar-se, sofrer
um ajustado safanão que o deixava à banda, mesmo a jeito de receber uns escassos
dois litrinhos de água bem fresquinha, vinda, não há muito, das entranhas mais
profundas. Endireitava-se o balde e, à força de braços, vinha até cá acima
beijar o luzidio da cimalha, ela a mostrar, ufana, os sulcos que o roçar das
cordas, ao longo de décadas e décadas, lhe tinham feito.
Estou eu em crer
que, há muitos anos, os baldes subiam cheios. Na década de 50, já pouco de meio
passavam e era preciso ir de madrugada a apanhar a água acareada durante a
noite.
O poço do Corotelo ajudou-me a crescer. Sentia-me
gente ao acordar manhãzinha cedo, antes do resto da família, para «ir ao poço».
Sentia-me gente quando minha tia Chica me deixava ser eu a puxar o balde.
Por isso, tristura
sofria nas últimas décadas, ao vê-lo envolto no mais incompreensível desprezo,
só possível porque as chamadas ‘novas gerações’ não sabiam o que era ter sede e
pareciam desconhecer o significado de nível freático.
Ali jazia a um
canto, dir-se-ia, o meu pobre amigo das
infantis madrugadas.
Rejubilei, pois
– não podia deixar de ser! –, quando, após tantas décadas de esquecimento, o Amigo
Vítor Barros me enviou foto da jubilosa placa a perpetuar a iniciativa da Junta
de Freguesia. Que bom!
Confidenciou-me
o poço – com a mais que septuagenária amizade que nos liga – que voltar a ser o
que era dantes, a dar de beber a quem tinha sede (era assim que rezava a obra de
misericórdia…) o enchera de alegria! E compreendia bem que, na natural impossibilidade
de se abrir de novo (os tempos bem são outros, amigos!...), a ideia de se
mostrar bonito, caiado e com banda azul o redondo da sua boca, e a oportunidade
de, através de pequena abertura gradeada, ser possível ver-lhe a fundura e, quiçá,
em determinados momentos, até ouvir um saudoso pingar fresquinho.
Ideia boa,
presidente João Rosa! Prossiga nesse caminho – que, aí, nós estamos sempre consigo!
José d’Encarnação
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 349, 20-12-2025, p. 17.


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