quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A falta de água em Cascais

            Era este um título recorrente nos Verões das décadas de 50, 60 e ainda 70 do século passado. Esse fantasma aparentemente desapareceu, pois compramos a água a Lisboa e fornecedor que se preza não deixa o cliente desamparado, até porque ele próprio tem clientes que lhe pagam bem, a tempo e horas, sob pena de lhes virem cortar o contador e terem de pagar com língua de palmo o descuido.
            Dependemos de Lisboa; ou seja, dependemos do rio Tejo. E as notícias que vieram a lume nos princípios deste mês de Agosto acerca do substancial aumento de poluição das águas desse rio são de molde a trazer-nos preocupados. Bastará a água da barragem do Castelo de Bode deixar de ter qualidade para que renasçam os problemas de há 50 anos…
            Não estamos, felizmente, no Alentejo, onde a seca afecta gravemente a agricultura e, sobretudo, a pecuária; nem no Centro do País onde os criminosos incêndios fazem gastar milhões de metros cúbicos de água.
            Lembro-me, porém, de que, quando Guilherme Cardoso e eu fizemos o livro «Para uma História da Água no Concelho de Cascais» (SMAS, 1995), transcrevemos (p. 45-46) o texto que o Visconde de Atouguia publicara, em Julho de 1917, no jornal A Nossa Terra, onde dava miúda conta dos sítios do concelho onde os caçadores podiam dar água aos cães. Um relato do maior alcance histórico, uma vez que localizava nascentes, fontes, poços…

Solos permeáveis precisam-se!
            Passei a meninice em Birre de Baixo. Aí havia, na década 50, as ruínas dos tanques para lavar e passar roupa e, sobretudo, o poço público, com o bebedouro para os animais, poço que o Município, sem mais nem menos, alienou a um privado – e ‘así se hacen las cosas!’, diria o nosso cáustico Gil Vicente. De Inverno, eu ia a uma nascente próxima, de chinguiço aos ombros, um balde de cada lado, acarear água que por ali brotava límpida.
            Razões desta ‘conversa’?
            Duas: a primeira, para evitar que esses factos caiam no esquecimento; a segunda, para dizer que a Ribeira dos Mochos era para nós um «rio», porque, em tempo de boa invernia, inundava tudo quanto eram terras de cultivo e pomares desde Birre ao vale da Barraca de Pau. E donde vinha o rio? Do Mato Romão! Isto é, daquela zona entre Birre e Aldeia de Juso por cuja manutenção como mato nós continuamos a pugnar, porque é a sua permeabilidade às águas que poderá alimentar os caudais subterrâneos e evitar enxurradas que ponham em perigo as aldeias e a própria vila.
            Para que conste.
            Como, por exemplo, agora que tanto se fala de limpeza de matas, talvez não seja despropositado lembrar que Champalimaud, dono da Marinha, permitia às gentes das povoações vizinhas que, uma vez por semana, lá fossem apanhar lenha, maravalha, pinhas… O povo utilizava na cozinha, na cama dos animais, na cobertura dos pátios…

A necessária independência de Lisboa
            Os trabalhos de captação de águas para abastecimento de Cascais «na serra da Malveira» começaram em 1887. Construiu-se, mais tarde, a albufeira do Rio da Mula, sucessivamente aumentada, de modo que, em 2002, o muro de sustentação passou a ter 11 metros de altura e a capacidade de retenção de água subiu para 400 000 metros cúbicos!
            Assim se dava cumprimento a um voto repetidamente exarado nos relatórios dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento:
 
             «Necessário se torna prosseguir nos esforços de aumentar as possibilidades de captação das águas do concelho para que este não fique na inteira dependência da conduta de Cascais que transporta a água fornecida pela Companhia das Águas de Lisboa».

            Esse, porventura, um voto difícil de cumprir hoje, em que a preocupação maior parece ser a de autorizar novas urbanizações, permitir mais prédios em altura, proporcionar substancial aumento de habitantes, situação passível de vir a ser incomportável em termos logísticos, mormente se não se puser pôr cobro urgente às «roturas escondidas»; se não pensar de novo nas captações da Serra de Sintra e não se der a maior atenção à albufeira do Rio da Mula.

                                                               José d’Encarnação
Albufeira do Rio da Mula, vista do paredão, longe do seu máximo de capacidade
Publicado em Costa do Sol Jornal [Cascais], nº 199, 23-08-2017, p. 6.
Paredão da barragem do Rio da Mula, na Serra de Sintra
 

1 comentário:

  1. Grato por mais esta divulgação, sempre útil e inspiradora, caro Professor. Aproveito para referir que nas Palestras de Verão da EMACO que estão a decorrer e subordinadas ao tema da água, tenho amiúde colhido referências, de vários dos palestrantes, àquela sua obra em co-autoria e que cita - «Para uma História da Água no Concelho de Cascais». Julgo ser sempre muito confortável apurarmos que, por entre tantas «distracções» a que assistimos, obra feita não cai em saco roto... Grande abraço.

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