sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Há carrascos no bairro!

                                              

Há carrascos no Bairro da Pampilheira, em Cascais. Na Rua Fernão Lopes.

            Poderia considerar-se estranho falar disso, mas não é, porque, de facto, esse bairro nasceu, a partir de meados do século passado, numa zona que era, na verdade, de mato. Hoje, detém todas as características de bairro suburbano; mas nessa rua foi deixada parte da vegetação original – e já se vai explicar a razão do seu interesse.

           É conhecido que, no concelho de Cascais, existem várias povoações chamadas Carrascal (Carrascal de Manique, por exemplo, Carrascal de Alvide…), a dar ideia de que o carrasco era aí uma das espécies dominantes na vegetação original do concelho, designadamente nesta sua zona ocidental.
Bolotas do carrasco
                                                                 
        Ora porque é que terá importância, do ponto de vista histórico, além da importância do ponto de  vista botânico, manter uma vegetação que é original?
 
  
        É que vive associado ao carrasco (Quercus coccifera, de seu nome científico) um pequeno insecto, a cochonilha-do-carrasco, também chamada o quermes (Kermes vermilio). Ora, a cochonilha introduz-se nos tecidos vegetais e alimenta-se da seiva. Reage a planta à sua presença produzindo uma espécie de tumefacção. Essa estrutura acaba por envolver o insecto, que fica praticamente imóvel. O corpo da fêmea, sobretudo quando cheio de ovos, já os romanos o recolhiam, secavam e obtinham assim um corante vermelho-carmesim que, sub-repticiamente, adicionavam à púrpura verdadeira com que se tingiam os 
 mantos imperiais e as togas dos senadores.
 
                                     
  
 
    A púrpura era obtida através do que se retirava da «purpura haemastoma», o molusco marinho também chamado «stramonita haemastoma». Dele foram encontradas muitas conchas no povoado romano dos Casais Velhos, perto da Praia do Guincho; e daí se considerar que Casais Velhos, até por aí também se terem encontrado tinas, tenha sido um centro de produção de púrpura. Ora, juntar ao líquido extraído do molusco o resultado da maceração da cochonilha era um bom negócio, porque se vendia o resultado como se fosse púrpura verdadeira!…

    Por isso se pugna em manter os carrascais onde eles ainda existem: preserva-se um revestimento vegetal antigo, ligado, neste caso concreto, a uma história antiga também.

                                                 José d'Encarnação

 




quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Murmúrios...

        Também a palavra ‘murmúrios’ assume significados bem diferentes conforme o espaço e o tempo em que se usa.
        Numa comunidade – qualquer que ela seja! – constar a existência de murmúrios é, de um modo geral, mau indício. Algo a não merecer generalizado consenso e, daí, a conversa à puridade, na esperança de que, paulatinamente, o desagrado ouse vir ao de cima e quem manda possa, finalmente, agir. É mau esse murmúrio, denuncia falta de coragem e nefasto será se se arrastar.
        Na sessão de massagem, Zuleica opta, naturalmente, por inundar o ambiente de serenas melodias, murmúrio de violinos, dolências de saxofone, a flauta do Rão Kyao, uma tecla de piano de timbre a esvoaçar…
Sala Snoezelen
        Murmúrios há também numa Sala Snoezelen, espaço de estimulação multisensorial que induz relaxamento e bem-estar físico e emocional: luzes, sons, cores, texturas, aromas a proporcionar múltiplos estímulos; todos os sentidos a ficarem envolvidos, ambiente de tranquilidade, de segurança, proteção e conforto.
        Gosto da brisa a beijar ao de leve os ramos da buganvília em flor e as pétalas espreguiçam-se e deixam-se embalar no volteio até ao chão. Um murmúrio imaginado, esse.


        Quero o mergulho da água a cair na malga negra de Bisalhães. Um chapinhar brincalhão. A suavidade de um motor a acompanhar os minutos do porvir. Ecoarão os murmúrios da fonte sem parar. Jamais terão o ritmo do meu pedalar; mas tal desconcerto é música suave a carregar energia para a jornada prestes a iniciar: atabafará palavras ríspidas, respostas desabridas e ânsias que se não conseguem reprimir. Perpassarão sempre aqueles matinais murmúrios no ar. Abençoados!
        Recordo a Fonte da Tareja, em S. Brás de Alportel, a deixar-me o eco dessa eloquente quadra de Bernardo de Passos:
 
                            Não sei se cantam, se choram
                            As fontes, correndo ao mar,
                            Se canto, sinto que cantam,
                            Mas se choro, oiço-as chorar!
 
 
        Evoco Augusto Gil: «Batem leve, levemente | Como quem chama por mim». É o murmúrio que o chama: «Fui ver. A neve caía | do azul cinzento do céu. | Branca e leve branca e fria»...

        Escreveu Lídia Jorge A Costa dos Murmúrios. Certamente inspirada, diria eu, nos sons do seu/nosso Barrocal: abelhas a poisar na esteva (inaudível fremir de doce contentamento), descompassado pingar da água a rever da parede de poço antigo, no lamento do lençol freático a fenecer… Afinal, não: Lídia foi para outros murmúrios sérios – o contraste entre o que se escrevia oficialmente sobre a guerra colonial e aquilo que realmente se passava no terreno. Captar o último murmúrio, antes que, para sempre, se queira fazer silêncio. Não são os da água os murmúrios de Lídia Jorge, são os da História – o que apenas se capta, e de maneira imperfeita, por baixo do discurso oficial: rumores, vozes marginais, memórias, silêncios, coisas que não foram ditas ou deliberadamente ocultadas, as vozes subterrâneas da memória… Um murmúrio que, provindo da aragem invisível, se passeava no ar em ondas amplas, e falava, mas muito  pouco se ouvia – que a água murmura sem querer dizer nada; nós é que escutamos nela alguma coisa; já os murmúrios de Lídia Jorge queriam dizer – mas foram atabafados.
        É contínuo o murmúrio da água; é fragmentado o da História. Um corre. O outro fica, desaparece, reaparece, chega-nos deformado; mas ambos nos obrigam a aproximar o ouvido.
                            José d'Encarnação

Duas Linhas, 26 de Agosto, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/08/murmurios/  

sábado, 15 de agosto de 2026

Matei a glicínia

            Quando a plantámos, sabíamos duas das suas características:
– Era uma liana invasora. Servia-nos, portanto, bem para se agarrar à vedação metálica e cobri-la dum manto verde.
– Segunda característica: deslumbraria a vizinhança, no momento certo, com os seus vistosos cachos pendentes de florinhas roxas.
As flores ambicionadas e de que nunca usufruímos!

Sabíamos, além disso, que simbolizava o amor, o romantismo, a ternura e a longevidade, a flor-da-ternura por via desses seus longos cachos em cascata de tom lilás ou roxo suave.
De origem japonesa, deu-lhe, em 1802, o seu identificador, o botânico alemão Carl Ludwig Willdenow (1765–1812), o nome de Glycine floribunda, inserindo a planta no género Glycine; o botânico suíço, Augustin Pyramus de Candolle (1778-1841), reavaliou, porém, a morfologia da planta e colocou-a correctamente no género Wisteria, que fora criado pelo botânico britânico Thomas Nuttall (1786-1859), actualizando o nome para Wisteria floribunda.
Chamou-se-lhe floribunda, por ser abundante em flores. Aliás, era sabido que, em lugares mais frios, ostenta uma floração exuberante e de cor azul-violeta, com grandes cachos pendentes. Essa proclamada rara beleza ornamental fora o que nos seduzira, não ligando muita importância àquele pormenor dos «lugares mais frios», sabendo nós que vivemos aqui em pleno clima de características mediterrâneas. Ver-se-ia.
E viu-se. Foi nossa companhia durante anos, até há pouco, quando nos apercebemos que abusara do seu enorme poder invasor e estava a atabafar por completo a pobre de roseira que lhe crescera ao lado. Ainda por cima, enganara-nos: eram filamentos e mais filamentos no ar à procura de onde se agarrar e flores… nenhumas!
Anos a fio, era a azáfama de cortar filamentos quase todas as semanas, sem alegria vistosa duma flor, quanto mais de um cacho delas, como nos prometera. Era, seguramente glicínia-macho, pensámos. Mas não: as flores são hermafroditas e viemos a saber qual era o problema: estava imatura, dado que precisa, afinal, de 7 a 15 anos (ou até mais) para florir; estava, além disso, em mau sítio, porque carece de, pelo menos, 6 horas de luz solar directa por dia, para acumular energia suficiente para a floração; e também percebemos que, sem uma poda adequada, realizada duas vezes ao ano (no inverno e no verão), a planta gastava toda a energia em crescimento verde, em vez de criar botões florais.
Decidimo-nos, por conseguinte, pela roseira, que – diga-se de passagem – nos parece que até rejubilou, alvoroçada, assim que se viu mais livre. E logo um botanito vermelho quis desabrochar.

Quando, todavia, íamos proceder ao corte final do tronco, a surpresa sobreveio. E assim compreendemos melhor o que se lera:
«Na linguagem das flores, a glicínia anda associada a um afecto profundo, a um amor apaixonado, devido ao modo como a trepadeira se enrola nos suportes».

É que, de facto, a nossa glicínia estava intimamente enlaçada com o principal ramo da roseira. Abraço terno, dir-se-ia, de mais de uma década, momento a momento mutuamente fortalecido. Admirável forma como duas plantas tão diferentes se souberam unir uma à outra, num amplexo de mútua defesa e sustentação.
Escusámo-nos perante a roseira. Explicámos-lhe que ela nos estava a dar agora uma que outra rosa de vez em quando, devido à inveja que a glicínia lhe tinha, ciosa de tudo quanto era espaço disponível, até atirando ao ar os seus tentáculos na ânsia de mais suportes ainda ter.
Consumámos o sacrifício.
Agora resta-nos esperar que, por simpatia póstuma, a glicínia deixe, serenamente, os seus ramos
secarem na sebe. Saudá-los-emos como se estivessem vivos e confiamos-lhes agora os ramos da roseira por florir.  E que a sua feminil sensualidade passe para o perfume das rosas que hão de vir.

José d'Encarnação

Duas Linhas, 13 de Agosto, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/08/matei-a-glicinia/

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Camilo e a influência francesa



            A leitura de A Mulher Fatal deixou-me uma curiosidade por resolver: a reconhecida influência da cultura francesa na sociedade e na literatura portuguesas da 2ª metade do século XIX. E decidi ilustrar-me com a integração no seu tempo de três das passagens que recortara.
 
Manon Lescaut
«Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis!» (p. 62).
Refere-se Camilo ao célebre romance de Antoine François Prévost, Histoire du chevalier des Grieux et de Manon Lescaut (1731), cuja heroína é precisamente Manon Lescaut, romance citado habitualmente apenas como Manon Lescaut.
Trata-se de um romance muito polémico , dado que  Abade Prévost faz o leitor sentir enorme simpatia por duas personagens que, objetivamente, vivem fora da moral tradicional: Des Grieux mente, joga, rouba; Manon aceita presentes de amantes ricos; ambos vivem uma paixão que desafia a ordem social e religiosa. Muitos moralistas do século XVIII e do XIX censuraram precisamente isso: o romance parecia justificar o vício pela força do amor.
Mas... por que razão fala Camilo em «capítulos paradoxais»? Decerto aqueles em que Prévost consegue levar o leitor a admirar personagens moralmente condenáveis. Quiçá, uma irónica crítica, aqui, aos moralistas, que, por esse motivo, consideravam tais  capítulos "paradoxais”. 
 
Henri Heyne
«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).
            A frase citada é, na verdade, frequentemente atribuída ao alemão Heinrich Heine (Henri Heyne na grafia francesa do apelido). Trata-se seguramente de uma paráfrase do pensamento de Heine sobre Paris, uma citação apócrifa que se não encontra ipsis verbis na sua obra, nomeadamente em Französische Zustände («Situação da França»), em Lutetia ou na correspondência. Heine viveu em Paris de 1831 até à morte; para ele, Paris era o centro da inteligência, da liberdade e da modernidade, mas também um lugar de corrupção moral e de tentações. De resto, a antítese «o paraíso de... / o inferno de...» foi um recurso retórico muito usado no século XIX.
Poder-se-á acrescentar que, não sendo uma citação literal, e como Camilo lia abundantemente jornais e revistas francesas e recorria frequentemente a florilégios de citações e como, por outro lado, Heine era um dos autores mais citados nesses repertórios da década de 1850-1870, tal é bem provável. Aliás, Heine morreu em 1856 e, entre 1856 e 1870, publicaram-se em França numerosas edições póstumas, colectâneas e memórias sobre ele: Pensées de Henri Heine, L'Esprit de Henri Heine, Œuvres choisies. Camilo podia muito bem ter lido uma dessas obras, em que Heine descreve a vida social parisiense, sobretudo os salões, a aristocracia, os meios literários e políticos.
 
Stendhal
«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).
Deveras curiosa a alusão à «teoria de Stendhal». A ideia é uma das mais célebres de Stendhal e encontra-se no capítulo II, sobre o nascimento do Amor, do ensaio De l'Amour, publicado em 1822. A imagem não é, porém, a de um lago gelado, mas a de um ramo seco mergulhado nas minas de sal de Salzburgo, onde fica revestido de cristais brilhantes:
«Nas minas de sal de Salzbourg, deita-se, pelo Inverno, nas profundezas abandonadas da mina um desfolhado ramo de árvore, dois ou três meses depois, retira-se recoberto de cristalizações brilhantes [...]. Já não é possível reconhecer o ramo primitivo», escreveu Stendhal.
Não pode, porém, deixar de apreciar-se como, aparentemente, singelos e despretensiosos apontamentos encerram em si tamanha densidade ideológica.
        Camilo Castelo Branco é isso mesmo: uma fonte de saber inesgotável. Escrevia romances para economicamente sobreviver; mas é na análise miúda do que escreveu que reside a razão da sua sobrevivência como um escritor de todos os tempos.

                                             José d’Encarnação 

Publicado em Duas Linhas, 28 de Julho, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/07/camilo-e-a-influencia-francesa/

 

A Mulher Fatal

Andava, há uns anos, com a ideia de ler A Mulher Fatal, de Camilo Castelo Branco. Ficara, nos meus estudos, com a ideia de que, para os escritores românticos, a mulher era mesmo pintada sempre com as cores de mulher fatal, sedutora, irresistível, e queria ver como é que Camilo Castelo Branco tratara o tema nesse romance.

Não fiquei desiludido, porque o retrato se me antojava, mais ou menos, como Camilo o descreve, com ares respirados em Paris, vestindo-o de roupagens voluptuosas, atraentes, perfumes fortes, olhar felino. E, por outro lado, insaciável devoradora de fortunas, depois que a tal a obrigava a sua intensa vida social no meio da burguesia lisboeta ou da fidalguia que não hesitava em arruinar-se em vassalagem à Beleza.

O protagonista, Carlos Pereira, vai de amor em amor, sofredor e desastrado a maior parte das vezes e cai, por fim, mas mãos peçonhentas de Cassilda Arcourt, mesmo depois de – na verdade – ter logrado uma existência aparentemente viável.
Mais do que uma vida campestre, o narrador – amigo e confidente do protagonista – delicia-se a contar das desgraças alheias no ambiente que apresenta como sendo o da Lisboa desses meados do século XIX.
Recorde-se que Camilo Castelo Branco nasceu em 1825 e este livro foi publicado em 1870, ou seja, quando o autor se considerava já velho de 45 anos.
Confesso que, sendo eu epigrafista e estudar epitáfios romanos em que se lavra a idade em que a morte ocorreu, esse foi o primeiro aspecto que mais me impressionou. Camilo, aos 45 anos, considerava-se velho, dando a entender ser mesmo essa a percepção das pessoas nessa altura. E o protagonista, Carlos Pereira, que ele diz ter conhecido em 1849, tinha 32 anos em 1857. «Em vinte anos», comenta Camilo, «enfolha, enflora, fruteia e fenece uma geração [...] E alguns tinham pavor da velhice dos 40 anos!» (p. 22 – estou a seguir a edição de Livros de Bolso Europa-América, nº 292).
Do ambiente burguês da capital os traços camilianos são os costumados: alojamento em hotéis, recepções em casa de amigos, noites de tavolagem, uma sociedade de expedientes, em que se antoja amiúde a compra de um título de Conde ou Marquês. Em relação à província, a figura que não se oblitera é a do padre sempre ganancioso, frequentemente a quebrar as juras do celibato.
Enganar-me-ia, contudo, se não alvitrasse ter sido a sua linguagem tersa, riquíssima, incisiva e pura o que mais me encantou, não só porque não hesitou em dar conta, aqui e ali, dos livros que se liam (que ele lia), sobretudo franceses, como se sabe, mas, de modo especial, pela sua exemplar sujeição à vernaculidade:
«Um homem que saíra em rapaz para África e lá vivera em navios, e sertões, e portos de mar, veniagando as suas mercadorias de carne viva com alma e feitio à semelhança do Criador» (p. 27).
Quase se esquece, por detrás das palavras, o seu significado: o homem foi… um negreiro!
«O milionário que se dói do ultraje compra diplomas de estima pública; isso é fácil: dê banquetes, embriague os convivas para a vertigem do baile; lá irá tudo, desde a honra que se vendeu até à honra que se almoeda» (p. 29).
            Só esmiuçando se enxerga bem o que ele quer dizer: corrupção!
            Aqui e além, uma nota erudita, não desprovida de carga irónica:
        «Imaginei que ele estivesse alapado na tulha das Açudes, lendo alguns capítulos paradoxais de Manon Lescaut, ou quejando romance justificativo das paixões ignóbeis! (p. 62).
Ou ainda:
«Que anjo naquele homem  restituiria a Deus a sociedade, se ela não fosse em toda a parte, o inferno dos anjos e o paraíso dos demónios, como, da de Paris, dizia Henri Heyne! (p. 63).
O toque crítico à mudança da toponímia das cidades por razões políticas:
«Quem se lembra já hoje da Rua do Coruche? Há doze anos que passou por ela o Progresso, esse iconoclasta implacável que subverte as coisas santas da religião artística de antiquários e poetas. O Progresso é barrigudo, não cabe em ruas estreitas. Aquela, a do Coruche, levou-a ele diante de si; e, como às cavaleiras desse pujante demolidor andem os bons progressistas para darem o seu nome às empresas que ele comete, aquela rua das minhas saudades ficou-se chamando do Visconde da Luz» (p. 64).
Neste caso, é de Coimbra que se fala, mas tal visconde teve nome de rua um pouco por toda a parte.
Não falta uma crítica que, de repente, até poderia arvorar-se agora:
«Não se restauram patrimónios a estudar: extinguem-se. E, concluída uma formatura em Portugal, quem a comprou com o seu trabalho e todo o seu haver, sente-se apenas habilitado para ir mendigar um ofício de quatro libras mensais às portas das secretarias» (p. 68).
É bem conhecido o hábito, no século XIX, mormente na sua segunda metade, de os burgueses comprarem títulos de nobreza. Falando em cem contos, declara o protagonista:
«A  mim convinha me possuí-los, para comprar um título de marquesa para Estela» (p. 69).
Voltando à vernaculidade da linguagem, não hesito a transcrever mais uma passagem em que a negativa está presente de forma, a meu ver, bem airosa: o uso corrente do prefixo des-, patente, noutras passagens, em despenar, desvalidar, desafecto e que – disso nem sempre nos damos conta – também existe em despedir e desconfiar. Ora veja-se:
«Na verdade, eu havia apostolado tão incompetente quanto inconvenientemente a contrição dos pecados. Demasiei-me, talvez, em desluzir-lhe as cristalizações do amor, formadas naquela alma, ramo desflorido e seco, submerso no lago congelado, conforme a teoria de Stendhal. A meu ver, cristalizações de lágrimas só o calor da mortalha as degela (p. 118).
Tudo imagens para se declarar arrependido de haver incitado Carlos a largar a amante e a voltar para a mulher que, no final de contas, ainda amava.

Camilo, um Mestre!

                                               José d’Encarnação 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Apoio ao cliente

            Há, nas firmas, o balcão de “apoio ao cliente”. Somos, os clientes, solicitados a recorrer a ele, presencialmente ou por via remota, sempre que haja motivo a justificar tal diligência. Parte-se do princípio de que o cliente, se se submete porque precisa ao “martírio" de ouvir, durante largos segundos, as hipóteses de recurso: «Se for avaria, tecle 2; se assunto de Tesouraria, tecle 3…». Por isso condeno a prática de ser esta uma chamada paga, até porque boa parte das vezes da chamada pode resultar uma sugestão de melhoria do serviço.
A este respeito sempre assumi duas atitudes: de crítica, quando algo me pareceu errado; de louvor, quando algo de notável a salientar.
A nível das grandes superfícies, há mesmo um balcão físico no próprio estabelecimento. Deixei, um dia, no carrinho do supermercado, o livro que comprara. Telefonei a perguntar se havia sido entregue. Fora. Preenchi a documentação e tudo ficou resolvido, com pleno agrado.

A embalagem do chourição, ao contrário do que bastas vezes acontece, abria-se muito bem, era mesmo «de abertura fácil». Regozijei-me, por correio eletrónico, junto do ‘atendimento ao cliente’. Não obtive sequer confirmação da recepção. Devem ter pensado que eu queria oferta.
Com os brindes de determinado produto, preparámos em casa um recanto especial. Fiz foto. Enviei para a sede da firma: nem água vai!
Ao abrir-se a lata de feijão, verificou-se que não estava em condições. Fotografou-se, identificou-se o lote, comunicou-se. Veio mesmo um delegado da empresa agradecer-nos a diligência .
Conclusão: a prática de todos contribuirá para a melhoria do atendimento.

                                               José d’Encarnação 

Puiblicado no jornal Renascimento, de Mangualde, nº 892,  Julho de 2026, p. 10.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Não ter tempo

            A agência noticiosa «Mundo ao Minuto» informou, a 28 de Dezembro de 2020, que Lucio Chiquito Caicedo, nascido a 22 de Maio de 1916, o homem mais velho da Colômbia, chegara à conclusão de qual o caudal perfeito de um rio para se produzir energia elétrica. Terminara então, durante a quarentena, a tese iniciada há 30 anos – formara-se, em 1947, como engenheiro civil na Universidade de Manchester.
Quando lhe perguntaram qual o segredo para se manter jovem, deu três receitas: «tomar banho com água fria, comer muita fruta e aproveitar todas as horas mortas para ler ou estudar qualquer coisa».
Horas mortas.
Ainda faltam dez minutos, não vale a pena começar nada, distraio-me a ver o telemóvel e pronto. Para um piloto de fórmula 1, ao invés, dez minutos são uma eternidade! Estiveste a olhar para o telemóvel – e que viste? Que aprendeste de novo? Algo de interessante para contares aos teus filhos?
Henri François d'Aguesseau (1668–1751) foi um dos mais célebres magistrados e juristas da história da França. Sob o reinado de Luís XV, preparou importantes portarias que regularam matérias jurídicas complexas, como as doações (1731), os testamentos (1735) e os fideicomissos (1747), reformas pioneiras que se revelaram essenciais para a redacção do futuro Código Civil francês de 1804 (o Código Napoleónico). Defensor estrénuo da independência da classe jurídica, foi considerado por Voltaire «o magistrado mais instruído que a França jamais possuiu».
Conta-se que a sua esposa e demais família não eram pessoas rigorosamente pontuais. Havia sempre o intervalo mais ou menos longo, à volta de um quarto de hora, entre o momento em que o chamavam para o almoço e aquele em que toda a família se sentava, finalmente, à mesa. O chanceler resolveu, então, não perder esses minutos de espera e, decorrido algum tempo, apresentou à família, estupefacta, o livro que conseguira escrever, unicamente durante aqueles ligeiros quartos de hora que outro qualquer teria perdido com indiferença ou com ralhos enervantes.
            Ao escritor romano Cícero se atribui esta frase: «Tudo o que faço ou penso quase sempre o preparo durante os meus passeios».
            Beneficias de um momento de silêncio, não pegues logo no telemóvel, não mates o tempo, dirige o teu pensamento para algo que te possa ser útil.

                                                                                   José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 356, 20-07-2026, p. 13.