quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Espevitar

             Moía-me a cabeça o moço pequeno. Não ma fazia de fel e vinagre, porque eu procurava ter uma paciência de Job. Espevitado sempre fora. E quando eu, em conversa com um parente, disse que o moço era espevitadote, quis logo saber o que isso era.
            Na verdade, lá em casa, havia o gesto de espevitar o lume, remexendo as brasas com a tenaz, como já se disse, ou no vaivém frenético do abanador circular de empreita e pequeno cabo redondo, resultante de tronquinho mais direito de carrasco ou de azinho. Meu pai «espevitava» os dentes com um pau de fósforo que aparara a canivete, qual palito. Quando a torcida da lanterna ou do candeeiro a petróleo criava borrão, lá se lhe dava uma tesourada, para… espevitar. E quando se falava de mocinha mais… saída da casca, também lá vinha a palavra. E o moço queria saber.
            Tanto rabiou comigo que acabei por ir ao dicionário: donde é que viria a palavra? De algo de bem concreto deveria ser, por tão usado no dia-a-dia. E parece que sim: virá de es + pevide + ar. Ou seja, tirar a pevide! E ‘faz todo o sentido’, como hoje se diz: é como ‘sair da casca’!... Pevide dentro da casca não tem acção nenhuma. Urge tirá-la de lá! Espevita-te, homem, não sejas molengas!

Publicado em VilAdentro [S. Brás de Alportel] nº 189, Outubro de 2014, p. 10.

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