quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Camilo e a influência francesa



            A leitura de A Mulher Fatal deixou-me uma curiosidade por resolver: a reconhecida influência da cultura francesa na sociedade e na literatura portuguesas da 2ª metade do século XIX. E decidi ilustrar-me com a integração no seu tempo de três das passagens que recortara.
 
Manon Lescaut
«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis!» (p. 62).
Refere-se Camilo ao célebre romance de Antoine François Prévost, Histoire du chevalier des Grieux et de Manon Lescaut (1731), cuja heroína é precisamente Manon Lescaut, romance citado habitualmente apenas como Manon Lescaut.
Trata-se de um romance muito polémico , dado que  Abade Prévost faz o leitor sentir enorme simpatia por duas personagens que, objetivamente, vivem fora da moral tradicional: Des Grieux mente, joga, rouba; Manon aceita presentes de amantes ricos; ambos vivem uma paixão que desafia a ordem social e religiosa. Muitos moralistas do século XVIII e do XIX censuraram precisamente isso: o romance parecia justificar o vício pela força do amor.
Mas... por que razão fala Camilo em «capítulos paradoxais»? Decerto aqueles em que Prévost consegue levar o leitor a admirar personagens moralmente condenáveis. Quiçá, uma irónica crítica, aqui, aos moralistas, que, por esse motivo, consideravam tais  capítulos "paradoxais”. 
 
Henri Heyne
«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).
            A frase citada é, na verdade, frequentemente atribuída ao alemão Heinrich Heine (Henri Heyne na grafia francesa do apelido). Trata-se seguramente de uma paráfrase do pensamento de Heine sobre Paris, uma citação apócrifa que se não encontra ipsis verbis na sua obra, nomeadamente em Französische Zustände («Situação da França»), em Lutetia ou na correspondência. Heine viveu em Paris de 1831 até à morte; para ele, Paris era o centro da inteligência, da liberdade e da modernidade, mas também um lugar de corrupção moral e de tentações. De resto, a antítese «o paraíso de... / o inferno de...» foi um recurso retórico muito usado no século XIX.
Poder-se-á acrescentar que, não sendo uma citação literal, e como Camilo lia abundantemente jornais e revistas francesas e recorria frequentemente a florilégios de citações e como, por outro lado, Heine era um dos autores mais citados nesses repertórios da década de 1850-1870, tal é bem provável. Aliás, Heine morreu em 1856 e, entre 1856 e 1870, publicaram-se em França numerosas edições póstumas, colectâneas e memórias sobre ele: Pensées de Henri Heine, L'Esprit de Henri Heine, Œuvres choisies. Camilo podia muito bem ter lido uma dessas obras, em que Heine descreve a vida social parisiense, sobretudo os salões, a aristocracia, os meios literários e políticos.
 
Stendhal
«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).
Deveras curiosa a alusão à «teoria de Stendhal». A ideia é uma das mais célebres de Stendhal e encontra-se no capítulo II, sobre o nascimento do Amor, do ensaio De l'Amour, publicado em 1822. A imagem não é, porém, a de um lago gelado, mas a de um ramo seco mergulhado nas minas de sal de Salzburgo, onde fica revestido de cristais brilhantes:
«Nas minas de sal de Salzbourg, deita-se, pelo Inverno, nas profundezas abandonadas da mina um desfolhado ramo de árvore, dois ou três meses depois, retira-se recoberto de cristalizações brilhantes [...]. Já não é possível reconhecer o ramo primitivo», escreveu Stendhal.
Não pode, porém, deixar de apreciar-se como, aparentemente, singelos e despretensiosos apontamentos encerram em si tamanha densidade ideológica.
        Camilo Castelo Branco é isso mesmo: uma fonte de saber inesgotável. Escrevia romances para economicamente sobreviver; mas é na análise miúda do que escreveu que reside a razão da sua sobrevivência como um escritor de todos os tempos.

                                             José d’Encarnação 

Publicado em Duas Linhas, 28 de Julho, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/07/camilo-e-a-influencia-francesa/

 

A Mulher Fatal

Andava, há uns anos, com a ideia de ler A Mulher Fatal, de Camilo Castelo Branco. Ficara, nos meus estudos, com a ideia de que, para os escritores românticos, a mulher era mesmo pintada sempre com as cores de mulher fatal, sedutora, irresistível, e queria ver como é que Camilo Castelo Branco tratara o tema nesse romance.

Não fiquei desiludido, porque o retrato se me antojava, mais ou menos, como Camilo o descreve, com ares respirados em Paris, vestindo-o de roupagens voluptuosas, atraentes, perfumes fortes, olhar felino. E, por outro lado, insaciável devoradora de fortunas, depois que a tal a obrigava a sua intensa vida social no meio da burguesia lisboeta ou da fidalguia que não hesitava em arruinar-se em vassalagem à Beleza.

O protagonista, Carlos Pereira, vai de amor em amor, sofredor e desastrado a maior parte das vezes e cai, por fim, mas mãos peçonhentas de Cassilda Arcourt, mesmo depois de – na verdade – ter logrado uma existência aparentemente viável.
Mais do que uma vida campestre, o narrador – amigo e confidente do protagonista – delicia-se a contar das desgraças alheias no ambiente que apresenta como sendo o da Lisboa desses meados do século XIX.
Recorde-se que Camilo Castelo Branco nasceu em 1825 e este livro foi publicado em 1870, ou seja, quando o autor se considerava já velho de 45 anos.
Confesso que, sendo eu epigrafista e estudar epitáfios romanos em que se lavra a idade em que a morte ocorreu, esse foi o primeiro aspecto que mais me impressionou. Camilo, aos 45 anos, considerava-se velho, dando a entender ser mesmo essa a percepção das pessoas nessa altura. E o protagonista, Carlos Pereira, que ele diz ter conhecido em 1849, tinha 32 anos em 1857. «Em vinte anos», comenta Camilo, «enfolha, enflora, fruteia e fenece uma geração [...] E alguns tinham pavor da velhice dos 40 anos!» (p. 22 – estou a seguir a edição de Livros de Bolso Europa-América, nº 292).
Do ambiente burguês da capital os traços camilianos são os costumados: alojamento em hotéis, recepções em casa de amigos, noites de tavolagem, uma sociedade de expedientes, em que se antoja amiúde a compra de um título de Conde ou Marquês. Em relação à província, a figura que não se oblitera é a do padre sempre ganancioso, frequentemente a quebrar as juras do celibato.
Enganar-me-ia, contudo, se não alvitrasse ter sido a sua linguagem tersa, riquíssima, incisiva e pura o que mais me encantou, não só porque não hesitou em dar conta, aqui e ali, dos livros que se liam (que ele lia), sobretudo franceses, como se sabe, mas, de modo especial, pela sua exemplar sujeição à vernaculidade:
«Um homem que saíra em rapaz para África e lá vivera em navios, e sertões, e portos de mar, veniagando as suas mercadorias de carne viva com alma e feitio à semelhança do Criador» (p. 27).
Quase se esquece, por detrás das palavras, o seu significado: o homem foi… um negreiro!
«O milionário que se dói do ultraje compra diplomas de estima pública; isso é fácil: dê banquetes, embriague os convivas para a vertigem do baile; lá irá tudo, desde a honra que se vendeu até à honra que se almoeda» (p. 29).
            Só esmiuçando se enxerga bem o que ele quer dizer: corrupção!
            Aqui e além, uma nota erudita, não desprovida de carga irónica:
        «Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis! (p. 62).
Ou ainda:
«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).
O toque crítico à mudança da toponímia das cidades por razões políticas:
«Quem se lembra já hoje da Rua do Coruche? Há doze anos que passou por ela o Progresso, esse iconoclasta implacável que subverte as coisas santas da religião artística de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo, não cabe em ruas estreitas. Aquela, a do Coruche, levou-a ele diante de si; e, como às cavaleiras desse pujante demolidor andem os bons progressistas para darem o seu nome às empresas que ele comete, aquela rua das minhas saudades ficou-se chamando do Visconde da Luz» (p. 64).
Neste caso, é de Coimbra que se fala, mas tal visconde teve nome de rua um pouco por toda a parte.
Não falta uma crítica que, de repente, até poderia arvorar-se agora:
«Não se restauram patrimónios a estudar: extinguem-se. E, concluída uma formatura em Portugal, quem a comprou com o seu trabalho e todo o seu haver, sente-se apenas habilitado para ir mendigar um ofício de quatro libras mensais às portas das secretarias» (p. 68).
É bem conhecido o hábito, no século XIX, mormente na sua segunda metade, de os burgueses comprarem títulos de nobreza. Falando em cem contos, declara o protagonista:
«A  mim convinha me possuí-los, para comprar um título de marquesa para Estela» (p. 69).
Voltando à vernaculidade da linguagem, não hesito a transcrever mais uma passagem em que a negativa está presente de forma, a meu ver, bem airosa: o uso corrente do prefixo des-, patente, noutras passagens, em despenar, desvalidar, desafecto e que – disso nem sempre nos damos conta – também existe em despedir e desconfiar. Ora veja-se:
«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).
Tudo imagens para se declarar arrependido de haver incitado Carlos a largar a amante e a voltar para a mulher que, no final de contas, ainda amava.

Camilo, um Mestre!

                                               José d’Encarnação 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Apoio ao cliente

            Há, nas firmas, o balcão de “apoio ao cliente”. Somos, os clientes, solicitados a recorrer a ele, presencialmente ou por via remota, sempre que haja motivo a justificar tal diligência. Parte-se do princípio de que o cliente, se se submete porque precisa ao “martírio" de ouvir, durante largos segundos, as hipóteses de recurso: «Se for avaria, tecle 2; se assunto de Tesouraria, tecle 3…». Por isso condeno a prática de ser esta uma chamada paga, até porque boa parte das vezes da chamada pode resultar uma sugestão de melhoria do serviço.
A este respeito sempre assumi duas atitudes: de crítica, quando algo me pareceu errado; de louvor, quando algo de notável a salientar.
A nível das grandes superfícies, há mesmo um balcão físico no próprio estabelecimento. Deixei, um dia, no carrinho do supermercado, o livro que comprara. Telefonei a perguntar se havia sido entregue. Fora. Preenchi a documentação e tudo ficou resolvido, com pleno agrado.

A embalagem do chourição, ao contrário do que bastas vezes acontece, abria-se muito bem, era mesmo «de abertura fácil». Regozijei-me, por correio eletrónico, junto do ‘atendimento ao cliente’. Não obtive sequer confirmação da recepção. Devem ter pensado que eu queria oferta.
Com os brindes de determinado produto, preparámos em casa um recanto especial. Fiz foto. Enviei para a sede da firma: nem água vai!
Ao abrir-se a lata de feijão, verificou-se que não estava em condições. Fotografou-se, identificou-se o lote, comunicou-se. Veio mesmo um delegado da empresa agradecer-nos a diligência .
Conclusão: a prática de todos contribuirá para a melhoria do atendimento.

                                               José d’Encarnação 

Puiblicado no jornal Renascimento, de Mangualde, nº 892,  Julho de 2026, p. 10.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Não ter tempo

            A agência noticiosa «Mundo ao Minuto» informou, a 28 de Dezembro de 2020, que Lucio Chiquito Caicedo, nascido a 22 de Maio de 1916, o homem mais velho da Colômbia, chegara à conclusão de qual o caudal perfeito de um rio para se produzir energia elétrica. Terminara então, durante a quarentena, a tese iniciada há 30 anos – formara-se, em 1947, como engenheiro civil na Universidade de Manchester.
Quando lhe perguntaram qual o segredo para se manter jovem, deu três receitas: «tomar banho com água fria, comer muita fruta e aproveitar todas as horas mortas para ler ou estudar qualquer coisa».
Horas mortas.
Ainda faltam dez minutos, não vale a pena começar nada, distraio-me a ver o telemóvel e pronto. Para um piloto de fórmula 1, ao invés, dez minutos são uma eternidade! Estiveste a olhar para o telemóvel – e que viste? Que aprendeste de novo? Algo de interessante para contares aos teus filhos?
Henri François d'Aguesseau (1668–1751) foi um dos mais célebres magistrados e juristas da história da França. Sob o reinado de Luís XV, preparou importantes portarias que regularam matérias jurídicas complexas, como as doações (1731), os testamentos (1735) e os fideicomissos (1747), reformas pioneiras que se revelaram essenciais para a redacção do futuro Código Civil francês de 1804 (o Código Napoleónico). Defensor estrénuo da independência da classe jurídica, foi considerado por Voltaire «o magistrado mais instruído que a França jamais possuiu».
Conta-se que a sua esposa e demais família não eram pessoas rigorosamente pontuais. Havia sempre o intervalo mais ou menos longo, à volta de um quarto de hora, entre o momento em que o chamavam para o almoço e aquele em que toda a família se sentava, finalmente, à mesa. O chanceler resolveu, então, não perder esses minutos de espera e, decorrido algum tempo, apresentou à família, estupefacta, o livro que conseguira escrever, unicamente durante aqueles ligeiros quartos de hora que outro qualquer teria perdido com indiferença ou com ralhos enervantes.
            Ao escritor romano Cícero se atribui esta frase: «Tudo o que faço ou penso quase sempre o preparo durante os meus passeios».
            Beneficias de um momento de silêncio, não pegues logo no telemóvel, não mates o tempo, dirige o teu pensamento para algo que te possa ser útil.

                                                                                   José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 356, 20-07-2026, p. 13.

terça-feira, 21 de julho de 2026

45º Salão Internacional de Pintura Naïf

            45 anos é obra! Quando – com alguma perplexidade quanto ao futuro – Nuno Lima de Carvalho ousou chamar a si esse empenho de dar a conhecer esses artistas até aí pouco considerados, não sonhou que, hoje, 45 anos passados, o seu projecto tivesse continuidade e sempre com o maior êxito!
Estes artistas gastavam as cores todas num só quadro, estavam-se nas tintas para as proporções, tanto lhes dava pôr uma igreja pequenina e a procissão em módulo muito maior; os homens e mulheres podiam ser maiores que as árvores… Uma ingenuidade pegada! Por isso se usa para caracterizar este estilo a palavra francesa «naïf», que significa precisamente ‘ingénuo’, pessoa que ainda não sabe muito bem em que mundo real se passeia…
Que importa? Passeiam-se pelos campos, pelas praias, pintam a passarada, os animais domésticos, cenas da lavoura e do quotidiano, festas e romarias… Enfim, o que lhes vai na alma – mas sempre com as cores mais garridas, que o negro e o cinzento não se coadunam com a sua forma de encararem um mundo alegre e donairoso.
Homenageia-se, este ano, Estrela Santos, falecida no passado mês de maio. Estrela Santos nasceu no Huambo (Angola) em 1933, frequentou o Curso de Artes dos Tecidos da Escola António Arroio, dedicando-se posteriormente, e de forma integral, à Arte Naïf. Participou em dezenas de exposições individuais e coletivas, tanto em Portugal como no estrangeiro. Destacam-se as várias Coletivas de Arte Naïf na Galeria do Casino do Estoril, realizadas desde 1980; a Exposição de Arte Naïf no Museu Grão Vasco, em Viseu; e Lisboa Ingénua, integrada na programação de Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura. A sua obra encontra-se representada no Museu de Arte Primitiva Moderna de Guimarães; no Museu de Arte Naïf de Jaén (Espanha); no Banco do Fomento e Exterior, em Luanda; na Fundação Evangelização e Culturas, em Lisboa; no Museu MIAN (Rio de Janeiro); e em diversas coleções particulares, nacionais e internacionais.

Artistas participantes no 45º Salão Internacional de Pintura Naïf: A. Barbosa, A. Réu, Bento Sargento, Conceição Lopes, Estrela Santos, Feliciana, Fernanda Azevedo, Gutemberg Coelho, Manuel Castro, Maria Tereza, Nell, Noemi Eshet-Rosenweig e Viorica Farkas.

Um abraço ao Pedro Lima de Carvalho por dar continuidade a este desígnio de seu pai.

 Inaugurada a 25 de julho, às 17 horas, a exposição estará patente até 15 de Setembro 

       José d'Encarnação 

in Notícias de Cascais, nº 152, Julho 2026, p. 13.






quarta-feira, 15 de julho de 2026

Faustino

            – Ó avô, porque é que tu mostras sempre o bilhete o passe errado?
– Sabes, neto: o revisor passa o dia a inspecionar passes. A maior parte das vezes, nem lhe dizem «Bom dia!» nem «Boa tarde!». Uma vida monótona. À noite, ao jantar, nada tem pra contar à mulher ou à namorada ou aos filhos. Assim, hoje, sempre poderá dizer «Imaginem que, esta tarde, um velho queria enganar-me e mostrou-me o passe errado. fora do prazo! Tive de o obrigar a ver nos bolsos tudo, até que lá encontrou o verdadeiro!».
O Faustino é, de facto, assim. No bairro onde vive, não consegue cruzar-se com rapaz, senhora, homem, seja quem seja, trabalhador da garagem ou senhor bem posto de fato e gravata em jeito de engenheiro, sem lhes falar.  Um bairro periférico, onde, por mais estranho que pareça, a maior parte das pessoas ainda se conhecem, mas onde  passam diariamente muitas outras que não são do bairro: vêm ao hospital, à estação dos correios, a uma das oficinas de automóveis, à pastelaria, ao restaurante, ao minimercado… Ao cruzar-se com esses forasteiros, na paragem do autocarro por exemplo, Faustino não deixa de os saudar. Da maior parte sai um «Bom dia!» ou uma «Boa tarde!». impregnados de admiração, a denunciar quanto se não esperava a saudação. Não é raro, porém, que a surpresa leve a um «Olá! Boa tarde!», a revelar contentamento. Raro também é haver quem não corresponda, estrangeiro que seja.
Faustino, porém, vai mais longe.
A noite fora chuvosa, depois de um dia deste Junho de intenso calor. Nessa manhã, que acordara chuvosa também, Faustino cruzou-se com a senhora de calção e manga curta:
– Vamos esconjurar a chuva, vizinha?
– Vamos, pois!
E ambos sorriram.
Nos corredores do hospital, já o ouvi acrescentar à senhora grávida com que se cruzou na escada: «Que tenha uma boa hora!». «Obrigado!» – surge sempre, admirado, o sorriso!
Ou ao ancião que se protege da chuva: «Ela hoje não molha, amigo!». «Ai, molha, molha! É de molhar tolos!».
Parar diante da criancinha que chora, agarrada à mãe, e fazer-lhe uma fosquinha – e o choro passa! E a mãe sorri.
Na passadeira da rua, quando o carro pára, a fim de o deixar passar, apressa-se a correr, numa de, na brincadeira, ter medo de ser atropelado, sorridente, só para ver o sorriso do condutor! Melhor, se for da condutora! E agradece sempre.
Na caixa do supermercado, perscruta sub-repticiamente a etiqueta identificativa do funcionário e saúda-o pelo nome. Recebe o habitual sorriso admirado e as contas até correm melhor!...
Aos 70 e poucos anos, Faustino resiste a viver isolado.

                                                                       José d’Encarnação 

In Duas Linhas,  6 de Julho de 2026: https://duaslinhas.pt/2026/07/faustino/ 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Hoje é… hoje!

              Fui com a Aurora visitar o marido, de 82 anos, recolhido a um lar a partir do momento em que se verificou ser mesmo essa a melhor solução para conforto dele e algum resfolgo por parte dela.
A conversa recaiu sobre a actualidade, os amigos, as novidades locais…
– Não quero saber nada disso! – repetiu ele, duas ou três vezes. Mesmo quando se mudava de assunto para outro que, sendo da sua área de actuação, suspeitávamos poder ser do seu interesse.
– Não quero saber nada disso!
            Américo desistira de viver, encarava o dia-a-dia qual pesadelo a esconjurar.
Claro, tive pena e saí desconsolado.
Topei agora, no repositório de temas a, um dia, abordar em crónica, este cartune de Bill Watterson, da célebre tira de banda desenhada Calvin and Hobbes publicada entre 1985 e 1995, o diálogo entre Calvin e Hobbes, o tigre que o acompanha:.
– Que dia é hoje?
– Hoje é hoje!
– O meu dia predilecto!
Maravilhei-me e não busquei mais. Admiro Bill Watterson, que, de forma tão incisiva e certeira, sabe transmitir a mensagem ideal.
Predilecto o hoje – porque o que se está a viver. O presente. O único de que podemos usufruir e preencher, conforme nos der na real gana. Sabemos perfeitamente que desse preenchimento – qualquer que ele seja!... – resultarão consequências. É, porém, o que temos e vamos agarrá-lo em pleno. O «meu dia predilecto».
 
                                    José d’Encarnação 
 
in Renascimento (Mangualde), 20-06-2026, p. 10.