terça-feira, 10 de janeiro de 2017

As canoiras

            -- Casa de algarvio é fácil de reconhecer aqui em Cascais: tem favas no quintal! Algarvio não passa sem elas! -- perorava a sabedoria de Celestino Costa.
            E é verdade.
            Algarvio come favas duas a três semanas a fio. Já David Martins Dias o contou, em «Desafiando o Destino -- a história da minha vida» (Câmara Municipal de S. Brás de Alportel, Setembro de 2015), e eu tive ocasião de o confirmar no prefácio que escrevi para esse livro.
            Apanhadas as favas já rijas que se deixavam para semente, ficavam as canoiras, assim como pequenina floresta seca e enlutada. No milho também era assim: apanhávamos as maçarocas, guardavam-se as carepas para renovar o recheio dos colchões e as canoiras eternizavam-se na terra.
            Canoira é palavra nossa, algarvia; noutros lados, diz-se caneira. Esclarece o Dicionário do Falar Algarvio que deriva de «cana» e tem jeito essa derivação, dada também a aparência de colmo.
            Tive, porém, curiosidade de ir saber mais. O google só me apresenta Canoira como apelido de um professor da Universidade Politécnica de Madrid; e o Dicionário da Academia diz que se trata de «peça de moinho, em forma de pirâmide quadrangular truncada, que recebe o grão e o vai deixando cair regularmente sobre a mó para ser moído». Muito longe está, portanto, do termo popular.
            Uma eventual relação com o latim «canora», «canora», com alongamento liquescente do ‘o’, não se me afigura credível, porque, mesmo que a brisa ou o vento passasse, cantoria, ali, dificilmente se deixaria ouvir!... Fiquemo-nos, pois, pela derivação a partir de cana, em que o sufixo -oura terá, pois, uma conotação de diminutivo.

                                                                    José d’Encarnação

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 216, Janeiro de 2017, p. 10.

 

7 comentários:

  1. Manuela Correia
    Favas são prenúncio de primavera, cheiros e sabores que nos fazem sentir renascidos. (Sou serrenha)

    ResponderEliminar
  2. Sonia Carmona Antunes
    Caro Professor, adoro as suas tão sábias crónicas.

    ResponderEliminar
  3. Vitor Barros
    As canoiras "ceifavam-se juntamente com a rama dos griseus e fazia-se um monte no palheiro para ir dando ao macho durante o Inverno", contaram-me...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bem haja, Vítor! A sabedoria ancestral que vai guardando...

      Eliminar
  4. Manuel Luís Correia Alves
    Tbem "são-bràseiro" e residente em Cascais, partilho a familiaridade do termo "canoira" e tbem "canavoura"!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sim, Amigo! Faço parte, com muita honra, da colónia são-brasense que, no final da década de 40 e na década demandou Cascais para trabalhar nas pedreiras!

      Eliminar