sábado, 31 de outubro de 2026

Singela, emotiva e justa homenagem

          

 
Somos, amiúde, avessos a usar lugares-comuns, porque sabemos como despidos andam do seu significado próprio. Ouso, porém, usar um deles: saímos «de alma lavada».
Na verdade, essa foi, sem dúvida, a agradável sensação de quantos lotaram o Auditório Senhora da Boa Nova, na Galiza – São João do Estoril, no final da tarde de domingo, 25: o concerto de homenagem a José António Piñeiro Nagy encheu-nos as medidas, lavou-nos a alma.

Acrescente-se que a imagem do homenageado projetada em fundo, como que a integrar o lote de músicos, proporcionou um sentido ambiente de bem-estar, também proporcionado inclusive pela manifesta dedicação de todos e cada um dos membros da orquestra, onde o renomado clarinetista António Saiote literalmente se integrou. Realce -se que o facto de Nikolay Lalov se haver auto-dispensado de dirigir o espetáculo, deixando tal função a um primeiro-violino e ao próprio António Saiote – que muito discretamente a souberam exercer – contribuiu eficazmente para a criação dum clima de homenagem bonita, tranquila, cativante, a que todos os executantes (sentíamos) gostosamente se associaram.
Foi bonito, Piñeiro Nagy merecia!

Abriu a sessão Nikolay Lalov, que emotivamente historiou o seu relacionamento com Piñeiro Nagy e o grande mérito da actividade ímpar desenvolvida pelo homenageado. No final, também o músico convidado, António Saiote, se referiu elogiosamente ao que Nagy, com tenacidade e enorme carácter inovador, lograra levar a bom termo.
Ouvimos, na primeira parte do espectáculo, o 2º andamento do Concerto para Clarinete e Cordas, do compositor e pianista lisboeta Armando Mota; uma ária de Joly Braga Santos (1924-1998), com extraordinário arranjo de Eduardo Seabra, pleno de delicadeza e suavidade; a bem conhecida Canção do Mar, de Ferrer Trindade, num bonito arranjo do bracarense Artur Caldeira; a eterna «Sol de Inverno», de Nóbrega e Sousa, em espetacular arranjo de Pedro Ramos e, a finalizar, Temas Portugueses para Clarinete e Cordas, de Artur Caldeira, em que o diálogo entre o clarinete e as cordas, diga-se de passagem, foi verdadeiramente excepcional. 
Após o intervalo, ouviu-se Serenata para Cordas em Dó Maior, Opus 48, do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky, nos seus quatro andamentos (sonatina, valsa, elegia e final).
            Recebemos, na ocasião, o livro Prima la Musica dopo le Parole («primeiro, a Música; depois, as Palavras») que reúne, nas suas 244 páginas, toda a documentação referente aos 50 anos dos festivais de música, a que o homenageado esteve intrinsecamente ligado. Acompanhou-o bonita colecção dos 50 respectivos cartazes.

                                    José d’Encarnação

Publicado em Duas Linhas, 27-10-2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/um-momento-irrepetivel/

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Na Quinta de Marim romana, o hábito não fez o monge

             Quando se aduz este provérbio - «O hábito não faz o monge» –, a intenção é mostrar que mais depressa se copiam aspectos exteriores do que se vive ou adopta como modo de vida o que o exterior implica. Fácil é verificar como, por exemplo, o uso de jeans depressa se generalizou, mesmo em comunidades geralmente alheias ao que os jeans implicam como mudança de hábitos. Tornou-se moda, usa-se, sem que tal uso corresponda a nova mentalidade.
Nesse âmbito, os monumentos epigráficos descobertos na villa romana sita na Quinta de Marim, freguesia do Quelfes, concelho de Olhão, têm sido alvo de estudos interpretativos. Contudo, as possibilidades que o avanço da Epigrafia agora oferece permitem-nos novo olhar.
Fig. 1
         Veja-se o que reproduzimos na fig. 1. Representa, em miniatura, a fachada de um edifício de calcário. O rectângulo dividido por banda larga a meio dá ideia dos batentes de uma janela ou de uma porta, sob um frontispício triangular, onde, em relevo, se mostram três motivos florais esterilizados: corolas quadripétalas geometricamente concebidas com botão central. A do meio, maior que as laterais, está rodeada de circunferência em banda larga.
Têm os rectângulos molduras de duas ranhuras, a delimitar um espaço perfeitamente alisado. Aliás, toda a superfície do monumento foi bem alisada, à excepção da zona inferior, destinada, naturalmente, a ser enterrada e a ausência de alisamento acaba por garantir mais sólida fixação.
Por conseguinte, do ponto de vista estético, uma estela agradável de ver-se.
Ora sucede que esses dois espaços rectangulares se destinavam a receber dois epitáfios, encimados, cada um, pela fórmula típica de consagração aos deuses Manes, portadores das almas para o Além: as siglas D M S.
À primeira vista, no lado esquerdo, lê-se, em latim, que Patricia vixit annis XI diebus IV: «Patrícia viveu 11 anos e 4 dias». No lado direito, ler-se-á Patricius vixit annis XLIII mensibus III diebus XIV: «Patrício viveu 43 anos, 3 meses e 14 dias». Termina este letreiro pelas letras P I S P I, passíveis de serem siglas da expressão laudativa pius in suis, «piedoso para com os seus».  Mas o P I final não sabemos o que significa.
A explicação pode ser que ao canteiro foi fornecida uma minuta, por ele não cabalmente entendida. De resto, voltando atrás e vendo os nomes com mais atenção, acaba por verificar-se que lemos mal: não está escrito Patricia mas Patrlcia, nem Patricius mas Tatricius (Fig. 2).
Fig. 2

Imaginamos que as fórmulas habituais eram transmitidas ao canteiro com uns rabiscos, como amiúde acontece connosco ao escrever «Com os melhores cumprimentos» no final de uma carta: vão umas garatujas, porque partimos do princípio de que quem nos vai ler sabe exatamente o que pretendíamos escrever.
Fig. 3

Veja-se o caso da expressão sit tibi terra levis, «que a terra te seja leve» tão habitual que se escrevia em siglas. Ora, nesta lindíssima tampa de sepulcro (Fig. 3), a má interpretação da minuta resultou em S I B T R I B S (Fig. 4) – que é como quem diz «vocês sabem o que eu quero dizer».
Fig. 4


Já noutra estela, também ela em jeito de bonita fachada de templo com elegantes colunas (Fig. 5), a fórmula final saiu bem atabalhoada: T T B L  !

Fig. 5
 
Em conclusão: esteticamente, os monumentos obedecem a todos os cânones clássicos: são elegantes; no entanto, do ponto de vista da escrita, quer o escriba propriamente dito quer o encomendante não se esmeraram minimamente. Por mero descuido? É natural que não, mas sim porque a sua inclusão na cultura romana estava ainda incipiente. O ‘hábito’ era o oficial, o das regras; o conteúdo, porém, deixou muito a desejar: o ‘monge’ ainda não se encontrava bem inteirado das regras vigentes no convento!

                                               José d'Encarnação

Publicado em Sul Informação, 24-10-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/10/na-quinta-de-marim-romana-o-habito-nao-fez-o-monge/

Jardim e biblioteca

            Das muitas frases que, diariamente, nos aparecem na pantalha do computador ou no pequenino ecrã do telemóvel algumas conseguem fazer-nos parar; muitas não, até porque são invasoras, surgem quais estrelas cadentes e nós estamos, frequentemente, noutro cumprimento de onda, sem capacidade receptiva.
Estoutra constituiu excepção, porque, além de atribuída a um grande orador romano do século I antes de Cristo, me calou fundo, por ser, como sói dizer-se: lapidar!
‘Lapidar’ tem esse forte sentido de ser curta, adequada, também por isso, a poder ser gravada na pedra, a fim de perdurar. Não a mandou gravar Cícero numa epígrafe: escreveu-a, sim, na 4ª carta do livro IX das «Epístolas a Familiares», dirigida, neste caso, ao seu amigo Varrão. Diz o seguinte, na versão que me chegou:
«If you have a garden and a library, you have everything you need» – «Se tens um jardim e uma biblioteca, tens tudo aquilo de que precisas».
Acontece, porém, que, desgarrada do contexto e mal traduzida, a frase ganhou notoriedade e significado diferente daquele que Cícero lhe deu. Na verdade, o texto original é: «Si hortum in bibliotheca habes, deerit nihil», «Se tens um jardim na biblioteca, nada faltará».
Deixando de parte as conjecturas filosóficas que despertou, lembrei-me do meu amigo Luís. A esposa tem como passatempo cuidar do pequeno jardim que lhes envolve a casa. Isabel passa horas esquecidas a apanhar folhas caídas. Há sempre “Folhas Caídas” – já Garrett o proclamara. Assim como, no jardim, o mais normal é deliciarmo-nos com… «Flores sem Fruto».
O Luís é jornalista e escritor. Por vezes, são também as flores do jardim que lhe inspiram crónicas, na vontade de serem mensagem a saltar os muros e a tocarem, se possível, dezenas e até centenas de leitores.
Aposentados ambos, optaram, pois, por aposentos complementares. Para Isabel, a serenidade do jardim; tantas experiências viveu Luís por desvairadas paragens que prefere o sossego do escritório, com livros e dicionários à mão, em tudo se baseando para transmitir experiência e contar do que aprendeu.
Mas para Cícero, hoje, o duo seria jardim e telemóvel, tendo consciência plena de que a volatilidade deste último jamais conseguiria substituir a material solidez das folhas que, a bel-prazer, se deixam manusear.

                                                 José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 895, 20-10-2026, p. 10.

 

sábado, 17 de outubro de 2026

Fanar e meter a unha

             
 
Escreveu Rainer Daehnhart minúsculo livrinho a explicar o significado original desta palavra «fanar» e desta expressão «meter a unha».
Boa surpresa!
Vai-se ao Dicionário da Academia e, aí, sem aparentemente qualquer sombra de dúvida, se aponta, entre outros significados mais correntes, o de «fazer perder ou perder a energia, a frescura, o viço», indicando-se como sinónimo «murchar». Essa conotação prende-se com o verbo francês ‘faner’, que detém, originalmente, o significado de ‘desfalecer’, donde deriva, por exemplo, a expressão «deu-lhe um fanico», desmaiou, ainda que haja dicionários onde se aponta, logo em primeiro lugar, a ideia de «remexer a erva (para a deixar secar)».
Quanto a meter a unha é a expressão coloquial, quase de calão, para eufemisticamente expressar a ideia de ‘roubar’, explorar, vender caro. Aliás, em calão, fanar é exactamente o sinónimo de ‘roubar’. Parte superior do formulário
Parte inferior do for Estávamos, portanto, muito longe de imaginar que verbo e expressão tivessem uma origem bem concreta, a remontar ao período em que Portugueses andavam, pelos séculos XV e XVI, em negociatas orientais. Negócio implica compra e venda, implica pagamento de impostos, implica moedas. E é aí que entra o fanão, pequenina moeda de ouro, com o peso aproximado de meio grama (0,37/0,54 g), uma ninharia!
Capa do livrinho
Conta Rainer Daehnhart que os nossos vice-reis da Índia recebiam fanões em pagamento de direitos tributários. «Embora batidos no Indostão e no Ceilão, os fanões», acrescenta Rainer, «correram durante perto de um milénio em todos os portos, desde a ilha de Moçambique até Malaca».
 
E, afinal, qual é essa história do meter a unha e do fanar?
 
Muito simples: pagavam-se impostos com uma boa porção dessas moedinhas minúsculas. Por conseguinte, foi necessário engendrar uma forma expedida de as contar. Inventou-se, por isso, uma tábua com um certo número de concavidades (50, 100 ou 200). Despejava-se a bolsinha por cima da tábua e, com gesto firme, rasoirava-se a superfície, a fim de que todos os buraquinhos ficassem ocupados.  E é aqui que entra a unha, porque o funcionário encarregado da tarefa (dizem as más-línguas…) deixava, de propósito, crescer a unha do dedo mindinho, preciosa ajuda para que alguns fanhões deslizassem sorrateiramente para outro sítio, que não o buraquinho apropriado!… Excelente, pois, eficaz o papel da unha grandinha!
 
Assim se fanava, assim se metia a unha! Assim se ajuntavam sub-repticiamente bem apetitosos fanhões de ouro. Eu tenho um, mas foi oferta!...
Moeda fanão do Índico (autêntica)
Bem andou, pois, Rainer Daehnhart em dedicar algum do seu precioso tempo (não é lugar-comum, é precioso mesmo!) a explicar minuciosamente como tudo se passou.
O livrinho tem a data de 26 de Julho de 2004 e chama-se Fanar Fanões. 
E conta, no final, Rainer Daehnhart como uma dessas moedinhas lhes salvou a vida, a ele e à avó, quando se dispunham a atravessar a fronteira (estava-se em plena Segunda Grande Guerra!), vindos da Alemanha de Leste. Os soldados americanos não os deixavam passar e, aí, a avó não esteve com meias medidas: descoseu a borda da saia de chita onde escondera – junto aos habituais pequenos pesos do chumbo destinados a manter a saia esticada – um punhado de fanões de ouro, com que alegremente subornou a vigilância. Os militares trincaram; viram que era mesmo ouro de lei e… cá temos, ainda hoje, Rainer Daehnhart, são e salvo, para nos contar a história!

                                               José d'Encarnação 

Publicado em Duas Linhas, 16-10-2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/fanar-e-meter-a-unha/





domingo, 11 de outubro de 2026

O que paredes antigas escondem

            Além da conhecida palha de Abrantes e da tigelada, a cidade de Abrantes reserva novidades dignas de serem conhecidas e a arqueologia urbana acaba por nos reservar surpresas não esperadas!

 

           Assim, a arqueóloga Célia Silva – que já descobrira, num buraco de parede, uma carta de 1721 a encomendar coelhos – encontrou,  no forro desse mesmo edifício, um carrinho de linhas de madeira, tampas de publicidade redigida em francês (!) a uma pomada da marca ELGA – «pomada superior de cera sem ácido para calçado» –  e a uma outra, essa portuguesa, pois que a legenda proclama: «Só a Rosinha dá brilho assim!!».   

        

            Este carrinho de linhas de madeira levou-me aos meus tempos de menino e, confesso, acabei por não seguir com a devida atenção a brilhante exposição da Dra. Célia Silva.

            E que a um carrinho de linhas assim, nós, moços pequenos, cortávamos as extremidades de modo a ficarem em jeito de rodas dentada e imaginávamo-las rodas dos tanques de guerra, que fazíamos movimentar à força de elásticos enrolados no sítio da linha e que, desenrolando-se devagar, faziam o ‘blindado’ avançar. Por vezes, até canhão lhe púnhamos: um pau de fósforo servia às mil maravilhas para o efeito!


            Pode acontecer que haja desses brinquedos imaginados em Museus de Brinquedos ou em imagens de livros infantis. Adorava saber!
            Aliás, no decorrer do colóquio organizado, no passado dia 26 pela Câmara Municipal intitulado «A Arqueologia Urbana ao Serviço da Comunidade», Célia Silva mostrou tábuas com inscrições deveras curiosas, como esta em que se lê:

    

            Realizado no auditório do Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, este primeiro Colóquio da série prevista para mostrar a cidade na sua relação com o rio ao longo dos séculos – «Abrantes, o Tejo e o Tempo» – teve por objectivo mostrar como as intervenções arqueológicas levadas a efeito no âmbito da própria cidade, além de não serem “empatas” do desenvolvimento urbano, acabam por enriquecer o património, inclusivamente dos prédios que vão ser renovados ou dos novos que aí virão a ser construídos.
            Daí que se fale em “serviço da comunidade”, porque, tal como as árvores necessitam das suas raízes para se alimentarem, assim a população duma cidade carece de saber de onde veio, das fases por que passou, para melhor compreender o seu presente.
            Deu-se conta, pois, das intervenções feitas no centro histórico de Abrantes, cujos conventos e colégios foram sendo paulatinamente adaptados a outras funcionalidades. Luis Peri e André Freitas (da empresa Gestcult) mostraram, por exemplo, as fases por que passou a transição do antigo Convento de Nossa Senhora da Esperança para o Colégio de Nossa Senhora de Fátima.

   

            Por outro lado, a cidade de Abrantes deteve – e continua a deter – uma posição estratégica, tanto do ponto de vista militar (veja-se o papel que desempenhou no quadro das invasões francesas) como económico, pela sua proximidade do Tejo (ia-se por via fluvial de Lisboa a Abrantes!…). Haja em vista que os trabalhos de reabilitação do Cineteatro São Pedro permitiram concluir que o local fora utilizado como cemitério entre 1810 e 1811, ou seja, precisamente por altura das referidas invasões.
            A cidade careceu, por conseguinte, de estar bem defendida e não deixou de ser curioso que, ao se proceder a escavações nos edifícios pertença da Misericórdia local, se haja encontrado um pouco da linha defensiva militar da cidade. Por seu turno, o Convento de São Domingos estudado por Filomena Gaspar e Vânia Janeirinho também sofreu alterações, de modo que as investigadoras apontam para o local a seguinte trilogia em sequência: convento, quartel e necrópole!
            Esse, de resto, o espírito que preside às intervenções no âmbito da Arqueologia Urbana: na sua estrutura urbana, a cidade está viva e, por isso, o que se vai modificando não pode destruir, mas reabilitar, o que está para trás, como memória a preservar. Nesse aspecto e também para esse efeito, Abrantes dispõe já de uma notável rede museológica, de que podem citar-se o referido Museu de Arte Contemporânea e o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, galardoado este, pela Associação Portuguesa de Museologia, em 2023, com o prémio “Museu do Ano”.

                             José d'Encarnação

            Publicado em Duas Linhas, 30 de Setembro, 2026: