quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Na Quinta de Marim romana, o hábito não fez o monge

             Quando se aduz este provérbio - «O hábito não faz o monge» –, a intenção é mostrar que mais depressa se copiam aspectos exteriores do que se vive ou adopta como modo de vida o que o exterior implica. Fácil é verificar como, por exemplo, o uso de jeans depressa se generalizou, mesmo em comunidades geralmente alheias ao que os jeans implicam como mudança de hábitos. Tornou-se moda, usa-se, sem que tal uso corresponda a nova mentalidade.
Nesse âmbito, os monumentos epigráficos descobertos na villa romana sita na Quinta de Marim, freguesia do Quelfes, concelho de Olhão, têm sido alvo de estudos interpretativos. Contudo, as possibilidades que o avanço da Epigrafia agora oferece permitem-nos novo olhar.
Fig. 1
         Veja-se o que reproduzimos na fig. 1. Representa, em miniatura, a fachada de um edifício de calcário. O rectângulo dividido por banda larga a meio dá ideia dos batentes de uma janela ou de uma porta, sob um frontispício triangular, onde, em relevo, se mostram três motivos florais esterilizados: corolas quadripétalas geometricamente concebidas com botão central. A do meio, maior que as laterais, está rodeada de circunferência em banda larga.
Têm os rectângulos molduras de duas ranhuras, a delimitar um espaço perfeitamente alisado. Aliás, toda a superfície do monumento foi bem alisada, à excepção da zona inferior, destinada, naturalmente, a ser enterrada e a ausência de alisamento acaba por garantir mais sólida fixação.
Por conseguinte, do ponto de vista estético, uma estela agradável de ver-se.
Ora sucede que esses dois espaços rectangulares se destinavam a receber dois epitáfios, encimados, cada um, pela fórmula típica de consagração aos deuses Manes, portadores das almas para o Além: as siglas D M S.
À primeira vista, no lado esquerdo, lê-se, em latim, que Patricia vixit annis XI diebus IV: «Patrícia viveu 11 anos e 4 dias». No lado direito, ler-se-á Patricius vixit annis XLIII mensibus III diebus XIV: «Patrício viveu 43 anos, 3 meses e 14 dias». Termina este letreiro pelas letras P I S P I, passíveis de serem siglas da expressão laudativa pius in suis, «piedoso para com os seus».  Mas o P I final não sabemos o que significa.
A explicação pode ser que ao canteiro foi fornecida uma minuta, por ele não cabalmente entendida. De resto, voltando atrás e vendo os nomes com mais atenção, acaba por verificar-se que lemos mal: não está escrito Patricia mas Patrlcia, nem Patricius mas Tatricius (Fig. 2).
Fig. 2

Imaginamos que as fórmulas habituais eram transmitidas ao canteiro com uns rabiscos, como amiúde acontece connosco ao escrever «Com os melhores cumprimentos» no final de uma carta: vão umas garatujas, porque partimos do princípio de que quem nos vai ler sabe exatamente o que pretendíamos escrever.
Fig. 3

Veja-se o caso da expressão sit tibi terra levis, «que a terra te seja leve» tão habitual que se escrevia em siglas. Ora, nesta lindíssima tampa de sepulcro (Fig. 3), a má interpretação da minuta resultou em S I B T R I B S (Fig. 4) – que é como quem diz «vocês sabem o que eu quero dizer».
Fig. 4


Já noutra estela, também ela em jeito de bonita fachada de templo com elegantes colunas (Fig. 5), a fórmula final saiu bem atabalhoada: T T B L  !

Fig. 5
 
Em conclusão: esteticamente, os monumentos obedecem a todos os cânones clássicos: são elegantes; no entanto, do ponto de vista da escrita, quer o escriba propriamente dito quer o encomendante não se esmeraram minimamente. Por mero descuido? É natural que não, mas sim porque a sua inclusão na cultura romana estava ainda incipiente. O ‘hábito’ era o oficial, o das regras; o conteúdo, porém, deixou muito a desejar: o ‘monge’ ainda não se encontrava bem inteirado das regras vigentes no convento!

                                               José d'Encarnação

Publicado em Sul Informação, 24-10-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/10/na-quinta-de-marim-romana-o-habito-nao-fez-o-monge/

Jardim e biblioteca

            Das muitas frases que, diariamente, nos aparecem na pantalha do computador ou no pequenino ecrã do telemóvel algumas conseguem fazer-nos parar; muitas não, até porque são invasoras, surgem quais estrelas cadentes e nós estamos, frequentemente, noutro cumprimento de onda, sem capacidade receptiva.
Estoutra constituiu excepção, porque, além de atribuída a um grande orador romano do século I antes de Cristo, me calou fundo, por ser, como sói dizer-se: lapidar!
‘Lapidar’ tem esse forte sentido de ser curta, adequada, também por isso, a poder ser gravada na pedra, a fim de perdurar. Não a mandou gravar Cícero numa epígrafe: escreveu-a, sim, na 4ª carta do livro IX das «Epístolas a Familiares», dirigida, neste caso, ao seu amigo Varrão. Diz o seguinte, na versão que me chegou:
«If you have a garden and a library, you have everything you need» – «Se tens um jardim e uma biblioteca, tens tudo aquilo de que precisas».
Acontece, porém, que, desgarrada do contexto e mal traduzida, a frase ganhou notoriedade e significado diferente daquele que Cícero lhe deu. Na verdade, o texto original é: «Si hortum in bibliotheca habes, deerit nihil», «Se tens um jardim na biblioteca, nada faltará».
Deixando de parte as conjecturas filosóficas que despertou, lembrei-me do meu amigo Luís. A esposa tem como passatempo cuidar do pequeno jardim que lhes envolve a casa. Isabel passa horas esquecidas a apanhar folhas caídas. Há sempre “Folhas Caídas” – já Garrett o proclamara. Assim como, no jardim, o mais normal é deliciarmo-nos com… «Flores sem Fruto».
O Luís é jornalista e escritor. Por vezes, são também as flores do jardim que lhe inspiram crónicas, na vontade de serem mensagem a saltar os muros e a tocarem, se possível, dezenas e até centenas de leitores.
Aposentados ambos, optaram, pois, por aposentos complementares. Para Isabel, a serenidade do jardim; tantas experiências viveu Luís por desvairadas paragens que prefere o sossego do escritório, com livros e dicionários à mão, em tudo se baseando para transmitir experiência e contar do que aprendeu.
Mas para Cícero, hoje, o duo seria jardim e telemóvel, tendo consciência plena de que a volatilidade deste último jamais conseguiria substituir a material solidez das folhas que, a bel-prazer, se deixam manusear.

                                                 José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 895, 20-10-2026, p. 10.

 

sábado, 17 de outubro de 2026

Fanar e meter a unha

             
 
Escreveu Rainer Daehnhart minúsculo livrinho a explicar o significado original desta palavra «fanar» e desta expressão «meter a unha».
Boa surpresa!
Vai-se ao Dicionário da Academia e, aí, sem aparentemente qualquer sombra de dúvida, se aponta, entre outros significados mais correntes, o de «fazer perder ou perder a energia, a frescura, o viço», indicando-se como sinónimo «murchar». Essa conotação prende-se com o verbo francês ‘faner’, que detém, originalmente, o significado de ‘desfalecer’, donde deriva, por exemplo, a expressão «deu-lhe um fanico», desmaiou, ainda que haja dicionários onde se aponta, logo em primeiro lugar, a ideia de «remexer a erva (para a deixar secar)».
Quanto a meter a unha é a expressão coloquial, quase de calão, para eufemisticamente expressar a ideia de ‘roubar’, explorar, vender caro. Aliás, em calão, fanar é exactamente o sinónimo de ‘roubar’. Parte superior do formulário
Parte inferior do for Estávamos, portanto, muito longe de imaginar que verbo e expressão tivessem uma origem bem concreta, a remontar ao período em que Portugueses andavam, pelos séculos XV e XVI, em negociatas orientais. Negócio implica compra e venda, implica pagamento de impostos, implica moedas. E é aí que entra o fanão, pequenina moeda de ouro, com o peso aproximado de meio grama (0,37/0,54 g), uma ninharia!
Capa do livrinho
Conta Rainer Daehnhart que os nossos vice-reis da Índia recebiam fanões em pagamento de direitos tributários. «Embora batidos no Indostão e no Ceilão, os fanões», acrescenta Rainer, «correram durante perto de um milénio em todos os portos, desde a ilha de Moçambique até Malaca».
 
E, afinal, qual é essa história do meter a unha e do fanar?
 
Muito simples: pagavam-se impostos com uma boa porção dessas moedinhas minúsculas. Por conseguinte, foi necessário engendrar uma forma expedida de as contar. Inventou-se, por isso, uma tábua com um certo número de concavidades (50, 100 ou 200). Despejava-se a bolsinha por cima da tábua e, com gesto firme, rasoirava-se a superfície, a fim de que todos os buraquinhos ficassem ocupados.  E é aqui que entra a unha, porque o funcionário encarregado da tarefa (dizem as más-línguas…) deixava, de propósito, crescer a unha do dedo mindinho, preciosa ajuda para que alguns fanhões deslizassem sorrateiramente para outro sítio, que não o buraquinho apropriado!… Excelente, pois, eficaz o papel da unha grandinha!
 
Assim se fanava, assim se metia a unha! Assim se ajuntavam sub-repticiamente bem apetitosos fanhões de ouro. Eu tenho um, mas foi oferta!...
Moeda fanão do Índico (autêntica)
Bem andou, pois, Rainer Daehnhart em dedicar algum do seu precioso tempo (não é lugar-comum, é precioso mesmo!) a explicar minuciosamente como tudo se passou.
O livrinho tem a data de 26 de Julho de 2004 e chama-se Fanar Fanões. 
E conta, no final, Rainer Daehnhart como uma dessas moedinhas lhes salvou a vida, a ele e à avó, quando se dispunham a atravessar a fronteira (estava-se em plena Segunda Grande Guerra!), vindos da Alemanha de Leste. Os soldados americanos não os deixavam passar e, aí, a avó não esteve com meias medidas: descoseu a borda da saia de chita onde escondera – junto aos habituais pequenos pesos do chumbo destinados a manter a saia esticada – um punhado de fanões de ouro, com que alegremente subornou a vigilância. Os militares trincaram; viram que era mesmo ouro de lei e… cá temos, ainda hoje, Rainer Daehnhart, são e salvo, para nos contar a história!

                                               José d'Encarnação 

Publicado em Duas Linhas, 16-10-2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/fanar-e-meter-a-unha/





domingo, 11 de outubro de 2026

O que paredes antigas escondem

            Além da conhecida palha de Abrantes e da tigelada, a cidade de Abrantes reserva novidades dignas de serem conhecidas e a arqueologia urbana acaba por nos reservar surpresas não esperadas!

 

           Assim, a arqueóloga Célia Silva – que já descobrira, num buraco de parede, uma carta de 1721 a encomendar coelhos – encontrou,  no forro desse mesmo edifício, um carrinho de linhas de madeira, tampas de publicidade redigida em francês (!) a uma pomada da marca ELGA – «pomada superior de cera sem ácido para calçado» –  e a uma outra, essa portuguesa, pois que a legenda proclama: «Só a Rosinha dá brilho assim!!».   

        

            Este carrinho de linhas de madeira levou-me aos meus tempos de menino e, confesso, acabei por não seguir com a devida atenção a brilhante exposição da Dra. Célia Silva.

            E que a um carrinho de linhas assim, nós, moços pequenos, cortávamos as extremidades de modo a ficarem em jeito de rodas dentada e imaginávamo-las rodas dos tanques de guerra, que fazíamos movimentar à força de elásticos enrolados no sítio da linha e que, desenrolando-se devagar, faziam o ‘blindado’ avançar. Por vezes, até canhão lhe púnhamos: um pau de fósforo servia às mil maravilhas para o efeito!


            Pode acontecer que haja desses brinquedos imaginados em Museus de Brinquedos ou em imagens de livros infantis. Adorava saber!
            Aliás, no decorrer do colóquio organizado, no passado dia 26 pela Câmara Municipal intitulado «A Arqueologia Urbana ao Serviço da Comunidade», Célia Silva mostrou tábuas com inscrições deveras curiosas, como esta em que se lê:

    

            Realizado no auditório do Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, este primeiro Colóquio da série prevista para mostrar a cidade na sua relação com o rio ao longo dos séculos – «Abrantes, o Tejo e o Tempo» – teve por objectivo mostrar como as intervenções arqueológicas levadas a efeito no âmbito da própria cidade, além de não serem “empatas” do desenvolvimento urbano, acabam por enriquecer o património, inclusivamente dos prédios que vão ser renovados ou dos novos que aí virão a ser construídos.
            Daí que se fale em “serviço da comunidade”, porque, tal como as árvores necessitam das suas raízes para se alimentarem, assim a população duma cidade carece de saber de onde veio, das fases por que passou, para melhor compreender o seu presente.
            Deu-se conta, pois, das intervenções feitas no centro histórico de Abrantes, cujos conventos e colégios foram sendo paulatinamente adaptados a outras funcionalidades. Luis Peri e André Freitas (da empresa Gestcult) mostraram, por exemplo, as fases por que passou a transição do antigo Convento de Nossa Senhora da Esperança para o Colégio de Nossa Senhora de Fátima.

   

            Por outro lado, a cidade de Abrantes deteve – e continua a deter – uma posição estratégica, tanto do ponto de vista militar (veja-se o papel que desempenhou no quadro das invasões francesas) como económico, pela sua proximidade do Tejo (ia-se por via fluvial de Lisboa a Abrantes!…). Haja em vista que os trabalhos de reabilitação do Cineteatro São Pedro permitiram concluir que o local fora utilizado como cemitério entre 1810 e 1811, ou seja, precisamente por altura das referidas invasões.
            A cidade careceu, por conseguinte, de estar bem defendida e não deixou de ser curioso que, ao se proceder a escavações nos edifícios pertença da Misericórdia local, se haja encontrado um pouco da linha defensiva militar da cidade. Por seu turno, o Convento de São Domingos estudado por Filomena Gaspar e Vânia Janeirinho também sofreu alterações, de modo que as investigadoras apontam para o local a seguinte trilogia em sequência: convento, quartel e necrópole!
            Esse, de resto, o espírito que preside às intervenções no âmbito da Arqueologia Urbana: na sua estrutura urbana, a cidade está viva e, por isso, o que se vai modificando não pode destruir, mas reabilitar, o que está para trás, como memória a preservar. Nesse aspecto e também para esse efeito, Abrantes dispõe já de uma notável rede museológica, de que podem citar-se o referido Museu de Arte Contemporânea e o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, galardoado este, pela Associação Portuguesa de Museologia, em 2023, com o prémio “Museu do Ano”.

                             José d'Encarnação

            Publicado em Duas Linhas, 30 de Setembro, 2026:

 

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A intrincada história de maçónicos beneméritos, arquitectos célebres e despejos odiosos!

          


 Embrenhar-se no que se diz e escreveu acerca dos dois imponentes edifícios abandonados – e também por isso envoltos em mistério – junto ao cemitério de Camarate (concelho de Loures) é bem complexo labirinto, de cuja saída, durante bastantes horas, eu procurei – qual Teseu – encontrar o fio de Ariadne.

Não encontrei.

Ou melhor: por outros labirintos mais complexos acabei por me embrenhar e, por isso, resolvi, alfim, ir bater à porta certa: o Dr. Jorge Afonso, mui prestável técnico do arquivo da Câmara Municipal de Loures. Esta crónica deveria, aliás, ser também assinada por ele, pois Jorge Afonso teve a gentileza de me ajudar cabalmente a pôr os pontos nos is.

Foram aqueles edifícios inacabados existentes na vetusta Quinta do Guarda-Mor mais uma das beneméritas iniciativas do proprietário dos Armazéns Grandella, o empresário e filantropo Francisco de Almeida Grandella (1853-1934)? Saíram os seus projectos da prancheta do célebre arquitecto Rosendo Carvalheira (1861-1919), a quem se ficaria também a dever o então chamado Sanatório de Santana, na Parede (Cascais), de magnífica traça arquitetónica? E esses actuais ‘monstros’ têm algo a ver com a intenção de um sanatório para tuberculosos no Cerro de Montachique, no mesmo concelho de Loures?...

Puseram-se as questões. Apresentam-se agora os dados, resultantes da leitura de vários documentos do processo de licenciamento em informação pública, existente num arquivo público, o da Câmara de Loures. Diz-me Jorge Paulo Afonso que a sua colaboração «foi mínima, apenas no sentido de permitir a um investigador produzir um texto sobre um edifício do concelho de Loures», com base nos dados constantes no Arquivo Municipal de Loures e ao Processo nº 34432/Antigo (1969). Não foi mínima – e fico-lhe grato.

As fases do processo

            Atendendo, então, às vicissitudes relacionadas com os edifícios, mais facilmente se lograrão compreender as fases do processo, dando a cronologia dos acontecimentos:

1969 – A Câmara Municipal de Loures, nesse ano e também posteriormente em várias ocasiões, solicita ao inquilino da casa da Quinta do Guarda-Mor que sejam realizadas obras de manutenção.

1971 – Em Abril, a Câmara Municipal de Loures vistoria novamente o edifício existente, que apresentava riscos motivados pela sua ruína, informando o proprietário, José Maria Gonçalves, que teria de proceder a obras de consolidação.

1973 – Em Fevereiro, o director da empresa SOLATU – Sociedade Familiar de Administração de Propriedades para Lavoura e Turismo, SARL, apresenta um pedido de alteração do uso do edifício, para Casa de Repouso, em conjunto com uma profunda ampliação para as traseiras.

1974 – José Maria Gonçalves, na qualidade de “proprietário” da Fundação Santa Maria da Silva apresenta novos pedidos de alteração à propriedade, acrescentando um edifício de traça semelhante ao alterado e um, mais baixo, para garagem de ambulâncias e instalação do pessoal afecto à, agora, clínica, que aí se propunha edificar. Essa fundação deve o seu nome à padroeira do local onde José Maria Gonçalves nasceu, Silva, no concelho de Valença; embora já existisse desde 1973 com essa designação, a Fundação Santa Maria da Silva só tem existência legal a partir de 1989, possivelmente por intervenção de Francisco Maria da Silva, empresário ligado à construção civil e responsável por extensa obra urbanística na região de Lisboa.

1975 – Sem ainda estarem concluídos, mas tendo-lhe sido dada já a designação de Lar Panorâmico, os edifícios são entregues, por contrato, ao IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais), para aí alojar umas seis centenas de cidadãos provenientes das ex-colónias, principalmente de Moçambique e da Guiné.

1986 – A Câmara Municipal de Loures inicia um processo de expropriação da parte rústica da quinta, para instalação do cemitério municipal de Camarate.

1987 – No final de Maio, por imposição da Fundação, o Tribunal decide que a expropriação da Câmara Municipal de Loures deve ser pela totalidade da propriedade. A 2 de Junho, eclode aí um incêndio e, conseguintemente, a Câmara Municipal de Loures opta pela evacuação dos edifícios, mas alguns ocupantes não são realojados.

1993 – O Tribunal decide a desocupação total dos edifícios. Os ocupantes são despejados com alguma violência e forte presença policial, despejo que teve larga repercussão na Comunicação Social, houve quem lhe chamasse “O escândalo de Camarate”, aliás, reportagens televisivas foram várias. A Fundação Santa Maria da Silva recupera, pois, a posse da propriedade e, até ao momento (Outubro de 2026), não foi realizada qualquer obra de recuperação.

Deslindando a arquitectura

Voltando a uma das questões que se tem levantado: a referida intervenção (ou não) de Rosendo Carvalheira nalguma das fases do processo, necessariamente antes de 1919, data, como vimos, da sua morte. Nenhuma intervenção se documenta. Na verdade, para o local, a referida empresa SOLATU faz dar entrada na Câmara um projecto de alterações (alçado principal e posterior) da citada Casa de Repouso (Procº nº 34432, folha nº 333). Por falta de tinta, não se consegue decifrar a data, que será de um dia 12 dum mês (SETembro?) da década de 90. Não se logra também identificar a rubrica do técnico, que teria talvez o nº 118.

Projectos de alterações aos dois edifícios apresentados por SOLATU

Anote-se, porém, que a figura do ‘arquitecto’ tal qual a entendemos hoje – especificamente diplomado – não existia então. Para além da notável Escola Industrial Machado de Castro, donde saíram importantes vultos do traço arquitectónico, existia também a Escola de Desenho Industrial Afonso Domingues – e aí se formavam ‘arquitectos’.

Ora, atribui-se, por vezes, o projecto dos Paços do Concelho de Loures a Rosendo Carvalheira. Não é verdade: foi Tiago da Silva Santos, que se intitula «construtor civil nº 358» quem, em 1913, gizou esse projecto e o ofereceu à Câmara, enquanto era vereador, a 30 de Março. Rosendo Carvalheira foi apenas chamado para dirigir a obra, que durou até 1916, e procedeu a alterações ao edifício, por falta de mão-de-obra especializada para determinados trabalhos, designadamente no telhado.


 

Em conclusão

            Embora localizados numa das várias quintas nobres existentes nos arredores da capital, os edifícios degradados que parecem vigiar o campo santo de Camarate nada têm de sacrossanto histórico que remonte a prístinos séculos. São, como vimos, obras inacabadas, com pouco mais de um século, e a intenção de virem a constituir um «Lar Panorâmico» (de facto, a vista dali é deveras panorâmica), com vertente de lar, um, e de residência de pessoal, o outro, não se insere numa lógica predominante de benemerência.


            Recentemente se fez uma ‘campanha’ de registo fotográfico, de iniciativa camarária, na medida em que há que tomar decisões e, por diversas vezes contactada, a Fundação de Santa Maria não se consegue que dê acordo de si.

                                                        José d'Encarnação

P. S.: Versão complementar do que foi publicado em Duas Linhas, a 7 de Outubro de 2026: https://duaslinhas.pt/2026/10/macons-benemeritos-e-despejos-odiosos/

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Tempo sem Luz

 

 

            Permita-se me que transcreva a síntese exarada na badana do livro Tempo sem Luz:

«Numa manhã aparentemente comum, um comboio parte de Lisboa rumo ao Porto, transportando passageiros cujas vidas seguem, por instantes, em paralelo –distantes, mas prestes a cruzar-se num ponto irreversível. Cada um deles carrega consigo uma história suspensa: o reencontro entre irmãs feridas pelo luto, um jovem arquitecto em busca de identidade, um bailarino às portas de um sonho, uma professora reformada em peregrinação íntima, um músico derrotado e um homem em rota de regresso ao amor que nunca perdeu».

Desconheço se houve já romance a dar conta do que foram as nossas vidas no dia 28 de Abril de 2025, das 11,33 horas até por volta das 23. O «apagão»! Este, porém, de António Tavares, Tempo sem Luz, resume a galopante infinidade de situações, sensações, dúvidas, que, nessas e nas horas subsequentes, sobrevieram de rompante.
Tudo isso esmeradamente retratado numa prosa lídima, tersa, que prende do princípio ao fim.
Incitar veementemente a esta leitura? Faço-o com todo o gosto e plena consciência de que nenhum leitor, assim que pegue no volume, o largará até saber o final, porque será também seu esse reviver.
Quedar-se-á, aí, a imaginar no final a Irmã que «dera mãos a desconhecidos, ouvira confissões quebradas», numa prece a erguer «os olhos para o céu que escurecia, a luz tocava-lhe o rosto com suavidade»...
Há-de, porém, ter longamente parado a reler a página 118 («E quando descobriram… E quando descobriram…») ou a tomar consciência do significado profundo – para quem esse dia viveu – da frase inserta na página 9:
«O passado havia sido convocado pelo apagão e insinuava-se nas ranhuras da velha cidade».
 

                                                   José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), n.º 894, 20-9-2026, p. 10.

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Uma lápida romana de beleza singular

            Encontra-se embutida na parede exterior da garagem da Quinta dos Prazeres, em Alvito, uma lindíssima placa funerária romana, de mármore do tipo Estremoz Vila Viçosa, intacta.
 

Houve ocasião de a estudar para o livro «Inscrições Romanas do Conventus Pacensis» (IRCP), de 1984, onde lhe foi dado o número 329.
Já então se acentuava como o campo epigráfico fora rebaixado em relação à moldura e que se tratava de um trabalho dentro dos moldes clássicos romanos, denotando influências exteriores à região.
Mede 61 cm de altura por 91,7 cm de largura.
Desde logo, uma chamada de atenção para a paginação, que é requintada com pretensões, seguindo eixo de simetria, certamente servida por linhas de pauta e cuidadosamente estudada para ser lida a partir de um nível de visão inferior. De facto, os caracteres diminuem de tamanho e os espaços entre as linhas também, à medida que as linhas se aproximam, digamos assim, do leitor. Por outro lado, a criteriosa utilização dos nexos, das pequenas letras, da grafia de XXIIX em vez da (mais longa) XXVIII – tudo isso obedece igualmente a esse propósito.
No fundo, o que parece interessar sobremaneira a quem encomendou a peça é chamar a atenção para o nome da família – CORNELIA – e, depois, para o voto final S. T. T. L., da linha 3, «Que a terra te seja leve»!.
Assim, a pontuação, geralmente triangular, colocada mesmo no final das linhas, não deixa de apresentar invulgares efeitos estéticos. (Recorde-se que, nas inscrições romanas, a pontuação serve para separar palavras). Na linha 1, por exemplo, há uma hera de limbo com pecíolo sinuoso para a direita. No começo da linha 3, uma hera cordiforme de pecíolo em forma de palma para trás. No final, uma outra com o ponto triangular a fazer de limbo, seguido de um grande pecíolo (com 9,5 cm), também em forma de palma e todo inclinado para a direita.
Os caracteres, muito bem delineados e cuidadosamente gravados a buril (veja-se como sabiamente se aproveita o efeito de claro-escuro pela inclinação do recorte), aproximam-se formalmente do tipo da letra capital usada no tempo do imperador Trajano (século II).
Estamos, pois, perante um monumento epigráfico bem diferente dos que temos vindo a observar, dado o enorme cuidado posto na sua gravação. Um belo exemplar, sem dúvida!
A estrutura textual está epigraficamente correta. A onomástica usada é perfeitamente latina.
Mas, afinal, o que é que esse epitáfio latino nos diz?
 

Que Cornélia Avita, filha de Lúcio, morreu com 28 anos, e a lápida identifica o túmulo em que está sepultada e deseja-se-lhe, por isso, é claro, que a terra lhe seja leve. Quem de tudo se encarregou foram os pais: o pai, Cornélio Rufino, a mãe, Júlia Rufina, que não deixam de se identificar como tais.
Além, por conseguinte, de ser um documento de excepcional importância do ponto de vista estético, é-o também porque mostra como a transmissão dos nomes foi segundo as regras: tanto o pai como a mãe têm o cognome Rufino, antropónimo tipicamente romano, que queria caracterizar, na sua origem, quem nascesse de tez alva e cabelo loirinho. Pode ser, aliás, nome que tenha sido comum na família.
Por seu turno, a filha recebe o nome de família do pai – Cornélia – e terá sido, mui provavelmente, a filha mais velha, na medida em que se diz que ela é «Avita». se Estava-se numa altura em que o nome a dar às crianças poderia relacionar-se com circunstâncias, por exemplo, do nascimento; neste caso, o adjectivo «avita» quer dizer ‘a mais velha’, a primogénita.
Tudo isto nos leva a crer que poderemos estar perante uma família de colonos itálicos, que teria, nestes arredores da cidade de Pax Iulia (actual território do concelho de Alvito), a sua casa de campo, a sua «villa», como se designava na altura. Um Cornélio casado com uma Júlia, que poderia pertencer ao escol da cidade (que se chama, recorde-se, «Paz Júlia».
É monumento que, pelas suas características físicas e pela paleografia (modo de gravação das letras) será datável do século I ou mesmo da primeira metade do século II da nossa era.
Foi dado a conhecer por Abel Viana n’O Arquivo de Beja, volume 15, de 1958, página 36; e retomado, nesse mesmo ano, por Fernando Bandeira Ferreira, que o publicou na 2ª série, vol. III da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa (páginas 164-165). Passou, por conseguinte, a estar incluída no rol das inscrições romanas da Península Ibérica. Um monumento de que os pacenses muito se devem orgulhar; ficamos contentes de ele estar a bom recato na quinta donde muito provavelmente proveio, ainda que não saibamos em que circunstâncias o seu achamento aconteceu.

                    José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo, 25-09-2026, p. 10.