segunda-feira, 25 de maio de 2026

«Dar nas vistas»

            Atenho-me ao verbo «dar».
Preconizei, em março, que era importante – num concelho como São Brás de Alportel, assim encavalitado na Serra e a fazer fosquinhas ao litoral –, que seria bom procurar dar que falar, no bom sentido:
– referir, a tempo e em tempo oportuno, as iniciativas;
– evidenciar a sua singularidade e interesse;
– mostrar, enfim, que em São Brás se vive, há pessoas e queremos que cada vez haja mais – para mais se fomentar comunidade; se aproveitarem solos outrora produtivos; se colherem as alfarrobas, as amêndoas, os figos, as azeitonas; e se remodelarem a preceito casas que, eventualmente desabitadas, correm sério risco de se tornarem ruínas.

Ao dar-que-falar contraponho, hoje, o dar-nas-vistas. Contraponho, porque as considero expressões opostas. Dar-que-falar é positivo; dar-nas-vistas. Dar-nas-vistas vem, por sua vez, naquele jeito da ‘socialite’, isto é, a estranha pessoa que faz questão em andar sempre por aqui e por ali, para se mostrar a si e às vestimentas que endossa e aos publicitados acessórios que porta…
Não, abominamos as ‘socialites’ e preferimos um dar-nas-vistas bom, a mostrar, sem sombra para dúvida, que, como reza o aforismo antigo: «Em São Brás viver sabe bem!».
            Pois.

José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 354, 20-05-2026, p. 13.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Os botões da romãzeira

        8 de Maio. O dia entardecera fusco, nublado, breve aragem anunciava súbito abaixamento da temperatura. Maria fora, após o almoço, dar mui breve caminhada com o cão, simultaneamente para ele próprio também desentorpecer as pernas e satisfazer as suas habituais necessidades.
        Ao regressar, passou resvés ao muro do jardim. A romãzeira começava a sorrir-lhe, com uma porção de botões em flor. Por sinal, a marota, do lado de fora do jardim.
        – Olha, Joaquim! – disse-lhe, ao entrar em casa. – Este ano, a romãzeira vai mangar de nós e põe as romãs do lado de fora! Já começou a florir.
         – Bom tempo está, de facto, para flores agora! – resmungou Joaquim.

        Maria nem comentou. Deu o miminho ao cão e aprestou-se para os habituais 30 minutos de pausa sob o caramanchão, após o almoço. Desta feita, porém, não conseguiu pregar olho. Não só porque uma amiga lhe telefonara a querer saber dela, mas também uma outra, inesperadamente, sua prima, fizera videochamada:
        – Olha, fui operada. Correu bem. Tive alta agora, minha filha vem buscar-me. Vamos lá ver como é que isto vai correr agora!…
        Desconhecia Maria que a prima estivesse doente e procurou animá-la, como sempre costumava fazer, incitando-a a ter pensamentos positivos.
        Por isso, num ápice, deu consigo a pensar o que era, de facto, isso de «pensamento positivo». E bem depressa se consciencializou não ser atitude de “atar e pôr ao fumeiro”. Tem de vir de dentro. Tem de ser prática quotidiana. À custa de introspecção pela manhã e, sobretudo, no final da jornada.
      O seu Joaquim, por exemplo, quando lhe respondeu assim, nem sequer imaginou ser a prontíssima reacção que tivera a prova cabal de que, no íntimo, a sua normal tendência é sempre para o pior. Não conseguia ver, como sói amiúde dizer-se, «o copo meio cheio»…
      Tantos livros e tantos artigos se escrevem sobre isto. No fundo, porém, uma introspeção atenta, ao final do dia, é susceptível de mostrar o evidente. Quando, após o almoço, me apressei a comentar que não estava tempo para a romãzeira florir, poderia ter-me, ao invés, regozijado, por depois de a termos cortado tanto, ser bem auspicioso os botões estarem agora já a aparecer!…

                 

     Publicado em Duas Linhas, 8 de Maio de 2026.

https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/

, 8 de Maio, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/

8 de Maio, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/05/os-botoes-da-romazeira/

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