segunda-feira, 27 de julho de 2026

Não ter tempo

            A agência noticiosa «Mundo ao Minuto» informou, a 28 de Dezembro de 2020, que Lucio Chiquito Caicedo, nascido a 22 de Maio de 1916, o homem mais velho da Colômbia, chegara à conclusão de qual o caudal perfeito de um rio para se produzir energia elétrica. Terminara então, durante a quarentena, a tese iniciada há 30 anos – formara-se, em 1947, como engenheiro civil na Universidade de Manchester.
Quando lhe perguntaram qual o segredo para se manter jovem, deu três receitas: «tomar banho com água fria, comer muita fruta e aproveitar todas as horas mortas para ler ou estudar qualquer coisa».
Horas mortas.
Ainda faltam dez minutos, não vale a pena começar nada, distraio-me a ver o telemóvel e pronto. Para um piloto de fórmula 1, ao invés, dez minutos são uma eternidade! Estiveste a olhar para o telemóvel – e que viste? Que aprendeste de novo? Algo de interessante para contares aos teus filhos?
Henri François d'Aguesseau (1668–1751) foi um dos mais célebres magistrados e juristas da história da França. Sob o reinado de Luís XV, preparou importantes portarias que regularam matérias jurídicas complexas, como as doações (1731), os testamentos (1735) e os fideicomissos (1747), reformas pioneiras que se revelaram essenciais para a redacção do futuro Código Civil francês de 1804 (o Código Napoleónico). Defensor estrénuo da independência da classe jurídica, foi considerado por Voltaire «o magistrado mais instruído que a França jamais possuiu».
Conta-se que a sua esposa e demais família não eram pessoas rigorosamente pontuais. Havia sempre o intervalo mais ou menos longo, à volta de um quarto de hora, entre o momento em que o chamavam para o almoço e aquele em que toda a família se sentava, finalmente, à mesa. O chanceler resolveu, então, não perder esses minutos de espera e, decorrido algum tempo, apresentou à família, estupefacta, o livro que conseguira escrever, unicamente durante aqueles ligeiros quartos de hora que outro qualquer teria perdido com indiferença ou com ralhos enervantes.
            Ao escritor romano Cícero se atribui esta frase: «Tudo o que faço ou penso quase sempre o preparo durante os meus passeios».
            Beneficias de um momento de silêncio, não pegues logo no telemóvel, não mates o tempo, dirige o teu pensamento para algo que te possa ser útil.

                                                                                   José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 356, 20-07-2026, p. 13.

terça-feira, 21 de julho de 2026

45º Salão Internacional de Pintura Naïf

            45 anos é obra! Quando – com alguma perplexidade quanto ao futuro – Nuno Lima de Carvalho ousou chamar a si esse empenho de dar a conhecer esses artistas até aí pouco considerados, não sonhou que, hoje, 45 anos passados, o seu projecto tivesse continuidade e sempre com o maior êxito!
Estes artistas gastavam as cores todas num só quadro, estavam-se nas tintas para as proporções, tanto lhes dava pôr uma igreja pequenina e a procissão em módulo muito maior; os homens e mulheres podiam ser maiores que as árvores… Uma ingenuidade pegada! Por isso se usa para caracterizar este estilo a palavra francesa «naïf», que significa precisamente ‘ingénuo’, pessoa que ainda não sabe muito bem em que mundo real se passeia…
Que importa? Passeiam-se pelos campos, pelas praias, pintam a passarada, os animais domésticos, cenas da lavoura e do quotidiano, festas e romarias… Enfim, o que lhes vai na alma – mas sempre com as cores mais garridas, que o negro e o cinzento não se coadunam com a sua forma de encararem um mundo alegre e donairoso.
Homenageia-se, este ano, Estrela Santos, falecida no passado mês de maio. Estrela Santos nasceu no Huambo (Angola) em 1933, frequentou o Curso de Artes dos Tecidos da Escola António Arroio, dedicando-se posteriormente, e de forma integral, à Arte Naïf. Participou em dezenas de exposições individuais e coletivas, tanto em Portugal como no estrangeiro. Destacam-se as várias Coletivas de Arte Naïf na Galeria do Casino do Estoril, realizadas desde 1980; a Exposição de Arte Naïf no Museu Grão Vasco, em Viseu; e Lisboa Ingénua, integrada na programação de Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura. A sua obra encontra-se representada no Museu de Arte Primitiva Moderna de Guimarães; no Museu de Arte Naïf de Jaén (Espanha); no Banco do Fomento e Exterior, em Luanda; na Fundação Evangelização e Culturas, em Lisboa; no Museu MIAN (Rio de Janeiro); e em diversas coleções particulares, nacionais e internacionais.

Artistas participantes no 45º Salão Internacional de Pintura Naïf: A. Barbosa, A. Réu, Bento Sargento, Conceição Lopes, Estrela Santos, Feliciana, Fernanda Azevedo, Gutemberg Coelho, Manuel Castro, Maria Tereza, Nell, Noemi Eshet-Rosenweig e Viorica Farkas.

Um abraço ao Pedro Lima de Carvalho por dar continuidade a este desígnio de seu pai.

 Inaugurada a 25 de julho, às 17 horas, a exposição estará patente até 15 de Setembro 

       José d'Encarnação 

in Notícias de Cascais, nº 152, Julho 2026, p. 13.






quarta-feira, 15 de julho de 2026

Faustino

            – Ó avô, porque é que tu mostras sempre o bilhete o passe errado?
– Sabes, neto: o revisor passa o dia a inspecionar passes. A maior parte das vezes, nem lhe dizem «Bom dia!» nem «Boa tarde!». Uma vida monótona. À noite, ao jantar, nada tem pra contar à mulher ou à namorada ou aos filhos. Assim, hoje, sempre poderá dizer «Imaginem que, esta tarde, um velho queria enganar-me e mostrou-me o passe errado. fora do prazo! Tive de o obrigar a ver nos bolsos tudo, até que lá encontrou o verdadeiro!».
O Faustino é, de facto, assim. No bairro onde vive, não consegue cruzar-se com rapaz, senhora, homem, seja quem seja, trabalhador da garagem ou senhor bem posto de fato e gravata em jeito de engenheiro, sem lhes falar.  Um bairro periférico, onde, por mais estranho que pareça, a maior parte das pessoas ainda se conhecem, mas onde  passam diariamente muitas outras que não são do bairro: vêm ao hospital, à estação dos correios, a uma das oficinas de automóveis, à pastelaria, ao restaurante, ao minimercado… Ao cruzar-se com esses forasteiros, na paragem do autocarro por exemplo, Faustino não deixa de os saudar. Da maior parte sai um «Bom dia!» ou uma «Boa tarde!». impregnados de admiração, a denunciar quanto se não esperava a saudação. Não é raro, porém, que a surpresa leve a um «Olá! Boa tarde!», a revelar contentamento. Raro também é haver quem não corresponda, estrangeiro que seja.
Faustino, porém, vai mais longe.
A noite fora chuvosa, depois de um dia deste Junho de intenso calor. Nessa manhã, que acordara chuvosa também, Faustino cruzou-se com a senhora de calção e manga curta:
– Vamos esconjurar a chuva, vizinha?
– Vamos, pois!
E ambos sorriram.
Nos corredores do hospital, já o ouvi acrescentar à senhora grávida com que se cruzou na escada: «Que tenha uma boa hora!». «Obrigado!» – surge sempre, admirado, o sorriso!
Ou ao ancião que se protege da chuva: «Ela hoje não molha, amigo!». «Ai, molha, molha! É de molhar tolos!».
Parar diante da criancinha que chora, agarrada à mãe, e fazer-lhe uma fosquinha – e o choro passa! E a mãe sorri.
Na passadeira da rua, quando o carro pára, a fim de o deixar passar, apressa-se a correr, numa de, na brincadeira, ter medo de ser atropelado, sorridente, só para ver o sorriso do condutor! Melhor, se for da condutora! E agradece sempre.
Na caixa do supermercado, perscruta sub-repticiamente a etiqueta identificativa do funcionário e saúda-o pelo nome. Recebe o habitual sorriso admirado e as contas até correm melhor!...
Aos 70 e poucos anos, Faustino resiste a viver isolado.

                                                                       José d’Encarnação 

In Duas Linhas,  6 de Julho de 2026: https://duaslinhas.pt/2026/07/faustino/ 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Hoje é… hoje!

              Fui com a Aurora visitar o marido, de 82 anos, recolhido a um lar a partir do momento em que se verificou ser mesmo essa a melhor solução para conforto dele e algum resfolgo por parte dela.
A conversa recaiu sobre a actualidade, os amigos, as novidades locais…
– Não quero saber nada disso! – repetiu ele, duas ou três vezes. Mesmo quando se mudava de assunto para outro que, sendo da sua área de actuação, suspeitávamos poder ser do seu interesse.
– Não quero saber nada disso!
            Américo desistira de viver, encarava o dia-a-dia qual pesadelo a esconjurar.
Claro, tive pena e saí desconsolado.
Topei agora, no repositório de temas a, um dia, abordar em crónica, este cartune de Bill Watterson, da célebre tira de banda desenhada Calvin and Hobbes publicada entre 1985 e 1995, o diálogo entre Calvin e Hobbes, o tigre que o acompanha:.
– Que dia é hoje?
– Hoje é hoje!
– O meu dia predilecto!
Maravilhei-me e não busquei mais. Admiro Bill Watterson, que, de forma tão incisiva e certeira, sabe transmitir a mensagem ideal.
Predilecto o hoje – porque o que se está a viver. O presente. O único de que podemos usufruir e preencher, conforme nos der na real gana. Sabemos perfeitamente que desse preenchimento – qualquer que ele seja!... – resultarão consequências. É, porém, o que temos e vamos agarrá-lo em pleno. O «meu dia predilecto».
 
                                    José d’Encarnação 
 
in Renascimento (Mangualde), 20-06-2026, p. 10. 

 

 

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Falar e escrever… como?

            Incomodou-me, confesso.
A demografia não é tema do meu entusiasmo; admiro, porém, quem se disponha a estudá-lo, para dele tirar conclusões susceptíveis de contribuir para a melhoria do nosso cotidiano, porque acredito que uma investigação científica – qualquer que ela seja! – só se justifica se redundar em benefício comunitário.
 Permita-se-me a reprodução de quatro linhas desse texto:
«Em 1633, as freguesias da Sé e de São Pedro possuíam 1398 fogos ou passo que as freguesias rurais (7 no total) não tinham mais do que 1188; em 1674, essa relação havia já sofrido uma inversão, dado que as freguesias urbanas tinham entretanto perdido 358 fogos (-25.61%), enquanto as restantes conheciam um incremento de 379 (31.9%), cifrando o seu número de fogos respectivamente em 1040 e 1567».
Excerto de uma página com apenas um parágrafo, de 22 linhas de texto e 27 outras correspondendo a quatro notas infrapaginais em corpo 10.
Recorte da página de que se fala: do texto e das notas
 
Não sei já donde o tirei; creio, aliás, que de propósito não quis ficar com essa referência, porque o interessante é o que se vê, prescindindo da autoria.
Daí a razão da pergunta do título «Escrever, falar… como?». Porque se parte do princípio de que se escreve para ser lido e compreendido, que se fala para ser ouvido e entendido. O amontoado de dados massivamente apresentado nessa página de um só parágrafo com 22 linhas a um espaço e 27 de notas… será facilmente compreensível?

                                    José d’Encarnação

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Boca com excelente frescura

            Não, não vou responder à pergunta do irritante anúncio televisivo «porque paraste?». Não. A receita é outra: um bom copinho de vinho tinto!
Tenho aqui um, à minha frente, cujo rótulo reza o seguinte:
 


«Cor rubi brilhante, aromas com frutos vermelhos maduros e pequenas bagas, boca com excelente frescura e taninos vivos mas bem integrados, termina elegante e com bom volume».
 
Há lá melhor?
Compraz-me particularmente a fresca literatura dos vinhos portugueses. Que frases bonitas, buriladas a preceito, para, no fim, se as espremermos a fundo, nos quedarmos com uma sensação estranha: «Que é que eles querem dizer com isto?». Mas, nessa altura, já teremos degustado o precioso néctar, soubera-nos bem e até nos alegráramos com esta terminação… «elegante», como quem diz «Fiquei mais elegante, não fiquei?».
Com essa do “bom volume” a gente pode ficar de pé atrás, porque é passível de sugerir a ideia de pança e todo o mundo quer é emagrecer, embora saboreando bons petiscos. Aliás, consola-nos ler que, apesar de ´vivos’, os taninos estão «bem integrados», o que nos leva a pensar: Ná! Não me vai crescer a barriguinha. Eles estão ‘bem integrados’ esses taninos!, que, como dita a inteligência artificial, «conferem estrutura, corpo e uma sensação de adstringência (secura) na boca».
Reclamo com frequência contra a má qualidade dos dizeres publicitários e, de modo especial, das traduções. Contra a escorreiteza das falas vínicas, nada a dizer! Tudo nos conformes, segundo os ditames da melhor poesia abstracta.
Portanto, socorro-me da frase que o meu amigo romano de há 2000 anos quis mandar gravar no seu túmulo: «A lareira está acesa. Vamos a mais um copo, companheiros?»
Vamos – que a boca já requer frescura!

                                                           José d’Encarnação  

Publicado no jornal RENASCIMENTO, de Mangualde, nº 890, 20-05-2026, p. 10. 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

«Dar nas vistas»

            Atenho-me ao verbo «dar».
Preconizei, em março, que era importante – num concelho como São Brás de Alportel, assim encavalitado na Serra e a fazer fosquinhas ao litoral –, que seria bom procurar dar que falar, no bom sentido:
– referir, a tempo e em tempo oportuno, as iniciativas;
– evidenciar a sua singularidade e interesse;
– mostrar, enfim, que em São Brás se vive, há pessoas e queremos que cada vez haja mais – para mais se fomentar comunidade; se aproveitarem solos outrora produtivos; se colherem as alfarrobas, as amêndoas, os figos, as azeitonas; e se remodelarem a preceito casas que, eventualmente desabitadas, correm sério risco de se tornarem ruínas.

Ao dar-que-falar contraponho, hoje, o dar-nas-vistas. Contraponho, porque as considero expressões opostas. Dar-que-falar é positivo; dar-nas-vistas. Dar-nas-vistas vem, por sua vez, naquele jeito da ‘socialite’, isto é, a estranha pessoa que faz questão em andar sempre por aqui e por ali, para se mostrar a si e às vestimentas que endossa e aos publicitados acessórios que porta…
Não, abominamos as ‘socialites’ e preferimos um dar-nas-vistas bom, a mostrar, sem sombra para dúvida, que, como reza o aforismo antigo: «Em São Brás viver sabe bem!».
            Pois.

José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 354, 20-05-2026, p. 13.