A manhã acordara cinzenta, de um nevoeiro
húmido, daquele que tema em querer entrar-nos pela roupa adentro e chegar até à
pele. Os folículos da araucária além, ensaiavam passinhos de dança tocados
pelas suavidade da aragem. À praceta chegava um carro e depois outro, na busca
vã de um poiso onde ficasse durante a jornada de trabalho.
O pássaro poisou (ele sempre tem poiso!) no
sedutor alaranjado da flor da estrelícia. Debicou de um lado, uma, duas, três
vezes; foi depois para o outro debicar mais. Consoladinho, decerto, por ter
encontrado bichinho de seu gosto ou líquen apetitoso. Não sei o que terá
encontrado. Pareceu-me, porém, ter ficado contente, porque abriu e fechou as
asitas. A cabeça preta, o pescocinho branco, um corpinho mínimo. Deve ser uma felosinha
(«phylosocopus collybita», de seu nome científico).
Veio sozinha. Não é como o casal de alvéolas
cinzentas que se passeiam pela rua, rabinho longo sempre a mexer, em jeito de
metrónomo, como que para ritmarem as passadas.
As alvéolas andam aos pares, uma aqui, outra mais além.
A felosinha hoje visitante do meu jardim veio,
debicou e foi à vida. Porventura amanhã é capaz de voltar mais ou menos à mesma
hora. Não é como o rabirruivo preto que vem a hora certa, para se regalar três
ou quatro vezes com uma banhoca na pia. Um regalo vê-lo a chapinhar e, sobretudo,
quando vai para o ramo da romãzeira e se espaneja todo num frémito.
Compreendo bem, ao vê-los, durante o meu
pequeno-almoço, porque é que há um segmento turístico chamado «observação das aves»
(‘birdwatching’). Observando-as, sentimo-nos bem. E recuperamos a capacidade de
nos maravilharmos.
José d’Encarnação
Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 351, 20-02-2026, p. 13.

