Afinal, o
leitor não lê apenas com o olhar, mas com toda a sua ideologia e antecedentes.
Arqueólogo historiador lê um romance com olhos bem diferentes dos de um
arquitecto paisagista ou de um antropólogo. Quis ler O País das Uvas para
encontrar referências ao sítio arqueológico que a minha equipa escavara. Não
achei. Quero agora desforrar-me!
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| Canova. Paulina Bonaparte como Venus vitoriosa, 1804-1808 |
Primeiro, sempre alerta como estou para as alusões
ao hábito de «ir a banhos» – eco de a Família Real ter vindo para Cascais no
final do Verão, a partir da década de 70 do século XIX – topei este sugestivo
pormenor, no conto «A divorciada»: «Berta tem todavia a história mais planta de
estufa que eu conheço. Aos quinze anos valsou com o Jorge, na Figueira, uma
estação de banhos – Jorge, o que está secretário do ministro, o bem
conhecido Jorge» (p. 79-80).
Figueira da Foz, célebre estância balnear do Centro
do País, onde, na altura, antes do Casino Peninsular, o Theatro-Circo Saraiva
de Carvalho (inaugurado em 1884) organizava bailes, em que, como se vê, até
gente do Poder não hesitava em marcar presença. Tinha que ser!
Aqui, o historiador: a remeter para a minuciosa
investigação levada a efeito pela Doutora Irene Vaquinhas – O Casino da
Figueira. Sua evolução histórica desde o Teatro-Circo à actualidade
(1884-1978).
A desforra do arqueólogo veio quando li esta
passagem no conto «A princesinha das Rosas»: «O pai era cristão; não consentiu
Deus que a pequenina vivesse a vida monstruosa dos pais, nos palácios da
Babilónia submersa».
Poder-se-ia
remeter para a Babilónia falada na Bíblia; há, porém, que notar quanto já se
admiravam as descobertas arqueológicas feitas por Robert Koldewey, nomeadamente
na cidade mesopotâmica de Babilónia…
Voltemos à Berta: Berta, explica Fialho, tinha um
nariz «desmedido e fero, cujo modelo recusara sempre ao gesso dos museus de
raridades».
É natural que se não entenda plenamente, à primeira
vista, o significado desta frase. Refere-se ao hábito, que então se
generalizou, de se fazerem moldes em gesso das mais notáveis esculturas
clássicas (gregas e romanas) para se mostravam nos museus, quais verdadeiras
gipsotecas, para os estudantes poderem, assim, apreciá-las.
A Universidade La Sapienza, de Roma, dispõe de uma magnífica gipsoteca
e a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra viria a criar também, logo
nos primórdios do século XX, um Museu Didáctico com a reprodução de peças
arqueológicas achadas em território português, nomeadamente artefactos
pré-históricos e inscrições romanas.
Creio, porém, que a alusão de teor arqueológico mais
significativa do livro está, de certo modo, oculta nesta frase do conto «As
vindimas».
«Tal é a evolução mitológica de Baco: psicologia do
vinho, esmaltada num quadro alegórico, que eu vejo e revejo nas suas
maravilhosas contramarchas, com os olhos absortos de Canova contemplando os
frisos do Pártenon».
Mostra, em primeiro lugar, o conhecimento da obra do
antiquário, arquiteto e escultor italiano Antonio Canova (1757-1822),
justamente célebre pelas suas extraordinárias esculturas de divindades e
personagens gregas e romanas, duma beleza sem igual.
Depois, sim, Canova admirou, sem dúvida, os frisos
do grandioso templo erguido na acrópole ateniense, frisos em baixo-relevo que
se devem a Fídias e cuja perfeição depressa se tornou quase lendária. Então, os
pormenores da aí representada Procissão das Panateneias, a festa maior em honra
da deusa Atena, encantavam de verdade!…
Por conseguinte, numa singela frase se denuncia como
Fialho de Almeida – e, certamente, os intelectuais portugueses do seu tempo –
estavam a par das descobertas arqueológicas da época. E, voltando à menção
anterior, há ainda um pormenor que Fialho de Almeida não olvidou: o nariz.
Certo é que a frase de Pascal (1623-1662) alusiva ao nariz de Cleópatra – «Se o
nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da terra teria
mudado» – poderia, desde há muito, ter atravessado fronteiras; anote-se, contudo,
que é o nariz que mais trabalho dá ao escultor, a ponto de necessitar sempre de
o ter em conta quando se decide a esculpir a figura humana. Nesse âmbito, a
real perfeição das esculturas de Antonio Canova concitam, de facto, a admiração
universal.
E, por conseguinte, a possibilidade de assim evocar Babilónia (e –
porque não? – a sua magnificente Porta de Istar, patente no Pérgamon, em
Berlim), os frisos do Pártenon e o imortal Canova leva-me a perdoar a Fialho de
Almeida não ter reparado nas ruínas de S. Cucufate. Desforrei-me!
José
d’Encarnação
Publicado em Duas Linhas, 24-01- 2026: https://duaslinhas.pt/2026/01/desforrei-me/
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