Alberto foi um daqueles amigos do peito que
todos gostamos de ter. Antigo Aluno Salesiano, seguiu a carreira musical, foi
professor no Ensino Preparatório, leccionou no Conservatório Nacional e
aposentou-se como docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Amiúde meu companheiro de viagem entre Coimbra
e a Gare do Oriente, partilhávamos, naturalmente, muitas das peripécias do
quotidiano.
A fim de ‘obrigar’ os estudantes a estarem
atentos e, de certo modo, também como teste à sua capacidade docente, Alberto
adoptou por sistema fazer, de quando em quando, um miniteste-surpresa, nos 10
minutos finais da aula, com uma pergunta sobre a matéria leccionada. Qualificados
de 0 a 20 e contando para a nota do período, os testes eram entregues, na aula
seguinte, por ordem crescente das notas obtidas.
Um dos alunos, semanas seguidas, ficava entre
os que apanhavam menos de 10. Um dia, apanhou 11 e o Alberto, ao entregar-lhe o
papelinho, fez-lhe uma festa na cabeça e disse:
– Vês? Tu consegues!
Claro, como a todos nós acontece, nunca mais
o Alberto se lembrou disso e nem o caso ficou especialmente gravado na sua
memória, por se tratar de atitude normal para ele. Só muito mais tarde – contou-me
numa das viagens – é que, estando de convidado no jantar mensal do Lions Clube,
um casal veio ter com ele:
– É o Dr. Alberto Ramos, não é? Há anos que
andamos para lhe agradecer!
O filho deles tão entusiasmado ficara com
aquele 11 que nunca mais tirara negativa!
– E olhe: está ali! É arquitecto.
Por largos segundos, fez-se silêncio, quando
ele se calou.
Medito, com frequência, nesta semente que em
muitos de nós germinou. «O espírito de D. Bosco», chamamos-lhe. Este conviver
em pleno. A imagem do sacerdote que passava pelo recreio, sabia os nomes dos
rapazes e, de vez em quando, lá saía o rebuçado do bolso. O assistente que não
hesitava em «arregaçar» a batina, para mais facilmente jogar ao vólei connosco
ou integrar a nossa equipa de futebol.
Comunhão.
.José d’Encarnação
Publicado em Boletim Salesiano nº 615, Maio/Junho 2026, p. 8-9.

