sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A felosinha debicou e foi-se embora

            A manhã acordara cinzenta, de um nevoeiro húmido, daquele que tema em querer entrar-nos pela roupa adentro e chegar até à pele. Os folículos da araucária além, ensaiavam passinhos de dança tocados pelas suavidade da aragem. À praceta chegava um carro e depois outro, na busca vã de um poiso onde ficasse durante a jornada de trabalho.
          O pássaro poisou (ele sempre tem poiso!) no sedutor alaranjado da flor da estrelícia. Debicou de um lado, uma, duas, três vezes; foi depois para o outro debicar mais. Consoladinho, decerto, por ter encontrado bichinho de seu gosto ou líquen apetitoso. Não sei o que terá encontrado. Pareceu-me, porém, ter ficado contente, porque abriu e fechou as asitas. A cabeça preta, o pescocinho branco, um corpinho mínimo. Deve ser uma felosinha («phylosocopus collybita», de seu nome científico).
Veio sozinha. Não é como o casal de alvéolas cinzentas que se passeiam pela rua, rabinho longo sempre a mexer, em jeito de metrónomo, como que para ritmarem  as passadas. As alvéolas andam aos pares, uma aqui, outra mais além.
A felosinha hoje visitante do meu jardim veio, debicou e foi à vida. Porventura amanhã é capaz de voltar mais ou menos à mesma hora. Não é como o rabirruivo preto que vem a hora certa, para se regalar três ou quatro vezes com uma banhoca na pia. Um regalo vê-lo a chapinhar e, sobretudo, quando vai para o ramo da romãzeira e se espaneja todo num frémito.
Compreendo bem, ao vê-los, durante o meu pequeno-almoço, porque é que há um segmento turístico chamado «observação das aves» (‘birdwatching’). Observando-as, sentimo-nos bem. E recuperamos a capacidade de nos maravilharmos.

José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 351, 20-02-2026, p. 13.

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