Não, não vou responder à
pergunta do irritante anúncio televisivo «porque paraste?». Não. A receita é
outra: um bom copinho de vinho tinto!
Tenho aqui um, à minha
frente, cujo rótulo reza o seguinte:
«Cor rubi brilhante, aromas
com frutos vermelhos maduros e pequenas bagas, boca com excelente frescura e
taninos vivos mas bem integrados, termina elegante e com bom volume».
Há lá melhor?
Compraz-me particularmente a
fresca literatura dos vinhos portugueses. Que frases bonitas, buriladas a preceito,
para, no fim, se as espremermos a fundo, nos quedarmos com uma sensação
estranha: «Que é que eles querem dizer com isto?». Mas, nessa altura, já
teremos degustado o precioso néctar, soubera-nos bem e até nos alegráramos com
esta terminação… «elegante», como quem diz «Fiquei mais elegante, não fiquei?».
Com essa do “bom volume” a
gente pode ficar de pé atrás, porque é passível de sugerir a ideia de pança e
todo o mundo quer é emagrecer, embora saboreando bons petiscos. Aliás, consola-nos
ler que, apesar de ´vivos’, os taninos estão «bem integrados», o que nos leva a
pensar: Ná! Não me vai crescer a barriguinha. Eles estão ‘bem integrados’ esses
taninos!, que, como dita a inteligência artificial, «conferem estrutura, corpo
e uma sensação de adstringência (secura) na boca».
Reclamo com frequência
contra a má qualidade dos dizeres publicitários e, de modo especial, das
traduções. Contra a escorreiteza das falas vínicas, nada a dizer! Tudo nos
conformes, segundo os ditames da melhor poesia abstracta.
Portanto, socorro-me da
frase que o meu amigo romano de há 2000 anos quis mandar gravar no seu túmulo: «A
lareira está acesa. Vamos a mais um copo, companheiros?»
Vamos – que a boca já requer
frescura!
José d’Encarnação
Publicado no jornal RENASCIMENTO, de Mangualde, nº 890, 20-05-2026, p. 10.


