José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 887, 20-08-2026, pág. 10
Referiu-se, na anterior crónica, que Ânio Primitivo oferecera ao povo de Balsa – cidade romana sita no actual território de Tavira – um combate de gladiadores.
O local próprio para esse espetáculo deveras apreciado pelos Romanos era o circo, o anfiteatro.
Três monumentos públicos constituíam ponto de encontro e diversão, naquele tempo: o teatro, o anfiteatro e o hipódromo. Temos notícias da existência dessas estruturas, na totalidade ou não, nas principais cidades da Lusitânia romana.
Assim, na capital, Emerita Augusta (Mérida), situada hoje em território espanhol, anfiteatro e teatro encontram-se lá, lado a lado, no centro da urbe; o hipódromo, um pouco mais além.
Em Olisipo (Lisboa), reconheceu-se, não há muito, aquando das primeiras grandes obras de ampliação do metropolitano, parte significativa do hipódromo. Aliás, já em 1961, a arqueóloga Irisalva Moita encontrara uma estrutura antiga no subsolo, possivelmente uma estrada ou um cais portuário, pensou; contudo, foram as novas escavações de 1997 que permitiram identificar com precisão a spina (a «espinha», parede central do hipódromo) e parte da arena a cerca de 6,5 metros de profundidade, confirmando, assim, a existência do grande circo romano, cuja descoberta só em 1997 seria amplamente divulgada ao público. De tudo se tomou boa nota e registo, mas não só não foi possível manter visível algum troço do que fora descoberto. como também os trabalhos previstos não deixaram avançar muito em termos de visualização das características do edifício.
Anfiteatro olisiponense suspeita-se ter existido; apontam-se hipóteses de localização. Por consequência, continua a ser o teatro o ex-libris da Lisboa romana, com uma atividade cultural incessante.
Anfiteatro cuja descoberta muito deu que falar, por inesperada, foi a que ocorreu em Bobadela, povoação do concelho de Oliveira do Hospital. Pôs-se a descoberto parte significativa da construção e, hoje, constitui bom pretexto de visita a um lugar que, numa inscrição romana. foi designado de «civitas splendidissima», ‘cidade mui esplendorosa’, mas que resiste a desnudar-se perante o olhar ‘concupiscente’ dos arqueólogos…
Também se não deixa ver, mas adequados processos fotográficos já denunciaram a sua existência, o hipódromo junto às ruínas da cidade romana a que vem sendo hábito chamar Miróbriga, ao lado de Santiago do Cacém.
Muito esperançosas são as perspectivas de que a recente aquisição pelo Estado de terrenos em Condeixa-a-Velha vá permitir a descoberta de parte substancial do anfiteatro de Conímbriga, de que já abóbadas foram postas à luz do dia.
Esperanças há, também, em relação a Ammaia, cidade que se localiza na freguesia de São Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, distrito de Portalegre: à equipa que ali procede a escavações parece-lhe possível adiantar, dentro em breve, dados concretos acerca da localização do anfiteatro e suas características, numa cidade romana que se antoja vir a facultar ainda novidades surpreendentes.
Dores de cabeça tem provocado a localização do referido anfiteatro de Balsa, dada a impossibilidade de, em clima de serenidade, se proceder a sondagens e, depois, a campanhas de escavação sistemática, devido a boa parte da cidade romana jazer em propriedade privada e ser complexo eventual entendimento entre as partes.
Não é só a referência ao combate de gladiadores organizada por Ânio Primitivo que indicia a existência de um anfiteatro, onde tal combate teria naturalmente ocorrido. É que, deste, temos provas epigráficas convincentes.
Concretamente, houve dois beneméritos que alargaram os cordões às bolsas e decidiram pagar, cada um deles, a expensas próprias, a construção de uma extensão de cem pés do pódio. Era o pódio o patamar no arranque da bancada para os espectadores, ou seja, o que está mais perto da arena. Como prova da sua benfeitoria foram gravadas duas placas, cada uma com o seu nome: Lúcio Cássio Céler e Gaio Licínio Bádio. Assim, bem à vista, constituíam excelente promoção pessoal e aplauso para o gesto. E é bem possível que outros cidadãos balsenses lhes hajam seguido o bom exemplo. Apenas de dois se encontraram as respectivas placas comprovativas.
Aliás, outras duas inscrições são susceptíveis de pertencere ao anfiteatro. Parece poder reconstituir-se, numa, a palavra «antepagmentis», alusão a «peças de arquitectura destinadas a revestir as paredes exteriores», e também uma referência a estátuas, que, como se sabe, do imperador ou de divindades, constituíam elemento indispensável de decoração num anfiteatro. A outra, de achado mais recente, poderá assinalar com iniciais o local reservado na assistência para um cidadão e seus familiares.
Compreende-se quão aliciante poderá vir a ser – quando tal for autorizado – o estudo, no terreno, das estruturas por ali ainda estão enterradas! As inscrições já encontradas falam de famílias politicamente bem activas e, pelos vistos, de um viver desafogado – o que torna as perspectivas ainda mais aliciantes!
José d’Encarnação
Publicado em Sul Informação, 16-08-2026: https://www.sulinformacao.pt/2026/08/pao-e-espetaculo-entre-os-romanos/
Sob o título
«Acarear água», escrevi no Noticias de S. Braz (nº 310, 2022, p. 13) as
diligências que outrora se tinham de fazer para «acarear água», ou seja, para a
ir buscar e poupar. Nessa crónica disse, por exemplo, que «ao chafariz – ou,
pelo Inverno, à nascente que brotava límpida do chão a uns 200 metros de casa –
lá ia eu, de improvisado chinguiço ao ombro, e um balde de cada lado».José d’Encarnação
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 357, 20-08-2026, p. 13.
Há carrascos no Bairro da Pampilheira, em Cascais. Na Rua Fernão Lopes.
Poderia considerar-se estranho falar disso, mas não é, porque, de facto, esse bairro nasceu, a partir de meados do século passado, numa zona que era, na verdade, de mato. Hoje, detém todas as características de bairro suburbano; mas nessa rua foi deixada parte da vegetação original – e já se vai explicar a razão do seu interesse.
| Bolotas do carrasco |
Duas Linhas, 23 de Agosto, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/08/ha-carrascos-no-bairro/