Fui com a Aurora visitar o marido, de 82 anos,
recolhido a um lar a partir do momento em que se verificou ser mesmo essa a
melhor solução para conforto dele e algum resfolgo por parte dela.
A conversa recaiu sobre a actualidade, os amigos, as
novidades locais…
– Não quero saber nada disso! – repetiu ele, duas ou
três vezes. Mesmo quando se mudava de assunto para outro que, sendo da sua área
de actuação, suspeitávamos poder ser do seu interesse.
– Não quero saber nada disso!
Américo
desistira de viver, encarava o dia-a-dia qual pesadelo a esconjurar.
Claro, tive pena e saí desconsolado.
Topei agora, no repositório de temas a, um dia,
abordar em crónica, este cartune de Bill Watterson, da célebre tira de banda
desenhada Calvin and Hobbes publicada entre 1985 e 1995, o diálogo entre
Calvin e Hobbes, o tigre que o acompanha:.
– Que dia é hoje?
– Hoje é hoje!
– O meu dia predilecto!
Maravilhei-me e não busquei mais. Admiro Bill
Watterson, que, de forma tão incisiva e certeira, sabe transmitir a mensagem ideal.
Predilecto o hoje – porque o que se está a viver. O
presente. O único de que podemos usufruir e preencher, conforme nos der na real
gana. Sabemos perfeitamente que desse preenchimento – qualquer que ele seja!...
– resultarão consequências. É, porém, o que temos e vamos agarrá-lo em pleno. O
«meu dia predilecto».
José d’Encarnação
in Renascimento (Mangualde), 20-06-2026, p. 10.




