domingo, 11 de outubro de 2026

O que paredes antigas escondem

            Além da conhecida palha de Abrantes e da tigelada, a cidade de Abrantes reserva novidades dignas de serem conhecidas e a arqueologia urbana acaba por nos reservar surpresas não esperadas!

 

           Assim, a arqueóloga Célia Silva – que já descobrira, num buraco de parede, uma carta de 1721 a encomendar coelhos – encontrou,  no forro desse mesmo edifício, um carrinho de linhas de madeira, tampas de publicidade redigida em francês (!) a uma pomada da marca ELGA – «pomada superior de cera sem ácido para calçado» –  e a uma outra, essa portuguesa, pois que a legenda proclama: «Só a Rosinha dá brilho assim!!».   

        

            Este carrinho de linhas de madeira levou-me aos meus tempos de menino e, confesso, acabei por não seguir com a devida atenção a brilhante exposição da Dra. Célia Silva.

            E que a um carrinho de linhas assim, nós, moços pequenos, cortávamos as extremidades de modo a ficarem em jeito de rodas dentada e imaginávamo-las rodas dos tanques de guerra, que fazíamos movimentar à força de elásticos enrolados no sítio da linha e que, desenrolando-se devagar, faziam o ‘blindado’ avançar. Por vezes, até canhão lhe púnhamos: um pau de fósforo servia às mil maravilhas para o efeito!


            Pode acontecer que haja desses brinquedos imaginados em Museus de Brinquedos ou em imagens de livros infantis. Adorava saber!
            Aliás, no decorrer do colóquio organizado, no passado dia 26 pela Câmara Municipal intitulado «A Arqueologia Urbana ao Serviço da Comunidade», Célia Silva mostrou tábuas com inscrições deveras curiosas, como esta em que se lê:

    

            Realizado no auditório do Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, este primeiro Colóquio da série prevista para mostrar a cidade na sua relação com o rio ao longo dos séculos – «Abrantes, o Tejo e o Tempo» – teve por objectivo mostrar como as intervenções arqueológicas levadas a efeito no âmbito da própria cidade, além de não serem “empatas” do desenvolvimento urbano, acabam por enriquecer o património, inclusivamente dos prédios que vão ser renovados ou dos novos que aí virão a ser construídos.
            Daí que se fale em “serviço da comunidade”, porque, tal como as árvores necessitam das suas raízes para se alimentarem, assim a população duma cidade carece de saber de onde veio, das fases por que passou, para melhor compreender o seu presente.
            Deu-se conta, pois, das intervenções feitas no centro histórico de Abrantes, cujos conventos e colégios foram sendo paulatinamente adaptados a outras funcionalidades. Luis Peri e André Freitas (da empresa Gestcult) mostraram, por exemplo, as fases por que passou a transição do antigo Convento de Nossa Senhora da Esperança para o Colégio de Nossa Senhora de Fátima.

   

            Por outro lado, a cidade de Abrantes deteve – e continua a deter – uma posição estratégica, tanto do ponto de vista militar (veja-se o papel que desempenhou no quadro das invasões francesas) como económico, pela sua proximidade do Tejo (ia-se por via fluvial de Lisboa a Abrantes!…). Haja em vista que os trabalhos de reabilitação do Cineteatro São Pedro permitiram concluir que o local fora utilizado como cemitério entre 1810 e 1811, ou seja, precisamente por altura das referidas invasões.
            A cidade careceu, por conseguinte, de estar bem defendida e não deixou de ser curioso que, ao se proceder a escavações nos edifícios pertença da Misericórdia local, se haja encontrado um pouco da linha defensiva militar da cidade. Por seu turno, o Convento de São Domingos estudado por Filomena Gaspar e Vânia Janeirinho também sofreu alterações, de modo que as investigadoras apontam para o local a seguinte trilogia em sequência: convento, quartel e necrópole!
            Esse, de resto, o espírito que preside às intervenções no âmbito da Arqueologia Urbana: na sua estrutura urbana, a cidade está viva e, por isso, o que se vai modificando não pode destruir, mas reabilitar, o que está para trás, como memória a preservar. Nesse aspecto e também para esse efeito, Abrantes dispõe já de uma notável rede museológica, de que podem citar-se o referido Museu de Arte Contemporânea e o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, galardoado este, pela Associação Portuguesa de Museologia, em 2023, com o prémio “Museu do Ano”.

                             José d'Encarnação

            Publicado em Duas Linhas, 30 de Setembro, 2026:

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A intrincada história de maçónicos beneméritos, arquitectos célebres e despejos odiosos!

          


 Embrenhar-se no que se diz e escreveu acerca dos dois imponentes edifícios abandonados – e também por isso envoltos em mistério – junto ao cemitério de Camarate (concelho de Loures) é bem complexo labirinto, de cuja saída, durante bastantes horas, eu procurei – qual Teseu – encontrar o fio de Ariadne.

Não encontrei.

Ou melhor: por outros labirintos mais complexos acabei por me embrenhar e, por isso, resolvi, alfim, ir bater à porta certa: o Dr. Jorge Afonso, mui prestável técnico do arquivo da Câmara Municipal de Loures. Esta crónica deveria, aliás, ser também assinada por ele, pois Jorge Afonso teve a gentileza de me ajudar cabalmente a pôr os pontos nos is.

Foram aqueles edifícios inacabados existentes na vetusta Quinta do Guarda-Mor mais uma das beneméritas iniciativas do proprietário dos Armazéns Grandella, o empresário e filantropo Francisco de Almeida Grandella (1853-1934)? Saíram os seus projectos da prancheta do célebre arquitecto Rosendo Carvalheira (1861-1919), a quem se ficaria também a dever o então chamado Sanatório de Santana, na Parede (Cascais), de magnífica traça arquitetónica? E esses actuais ‘monstros’ têm algo a ver com a intenção de um sanatório para tuberculosos no Cerro de Montachique, no mesmo concelho de Loures?...

Puseram-se as questões. Apresentam-se agora os dados, resultantes da leitura de vários documentos do processo de licenciamento em informação pública, existente num arquivo público, o da Câmara de Loures. Diz-me Jorge Paulo Afonso que a sua colaboração «foi mínima, apenas no sentido de permitir a um investigador produzir um texto sobre um edifício do concelho de Loures», com base nos dados constantes no Arquivo Municipal de Loures e ao Processo nº 34432/Antigo (1969). Não foi mínima – e fico-lhe grato.

As fases do processo

            Atendendo, então, às vicissitudes relacionadas com os edifícios, mais facilmente se lograrão compreender as fases do processo, dando a cronologia dos acontecimentos:

1969 – A Câmara Municipal de Loures, nesse ano e também posteriormente em várias ocasiões, solicita ao inquilino da casa da Quinta do Guarda-Mor que sejam realizadas obras de manutenção.

1971 – Em Abril, a Câmara Municipal de Loures vistoria novamente o edifício existente, que apresentava riscos motivados pela sua ruína, informando o proprietário, José Maria Gonçalves, que teria de proceder a obras de consolidação.

1973 – Em Fevereiro, o director da empresa SOLATU – Sociedade Familiar de Administração de Propriedades para Lavoura e Turismo, SARL, apresenta um pedido de alteração do uso do edifício, para Casa de Repouso, em conjunto com uma profunda ampliação para as traseiras.

1974 – José Maria Gonçalves, na qualidade de “proprietário” da Fundação Santa Maria da Silva apresenta novos pedidos de alteração à propriedade, acrescentando um edifício de traça semelhante ao alterado e um, mais baixo, para garagem de ambulâncias e instalação do pessoal afecto à, agora, clínica, que aí se propunha edificar. Essa fundação deve o seu nome à padroeira do local onde José Maria Gonçalves nasceu, Silva, no concelho de Valença; embora já existisse desde 1973 com essa designação, a Fundação Santa Maria da Silva só tem existência legal a partir de 1989, possivelmente por intervenção de Francisco Maria da Silva, empresário ligado à construção civil e responsável por extensa obra urbanística na região de Lisboa.

1975 – Sem ainda estarem concluídos, mas tendo-lhe sido dada já a designação de Lar Panorâmico, os edifícios são entregues, por contrato, ao IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais), para aí alojar umas seis centenas de cidadãos provenientes das ex-colónias, principalmente de Moçambique e da Guiné.

1986 – A Câmara Municipal de Loures inicia um processo de expropriação da parte rústica da quinta, para instalação do cemitério municipal de Camarate.

1987 – No final de Maio, por imposição da Fundação, o Tribunal decide que a expropriação da Câmara Municipal de Loures deve ser pela totalidade da propriedade. A 2 de Junho, eclode aí um incêndio e, conseguintemente, a Câmara Municipal de Loures opta pela evacuação dos edifícios, mas alguns ocupantes não são realojados.

1993 – O Tribunal decide a desocupação total dos edifícios. Os ocupantes são despejados com alguma violência e forte presença policial, despejo que teve larga repercussão na Comunicação Social, houve quem lhe chamasse “O escândalo de Camarate”, aliás, reportagens televisivas foram várias. A Fundação Santa Maria da Silva recupera, pois, a posse da propriedade e, até ao momento (Outubro de 2026), não foi realizada qualquer obra de recuperação.

Deslindando a arquitectura

Voltando a uma das questões que se tem levantado: a referida intervenção (ou não) de Rosendo Carvalheira nalguma das fases do processo, necessariamente antes de 1919, data, como vimos, da sua morte. Nenhuma intervenção se documenta. Na verdade, para o local, a referida empresa SOLATU faz dar entrada na Câmara um projecto de alterações (alçado principal e posterior) da citada Casa de Repouso (Procº nº 34432, folha nº 333). Por falta de tinta, não se consegue decifrar a data, que será de um dia 12 dum mês (SETembro?) da década de 90. Não se logra também identificar a rubrica do técnico, que teria talvez o nº 118.

Projectos de alterações aos dois edifícios apresentados por SOLATU

Anote-se, porém, que a figura do ‘arquitecto’ tal qual a entendemos hoje – especificamente diplomado – não existia então. Para além da notável Escola Industrial Machado de Castro, donde saíram importantes vultos do traço arquitectónico, existia também a Escola de Desenho Industrial Afonso Domingues – e aí se formavam ‘arquitectos’.

Ora, atribui-se, por vezes, o projecto dos Paços do Concelho de Loures a Rosendo Carvalheira. Não é verdade: foi Tiago da Silva Santos, que se intitula «construtor civil nº 358» quem, em 1913, gizou esse projecto e o ofereceu à Câmara, enquanto era vereador, a 30 de Março. Rosendo Carvalheira foi apenas chamado para dirigir a obra, que durou até 1916, e procedeu a alterações ao edifício, por falta de mão-de-obra especializada para determinados trabalhos, designadamente no telhado.


 

Em conclusão

            Embora localizados numa das várias quintas nobres existentes nos arredores da capital, os edifícios degradados que parecem vigiar o campo santo de Camarate nada têm de sacrossanto histórico que remonte a prístinos séculos. São, como vimos, obras inacabadas, com pouco mais de um século, e a intenção de virem a constituir um «Lar Panorâmico» (de facto, a vista dali é deveras panorâmica), com vertente de lar, um, e de residência de pessoal, o outro, não se insere numa lógica predominante de benemerência.


            Recentemente se fez uma ‘campanha’ de registo fotográfico, de iniciativa camarária, na medida em que há que tomar decisões e, por diversas vezes contactada, a Fundação de Santa Maria não se consegue que dê acordo de si.

                                                        José d'Encarnação

P. S.: Versão complementar do que foi publicado em Duas Linhas, a 7 de Outubro de 2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/macons-benemeritos-e-despejos-odiosos/

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Tempo sem Luz

 

 

            Permita-se me que transcreva a síntese exarada na badana do livro Tempo sem Luz:

«Numa manhã aparentemente comum, um comboio parte de Lisboa rumo ao Porto, transportando passageiros cujas vidas seguem, por instantes, em paralelo –distantes, mas prestes a cruzar-se num ponto irreversível. Cada um deles carrega consigo uma história suspensa: o reencontro entre irmãs feridas pelo luto, um jovem arquitecto em busca de identidade, um bailarino às portas de um sonho, uma professora reformada em peregrinação íntima, um músico derrotado e um homem em rota de regresso ao amor que nunca perdeu».

Desconheço se houve já romance a dar conta do que foram as nossas vidas no dia 28 de Abril de 2025, das 11,33 horas até por volta das 23. O «apagão»! Este, porém, de António Tavares, Tempo sem Luz, resume a galopante infinidade de situações, sensações, dúvidas, que, nessas e nas horas subsequentes, sobrevieram de rompante.
Tudo isso esmeradamente retratado numa prosa lídima, tersa, que prende do princípio ao fim.
Incitar veementemente a esta leitura? Faço-o com todo o gosto e plena consciência de que nenhum leitor, assim que pegue no volume, o largará até saber o final, porque será também seu esse reviver.
Quedar-se-á, aí, a imaginar no final a Irmã que «dera mãos a desconhecidos, ouvira confissões quebradas», numa prece a erguer «os olhos para o céu que escurecia, a luz tocava-lhe o rosto com suavidade»...
Há-de, porém, ter longamente parado a reler a página 118 («E quando descobriram… E quando descobriram…») ou a tomar consciência do significado profundo – para quem esse dia viveu – da frase inserta na página 9:
«O passado havia sido convocado pelo apagão e insinuava-se nas ranhuras da velha cidade».
 

                                                   José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), n.º 894, 20-9-2026, p. 10.

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma lápida romana de beleza singular

            Encontra-se embutida na parede exterior da garagem da Quinta dos Prazeres, em Alvito, uma lindíssima placa funerária romana, de mármore do tipo Estremoz Vila Viçosa, intacta.
 

Houve ocasião de a estudar para o livro «Inscrições Romanas do Conventus Pacensis» (IRCP), de 1984, onde lhe foi dado o número 329.
Já então se acentuava como o campo epigráfico fora rebaixado em relação à moldura e que se tratava de um trabalho dentro dos moldes clássicos romanos, denotando influências exteriores à região.
Mede 61 cm de altura por 91,7 cm de largura.
Desde logo, uma chamada de atenção para a paginação, que é requintada com pretensões, seguindo eixo de simetria, certamente servida por linhas de pauta e cuidadosamente estudada para ser lida a partir de um nível de visão inferior. De facto, os caracteres diminuem de tamanho e os espaços entre as linhas também, à medida que as linhas se aproximam, digamos assim, do leitor. Por outro lado, a criteriosa utilização dos nexos, das pequenas letras, da grafia de XXIIX em vez da (mais longa) XXVIII – tudo isso obedece igualmente a esse propósito.
No fundo, o que parece interessar sobremaneira a quem encomendou a peça é chamar a atenção para o nome da família – CORNELIA – e, depois, para o voto final S. T. T. L., da linha 3, «Que a terra te seja leve»!.
Assim, a pontuação, geralmente triangular, colocada mesmo no final das linhas, não deixa de apresentar invulgares efeitos estéticos. (Recorde-se que, nas inscrições romanas, a pontuação serve para separar palavras). Na linha 1, por exemplo, há uma hera de limbo com pecíolo sinuoso para a direita. No começo da linha 3, uma hera cordiforme de pecíolo em forma de palma para trás. No final, uma outra com o ponto triangular a fazer de limbo, seguido de um grande pecíolo (com 9,5 cm), também em forma de palma e todo inclinado para a direita.
Os caracteres, muito bem delineados e cuidadosamente gravados a buril (veja-se como sabiamente se aproveita o efeito de claro-escuro pela inclinação do recorte), aproximam-se formalmente do tipo da letra capital usada no tempo do imperador Trajano (século II).
Estamos, pois, perante um monumento epigráfico bem diferente dos que temos vindo a observar, dado o enorme cuidado posto na sua gravação. Um belo exemplar, sem dúvida!
A estrutura textual está epigraficamente correta. A onomástica usada é perfeitamente latina.
Mas, afinal, o que é que esse epitáfio latino nos diz?
 

Que Cornélia Avita, filha de Lúcio, morreu com 28 anos, e a lápida identifica o túmulo em que está sepultada e deseja-se-lhe, por isso, é claro, que a terra lhe seja leve. Quem de tudo se encarregou foram os pais: o pai, Cornélio Rufino, a mãe, Júlia Rufina, que não deixam de se identificar como tais.
Além, por conseguinte, de ser um documento de excepcional importância do ponto de vista estético, é-o também porque mostra como a transmissão dos nomes foi segundo as regras: tanto o pai como a mãe têm o cognome Rufino, antropónimo tipicamente romano, que queria caracterizar, na sua origem, quem nascesse de tez alva e cabelo loirinho. Pode ser, aliás, nome que tenha sido comum na família.
Por seu turno, a filha recebe o nome de família do pai – Cornélia – e terá sido, mui provavelmente, a filha mais velha, na medida em que se diz que ela é «Avita». se Estava-se numa altura em que o nome a dar às crianças poderia relacionar-se com circunstâncias, por exemplo, do nascimento; neste caso, o adjectivo «avita» quer dizer ‘a mais velha’, a primogénita.
Tudo isto nos leva a crer que poderemos estar perante uma família de colonos itálicos, que teria, nestes arredores da cidade de Pax Iulia (actual território do concelho de Alvito), a sua casa de campo, a sua «villa», como se designava na altura. Um Cornélio casado com uma Júlia, que poderia pertencer ao escol da cidade (que se chama, recorde-se, «Paz Júlia».
É monumento que, pelas suas características físicas e pela paleografia (modo de gravação das letras) será datável do século I ou mesmo da primeira metade do século II da nossa era.
Foi dado a conhecer por Abel Viana n’O Arquivo de Beja, volume 15, de 1958, página 36; e retomado, nesse mesmo ano, por Fernando Bandeira Ferreira, que o publicou na 2ª série, vol. III da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa (páginas 164-165). Passou, por conseguinte, a estar incluída no rol das inscrições romanas da Península Ibérica. Um monumento de que os pacenses muito se devem orgulhar; ficamos contentes de ele estar a bom recato na quinta donde muito provavelmente proveio, ainda que não saibamos em que circunstâncias o seu achamento aconteceu.

                    José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo, 25-09-2026, p. 10.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Abraçadeira

            Guardei religiosamente o papelinho no porta-moedas. Quando cheguei à drogaria, dei-o ao Ricardo:
– Encomendaram-me isto!
– «2 Abraçadeira de Espigão para Tubo PVC de 40»… Trago já!
            Eu trouxe o papelinho na mesma, não fosse haver engano. Não houve. Era mesmo disso que o Chico canalizador precisava para acabar de vez com a história do entupimento que nos massacrara a cabeça. E mostrou-me como é que tudo ficara. A água começou a correr normalmente. Eficaz fora a solução adoptada.

Abraçadeiras de espigão para tubo PVC de 40


Quando, no entanto, me dispunha a pôr o recado no cesto dos papéis, hesitei, “não ponho” e cá está ele a servir-me para a conversa de hoje.
Primeiro: eu diria ‘braçadeira’, que me parecia o termo correcto. Não é. O Chico Castro tem razão: abraçadeira está bem, porque, de facto, abraça. Faltou o ‘s’ do plural, mas… ninguém repara!
Segundo:  o Chico pôs todas as palavras com inicial maiúscula. Escreveu-as assim, decerto, sem motivo especial; o normal seria pôr todas as palavras em minúscula. Recordo-me, no entanto, do Celestino Costa, canteiro: quando, no cemitério, lhe encomendavam um letreiro, ele escrevia tudo em maiúsculas.
- Tudo em maiúsculas, Mestre Celestino?
- Pois é. A princípio, eu punha em letra pequena e, de vez em quando, dava erro. Assim, em letra grande, não há confusão, todos compreendem.
Confusão tem, contudo, muita gente no uso das maiúsculas. Não se estuda Gramática (ponho Gramática com g grande para chamar a atenção) e desconhece-se a função da maiúscula como elemento atribuidor de importância especial ao significado da palavra. Por exemplo, Igreja (com maiúscula) refere-se a uma confissão religiosa; já igreja matriz é com minúscula, um substantivo comum.
Tanto o Ricardo como o Chico sabiam exatamente o que ali estava escrito. Sabiam o que era uma ‘abraçadeira de espigão’; o que era um ‘tubo P.V.C. (que é habitual escrever-se PVC, siglas do policloreto de vinila); sabiam o que significava 40 (seguramente, digo eu, 40 milímetros de diâmetro)…
Como sói dizer-se: «Cada macaco no seu galho». O político, nomeadamente, deve saber falar; saber distinguir ‘sob’ de ‘sobre’ (e, aí, as asneiras diárias são muitas!…); conhecer a conjugação pronominal dos verbos… Tenho um colega que sistematicamente se refere a um senhor ministro chamando-lhe «Dr. Serálhe»; compreende-se porquê: sai-se, de vez em quando, com «será-lhe entregue…».
            O Ricardo trabalha na drogaria; o Chico Castro é canalizador. Conhecem ambos, como a palma das mãos, os nomes das ferramentas do seu dia-a-dia. Fale-lhes eu, epigrafista, em ‘campo epigráfico,’ ‘estela’, ‘cipo’ – e olharão para mim a sorrir. Como eu, ao princípio das andanças na pedreira, em miúdo, sabia lá o que era uma bujarda, o forro-a-melão, um camartelo!…

Parede com revestimento inferior de forro-a-melão

Todavia, voltando atrás: político que se preze não pode arriscar-se a dizer «será-lhe». Se não sabe distinguir ‘Igreja’ de ‘igreja’, vá que não vá, o Povo perdoa; mas «será-lhe entregue…», senhor ministro?!…

                                            José d'Encarnação 
            Duas Linhas, 22 de Setembro, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/09/abracadeira/

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

De cliente duma biblioteca itinerante a professor catedrático em Coimbra

            José d’Encarnação teve acesso a livros graças à pioneira biblioteca itinerante do concelho de Cascais, iniciativa de Branquinho da Fonseca, que haveria de chegar a todo o território através da Fundação Gulbenkian, e acabou sendo professor catedrático em Coimbra.
Durante a instrução primária, José ia “de vez em quando” à biblioteca fixa, mas era “um bocadinho longe” para quem vivia entre o Lugar da Torre e o Lugar de Birre, na mesma casa onde recebeu a Lusa.

Tudo mudou com a possibilidade de a biblioteca ir ter consigo, um projeto-piloto gizado por António Branquinho da Fonseca quando era conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães e inaugurado em julho de 1953.
“No primeiro domingo de cada mês ia a uma zona, no segundo ia a outra, no terceiro ia a outra, cobria todo o concelho. Paravam no largo principal, apitavam e as pessoas [apareciam]”, recorda José, que tinha 9 anos quando a carrinha-biblioteca começou a circular em Cascais, no distrito de Lisboa.
 Foi assim que leu “todos os livros do Sandokan” (famoso pirata criado pelo escritor italiano Emílio Salgari) e “todos os livros do Júlio Verne”.
Em sua casa não havia o hábito da leitura. A mãe era mulher-a-dias e o pai trabalhava nas pedreiras. Oriundos de São Brás de Alportel, migraram para Cascais no final da década de 1940, em resposta à necessidade de mão-de-obra para as grandes obras públicas ligadas à exposição universal de 1940, entre as quais a Marginal que iria até Lisboa.

“O meu pai teve a terceira classe, a minha mãe teve a quarta classe e, portanto, não tinham hábitos de leitura absolutamente nenhuns, de nada, nem de jornais, nem nada. Eles não liam, quem lia era eu”, realça, sorrindo.
Os clientes da experiência-piloto criada por Branquinho da Fonseca no concelho de Cascais não eram apenas estudantes, mas pessoas que se interessavam pela leitura, recorda.
Quando, em 1964, entrou para a universidade, José “diversificou mais” as leituras, como comprovam as folhas batidas à máquina de escrever, a tinta vermelha, com a síntese dos livros que lia.

Mostra-as à Lusa: A retirada dos Dez Mil, de Xenofonte, lido em outubro de 1965; Decâmeron, de Giovanni Boccaccio, em agosto de 1966; D. Afonso Henriques, de Mário Gonçalves Viana, em setembro de 1966; a biografia de Gengis Khan,    em outubro de 1966.
“A partir do momento em que entrei na universidade, interessaram-me muito as grandes biografias, porque estava a estudar História”, explica.
Os dois funcionários que lhe traziam à porta de casa a biblioteca em forma de carrinha “já sabiam” que acabaria por levar “uma catrefada de livros, quatro, cinco ou seis”.
“Era tipo furgoneta e as paredes eram revestidas de estantes […]. Eu olhava e via, tinha mais ou menos a ideia do que é que gostava de ler e, portanto, pedia. Mas, muitas vezes, eles próprios me aconselhavam”, relata, qualificando: “Eram extraordinariamente amáveis”.
Lembra-se que assinava um papel a responsabilizar-se pela entrega dos livros na vez seguinte, mas, se por algum motivo, não tivesse conseguido ler, ficava de novo com os exemplares, até à vez seguinte.
    José foi redator no jornal A Nossa Terra, publicação regional histórica de Cascais que, em cada número, dava indicação das horas a que a biblioteca itinerante estaria em determinado lugar.

“Foi exatamente a única hipótese que eu tive de ter os livros emprestados. Tínhamos livros emprestados normalmente durante um mês e eu aproveitava para fazer essas leituras todas. Não foi importante, foi importantíssimo”, vinca, prestes a chegar aos 82 anos.
Apesar de, naquela altura, não haver tantos estudantes universitários como hoje e de ser mais frequente optar por um curso comercial ou industrial a seguir ao secundário, José d’Encarnação foi para a universidade.
Não era muito politizado, mas participou nas crises académicas, escrevendo artigos em jornais como O Encontro, da JUC (Juventude Universitária Católica).
“Algumas das crónicas acabavam por ser censuradas pela censura. Eu vendia esses jornais à entrada da faculdade e tinha sempre a certeza de que estava ao meu lado ou muito perto alguém, algum dos esbirros, a tentar ver como é que era, se havia algum comentário ou não em relação aos artigos que lá vinham”, rememora.
José acabaria por seguir o ramo da Arqueologia, com especialização em Epigrafia, o estudo das inscrições feitas em materiais como pedra, metal, cerâmica ou madeira, com o objetivo de decifrar, ler e entender mensagens do passado.
Quando a Universidade de Coimbra resolveu criar a cadeira de Epigrafia, José d’Encarnação era a pessoa que em Portugal mais tinha escrito sobre o tópico.
Era professor na Escola Salesiana do Estoril, quando lhe pediram que concorresse ao lugar: “Arranjei um quarto numa casa particular, ia na terça-feira e regressava na quinta-feira à noite ou na sexta-feira. Digo habitualmente que vivia em Cascais e trabalhava em Coimbra.”
José acabaria por fazer toda a carreira na Universidade de Coimbra, de assistente estagiário a professor catedrático.
Não chegou a conhecer Branquinho da Fonseca, de quem só ouviu falar a partir do momento em que o conservador e escritor foi trabalhar para a Fundação Calouste Gulbenkian, enquanto primeiro diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas.
“Espera, isto que este senhor fez em Cascais acabou por fazer, e muito bem, em todo o país?”, surpreendeu-se, na altura, ciente de ter beneficiado de uma “experiência inaugural”.

TEXTO de Sofia Branco, da agência Lusa 

Acessível em: 15/08/2026  em Centro

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Preguiçoso

            Tenho-me no conceito de preguiçoso.
Digo-o com frequência e, por vezes, até sinto vergonha de como tal me declarar. A verdade é que sou mesmo! Dou tudo, como sói dizer-se – para fazer o menos possível!
Claro que vêm logo garantir-me que é mentira, porque apresento trabalho feito.
É verdade: apresento. E tenho gosto nisso, pois me ensinaram que uma pessoa deve estar sempre ocupada em algo de útil.
E dizem até que faço muito. Se calhar, faço. E o segredo está na enorme preguiça que tenho!
Por exemplo: nos rascunhos, escrevo muitas palavras abreviadas. Uso um moitão de abreviaturas, desde jovem! Não é estenografia, mas quase. Pobre do jornalista em reportagem, há 40 anos, em que não havia gravadores portáteis, se não se desenrascasse!...
Como escritor que sou, uso, portanto, esse moitão de abreviaturas e estou constantemente a pôr novas no computador. Preencho constantemente a janela «opções de correção automática». Dito os textos rascunhados para o computador mos passar diretamente a escrito…
Consolei-me, por conseguinte, ao saborear o capítulo “O valioso dom da preguiça” do livro «Talvez um Dia…», de Helena Sacadura Cabral, verdadeiro dicionário de psicologia diária e prática. Considera a autora que a preguiça «é uma ciência», porque constitui, em seu entender, «a procura da máxima economia de energia».
E consolei-me especialmente quando aí li a frase atribuída a Bill Gates:
«Escolha sempre uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil. Ela encontrará a maneira mais fácil de o fazer».
Ora toma!

                    José d’Encarnação

     Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10