terça-feira, 22 de setembro de 2026

De cliente duma biblioteca itinerante a professor catedrático em Coimbra

            José d’Encarnação teve acesso a livros graças à pioneira biblioteca itinerante do concelho de Cascais, iniciativa de Branquinho da Fonseca, que haveria de chegar a todo o território através da Fundação Gulbenkian, e acabou sendo professor catedrático em Coimbra.
Durante a instrução primária, José ia “de vez em quando” à biblioteca fixa, mas era “um bocadinho longe” para quem vivia entre o Lugar da Torre e o Lugar de Birre, na mesma casa onde recebeu a Lusa.

Tudo mudou com a possibilidade de a biblioteca ir ter consigo, um projeto-piloto gizado por António Branquinho da Fonseca quando era conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães e inaugurado em julho de 1953.
“No primeiro domingo de cada mês ia a uma zona, no segundo ia a outra, no terceiro ia a outra, cobria todo o concelho. Paravam no largo principal, apitavam e as pessoas [apareciam]”, recorda José, que tinha 9 anos quando a carrinha-biblioteca começou a circular em Cascais, no distrito de Lisboa.
 Foi assim que leu “todos os livros do Sandokan” (famoso pirata criado pelo escritor italiano Emílio Salgari) e “todos os livros do Júlio Verne”.
Em sua casa não havia o hábito da leitura. A mãe era mulher-a-dias e o pai trabalhava nas pedreiras. Oriundos de São Brás de Alportel, migraram para Cascais no final da década de 1940, em resposta à necessidade de mão-de-obra para as grandes obras públicas ligadas à exposição universal de 1940, entre as quais a Marginal que iria até Lisboa.

“O meu pai teve a terceira classe, a minha mãe teve a quarta classe e, portanto, não tinham hábitos de leitura absolutamente nenhuns, de nada, nem de jornais, nem nada. Eles não liam, quem lia era eu”, realça, sorrindo.
Os clientes da experiência-piloto criada por Branquinho da Fonseca no concelho de Cascais não eram apenas estudantes, mas pessoas que se interessavam pela leitura, recorda.
Quando, em 1964, entrou para a universidade, José “diversificou mais” as leituras, como comprovam as folhas batidas à máquina de escrever, a tinta vermelha, com a síntese dos livros que lia.

Mostra-as à Lusa: A retirada dos Dez Mil, de Xenofonte, lido em outubro de 1965; Decâmeron, de Giovanni Boccaccio, em agosto de 1966; D. Afonso Henriques, de Mário Gonçalves Viana, em setembro de 1966; a biografia de Gengis Khan,    em outubro de 1966.
“A partir do momento em que entrei na universidade, interessaram-me muito as grandes biografias, porque estava a estudar História”, explica.
Os dois funcionários que lhe traziam à porta de casa a biblioteca em forma de carrinha “já sabiam” que acabaria por levar “uma catrefada de livros, quatro, cinco ou seis”.
“Era tipo furgoneta e as paredes eram revestidas de estantes […]. Eu olhava e via, tinha mais ou menos a ideia do que é que gostava de ler e, portanto, pedia. Mas, muitas vezes, eles próprios me aconselhavam”, relata, qualificando: “Eram extraordinariamente amáveis”.
Lembra-se que assinava um papel a responsabilizar-se pela entrega dos livros na vez seguinte, mas, se por algum motivo, não tivesse conseguido ler, ficava de novo com os exemplares, até à vez seguinte.
    José foi redator no jornal A Nossa Terra, publicação regional histórica de Cascais que, em cada número, dava indicação das horas a que a biblioteca itinerante estaria em determinado lugar.

“Foi exatamente a única hipótese que eu tive de ter os livros emprestados. Tínhamos livros emprestados normalmente durante um mês e eu aproveitava para fazer essas leituras todas. Não foi importante, foi importantíssimo”, vinca, prestes a chegar aos 82 anos.
Apesar de, naquela altura, não haver tantos estudantes universitários como hoje e de ser mais frequente optar por um curso comercial ou industrial a seguir ao secundário, José d’Encarnação foi para a universidade.
Não era muito politizado, mas participou nas crises académicas, escrevendo artigos em jornais como O Encontro, da JUC (Juventude Universitária Católica).
“Algumas das crónicas acabavam por ser censuradas pela censura. Eu vendia esses jornais à entrada da faculdade e tinha sempre a certeza de que estava ao meu lado ou muito perto alguém, algum dos esbirros, a tentar ver como é que era, se havia algum comentário ou não em relação aos artigos que lá vinham”, rememora.
José acabaria por seguir o ramo da Arqueologia, com especialização em Epigrafia, o estudo das inscrições feitas em materiais como pedra, metal, cerâmica ou madeira, com o objetivo de decifrar, ler e entender mensagens do passado.
Quando a Universidade de Coimbra resolveu criar a cadeira de Epigrafia, José d’Encarnação era a pessoa que em Portugal mais tinha escrito sobre o tópico.
Era professor na Escola Salesiana do Estoril, quando lhe pediram que concorresse ao lugar: “Arranjei um quarto numa casa particular, ia na terça-feira e regressava na quinta-feira à noite ou na sexta-feira. Digo habitualmente que vivia em Cascais e trabalhava em Coimbra.”
José acabaria por fazer toda a carreira na Universidade de Coimbra, de assistente estagiário a professor catedrático.
Não chegou a conhecer Branquinho da Fonseca, de quem só ouviu falar a partir do momento em que o conservador e escritor foi trabalhar para a Fundação Calouste Gulbenkian, enquanto primeiro diretor do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas.
“Espera, isto que este senhor fez em Cascais acabou por fazer, e muito bem, em todo o país?”, surpreendeu-se, na altura, ciente de ter beneficiado de uma “experiência inaugural”.

TEXTO de Sofia Branco, da agência Lusa 

Acessível em: 15/08/2026  em Centro

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Preguiçoso

            Tenho-me no conceito de preguiçoso.
Digo-o com frequência e, por vezes, até sinto vergonha de como tal me declarar. A verdade é que sou mesmo! Dou tudo, como sói dizer-se – para fazer o menos possível!
Claro que vêm logo garantir-me que é mentira, porque apresento trabalho feito.
É verdade: apresento. E tenho gosto nisso, pois me ensinaram que uma pessoa deve estar sempre ocupada em algo de útil.
E dizem até que faço muito. Se calhar, faço. E o segredo está na enorme preguiça que tenho!
Por exemplo: nos rascunhos, escrevo muitas palavras abreviadas. Uso um moitão de abreviaturas, desde jovem! Não é estenografia, mas quase. Pobre do jornalista em reportagem, há 40 anos, em que não havia gravadores portáteis, se não se desenrascasse!...
Como escritor que sou, uso, portanto, esse moitão de abreviaturas e estou constantemente a pôr novas no computador. Preencho constantemente a janela «opções de correção automática». Dito os textos rascunhados para o computador mos passar diretamente a escrito…
Consolei-me, por conseguinte, ao saborear o capítulo “O valioso dom da preguiça” do livro «Talvez um Dia…», de Helena Sacadura Cabral, verdadeiro dicionário de psicologia diária e prática. Considera a autora que a preguiça «é uma ciência», porque constitui, em seu entender, «a procura da máxima economia de energia».
E consolei-me especialmente quando aí li a frase atribuída a Bill Gates:
«Escolha sempre uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil. Ela encontrará a maneira mais fácil de o fazer».
Ora toma!

                    José d’Encarnação

     Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10

domingo, 30 de agosto de 2026

Pão e espetáculo, entre os Romanos

            Referiu-se, na anterior crónica, que Ânio Primitivo oferecera ao povo de Balsa – cidade romana sita no actual território de Tavira – um combate de gladiadores.

            O local próprio para esse espetáculo deveras apreciado pelos Romanos era o circo, o anfiteatro.
Três monumentos públicos constituíam ponto de encontro e diversão, naquele tempo: o teatro, o anfiteatro e o hipódromo. Temos notícias da existência dessas estruturas, na totalidade ou não, nas principais cidades da Lusitânia romana.
            Assim, na capital, Emerita Augusta (Mérida), situada hoje em território espanhol, anfiteatro e teatro encontram-se lá, lado a lado, no centro da urbe; o hipódromo, um pouco mais além.
            Em Olisipo (Lisboa), reconheceu-se, não há muito, aquando das primeiras grandes obras de ampliação do metropolitano, parte significativa do hipódromo. Aliás, já em 1961, a arqueóloga Irisalva Moita encontrara uma estrutura antiga no subsolo, possivelmente uma estrada ou um cais portuário, pensou; contudo, foram as novas escavações de 1997 que permitiram identificar com precisão a spina (a «espinha», parede central do hipódromo) e parte da arena a cerca de 6,5 metros de profundidade, confirmando, assim, a existência do grande circo romano, cuja  descoberta só em 1997 seria amplamente divulgada ao público. De tudo se tomou boa nota e registo, mas não só não foi possível manter visível algum troço do que fora descoberto. como também os trabalhos previstos não deixaram avançar muito em termos de visualização das características do edifício.
            Anfiteatro olisiponense suspeita-se ter existido; apontam-se hipóteses de localização. Por consequência, continua a ser o teatro o ex-libris da Lisboa romana, com uma atividade cultural incessante.
Anfiteatro cuja descoberta muito deu que falar, por inesperada, foi a que ocorreu em Bobadela, povoação do concelho de Oliveira do Hospital. Pôs-se a descoberto parte significativa da construção e, hoje, constitui bom pretexto de visita a um lugar que, numa inscrição romana. foi designado de «civitas splendidissima», ‘cidade mui esplendorosa’, mas que resiste a desnudar-se perante o olhar ‘concupiscente’ dos arqueólogos…
            Também se não deixa ver, mas adequados processos fotográficos já denunciaram a sua existência, o hipódromo junto às ruínas da cidade romana a que vem sendo hábito chamar Miróbriga, ao lado de Santiago do Cacém.
            Muito esperançosas são as perspectivas de que a recente aquisição pelo Estado de terrenos em Condeixa-a-Velha vá permitir a descoberta de parte substancial do anfiteatro de Conímbriga, de que já abóbadas foram postas à luz do dia.
            Esperanças há, também, em relação a Ammaia, cidade que se localiza na freguesia de São Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre: à equipa que ali procede a escavações parece-lhe possível adiantar, dentro em breve, dados concretos acerca da localização do anfiteatro e suas características, numa cidade romana que se antoja vir a facultar ainda novidades surpreendentes.
            Dores de cabeça tem provocado a localização do referido anfiteatro de Balsa, dada a impossibilidade de, em clima de serenidade, se proceder a sondagens e, depois, a campanhas de escavação sistemática, devido a boa parte da cidade romana jazer em propriedade privada e ser complexo eventual entendimento entre as partes.
            Não é só a referência ao combate de gladiadores organizada por Ânio Primitivo que indicia a existência de um anfiteatro, onde tal combate teria naturalmente ocorrido. É que, deste, temos provas epigráficas convincentes.
            Concretamente, houve dois beneméritos que alargaram os cordões às bolsas e decidiram pagar, cada um deles, a expensas próprias, a construção de uma extensão de cem pés do pódio. Era o pódio o patamar no arranque da bancada para os espectadores, ou seja, o que está mais perto da arena. Como prova da sua benfeitoria foram gravadas duas placas, cada uma com o seu nome: Lúcio Cássio Céler e Gaio Licínio Bádio.  Assim, bem à vista, constituíam excelente promoção pessoal e aplauso para o gesto. E é bem possível que outros cidadãos balsenses lhes hajam seguido o bom exemplo. Apenas de dois se encontraram as respectivas placas comprovativas.
            Aliás, outras duas inscrições são susceptíveis de pertencere ao anfiteatro. Parece poder reconstituir-se, numa, a palavra «antepagmentis», alusão a «peças de arquitectura destinadas a revestir as paredes exteriores», e também uma referência a estátuas, que, como se sabe, do imperador ou de divindades, constituíam elemento indispensável de decoração num anfiteatro. A outra, de achado mais recente, poderá assinalar com iniciais o local reservado na assistência para um cidadão e seus familiares.
            Compreende-se quão aliciante poderá vir a ser – quando tal for autorizado – o estudo, no terreno, das estruturas por ali ainda estão enterradas! As inscrições já encontradas falam de famílias politicamente bem activas e, pelos vistos, de um viver desafogado – o que torna as perspectivas ainda mais aliciantes!

                                        José d’Encarnação 

Publicado em Sul Informação, 16-08-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/08/pao-e-espetaculo-entre-os-romanos/

 






Para saber mais:
•    ÁLVAREZ MARTÍNEZ (J. M.) e ENRÍQUEZ NAVASCUÉS [coord.], El Anfiteatro en la Hispania Romana. Mérida, Junta de Extremadura, 1994.
•    FERNANDES (Lídia), Scaena (revista do Teatro Romano de Lisboa), VI, 2025 (Tema: Edifícios de Espetáculo da Lusitânia Romana).
•    MAIA (Maria) et alii [coord.], Tavira – Território e Poder, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa, 2003.
•    SILVA (Luís Fraga da), Balsa, Cidade Perdida? Campo Arqueológico e Câmara Municipal de Tavira, Maio de 2007.



Chinguiço

            Sob o título «Acarear água», escrevi no Noticias de S. Braz (nº 310, 2022, p. 13) as diligências que outrora se tinham de fazer para «acarear água», ou seja, para a ir buscar e poupar. Nessa crónica disse, por exemplo, que «ao chafariz – ou, pelo Inverno, à nascente que brotava límpida do chão a uns 200 metros de casa – lá ia eu, de improvisado chinguiço ao ombro, e um balde de cada lado».
Lembrei-me agora de verificar se a palavra ‘chinguiço’ constaria no Dicionário da Língua Portuguesa (da Academia das Ciências de Lisboa), em perene actualização, por ser digital. Estava lá o seguinte:
«Peça almofadada, de forma semicircular, que os carregadores colocam em torno do pescoço e sobre a qual assenta a vara que suporta o peso da carga.
Citava-se, a esse propósito:
 «Aos andaimes, pelas travejadas rampas de madeira, sobem homens as pedras suspensas do jugo que sobre os ombros e a nuca lhes assenta, para sempre seja louvado quem inventou o chinguiço, alguém a quem lhe doía» (José Saramago, 1982, p. 160).
E explicava-se:
Peça almofadada sobre a qual assenta a correia usada para emparelhar os bois:. “Antes de atrelar os animais, o lavrador ajustou o chinguiço para evitar que a correia ferisse os bois”.
Portanto, a princípio, apenas à almofada se chamava ‘chinguiço’; por extensão (por metonímia, diz-se em gramática) passou, a dada altura, a dar-se esse nome a todo o conjunto. Por isso, agora, numa 2ª acepção da palavra, como «regionalismo algarvio», a explicação nesse Dicionário está mais completa: «Vara de madeira, em geral ligeiramente curva, que se apoia nos ombros e de cujas extremidades pendem recipientes ou outras cargas, permitindo transportá-los de forma equilibrada» (veja-se https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=chinguiço).
Mais um termo, pois, a mostrar a originalidade dos nossos falares barrocalenses.

José d’Encarnação

 Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 357, 20-08-2026, p. 13.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Há carrascos no bairro!

                                              

Há carrascos no Bairro da Pampilheira, em Cascais. Na Rua Fernão Lopes.

            Poderia considerar-se estranho falar disso, mas não é, porque, de facto, esse bairro nasceu, a partir de meados do século passado, numa zona que era, na verdade, de mato. Hoje, detém todas as características de bairro suburbano; mas nessa rua foi deixada parte da vegetação original – e já se vai explicar a razão do seu interesse.

           É conhecido que, no concelho de Cascais, existem várias povoações chamadas Carrascal (Carrascal de Manique, por exemplo, Carrascal de Alvide…), a dar ideia de que o carrasco era aí uma das espécies dominantes na vegetação original do concelho, designadamente nesta sua zona ocidental.
Bolotas do carrasco
                                                                 
        Ora porque é que terá importância, do ponto de vista histórico, além da importância do ponto de  vista botânico, manter uma vegetação que é original?
 
  
        É que vive associado ao carrasco (Quercus coccifera, de seu nome científico) um pequeno insecto, a cochonilha-do-carrasco, também chamada o quermes (Kermes vermilio). Ora, a cochonilha introduz-se nos tecidos vegetais e alimenta-se da seiva. Reage a planta à sua presença produzindo uma espécie de tumefacção. Essa estrutura acaba por envolver o insecto, que fica praticamente imóvel. O corpo da fêmea, sobretudo quando cheio de ovos, já os romanos o recolhiam, secavam e obtinham assim um corante vermelho-carmesim que, sub-repticiamente, adicionavam à púrpura verdadeira com que se tingiam os 
 mantos imperiais e as togas dos senadores.
 
                                     
  
 
    A púrpura era obtida através do que se retirava da «purpura haemastoma», o molusco marinho também chamado «stramonita haemastoma». Dele foram encontradas muitas conchas no povoado romano dos Casais Velhos, perto da Praia do Guincho; e daí se considerar que Casais Velhos, até por aí também se terem encontrado tinas, tenha sido um centro de produção de púrpura. Ora, juntar ao líquido extraído do molusco o resultado da maceração da cochonilha era um bom negócio, porque se vendia o resultado como se fosse púrpura verdadeira!…

    Por isso se pugna em manter os carrascais onde eles ainda existem: preserva-se um revestimento vegetal antigo, ligado, neste caso concreto, a uma história antiga também.

                                                 José d'Encarnação