terça-feira, 5 de junho de 2018

A criança que em nós desperta!

            Há muito que resisto a escrever de acordo com as quadras. Se calhar, por muito já ter escrito sobre o Natal e não gostar dos natais de agora. Ou sobre o Carnaval e achar que em máscaras e palhaçadas passamos o ano inteiro… Resisto. Desta vez, porém, deu-me cá uma veneta e regressei à meninice, hoje, que é Dia da Criança e se proclamam os direitos que ela tem, porque cada vez menos lhos dão. Que seja. Creio, porém, que este rememorar dos tempos da infância mais se prende não com datas de calendário, mas com secreta vontade de os reviver, se tal pudera!
            Criança não pode trabalhar, proclama-se. Acho bem. Contudo, há trabalho e trabalho! E, para além das ocupações comezinhas do quotidiano, em que ajudava minha mãe e o meu pai, de duas especiais me lembro, porque assim angariei as ambicionadas moedinhas para uns chupa-chupas!….
            Foi na ocasião em que, no interior onde eu vivia, de terras de lavoura e de matos, apareceram uns senhores que precisavam das bagas dos zimbros para fazer perfumes (dizia-se!). Bem apreciei sempre o licor de zimbro que o meu amigo Óscar Ribas fazia questão de me oferecer, vindo dos seus familiares nas Beiras! Nessa altura, seria apenas para perfumes e cosmética. Apanhei aos baldes, nos zimbreiros que pelos matos medravam. Dez tostões o quilo, seria!
            A outra ocorreu quando houve grande procura da erva de S. Roberto, cujas propriedades medicinais são sobejamente conhecidas: puseram toda a catraiada a apanhá-la por entre as pedras!
            Meninice em contacto com a Natureza: as ervas, as árvores, os bichos, galinhas, galos, coelhos… Sabíamos o que era um frango, um galo ou uma galinha pedrês. Caçávamos lagartixas e osgas com subtis laços de palanco… Fazíamos assobios de tenros caules verdes e dos caroços de almecoques raspados…
            E havia uma partida amiúde pregada aos mais pequenos: púnhamos-lhe na manga uma espiga de palanco e dizíamos:
            ‒ Sacode para baixo para ela cair! Sacode!
            Ao invés, a cada movimento do braço ela subia mais. E era uma comichão!... O que a gente ria do susto do miúdo ou da miúda, quando sentia aquilo amarinhar braço acima por baixo da camisola!...

                          José d’Encarnação
 
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 732, 01-06-2018, p. 11.                              
As traiçoeiras espigas de palanco!...
 

9 comentários:

  1. Eunice Dionísio
    6 de Junho de 2018 15:42
    Gostei muito de ler o texto. É bem verdade que as crianças de hoje não têm a vivência que tínhamos na nossa infância e algumas nem a cultura.

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  2. Maria Helena
    6 de Junho de 2018 15:42
    Fui ler o lindo texto, ainda coberto por uma névoa, e comovi-me... Quando puder ler melhor e escrever, voltarei lá para apreciar cada pormenor, até porque as bagas de zimbro encerram muitos poderes misteriosos que remetem para outros tempos e me encantam.

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  3. Ana Guimaraes
    6 de Junho de 2018 17:31
    Brilhante! Também eu fui miúda pequena no quintal de pais e avós em Carcavelos...

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  4. Maria João Pina
    6 de Junho de 2018 18:05
    Adoro essas memórias que partilhou. Ainda bem que não resistiu.
    Também me lembra a minha infância.

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  5. Alice Marques
    6 de Junho de 2018 20:00
    Que lindo!

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  6. Maria Antónia Lopes
    6 de Junho de 2018 22:03
    Gostei muito da sua crónica; dessa evocação que faz da infância.

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  7. Fernandinha Borges
    Olá, Professor! Descobri o que é palanco, pela foto, mas o que são almecoques? Obrigada e beijos!

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    1. Almecoque é o mesmo que abricoque, albricoque, alperce, damasco.

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  8. Ana Clare
    quinta-feira, 7 de Junho de 2018 12:59
    Nunca se perde tempo quando a leitura nos delicia. Relembrar as nossas aventuras de catraio é e será o melhor que existe em nós, neste momento que vivemos e que pouco nos diz, pois já seremo ou talvez não, velhos respingões, como é usual dizer-se da nossa geração.
    Adorei e revi-me nessas traquinices e trabalhos que tanto nos faziam subir o ego.
    Beijinhos senhor meu compadre e veja-se e reveja-se nestes tempos que tão bem nos fizeram.

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