Sempre há lugar para a recordação do madeiro do Natal; das filhoses feitas ao lume das lareiras; daquele copinho na adega, vinho novo a sair da pipa; do encontro na «missa do galo»; dos cânticos ao Menino Jesus…
Lembranças de
anciãos serão; mas, felizmente também, vontades há de gente nova a
consciencializar-se de que, em comunitária celebração, amizades se cimentam e,
afinal, sempre é salutar manterem-se e renovarem-se tradições.
Raízes das
árvores que somos, individual e colectivamente. Os ramos cortam-se uns,
ajeitam-se outros; as raízes, essas, hão-de merecer todo o carinho e atenção.
Aqui e além,
tanto no sofisticado Portugal urbano como no maior sossego do Interior – longe
do movimentado bulício das «cidades-natais» e das «aldeias-natais», dos canitos
vestidos «à Pai Natal», fogos-fátuos do mercantilismo balofo… – há
ressurreições que se aplaudem, a recuperar (abençoadas!) o que outrora fazia
sentido e fomentava comunidade familiar e vicinal.
E artistas há,
que, à semelhança de Fra Angélico e da sua «Adoração dos Magos», dão largas a mui
terna sensibilidade e plasmam de mil e uma maneiras, em todos os formatos e na
maior diversidades de materiais, a eterna cena da Natividade. Isoladamente,
apenas com três ou quatro pastores, ou, em explosão de alegria e convocando
(dir-se-ia) o Universo inteiro, como nos presépios de Eugénio de Castro.
Veio a
festividade cristã do Natal implantar-se na solenidade romana do «Dia Natal do
Sol Invicto». Sol Invicto era uma divindade; o Menino, na Sua nudez, também.
Confesso
desconhecer o significado último da expressão (e do voto) «Feliz Natal». Tenho
dificuldade em usá-la. Prefiro desejar para essa derradeira semana do ano civil
serenidade e saúde, no voto de que todos aprendamos a viver mais devagar.
José d’Encarnação
Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 885, 20-12-2025, p. 10.


Sem comentários:
Enviar um comentário