quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Natais em vias de extinção

            

            Sempre há lugar para a recordação do madeiro do Natal; das filhoses feitas ao lume das lareiras; daquele copinho na adega, vinho novo a sair da pipa; do encontro na  «missa do galo»; dos cânticos ao Menino Jesus…
Lembranças de anciãos serão; mas, felizmente também, vontades há de gente nova a consciencializar-se de que, em comunitária celebração, amizades se cimentam e, afinal, sempre é salutar manterem-se e renovarem-se tradições.
Raízes das árvores que somos, individual e colectivamente. Os ramos cortam-se uns, ajeitam-se outros; as raízes, essas, hão-de merecer todo o carinho e atenção.
Aqui e além, tanto no sofisticado Portugal urbano como no maior sossego do Interior – longe do movimentado bulício das «cidades-natais» e das «aldeias-natais», dos canitos vestidos «à Pai Natal», fogos-fátuos do mercantilismo balofo… – há ressurreições que se aplaudem, a recuperar (abençoadas!) o que outrora fazia sentido e fomentava comunidade familiar e vicinal.
E artistas há, que, à semelhança de Fra Angélico e da sua «Adoração dos Magos», dão largas a mui terna sensibilidade e plasmam de mil e uma maneiras, em todos os formatos e na maior diversidades de materiais, a eterna cena da Natividade. Isoladamente, apenas com três ou quatro pastores, ou, em explosão de alegria e convocando (dir-se-ia) o Universo inteiro, como nos presépios de Eugénio de Castro.
Veio a festividade cristã do Natal implantar-se na solenidade romana do «Dia Natal do Sol Invicto». Sol Invicto era uma divindade; o Menino, na Sua nudez, também.
Confesso desconhecer o significado último da expressão (e do voto) «Feliz Natal». Tenho dificuldade em usá-la. Prefiro desejar para essa derradeira semana do ano civil serenidade e saúde, no voto de que todos aprendamos a viver mais devagar.

José d’Encarnação 

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 885, 20-12-2025, p. 10.

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