terça-feira, 1 de março de 2016

Os Charcos, o Lince, Camarões & Cia.

             Uma pedrada no charco! Usa-se a expressão, como é sabido, para explicar que algo de novo surgiu, inesperado, a mexer a normal quietude dos charcos, onde apenas as libelinhas vão, mui rápidas, ao de leve poisando, as rãs passam o dia pachorrento ao sol e só de quando em quando, e apenas nalguns mais duradouros, se enxerga esquiva cobrinha coleante…
            Não gostam de pedradas os poderes constituídos e, se de charcos perguntarmos aos nossos amigos, são capazes de também torcer o nariz, que logo se pensa em ‘mosquitame’ e bichezas do género...
Triops vicentinus
            Eu cá gosto dos charcos – pela sua quietude e por suspeitar de vidas inúmeras lá dentro… Já gostava, mas agora passei a gostar mais, depois de, no programa da Antena 1 “José Candeias – Hà Conversa”, de 11 de Fevereiro, Artur Lagartinho ter dado conta do que era o projecto Life Charcos, que, com o apoio de programas europeus, a Liga de Protecção da Natureza (LPN), em colaboração com algumas autarquias, está a levar a cabo na costa sudoeste, desde Sines a Sagres. A ideia é consciencializar as populações da importância dos charcos temporários mediterrânicos, pois são o habitat de muitas espécies. Referiu-se, de modo especial, à existência aí do «triops vicentinus», uma espécie de camarão girino, crustáceo que apenas existe nos charcos desde Vila do Bispo até Faro e que sobrevive enterrado 7 anos sem água! No fundo, a preservação desses charcos contribui para a biodiversidade.
A lince Myrtilis acabada de soltar, em Fevereiro de 2016
            Eu divulgara, no dia 8, a notícia de que «Myrtilis», uma lince fêmea, fora largada nos arredores de Mértola, no âmbito do programa de preservação desta espécie. E logo Eugénio Sequeira, da LPN, comentou:
            – Depois de solto, tem que haver ecossistemas que sejam próprios.
            Assim, em 2011, o projecto “Recuperação do Habitat do Lince Ibérico no Sítio Moura/Barrancos” (2006/2009) foi distinguido, por isso mesmo, pela Comissão Europeia como um dos 6 “Melhores entre os Melhores Projectos LIFE da Europa”. E para que continuemos a ter abetardas, falcões e outras espécies, importa combater a desertificação e, por estranho que pareça, manter os charcos, também eles alfobre da indispensável biodiversidade!
            É por isso que me sinto cada vez mais contente quando vejo melros, toutinegras, pardais e rolas saltitarem de ramo em ramo na cameleira, na romãzeira, na buganvília, no ficus, no aloés e no pitósporo do meu jardim…
                                                                     José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 680, 01-03-2016, p. 12.

11 comentários:

  1. Margarida Lino
    Zé, a propósito de charcos, lembrei-me de um pequeno riacho que passava perto da tua casa quando éramos pequenos, havia nele muitos girinos, e muitas vezes ficávamos ali a brincar a caminho da escola. Saudade desse tempo em que se podia brincar na rua sem problemas, o que não acontece agora com as nossas crianças, enfim é a evolução dos tempos, bjs

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    1. José d'Encarnação
      Esse 'riacho' é nada menos do que o «Rio dos Mochos» que vai desaguar na Praia de Santa Marta! Empoçava, de facto, antes de passar o pontão sob a estrada Birre/Torre, porque o leito afundava ali um pouco mais. E dos girinos vinham as rãs e era uma algazarra. Aí recebia um minúsculo afluente que vinha da zona do poço velho de Birre e que recolhia as águas das terras onde está hoje o Centro Comercial; essa ribeira ladeava a estrada para poente e tinha muitos ulmeiros.

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  2. Aurora Martins Madaleno
    Professor, gostei de ler o poético desabafo de que se sente "cada vez mais contente" quando vê "melros, toutinegras, pardais e rolas saltitarem de ramo em ramo na cameleira, na romãzeira, na buganvília, no ficus, no aloés e no fitósporo" do seu jardim… Tem muita sorte!

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    1. Tenho consciência disso, Aurora! Bem haja pela atenção!

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  3. Marici Magalhaes
    Belo texto prof José d'Encarnação! Quanta sensibilidade! Grande abraço!

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  4. Amy Madeira
    Como sempre, colocou o dedo na ferida! Beijinho

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  5. Domingos Barradas
    Belo e saboroso texto, escrito por quem sabe transmitir ensinamentos de forma cativante.
    Um abraço de amizade e elevado apreço.

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  6. De: Jorge Paiva [mailto:jaropa@bot.uc.pt]
    2 de Março de 2016 08:19
    Gostei muito do texto, felicito-o e arquivei para o mostrar a outros.

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  7. De: António Emídio Moreira Santos quarta-feira, 2 de Março de 2016 15:32
    Assunto: Myrtilis

    Pois, meu caro, mas por vezes as notícias não são boas, nada boas…
    Segue texto de comunicado que seguiu do ICNF para a Comissão de Acompanhamento do Plano de Ação para a Conservação do Lince-Ibérico em Portugal (PACLIP):

    “Ontem, dia 01 de março, Myrtilis, fêmea reintroduzida a 25 de janeiro e libertada na natureza no passado dia 8 de fevereiro no âmbito do projeto “Recuperação da Distribuição Histórica do Lince Ibérico (Lynx pardinus) em Espanha e Portugal (LIFE+10/NAT/ES/000570), foi encontrada morta, pela equipa de campo do ICNF, numa zona próxima do local de solta, no decurso da monitorização dos animais reintroduzidos na região de Mértola. As causas da morte deste exemplar são ainda desconhecidas e vai ser encaminhado para a Faculdade de Medicina Veterinária para realização de necropsia e apuramento das mesmas.”

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