sexta-feira, 29 de maio de 2026

Boca com excelente frescura

            Não, não vou responder à pergunta do irritante anúncio televisivo «porque paraste?». Não. A receita é outra: um bom copinho de vinho tinto!
Tenho aqui um, à minha frente, cujo rótulo reza o seguinte:
 


«Cor rubi brilhante, aromas com frutos vermelhos maduros e pequenas bagas, boca com excelente frescura e taninos vivos mas bem integrados, termina elegante e com bom volume».
 
Há lá melhor?
Compraz-me particularmente a fresca literatura dos vinhos portugueses. Que frases bonitas, buriladas a preceito, para, no fim, se as espremermos a fundo, nos quedarmos com uma sensação estranha: «Que é que eles querem dizer com isto?». Mas, nessa altura, já teremos degustado o precioso néctar, soubera-nos bem e até nos alegráramos com esta terminação… «elegante», como quem diz «Fiquei mais elegante, não fiquei?».
Com essa do “bom volume” a gente pode ficar de pé atrás, porque é passível de sugerir a ideia de pança e todo o mundo quer é emagrecer, embora saboreando bons petiscos. Aliás, consola-nos ler que, apesar de ´vivos’, os taninos estão «bem integrados», o que nos leva a pensar: Ná! Não me vai crescer a barriguinha. Eles estão ‘bem integrados’ esses taninos!, que, como dita a inteligência artificial, «conferem estrutura, corpo e uma sensação de adstringência (secura) na boca».
Reclamo com frequência contra a má qualidade dos dizeres publicitários e, de modo especial, das traduções. Contra a escorreiteza das falas vínicas, nada a dizer! Tudo nos conformes, segundo os ditames da melhor poesia abstracta.
Portanto, socorro-me da frase que o meu amigo romano de há 2000 anos quis mandar gravar no seu túmulo: «A lareira está acesa. Vamos a mais um copo, companheiros?»
Vamos – que a boca já requer frescura!

                                                           José d’Encarnação  

Publicado no jornal RENASCIMENTO, de Mangualde, nº 890, 20-05-2026, p. 10. 

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