Há mesmo, na Instrução
Primária, disciplinas escolares a ensinar os preceitos, complementando a
educação recebida em casa, desde menino: «Não se come com a boca aberta!», «Não se olha para o telemóvel enquanto se come!»,
«Não digas palavrões!»…
Curiosamente, qual
autómato, o que me surgiu na ponta da esferográfica foi o «não». Como os
preceitos maiores que nos ensinaram, os mandamentos da Santa Madre Igreja, onde
o ‘não’ predomina: «Não matarás!», «Não cometerás adultério»…
Aprendi a
evitar o ‘não’ e a privilegiar o ‘sim’ – que o fruto proibido, sabe-se, acaba por ser o
mais apetecido.
A ideia de escrever
esta crónica sobre o preceito, ou seja, da norma, do hábito,. do modo de fazer,
adveio-me – imagine-se! – da máquina de
lavar loiça.
.Não me passara
pela cabeça que havia preceito para pôr a loiça na máquina. Não há, é verdade,
oficialmente. A não ser que os talheres se põem aí naquele recipiente expressamente
preparado para isso, habitualmente no tabuleiro de baixo, num sítio certo. O demais depende exclusivamente de cada um.
E não é que a
acção de pôr a loiça na máquina constitui um dos mais inegáveis preceitos
domésticos?
Primeiro: a
quem compete essa missão? Ao marido? À mulher? À filha mais velha?
Depois, tem preceito.
Se o homem calha a arrumar à maneira dele, lá vem a mulher: não é essa a
posição do prato! E muda a posição. E vice-versa.
Não frequentei
nenhum curso sobre comportamento matrimonial. Acredito, porém, que, no lar,
normalmente, se outros ingredientes há passíveis de macular a relação quotidiana,
este pôr-a-loiça-na-máquina pode constituir um dos itens a ter em conta.
Quem diria? Pode
fazer-se uma ‘guerra” devido a aselhice simples:
– Não vês que
os pratos não se põem assim? Quantas vezes é que eu preciso de te ensinar,
caramba!
José d’Encarnação
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 350, 20-01-2026, p. 13.

Sem comentários:
Enviar um comentário