terça-feira, 16 de outubro de 2012

A sedução dos bichos-da-seda

            Os que andámos na Escola nas décadas de 50 ou mesmo 60 recordamos, sem dúvida, que, a determinado momento, não se sabia muito bem porquê nem como, começava a época do berlinde, depois a do pião (ou vice-versa), e assim ocupávamos o nosso tempo de recreio a jogar ao «bias» em covas improvisadas, ou a procurar «rachar lenha» no pião do colega, enquanto as meninas saltavam ao eixo ou jogavam à macaca.
            Havia, porém, um outro entretenimento, que interessava ambos os sexos: a criação de bichos-da-seda, uma dor de cabeça para os pais que tinha de dar tratos à imaginação para descobrirem onde havia amoreiras para ter as folhas de que as lagartas se alimentavam.
            Lá estavam elas nas caixas de sapatos que iam e vinham de casa para a escola, «quantas tens?», «dá-me uma folhinha!»… E era toda uma aprendizagem: como é que uma lagarta, a determinado momento, amuava, desatava a tecer um casulo, se escondia lá dentro meses a fio e, um belo dia, saía de lá uma borboleta, que importava não deixar fugir, para que ali mesmo pusesse os ovos, donde sairiam futuras lagartas… Um ciclo de vida, em que apenas a morte era aparente e a esperança numa ressurreição se mantinha sempre bem viva!
            Tínhamos a ideia (a professora explicava) que dos casulos, sujeitos a determinados tratamentos, se poderiam obter fios de seda, a matéria-prima de que se urdiam tecidos ricos, com que outrora os Chineses faziam fortunas e até havia uma «rota da seda», pela qual andou, se não erro, um tal de Marco Pólo!...
            Porque me lembrei agora, passados 50 anos, desses tempos de infância? Porque, ao ler um trecho sobre Bernardino Machado, vi que legislara sobre a criação de bichos-da-seda e, consequentemente, do apoio a dar, no nosso País, à produção de seda. E recordei de imediato que, no âmbito da recuperação do património local, a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, por exemplo, lançara, na década de 90, o programa «Os Caminhos da Seda», que incluiu o projecto do Centro Interpretativo do Real Filatório, de Chacim, nascido no reinado de D. Maria I.
A crise vai fazer-nos regressar à terra. Talvez se regresse também à seda – porque não?

Publicado no quinzenário Renascimento (Mangualde), nº 602, 15-10-2012, p. 4.

 

 

2 comentários:

  1. Caro professor, mais uma vez um "post" muito curioso...

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  2. Daniel de Sá, ilustre investigador açoriano, escreveu-me no dia 20:
    «Se calhar descobri a razão por que o então dono (marido da herdeira)
    da Fábrica de Chá da Gorreana, aqui da Maia, fez uma plantação de
    amoreiras e obteve mesmo seda. A família ainda guarda uma peça de pano
    de quarenta metros. Ele tinha-a deixado para os vestidos de noiva das
    descendentes, que resolveram não a estragar. Vou perguntar à nora ou à
    neta se tal criação terá tido algo que ver com a vontade de Bernardino
    Machado, pois coincide no tempo e ele, o Sr. Jaime Hintze, era um
    homem muito culto e a par de tudo o que se passava por este mundo.
    Chegou a ser governador do distrito.»

    Agradeço-lhe a atenção!

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