sábado, 21 de maio de 2022

Chiça, penico!...

 Abri a janela para saudar a manhã e agradecer a Deus mais um dia que me seria dado viver. Entrou um ventinho cortante e o chorrilho de impropérios saiu-me de supetão:
– Tá um frio desgraçado! Chiça, penico, chapéu de coco, abrenúncio!
Na casa-de-banho interiorizei o que instintivamente acabara de dizer: com que jêtes, môce?
            Afinal, eu digo isso muitas vezes, em circunstâncias análogas e só agora consciencializei ser também essa uma herança de meus antepassados. A meu pai ouvira eu esse desabafo, sem que bem me desse conta das palavras ali usadas.
            «Chiça» fui ver ao Dicionário da Academia: «Exclamação que exprime dor ou protesto» e que talvez derive da palavra alemã ««Scheisse», que significa ‘porcaria’. Está bem. E nem é calão, só palavra do léxico popular. Consolei-me.
            Agora, essa junção com o penico e o chapéu de coco é que não quadra bem, na aparência. Se chiça é ‘porcaria’, o penico não vai mal ali; o chapéu de coco, porém, leva-nos para altas cavalarias, senhores vestidos de fraque… Não dá a bota com a perdigota. A não ser que – popular malvadez!... – se queira de imediato atirar para a burguesia as culpas de todos os males, esse incluído! Vem depois o abrenúncio, e esse é mais lógico: frio assim desgraçado só obra do mafarrico!...
            E será que o senhor google, se eu puser a frase toda, me dá alguma dica? Pus. E deu resultado: não sou o único a perorar sobre esse tema!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 306, 20-05-2022, p. 13.

 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Cantar de galo

           – Ó Maria, despacha-te! Que andas tu praí a besoirar?
            E o Joaquim voltou-se para a vizinha:
            – É sempre assim: quando temos pressa, põe-se a encanar a perna a uma arrã e depois ainda é capaz de cantar de galo, porque eu me esquecera disto ou daquilo.
            Conversas de antigamente que nem o Partido dos Animais e da Natureza sabe fazer ressuscitar. Do tempo em que mui saudavelmente se convivia com a Natureza e se tinha criação!… Até essa frase «ter criação» não é entendida agora à primeira. Que é lá isso de ter uma capoeira ao pé ou uma coelheira? Chegava-nos a casa uns primos sem aviso prévio? Sem problema: vai-se à coelheira, mata-se um coelhinho e está o almoço feito!
        Cantar de galo. Ele acabara de galar pomposamente duas das galinhas mais airosas da capoeira. Sentiu-se feliz, abriu as asas e… cantou, qual rei! Vangloriou-se.
            Besoirar. É um bichão de cores vivas, anuncia-se com um zumbido forte, bate as asas em frenesim. Mal poisa numa flor, ei-lo que salta para outra. E depois para outra. Será que conseguiu algum pólen de jeito ou foi só para se armar e marcar território?
            Encanar a perna a uma arrã. Tarefa que não vale a pena. O melhor mesmo é, se for gordinha, perder o amor à Natureza e prepará-la para o petisco. Coxinhas de rã? – Apreciam-se! ¿Quem poderia ter a veleidade e, sobretudo, a paciência de, um dia, tentar concertar com palas ou caninhas finas a perna duma arrã? Operação longa, longa de mais – e de nulo efeito, decerto.
            O besoirar, esse, é mais do nosso quotidiano, mormente o dos anciãos: pegas agora numa coisa, lembras-te doutra e não acabas a primeira; de seguida, olhas para uma terceira e dás-lhe seguimento… No fim da jornada, ainda a primeira se não acabou… Um dia de… besoiro!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 822, 15-05-2022, p. 12.

 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Viver (n)um Centro de dia

         Vão de propósito as duas hipóteses de título para as palavras de abertura a esta colectânea de versos. David Inácio vive no Centro de Dia da AISI (Associação dos Idosos de Santa Iria), em Murches, freguesia de Alcabideche, concelho de Cascais, desde que enviuvou e passou a estar sozinho, mas vive esse Centro. Ou seja, não é elemento passivo, que por ali está sentado entre refeições, olhando vagamente o vazio: integra, ao invés, a comunidade que durante o dia o acolhe
Esse, sem dúvida, o primeiro aspecto a realçar.
Natural de S. Brás de Alportel, em pleno Barrocal algarvio, David Inácio herdou desses ares entre a Serra e o Mar a facilidade de versejar. E recordamos necessariamente António Aleixo, sabendo de antemão que esse foi um dos muitos que por esse Barrocal medram e versejam, na alegria de viver, na vontade magana de nunca deixar perder oportunidade.  Tudo serve ao barrocalenses para lhes sair uma quadra – e David Inácio não é excepção.
Confessa que foi na AISI que ele próprio descobriu essa veia. Já a teria, aposto eu; só que não lhe fora dado azo para que se manifestasse. A vida decorrer-lhe-ia monótona: casa – pedreira; pedreira – casa; um copito na taberna, dois dedos de conversa além – e nunca o estro se revelara, até porque, decerto, o ambiente não seria o mais propício. Foi-o a AISI, mormente porque, tendo enviuvado cedo, o novo meio lhe despertou de imediato o lirismo que os anos de labuta diária por entre macetas, escopros e ponteiros, lhe não haviam permitido alimentar. Aqui, sim.
Nunca será de mais evocar o papel dos jograis medievos, vozes que se faziam eco de vidas, anseios, alegrias e dissabores. Como aqui, em toda a simplicidade de quadras de pé quebrado. Não teve David Inácio a instrução bastante para saber de sílabas, de ortografias, de rimas toantes ou soantes, de imagens de estilo ou versáteis onomatopeias… Nada disso! Tudo nele é espontâneo e se, na edição, quisemos agora mostrar – na ilustração da capa, que é de sua autoria – o que nos entregou, primeiro à Dra. Ana Raquel Silva e depois a mim, e como no-lo entregou, foi justamente para o mostrar na sua bem genuína autenticidade. Limitou-se a Dra. Raquel a ortografar e eu próprio ousei propor, aqui e além, a palavra que melhor quadraria ao acento ou à medida e não bulia com o cantar desse ritmo. Omitiu-se a raríssima pontuação que vinha nos originais manuscritos: abandonámo-la todinha para que o leitor a descobrisse. Propôs-se apenas uma sequência cronológica, porque sabemos quanto a Poesia – e esta de um modo muito especial – vive do dia-a-dia, do Carnaval, da Páscoa, das visitas, dos almoços de festa, do Natal… Todos sabemos quanto a epidemia e, agora, a guerra profundamente interferiram no nosso viver. E no dos Poetas ainda mais!...
«Órfão de letras» lhe poderíamos chamar; rico, porém, na forma simples como nos transmite o que lhe vai na alma. Sentimentos de ternura. Muitos, esparramados quase por todas as quadras. Sentimentos do membro duma comunidade que intensamente vive como sua. Por isso, não perde um aniversário para, com esse pretexto, propor mais abraços e beijinhos.
  Curioso, não há dúvida, este pormenor do abraço e do beijinho. Para David Inácio, não foi preciso vir a epidemia – que ele bem sente, aliás («Tive um sonho arrepiado / Um sonho não verdadeiro / Sonhei que estava infetado / Com o vírus traiçoeiro») – para lhe mostrar a forte importância que ambas essas manifestações de carinho têm no relacionamento humano. Pululam abraços e beijinhos pelas páginas do seu livro. Ousa, por vezes, ir um pouco mais além, na insinuação de algo mais íntimo: «Dá-me água por favor / Mas que seja bem fresquinha / Para eu matar o calor / Que tenho nesta boquinha»; ou mesmo engenhoso convite a uma vida em comum que se lhe antoja venturosa: «Recebe de mim um beijo / Ó minha querida fofinha / Eu sinto um grande desejo / Que um dia sejas minha».
Nunca esmoreceram, porém, as saudades da sua Aurora: «Éramos felizes verdade / Caminhávamos lado a lado / Partiste veio a saudade / Recordo o tempo passado». E mesmo os carinhos que recebe e as «princesas» que o rodeiam nem sempre lhe conseguem sublimar ausências, consolar tristezas, ainda que o tente esconder: «Digo sou triste por fora / Mas sou alegre por dentro». E não resistiu, apesar disso, mau grado essa quiçá aparente alegria interior, a desabafar assim em despedida: «Já estou a bater no fundo / Como se costuma dizer / Irei para o outro mundo / Já estou farto de sofrer». Ainda que, de facto, seja o versejar um dos seus maiores arrimos: «Os poemas vou escrevendo / Porque escrever faz-me bem».
Cumpre-me, pois, terminar como comecei: temos aqui um testemunho de vida. «A Árvore da Vida» foi, de resto, o título que o autor escreveu e quis ilustrar. Deu folhas, flores e frutos a sua árvore ditosa. 90 anos volvidos sobre o seu nascimento em S. Brás de Alportel, David Inácio dá testemunho. Os que – com ele – quisemos mostrá-lo neste livro estamos felizes por tal, assim, na simplicidade maior, no-lo ter proporcionado.

            Cascais, Páscoa de 2022

                                                           José d'Encarnação
                                                                       Associação Cultural de Cascais

Prefácio ao livro A Árvore da Vida, de David Inácio, Cascais, 2022, p. 3-6.

APRESENTAÇÃO (p. 85):

David Inácio nasceu, a 29 de Abril de 1932, em S. Brás de Alportel, no Barrocal algarvio.
Na década de 50, veio – com muitos outros, canteiros, cabouqueiros, trabalhadores… – para as pedreiras de Cascais. Descobrira-se a importância do azulino cascalense para as grandes obras públicas de então e, por outro lado, o chão são-brasense não se oferecia tão dadivoso quanto os subúrbios da capital…
Nunca o abandonou, decerto, esse hábito barrocalense do rimar quotidiano, a pretexto de tudo e de nada, mormente – como os demais – perante o azougue feminino.
A Árvore da Vida constitui, pois, em despretensiosa singeleza, o seu tributo à alegria de viver!

                                                           José d’Encarnação

Em conversa com Daniela Anghel

«A palavra definitivo, nos tempos apressados de hoje, parece, se não uma utopia, um insulto».

            Decorreu com o natural entusiasmo a inauguração, no passado dia 23, da exposição «Desfiguração da Utopia», da artista romena-lusa Daniela Anghel, na galeria do Casino Estoril, onde ainda pode ser visitada até ao próximo dia 23.

            Os visitantes ficam estupefactos – é o termo! – não apenas pelas dimensões das obras ali patentes, mas, sobretudo, pelo realismo da multiplicidade das imagens que para cada uma das telas são convocadas.
«As expectativas utópicas humanas, a falta da água, a fome a e pobreza em África, a guerra na Síria e a perda da fé como crítica do presente» – constituem, na opinião da artista. os temas ali dominantes.
Aliás, há toda uma mensagem de intervenção a perpassar pela enorme beleza do que se vê. Daniela Anghel é, também, uma pensadora que faz da pintura uma arma. Impunha-se, por isso, uma conversa.
 

1.      Quem é Daniela Anghel?

 

            É preciso um longo desvio para falar de nós mesmos.  Neste espetáculo, que é a vida, cada um de nós vive como Cristo por quinze minutos, como afirma Andy Warhol; e nem todos têm a contentamento de ser representados na eternidade como o próprio Cristo. Todos nós temos escondidos algures uma versão particular do calvário. Não estou interessada nos desastres que um pequeno calvário particular provoca, mas na força criativa indefinida em que este se exibe.  Pode ser que neste estado temporário intempestivo se possa falar de qualquer coisa como eu.    

 

2.      Sendo teu pai um diplomata, acabas por ser também tu uma artista itinerante. Expuseste na galeria do Casino, a mostrar-nos personalidades portuguesas retratadas em ponto grande.

                  Que recordações tens dessa exposição?

            O Doutor Nuno Lima de Carvalho apreciou, apoiou e divulgou muito a minha pintura ao longo dos anos. Claramente, estou entre aqueles que tiveram o privilégio de passar umas tardes com o Doutor Lima e a Doutora Clarinda na Galeria de Arte do Casino. Tenho muitas memorias bonitas com eles. Foi através deles que conheci também a escritora Agustina Bessa Luís e muitas outras personalidades portuguesas. Também foi ao seu apelo que fui desenvolvendo projectos de pintura que poderiam talvez não ter acontecido. Em 2004, por exemplo, o Doutor Lima, convidou-me para pensar numa exposição dedicada às Mulheres de Portugal. Embora, em muitos dos casos possam ter passado despercebidas, acredito que quase todas as mulheres que retratei tiveram um papel decisivo na história e na cultura portuguesas. A escritora e jornalista Maria Lamas, foi uma das figuras que mais lutou para os direitos das mulheres portuguesas. Na Europa, entre 1948-1950, quando ela escreveu “As Mulheres do Meu País”, foram publicadas outras obras também, sobre o conteúdo analítico de “género” na sociedade; nomeadamente “As estruturas elementares do parentesco” de Claude Lévi-Strauss e “O segundo sexo” de Simone Beauvoir entre outros. Foi uma mulher solidária e é essa pré-disposição para o outro que mais me interessou nelas.

3.      Foste depois para o Brasil: que novidades te trouxe, como artista, o contacto com as gentes brasileiras?

        Vivi na capital, em Brasília DF. Uma cidade nova, moderna, a cidade criada pelos arquitetos Lúcio Costa, o Óscar Niemeyer e o engenheiro Joaquim Cardozo. Uma cidade viva com uma atividade cultural intensa. Um dos encontros mais interessantes que tive no Brasil foi através da arte. “A primeira Missa no Brasil” do pintor do imperador Pedro II, Victor Meirelles; o retrato autêntico e singular do povo brasileiro visto por Cândido Portinari, ele mesmo nascido numa fazenda de café; a pintura modernista da Anita Malfatti; os retratos dos africanos pintados pelo Arthur Timótheo da Costa; as obras “A Elevação da Cruz” e a “Fascinação”, pintadas por Pedro Peres; mostrara-me uma imagem totalmente nova sobre o Brasil. Era um Brasil que eu desconhecia e que, no fundo, como todas as coisas imensas que vale a pena ver, tocar, tentar compreender, continua cada vez mais desconhecido.

4.      Que significa este regresso a Portugal: mais uma passagem ou um regresso definitivo?

 

           É uma passagem. Para sempre, como se costuma dizer, é muito tempo. A palavra definitivo, nos tempos apressados de hoje parece, se não uma utopia, um insulto.

 

5.      Que mensagem principal pretendes passar com a exposição que vais apresentar-nos?

 

        Não procuro mensagens principais, respostas ou soluções, mas, sim, imagino a produção de ambiguidades geradoras de perguntas. A imagem nunca é uma realidade simples. “Para que a montagem ambígua dos corpos suscite a liberdade do olhar crítico ou lúdico, é preciso organizar o encontro” afirma Georges Didi-Huberman em O destino das imagens. As minhas pinturas mostram vários encontros de imagem/fantasma que reivindicam novas forças.

 

José d’Encarnação

 

Publicado em Duas Linhas,05-05-2022: https://duaslinhas.pt/2022/05/em-conversa-com-daniela-anghel/

Espírito Santo

Beleza árabe




A originalidade do nosso «obrigado!»

            No Dia Mundial da Língua Portuguesa, a quinta mais falada no mundo, uma reflexão sobre a nossa forma de agradecimento.
Numa das vezes que passei por Castelo Branco, concretamente em 2010, a Dra. Clara Vaz Pinto, então directora do Museu Tavares de Proença, mostrou-me a vernaculidade do agradecimento à moda beirã: «Bem hajas!».
Desde então, passei a privilegiar essa forma, de tal modo que, em 17 de Novembro p. p., ao usá-la no restaurante «A Brasa», em Riachos, o dono me perguntou se eu era de Castelo Branco, porque ele vivera lá uns tempos e também ele ficara com esse jeito de agradecer, em vez do «obrigado!». Não me agrada, de facto, ouvir «obrigada!» ou «obrigados!», embora me enterneça o «obrigadinho!»…
«Bem hajam!» – o nosso desejo de que, em reconhecimento do que nos fizeram, as pessoas passem bem, tenham saúde e se concretizem os objectivos que fixaram para o seu viver! Todo um programa, portanto! Não mensagem apenas para o momento, mas projecção de futuro, como quem diz «haja saúde!».
Achei, por conseguinte, a expressão deveras adequada ao que um agradecimento pode consubstanciar.
Outro dia, porém, amigo meu enviou-me o vídeo em que o Professor António Nóvoa, por ocasião do III Encontro PIBID UNESPAR, realizado em Setembro de 2014, na Universidade Estadual do Paraná, no Brasil, sob o lema «Formar Professores para o Futuro», dissertou sobre o significado da gratidão.
Pegando no Tratado da Gratidão de S. Tomás de Aquino, explicitou que há três níveis de gratidão: o mais superficial, o cerebral, do reconhecimento intelectual; o 2º, o de dar graças a alguém; e o 3º, o mais profundo, o nível do vínculo, de nos sentirmos vinculados e comprometidos com a outra pessoa.
            Assim, em inglês («thank you») ou em alemão, agradece-se no nível mais superficial da gratidão, estamos a agradecer no plano intelectual. Na maior parte das línguas europeias, agradece-se no nível intermédio, «merci» (em francês), «grazie» (em italiano), «gracias» (em castelhano): estou a dar-lhe uma mercê, uma graça. Só em português se agradece no 3º nível, o mais profundo: digo «obrigado!» para significar que «fico obrigado perante si, criei um vínculo, comprometi-me ao diálogo e a mantê-lo». Por isso, professor terminou dizendo «Obrigado!».
            Lembrei-me de imediato daquela linda passagem do «Principezinho» de Saint-Exupéry, quando a raposa lhe diz «cativa-me!», porque cativar significar ‘criar laços’:
            «Tu para mim ainda és só um rapazinho parecido com cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim, Eu para ti sou só uma raposa parecida com cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a ter necessidade um do outro. Tu serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo…».
            Por isso, mais adiante na conversa, a raposa acrescentaria:
            «Só se conhecem as coisas que se cativam. Os homens já não têm tempo para conhecer. Compram as coisas feitas nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, já não têm amigos. Se queres um amigo, cativa-me!».
            Volto, pois, a usar o «obrigado!».
            E digo-lhe ‘bem haja!’ por ter conseguido ler-me até ao fim!...

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 05-05-2022: https://duaslinhas.pt/.../a-originalidade-do-nosso-obrigado/

terça-feira, 3 de maio de 2022

Numa bola de sabão

            Cuidou Umberto Maria Milizia do livro – quase catálogo de exposição – sobre a produção artística de Eugenia Serafini entre 1993 e 2003, publicado em Roma (2003) por Edizioni ARTE COM.            Sintetiza Umberto, na nota introdutória, o currículo de -Eugenia e, no final, faz-lhe uma pergunta: 
 
«Eu vi-te viajar numa bola de sabão. Eu vi! Quanto custa o bilhete?»
 
Óleo de Edouard Manet
 Não havia mais para ler; mas, se o houvera, eu me quedaria aí, a saborear o achado! Viajar numa bola de sabão – que bom seria!... Vêm-nos à mente as nossas brincadeiras de menino, tão bem retratadas, aliás, no célebre quadro a óleo de Edouard Manet, patente no Museu Gulbenkian, em Lisboa, em que é retratado o seu filho a fazer bolinhas de sabão. Escreve um dos entendidos nessas interpretações pictóricas que o pintor quis representar nessas bolas «o sentido da existência efémera».
  Não terá pensado nisso Umberto Milizia, mas sim no enlevo que a contemplação das obras de arte amiúde nos desperta, nessa vontade de sermos leves e… ir por aí, à deriva, a saborear a vida que nos é dado viver, a paisagem que se nos oferece. Os concursos que fazíamos em pequenos: quem faz a bola maior? Quem consegue fazer mais? E uma dentro da outra? Mãe, compras-me uma daquelas coisas que dão para fazer bolinhas, compras? Sim, que hoje há «coisas para fazer bolinhas», outrora qualquer palhinha servia, mesmo de feno. E misturava-se sabão azul e branco num copo d’água. Estava feita a engenhoca. Para brincar até cansar!
  Há, contudo, um senão a ensombrar Umberto: «Quanto custa a viagem?». O repentino contraste entre a elevação do conceito e os pés-na-terra a pesarem na escolha.
            Não revela Umberto Milizia qual foi a resposta da minha Amiga Eugenia Serafini. Não nos custa, porém, adivinhar qual terá sido:

            – Esta viagem é de graça, Umberto!

            Sim, a partir da contemplação da Natureza e das obras de Arte que mui sabiamente no-la revelam, há viagens boas e gratuitas que importa aproveitar, a contrapor com urgência às imagens de ruinosa desgraça que a voracidade de alguns «homens» teimam em nos proporcionar.
            Contemplo a tonalidade já verde dos campos de Castro Verde. No ar, planando, suaves, quais bolinhas de sabão, um casal de abetardas. Também esta viagem é de graça!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 821, 01-05-2022, p. 12.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Homenagem, em Pax Iulia, a um sacerdote romano

        Dada a sua relevância político-social, ao pacense Lúcio Márcio Píero deliberaram os habitantes da cidade, no já longínquo século I da nossa era, erguer-lhe uma estátua, que solenemente foi colocada no fórum. Lisonjeado com a honra, o homenageado fez questão em lhes pagar a despesa!

Uma descoberta que fez sensação!

José Umbelino Palma, chefe da secretaria municipal e director do jornal O Bejense enviou, em 1891, a José Leite de Vasconcelos a informação de que, entre «os bons exemplares arqueológicos» identificados no decorrer das «escavações do Palácio dos Infantes, em Beja», se encontrara uma inscrição romana, «ainda inédita», que, à parte algumas falhas mínimas, «está tão perfeita, que parece feita agora».
Deu a leitura do texto em latim, as dimensões – «altura, 0m,95; largura 0m,57; espessura 0m,56» – e teceu breves comentários sobre o que faltava no monumento e o que do letreiro se reconstituía bem.
São, de resto, bem conhecidos «o grande esforço e dedicação de José Umbelino Palma», como se lê na página do Museu Rainha D. Leonor, o qual «não só reuniu grande parte do espólio do Museu como o organizou, divulgou e, ao mesmo tempo, incentivou e sensibilizou inúmeros bejenses e pessoas da região a doarem peças importantes para o museu, no sentido de enriquecerem as diversas colecções e contribuírem para a salvaguarda do património cultural, artístico e arqueológico da região que, na posse de particulares, corria o risco de desaparecer». A «verdadeira alma» da instituição, inclusive por se ter servido para esse efeito do jornal que dirigia.
No caso deste achado não hesitou em enviar para Lisboa informação tão significativa, que, de pronto, José Leite de Vasconcelos deu a conhecer na revista a cuja publicação então pusera mãos: «O Arqueólogo Português nº 1, 1895, p. 110. Este investigador, porém, ficou entusiasmado:
«Ultimamente tem-se manifestado em Portugal um movimento de certa importância nas ciências arqueológicas. De todas as províncias do país chegam a Lisboa notícias de descobrimentos novos».
E concluía no seu comentário:
«Se este movimento continuar com a mesma actividade, grande luz deve resultar para o conhecimento da nossa história antiga».
Depois de enaltecer o «lugar importante» que o Museu Municipal de Beja ocupava já «neste renascimento científico», nomeadamente através do «incansável» Umbelino Palma, não hesitou em afirmar que a inscrição publicada «é realmente muito valiosa».

«Muito valiosa» porquê?

            Vejamos, pois, o que, em Latim, nesse bloco foi gravado:

            «Ao pacense Lúcio Márcio Píero, augustal da colónia pacense e do município eborense – os amigos, devido aos seus méritos, erigiram, por subscrição pública.
            Lúcio Márcio Píero, satisfeito com a honra, pagou a despesa».
            Houve um período, aí pelo século XVII, em que se discutiu entre os investigadores se a colónia romana de Pax Iulia se teria localizado em Beja ou em Badajoz. Ou melhor, uma leitura apressada do que escreveram os intervenientes nesse debate é que levou a pensar-se que era esse, o da localização, o problema em disputa. Não era, creio eu; o que Badajoz reivindicava para si era ter sido, no tempo dos Romanos, a capital dum «conventus», a circunscrição político-administrativa importante em que se dividiam as províncias; que na génese da cidade de Beja estava Pax Iulia não se terá discutido. Contudo, no comentário a este monumento, Leite de Vasconcelos volta ao assunto e reclama:
            «Se outros documentos não houvesse de que Pax Iulia estava situada no actual local de Beja, e não no de Badajoz, esta inscrição, só por si, tirava a tal respeito todas as dúvidas, pois prova isso de modo evidente» (ibidem, p. 112).
            E a prova residia em o homenageado aí ser identificado como pacense, palavra, aliás, que aparece grafada em lugar de relevo, isolada, no monumento.
            Três aspectos merecem, desde logo, particular reflexão:
            Prende-se o primeiro com o facto de Píero ter sido nomeado augustal tanto na colónia pacense como no município de Évora. Desconhecemos se o terá sido simultaneamente (é provável que não) e se esse exercício duplo seria, então, frequente no caso de cidades próximas. Em todo o caso, manifesta-se aqui uma relação estreita – ainda que através de uma personalidade – entre os dois aglomerados urbanos.
Uma personalidade que se moveria em meio de libertos (isto é, de antigos escravos), o estrato populacional estreitamente ligado aos negócios, a que os seus senhores não poderiam aceder. E podemos afirmá-lo por ser nesse meio que se recrutavam os membros do colégio de seis membros (séxviros) encarregados de zelar pelo culto ao imperador; e, por outro lado, porque, ao identificarem-no, omite-se a filiação e o seu último nome – Píero – é de origem grega, um nome de bem elucidativo teor cultural, quer porque a mitologia grega atribui a Píero a paternidade de nove filhas, para as contrapor às nove musas, quer porque foi esse o nome dado a um monte da Tessália, na Grécia antiga, dedicado às Musas.

O significado político-social

            No exercício das suas funções sacerdotais, Píero foi elo de ligação entre os interesses da população de «Pax Iulia» e o poder central, por na cidade ser responsável pela manutenção do culto (leia-se, «obediência») ao imperador romano.
            Todos estamos bem conscientes do significado duma homenagem, quando é prestada a uma individualidade que detém poder económico e político. Sob o manto diáfano da Amizade se esconde, amiúde, o clientelismo. Ainda hoje, quando falamos dos «Amigos» disto ou daquilo, privamos com um conceito de Amizade que não vem, necessariamente, do… coração!
Ora veja-se: os «amigos» de Píero promoveram uma colecta para arcar com as despesas de lhe erguerem uma estátua. Ele soube disso, é claro. Aliás, se fôssemos mal-intencionados, até nos perguntaríamos se não foi mesmo ele que, sub-repticiamente, sugeriu quanto isso a todos acabaria de ser de muito interesse… (Recordo aquele amigo meu que, um dia, me escreveu para eu sugerir ao Presidente da República que lhe desse uma comenda…).
Píero, então, não esteve com mais medidas: quer tivesse sido combinado, ou não, o certo é que foi ele quem pagou as despesas. E seguramente, no dia solene do descerramento da estátua, generosamente recompensou os «amigos» com o dinheiro que haviam entregado. Atitude assaz inteligente: benemérito, teve uma estátua; duplamente benemérito porque… a pagou!

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo [Beja] nº 2088, 29-04-2022, p. 13.