quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A economia da imagem


             A palavra «imagem» leva logo o homem a pensar em mulher bonita e a mulher em busto masculino bem feito e musculado. Não é inocentemente que os publicitários privilegiam uma e outro e que bem conhecida marca de café está indelevelmente ligada ao sorriso matreiro de George Clooney…
            Chegou-se agora ao extremo – amiúde deliciosamente alvejado pelos humoristas e não só – de, com todo o requinte, nos apresentarem um prato sob a elegantíssima palavra… como é? Ah! … Gourmet! E empratar constitui já uma das técnicas em que os estudantes das escolas hoteleiras se têm de aprimorar!
            Lembro-me, a propósito, de ter lido mui saboroso escrito acerca de inovador prato em que «com feijão» era um dos ingredientes. E era! Um feijão apenas! Ora, para português que «feijão» é mesmo «feijoada à transmontana» ou «sopa de feijão com hortaliça», aquele fêjanito ali perdido no meio do prato como que a gritar por socorro era de… rir e chorar por mais! Literalmente! E de atirar essa imagem às urtigas!...
            Quando havia bancários para atendimento ao público, eles, sim, sempre engravatados, sabiam, no entanto, que vestir trapos não significa pobreza (e, aqui para nós, quanto não custam agora essas calças de ganga rasgadas à maneira, soubesse-o minha mãe, que toda se azafamava a pôr joelheiras nas de meu pai e fundilhos nas minhas, que eu as delia nos escorregas!...). Sabiam isso do trajar os bancários, porque, muita vez, do bolso de calças coçadas saía volumoso maço de notas!....
            Mas esta questão da imagem veio-me assim de repente à mão de semear, porque eu queria dar conta dum episódio em que ela, a imagem, me descoroçoou deveras. Eu conto.
            Não quisemos jantar em Espanha e parámos, por isso, no primeiro restaurante português, logo a seguir à fronteira.
            Era do tipo self-service, mas apercebemo-nos que havia sopa («caldo verde», disseram-nos) e as hipóteses mais viáveis eram prego no pão ou sanduíche de panado. Estava um rapaz na caixa e atendia um senhor ao balcão. Iam dando as ordens para dentro, para a cozinha. Quando a recebemos, aquecida a tigela ao microondas, verificámos que, afinal, a sopa era de nabiças. Demoraram bastante os pregos.
            Na casa-de-banho dos homens, já não havia toalhetes e o recipiente dos usados transbordava para o chão.
            Assim, à entrada de Portugal, nada boa era a imagem. Nem para a economia!
                                                                       José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), 01-08-2018, p. 11.

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