domingo, 30 de agosto de 2026

Pão e espetáculo, entre os Romanos

            Referiu-se, na anterior crónica, que Ânio Primitivo oferecera ao povo de Balsa – cidade romana sita no actual território de Tavira – um combate de gladiadores.

            O local próprio para esse espetáculo deveras apreciado pelos Romanos era o circo, o anfiteatro.
Três monumentos públicos constituíam ponto de encontro e diversão, naquele tempo: o teatro, o anfiteatro e o hipódromo. Temos notícias da existência dessas estruturas, na totalidade ou não, nas principais cidades da Lusitânia romana.
            Assim, na capital, Emerita Augusta (Mérida), situada hoje em território espanhol, anfiteatro e teatro encontram-se lá, lado a lado, no centro da urbe; o hipódromo, um pouco mais além.
            Em Olisipo (Lisboa), reconheceu-se, não há muito, aquando das primeiras grandes obras de ampliação do metropolitano, parte significativa do hipódromo. Aliás, já em 1961, a arqueóloga Irisalva Moita encontrara uma estrutura antiga no subsolo, possivelmente uma estrada ou um cais portuário, pensou; contudo, foram as novas escavações de 1997 que permitiram identificar com precisão a spina (a «espinha», parede central do hipódromo) e parte da arena a cerca de 6,5 metros de profundidade, confirmando, assim, a existência do grande circo romano, cuja  descoberta só em 1997 seria amplamente divulgada ao público. De tudo se tomou boa nota e registo, mas não só não foi possível manter visível algum troço do que fora descoberto. como também os trabalhos previstos não deixaram avançar muito em termos de visualização das características do edifício.
            Anfiteatro olisiponense suspeita-se ter existido; apontam-se hipóteses de localização. Por consequência, continua a ser o teatro o ex-libris da Lisboa romana, com uma atividade cultural incessante.
Anfiteatro cuja descoberta muito deu que falar, por inesperada, foi a que ocorreu em Bobadela, povoação do concelho de Oliveira do Hospital. Pôs-se a descoberto parte significativa da construção e, hoje, constitui bom pretexto de visita a um lugar que, numa inscrição romana. foi designado de «civitas splendidissima», ‘cidade mui esplendorosa’, mas que resiste a desnudar-se perante o olhar ‘concupiscente’ dos arqueólogos…
            Também se não deixa ver, mas adequados processos fotográficos já denunciaram a sua existência, o hipódromo junto às ruínas da cidade romana a que vem sendo hábito chamar Miróbriga, ao lado de Santiago do Cacém.
            Muito esperançosas são as perspectivas de que a recente aquisição pelo Estado de terrenos em Condeixa-a-Velha vá permitir a descoberta de parte substancial do anfiteatro de Conímbriga, de que já abóbadas foram postas à luz do dia.
            Esperanças há, também, em relação a Ammaia, cidade que se localiza na freguesia de São Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre: à equipa que ali procede a escavações parece-lhe possível adiantar, dentro em breve, dados concretos acerca da localização do anfiteatro e suas características, numa cidade romana que se antoja vir a facultar ainda novidades surpreendentes.
            Dores de cabeça tem provocado a localização do referido anfiteatro de Balsa, dada a impossibilidade de, em clima de serenidade, se proceder a sondagens e, depois, a campanhas de escavação sistemática, devido a boa parte da cidade romana jazer em propriedade privada e ser complexo eventual entendimento entre as partes.
            Não é só a referência ao combate de gladiadores organizada por Ânio Primitivo que indicia a existência de um anfiteatro, onde tal combate teria naturalmente ocorrido. É que, deste, temos provas epigráficas convincentes.
            Concretamente, houve dois beneméritos que alargaram os cordões às bolsas e decidiram pagar, cada um deles, a expensas próprias, a construção de uma extensão de cem pés do pódio. Era o pódio o patamar no arranque da bancada para os espectadores, ou seja, o que está mais perto da arena. Como prova da sua benfeitoria foram gravadas duas placas, cada uma com o seu nome: Lúcio Cássio Céler e Gaio Licínio Bádio.  Assim, bem à vista, constituíam excelente promoção pessoal e aplauso para o gesto. E é bem possível que outros cidadãos balsenses lhes hajam seguido o bom exemplo. Apenas de dois se encontraram as respectivas placas comprovativas.
            Aliás, outras duas inscrições são susceptíveis de pertencere ao anfiteatro. Parece poder reconstituir-se, numa, a palavra «antepagmentis», alusão a «peças de arquitectura destinadas a revestir as paredes exteriores», e também uma referência a estátuas, que, como se sabe, do imperador ou de divindades, constituíam elemento indispensável de decoração num anfiteatro. A outra, de achado mais recente, poderá assinalar com iniciais o local reservado na assistência para um cidadão e seus familiares.
            Compreende-se quão aliciante poderá vir a ser – quando tal for autorizado – o estudo, no terreno, das estruturas por ali ainda estão enterradas! As inscrições já encontradas falam de famílias politicamente bem activas e, pelos vistos, de um viver desafogado – o que torna as perspectivas ainda mais aliciantes!

                                        José d’Encarnação 

Publicado em Sul Informação, 16-08-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/08/pao-e-espetaculo-entre-os-romanos/

 






Para saber mais:
•    ÁLVAREZ MARTÍNEZ (J. M.) e ENRÍQUEZ NAVASCUÉS [coord.], El Anfiteatro en la Hispania Romana. Mérida, Junta de Extremadura, 1994.
•    FERNANDES (Lídia), Scaena (revista do Teatro Romano de Lisboa), VI, 2025 (Tema: Edifícios de Espetáculo da Lusitânia Romana).
•    MAIA (Maria) et alii [coord.], Tavira – Território e Poder, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa, 2003.
•    SILVA (Luís Fraga da), Balsa, Cidade Perdida? Campo Arqueológico e Câmara Municipal de Tavira, Maio de 2007.



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