terça-feira, 21 de setembro de 2021

As nossas frases

                Fui reunindo frases que, por as ter ouvido em jovem, agora me vieram à lembrança, por me parecerem típicas do nosso falar barrocalense. 
               Quiçá algumas o não serão. Mas aqui se registam, ainda que possam estar, de facto, nos dicionários que dão atenção aos provincianismos ou ao modo como o povo fala.
            A primeira foi-me recordada por um dos meus gatos ter agarrado num novelo e percorrido com ele a casa toda, aos saltos. A frase também se aplicava às crianças que não estavam sossegadas e eram capazes de, deixadas sozinhas fazerem das suas e deixarem tudo de pernas pró ar. A gente falava-lhe mais alto:
            «Pára de fazer bilharetas, moce!».
            Esta vem no Dicionário do Falar Algarvio.
Estoutra algarvia não será. Descobri que se disponibiliza na Internet vasto rol de ‘expressões algarvias’, deve ser para os forasteiros lerem antes de virem para cá de férias, deve ser… E esta soa-me mais vinda dos brasis.
Achei-a um mimo, porque pode aplicar-se ao moço pequeno desajeitado nas lides do desenho, mas também serve para os adultos:
«Pára de pôr chifre em cabeça de cavalo!».

Na Internet, em vez de «pôr» sugere-se «procurar» e exemplifica-se com a professora a querer, por força, encontrar erros no trabalho do estudante para lhe não dar a nota máxima que ele merece…
Portanto, não, a questão de chifre no sentido concreto ou figurado não vem ao caso.
            Aqui – usando o «pôr» – o que se pretende dizer é mais sério, uma forma quase sarcástica e bem sugestiva de afirmar que o nosso interlocutor está a baralhar-se mesmo, a atribuir a outrem o que a esse outrem não pertence, a trocar os pés pelas mãos!...
E já que se fala em pés, aqui vai outra do meu rol:
«Eu pisei no tomate com os dois pés e fiquei sentado nele».
Ora toma! Fizeste asneira, não te corrigiste, persististe no engano e… saíste de fundilhos das calças borrado! Bem feita! Não tens emenda nenhuma!...

                                               José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 298, 20-08-2021, p. 13.

Post-scriptum: Insiro, com a devida vénia, a ilustração de Federação Educacional e Cultural Metropolitana. Há, de resto, na Internet muitas imagens referentes a esta assaz saborosa frase...

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

-ismo, sufixo perturbador!

         Foi apresentado no domingo, 19 de Setembro de 2021, o livro Um Anjo e Quatro Virgens, romance da autoria de José Luís Sabido, que já estava disponível desde 5 de Junho do ano passado, mas que, por via da epidemia, se não pôde apresentar na altura. Aproveitou-se o ensejo de, na villa romana de Freiria, se dar conta do livro Sustentabilidade (com os trabalhos premiados nos XIII Jogos Florais da Junta de Freguesia de S. Domingos de Rana), para se trazer também este a conhecimento público. É a 54ª publicação da Associação Cultural de Cascais e para ela tive ocasião de redigir este prefácio (p. 3-6):

-ismo, sufixo perturbador!

      É bem provável que, no período pós-corona, voltemos a receber frequentes convites para o lançamento de livros. Queira-se ou não, neles se espelhará, sem dúvida, o que, nesta fase de confinamento, perpassa pelo ânimo de todos e de cada um de nós. Se forem textos redigidos agora. Os anteriores reflectirão também outros pensares. Próprios e alheios. Alheios feitos nossos. A nível individual ou colectivo. Experiências de cada um dos autores – vividas, testemunhadas. Sempre a merecerem, porém, o comentário oportuno, a reflexão.

            O escritor, personagem dos seus escritos. Pela forma como escreve, optando por esta palavra e não por outra. Pelo tema que privilegia. Pelo olhar.
ooo
Não é a primeira vez que José Luís Sabido se abalança a escrever.
Dele se publicou, em 2003, Tires Terra de Canteiros, onde desfiou, «assim a eito, memórias de tempos idos que, doutra forma, a pouco e pouco se esfumariam na joeira inexorável da vida», como tive ocasião de anotar no preâmbulo desse livro.
E se Tires Terra de Canteiros foi ímpar evocação do trabalho da pedra, Tires quando eu Era Pequenino, de 2005, constitui retrato vivo das famílias da localidade, entre 1944 e 1948. Histórias para não esquecer.
           O facto de, em 1971, ter conseguido emigrar para os Estados Unidos da América, após tentativas goradas, na década de 60, para a África do Sul e o Canadá, deu-lhe a ideia de escrever Os Cavalos do Senhor Morgado, em duas partes (publicadas em 2005 e 2008), a dar conta, romanceada mas candente, das agruras vividas em Portugal, mormente pela classe operária, sob a ditadura salazarista. A permanência na América não podia, em seu entender, deixar de ter também o seu testemunho.
            José Luís Sabido é assim. A vida não passa por ele – é ele quem na conduz! Por isso, os seus «versos soltos» incluídos na antologia Cinzelar as Palavras como as pedras… em S. Domingos de Rana (Associação Cultural de Cascais, 2009, p. 43-52) falam de deus, dos crimes, da mentira, da guerra, do sem-abrigo e… dos -ismos:

                                    De todos os muitos ismos
                                    Resta-nos apenas um
                                    É o humano egoísmo
                                    É só ele e mais nenhum!

            Ismos, sufixo das teorias baptizadas, das bandeiras de muitas lutas. Ele aparece aqui, neste Um Anjo e Quatro Virgens – título, de facto, estranho para um livro. Não é, como se verá, porque se trata de um libelo contra o fanatismo religioso, totalmente desprovido do calor humano, cego, implacável.

            Vamos, então, viajar com José Luís Sabido até aos Estados Unidos da América nas décadas de 60 e 70 do século passado, aquando da guerra do Vietname. São nossos companheiros de viagem duas famílias, uma imigrante lá há tempo, de vida organizada; outra que para lá vai pela primeira vez, a fugir de eventual ida do filho para a guerra no Ultramar, nunca andara de avião e, embora bem colocada na Baixa lisboeta, vai tentar amealhar ali mais alguns cobres.
          Pretexto, consequentemente, para sabermos duma sociedade multi-racial, multi-religiosa (cá estão os -ismos!...), assaz desigual e quase do «salve-se quem puder!». Não sem, de permeio, como quem não quer a coisa, darmos uma espreitadela por aquela Baixa duma Lisboa em que, na zona, todos se conheciam e confraternizavam. O tipicismo do compassado apitar dos cacilheiros, o pregão do vendedor de cautelas, a taberna do galego, o maço de três-vintes, o copo-de-dois pedido por não haver moedas para o de-três…
         Claro, teremos romance no verdadeiro sentido do termo – paixões destroçadas, paixões reprimidas, ciúmes criminosos, crueldades impensáveis… E romance policial por via disso, bem inteligentes interrogatórios judiciais à mistura… O ambiente cosmopolita da 5ª Avenida, a miséria do Bairro Harlem…
            «Lugares-comuns», dir-se-á. Aceito. Nem sempre, porém, o «lugar-comum» se consegue aninhar assim em linguagem singela, despojada de pretensões literárias, onde, por exemplo, o titubear entre o presente e o imperfeito do indicativo nos enlaça e nos torna inevitáveis testemunhas duma acção plena de imprevistos e que, por essa razão, nos prende do princípio ao fim.
ooo
            Quando os drones das televisões nos mostram o aeroporto de Lisboa transformado em assustador parque de estacionamento dos aviões da TAP, entremos, pois, nesse mesmo aeroporto, mas em 1971. Bem diferente do de muitos meses atrás; assaz diferente do deste misterioso dealbar de 2020. As viagens, doravante, já não vão ser como outrora; mas podemos matar saudades! Bem-vindo a bordo, amigo leitor! E faça boa viagem!

                                                            Cascais, Páscoa de 2020

                        José d'Encarnação


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A poesia servida - A propósito de recente livro de António Salvado


 Com projecto de design gráfico e desenhos de Jorge dos Reis e o apoio da Câmara Municipal de Castelo Branco, editaram as A23 Edições, de Ricardo Neves Prod., o livro Sentimento Viageiro, poemas de António Salvado. Direcção de Ricardo Paulouro Neves, paginação de Olga Fernandes. Execução gráfica de Grafisete – Fundão.
         Assina o prefácio Manuel da Silva Ramos: «A viagem favorável de António Salvado». Aí se assinala estarmos em presença de um «poeta clássico», cujos temas preferidos continuam a ser «o amor, a natureza e o célere tempo fugidio que agasta», ainda que, desta feita, haja uma tónica especial: «a insónia pessoal do poeta que se agarra a ele como uma lapa e o ataca durante horas e horas a fio». Silva Ramos não é, porém, insensível ao facto – que justamente salienta – de o Poeta estar, de facto, atormentado pela «ânsia de escrever», ânsia que nem ele «sabe de onde vem». Salvado, o poeta compulsivo de que já aqui se falou.
Não posso deixar de salientar também o apreço que Manuel da Silva Ramos demonstra pelo facto de este livro ter «a “pata” inconfundível de Jorge dos Reis, um dos melhores designers gráficos do país», que «buscou inspiração na arte negra mais que no futurismo russo que lhe é familiar», e um surpreendente inventor de alfabetos novos», comparável, neste caso, em seu entender, a «um pente quotidiano que se leva em viagem».
A expressão ‘alfabetos novos’ alude à capa do volume, onde o nome de António Salvado surge em anagrama, criptografado a negro, assim a modos de pináculos de catedral ou a lembrar também aquelas estatuetas âmbar das tribos indígenas africanas. Um mundo!
No posfácio, Jorge dos Reis explicita melhor o que desejou transmitir, falando, por exemplo, «das criaturas aladas e daquelas que desejam voar», contrapondo-as ao grafismo do título da obra, que lhe recorda as caixas dos caracteres de chumbo das mui antigas tipografias.
O leitor normal, ao ver que os versos dos poemas estão inscritos em linhas de pauta, poderá pensar que se quiseram evocar os vetustos cadernos pautados da nossa escola primária. Errado! São «levadas» que, à maneira da frescura dos cômoros madeirenses, «apoiam os nossos olhos para a leitura, em movimentos de sacada ocular, como uma estrada que nos leva ao Jardim do Éden do Poeta», explica Jorge dos Reis (p. 67). Um lírico, este Jorge dos Reis!...
Que António Salvado me perdoe, se, perante este aparato da obra, me ocorreram duas imagens. A primeira foi a de uma série de fotografias a mostrar mui extravagantes prédios espalhados pelo nosso mundo, em que se deu total primazia à excentricidade estética e se postergou a eficácia. A segunda, a dos pratos da cozinha ‘gulosa’ (eu prefiro este saboroso termo português ao internacional ‘gourmet’…) em que se privilegia a ideia de que… “os olhos também comem!”.
Por conseguinte, Amigo Poeta, por entre levadas, encontrei desta vez personagens que particularmente me chamaram a atenção. De um já partilháramos a lira, João Roiz de Castelo Branco; os outros, salvo o erro, aparecem-nos aqui pela vez primeira: os míticos goliardos, a que, aliás, também Manuel Silva Ramos se refere, adiantando que foi estratagema seu para «visita à sua juventude»; e também eu gostei da frase «para eles amanhã era sempre um feliz dia»!
Da evocação do João Roiz (p. 55-56), apreciei deveras as quadras (perdoo-lhe o  ‘porém no entanto’) assim geridas, em rima consoante aqui e apenas toante acolá, mas no sabor da balada que se plange: «Doentes com a partida, / mendigos de pouca sorte, / por não vos verem com vida / ficam à espera da morte».
Noite, solidão, sonho, pensamento… E a enorme importância que este tem:
«Nem sequer um pensamento / infiel poderei ser-te: / o meu coração batendo / chama-te a cada momento / na ânsia de sempre ver-te» (p. 43).
Assim como a realidade psicológica do tempo:
«Passatempo que melhore / o esperar que o tempo flua – / cada hora um só minuto, cada minuto uma hora.» (p. 60).
De antologia!

                                                      José d’Encarnação 

Publicado em Gazeta do Interior [Castelo Branco], nº 1705, 01-09-2021, p. 10.