sexta-feira, 3 de julho de 2026

Hoje é… hoje!

              Fui com a Aurora visitar o marido, de 82 anos, recolhido a um lar a partir do momento em que se verificou ser mesmo essa a melhor solução para conforto dele e algum resfolgo por parte dela.
A conversa recaiu sobre a actualidade, os amigos, as novidades locais…
– Não quero saber nada disso! – repetiu ele, duas ou três vezes. Mesmo quando se mudava de assunto para outro que, sendo da sua área de actuação, suspeitávamos poder ser do seu interesse.
– Não quero saber nada disso!
            Américo desistira de viver, encarava o dia-a-dia qual pesadelo a esconjurar.
Claro, tive pena e saí desconsolado.
Topei agora, no repositório de temas a, um dia, abordar em crónica, este cartune de Bill Watterson, da célebre tira de banda desenhada Calvin and Hobbes publicada entre 1985 e 1995, o diálogo entre Calvin e Hobbes, o tigre que o acompanha:.
– Que dia é hoje?
– Hoje é hoje!
– O meu dia predilecto!
Maravilhei-me e não busquei mais. Admiro Bill Watterson, que, de forma tão incisiva e certeira, sabe transmitir a mensagem ideal.
Predilecto o hoje – porque o que se está a viver. O presente. O único de que podemos usufruir e preencher, conforme nos der na real gana. Sabemos perfeitamente que desse preenchimento – qualquer que ele seja!... – resultarão consequências. É, porém, o que temos e vamos agarrá-lo em pleno. O «meu dia predilecto».
 
                                    José d’Encarnação 
 
in Renascimento (Mangualde), 20-06-2026, p. 10. 

 

 

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Falar e escrever… como?

            Incomodou-me, confesso.
A demografia não é tema do meu entusiasmo; admiro, porém, quem se disponha a estudá-lo, para dele tirar conclusões susceptíveis de contribuir para a melhoria do nosso cotidiano, porque acredito que uma investigação científica – qualquer que ela seja! – só se justifica se redundar em benefício comunitário.
 Permita-se-me a reprodução de quatro linhas desse texto:
«Em 1633, as freguesias da Sé e de São Pedro possuíam 1398 fogos ou passo que as freguesias rurais (7 no total) não tinham mais do que 1188; em 1674, essa relação havia já sofrido uma inversão, dado que as freguesias urbanas tinham entretanto perdido 358 fogos (-25.61%), enquanto as restantes conheciam um incremento de 379 (31.9%), cifrando o seu número de fogos respectivamente em 1040 e 1567».
Excerto de uma página com apenas um parágrafo, de 22 linhas de texto e 27 outras correspondendo a quatro notas infrapaginais em corpo 10.
Recorte da página de que se fala: do texto e das notas
 
Não sei já donde o tirei; creio, aliás, que de propósito não quis ficar com essa referência, porque o interessante é o que se vê, prescindindo da autoria.
Daí a razão da pergunta do título «Escrever, falar… como?». Porque se parte do princípio de que se escreve para ser lido e compreendido, que se fala para ser ouvido e entendido. O amontoado de dados massivamente apresentado nessa página de um só parágrafo com 22 linhas a um espaço e 27 de notas… será facilmente compreensível?

                                    José d’Encarnação

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Boca com excelente frescura

            Não, não vou responder à pergunta do irritante anúncio televisivo «porque paraste?». Não. A receita é outra: um bom copinho de vinho tinto!
Tenho aqui um, à minha frente, cujo rótulo reza o seguinte:
 


«Cor rubi brilhante, aromas com frutos vermelhos maduros e pequenas bagas, boca com excelente frescura e taninos vivos mas bem integrados, termina elegante e com bom volume».
 
Há lá melhor?
Compraz-me particularmente a fresca literatura dos vinhos portugueses. Que frases bonitas, buriladas a preceito, para, no fim, se as espremermos a fundo, nos quedarmos com uma sensação estranha: «Que é que eles querem dizer com isto?». Mas, nessa altura, já teremos degustado o precioso néctar, soubera-nos bem e até nos alegráramos com esta terminação… «elegante», como quem diz «Fiquei mais elegante, não fiquei?».
Com essa do “bom volume” a gente pode ficar de pé atrás, porque é passível de sugerir a ideia de pança e todo o mundo quer é emagrecer, embora saboreando bons petiscos. Aliás, consola-nos ler que, apesar de ´vivos’, os taninos estão «bem integrados», o que nos leva a pensar: Ná! Não me vai crescer a barriguinha. Eles estão ‘bem integrados’ esses taninos!, que, como dita a inteligência artificial, «conferem estrutura, corpo e uma sensação de adstringência (secura) na boca».
Reclamo com frequência contra a má qualidade dos dizeres publicitários e, de modo especial, das traduções. Contra a escorreiteza das falas vínicas, nada a dizer! Tudo nos conformes, segundo os ditames da melhor poesia abstracta.
Portanto, socorro-me da frase que o meu amigo romano de há 2000 anos quis mandar gravar no seu túmulo: «A lareira está acesa. Vamos a mais um copo, companheiros?»
Vamos – que a boca já requer frescura!

                                                           José d’Encarnação  

Publicado no jornal RENASCIMENTO, de Mangualde, nº 890, 20-05-2026, p. 10. 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

«Dar nas vistas»

            Atenho-me ao verbo «dar».
Preconizei, em março, que era importante – num concelho como São Brás de Alportel, assim encavalitado na Serra e a fazer fosquinhas ao litoral –, que seria bom procurar dar que falar, no bom sentido:
– referir, a tempo e em tempo oportuno, as iniciativas;
– evidenciar a sua singularidade e interesse;
– mostrar, enfim, que em São Brás se vive, há pessoas e queremos que cada vez haja mais – para mais se fomentar comunidade; se aproveitarem solos outrora produtivos; se colherem as alfarrobas, as amêndoas, os figos, as azeitonas; e se remodelarem a preceito casas que, eventualmente desabitadas, correm sério risco de se tornarem ruínas.

Ao dar-que-falar contraponho, hoje, o dar-nas-vistas. Contraponho, porque as considero expressões opostas. Dar-que-falar é positivo; dar-nas-vistas. Dar-nas-vistas vem, por sua vez, naquele jeito da ‘socialite’, isto é, a estranha pessoa que faz questão em andar sempre por aqui e por ali, para se mostrar a si e às vestimentas que endossa e aos publicitados acessórios que porta…
Não, abominamos as ‘socialites’ e preferimos um dar-nas-vistas bom, a mostrar, sem sombra para dúvida, que, como reza o aforismo antigo: «Em São Brás viver sabe bem!».
            Pois.

José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 354, 20-05-2026, p. 13.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Os botões da romãzeira

        8 de Maio. O dia entardecera fusco, nublado, breve aragem anunciava súbito abaixamento da temperatura. Maria fora, após o almoço, dar mui breve caminhada com o cão, simultaneamente para ele próprio também desentorpecer as pernas e satisfazer as suas habituais necessidades.
        Ao regressar, passou resvés ao muro do jardim. A romãzeira começava a sorrir-lhe, com uma porção de botões em flor. Por sinal, a marota, do lado de fora do jardim.
        – Olha, Joaquim! – disse-lhe, ao entrar em casa. – Este ano, a romãzeira vai mangar de nós e põe as romãs do lado de fora! Já começou a florir.
         – Bom tempo está, de facto, para flores agora! – resmungou Joaquim.

        Maria nem comentou. Deu o miminho ao cão e aprestou-se para os habituais 30 minutos de pausa sob o caramanchão, após o almoço. Desta feita, porém, não conseguiu pregar olho. Não só porque uma amiga lhe telefonara a querer saber dela, mas também uma outra, inesperadamente, sua prima, fizera videochamada:
        – Olha, fui operada. Correu bem. Tive alta agora, minha filha vem buscar-me. Vamos lá ver como é que isto vai correr agora!…
        Desconhecia Maria que a prima estivesse doente e procurou animá-la, como sempre costumava fazer, incitando-a a ter pensamentos positivos.
        Por isso, num ápice, deu consigo a pensar o que era, de facto, isso de «pensamento positivo». E bem depressa se consciencializou não ser atitude de “atar e pôr ao fumeiro”. Tem de vir de dentro. Tem de ser prática quotidiana. À custa de introspecção pela manhã e, sobretudo, no final da jornada.
      O seu Joaquim, por exemplo, quando lhe respondeu assim, nem sequer imaginou ser a prontíssima reacção que tivera a prova cabal de que, no íntimo, a sua normal tendência é sempre para o pior. Não conseguia ver, como sói amiúde dizer-se, «o copo meio cheio»…
      Tantos livros e tantos artigos se escrevem sobre isto. No fundo, porém, uma introspeção atenta, ao final do dia, é susceptível de mostrar o evidente. Quando, após o almoço, me apressei a comentar que não estava tempo para a romãzeira florir, poderia ter-me, ao invés, regozijado, por depois de a termos cortado tanto, ser bem auspicioso os botões estarem agora já a aparecer!…

                 

     Publicado em Duas Linhas, 8 de Maio de 2026.

https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/

, 8 de Maio, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/

8 de Maio, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/

8 de Maio, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/