quarta-feira, 29 de abril de 2026

A dolente poesia das casas velhas…

            
 
            Tem sido notícia a decisão governamental de agilizar a resolução dos casos de heranças que, no tempo se arrastam, porque os herdeiros se não entendem, por já terem falecido alguns ou por os imóveis se encontrarem ainda oficialmente na posse de antepassados longínquos e é o cabo dos trabalhos destrinçar direitos sucessórios.
Estamos todos a torcer para que essa intenção passe a ser legislação concreta e bem depressa regulamentada, a fim de, paulatinamente, ir desaparecendo o espetáculo, que é triste de ver: janelas sem proteção ou entijoladas, vetustas paredes a desmoronar-se, mato a querer esconder ruínas.
«Sem habitação não há vida no mundo rural», com esta frase abria Mariana Carriço a edição de «Sul Informação» de 2 de Abril.
Sim, poderemos ocultar a mágoa, lançando sobre tudo isso o “manto diáfano” da Poesia, pois esses velhos muros têm Histórias para contar!
            Hoje, pois, não lanço vitupérios. Prefiro demorar-me no que o meu colega no «Diário do Alentejo» houve por bem escrever, na edição de 20 de Março, a propósito  das ‘casas velhas’:
«As casas velhas vão morrendo devagarinho, às vezes sozinhas, às vezes lado a lado, às vezes ruas inteiras. As casas precisam de pessoas, sem pessoas dentro delas as casas são sepulturas verticais à beira dois passeios». […] Encostam-se uma à outra; quando caírem, caem para dentro uma da outra, assim aproveitam para não morrerem sozinhas. Às vezes morrem ruas inteiras de casas, de uma ponta à outra, dum lado e do outro, de onde quer que se venha só se sente desconsolo, para onde quer que se olhe só se vê solidão. Muitas casas velhas juntas é o nome colectivo de solidão».
«Um artigo bem verdadeiro e que nos toca infelizmente a todos, mesmo quando não as tenhamos conhecido nas suas épocas risonhas! Nunca fico indiferente perante essas ruínas caladas e abandonadas», comentou a Madalena.
«Tão bonito!!! Tão triste … tão verdadeiro!» – desabafou a Lídia.  
                     

José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 889, 20-04-2026, pág. 10.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Dar que falar

            Há, felizmente, cada vez mais programas televisivos, nomeadamente da RTP, a contarem de vidas em remotas povoações do nosso Portugal, amiúde a pretexto de –porventura para vergonha nossa – um casal de estrangeiros ter descoberto como é bom viver por ali e criarem novas formas de sustento e de desenvolvimento local.
         Regozijo-me muito com esses novos olhares, porque nos afastam largamente da ideia de que das pequenas terras só se fala quando há por lá um crime ou uma desgraça qualquer.
        Alguns desses forasteiros dão visibilidade às terras (veja-se o caso de Albufeira) assim como patrícios nossos ou vizinhos contribuem eficazmente para que uma localidade saia do anonimato a que durante muito tempo foi votada e sobre ela se suscite curiosidade. A empreita de São Brás já foi alvo de programas televisivos, a Festa das Tochas Floridas também; a pequenita Asmina, no programa de talentos da RT honrou São Brás; Gago Coutinho teve origens são-brasenses; apelidos como Valagão e Sousa Uva não são desconhecidos no país, nem sempre, porém, conectados com a sua terra de origem. S. Brás.
          

           E é nesse âmbito que particularmente me alegro por, no princípio deste ano, se ter dado a conhecer um casal do senadores romanos que viveu em Faro, a romana Ossónoba. Sabíamos já que Milreu, em Estoi, atraíra gente importante nessa época; contudo, a descoberta deste monumento – em que, segundo a inscrição nele exarada, o marido, que foi cônsul (o mais alto cargo da hierarquia senatorial romana), mandou fazer uma estátua em honra da deusa Fortuna, mas em memória  da sua mulher Avita («matrona de muito ilustre memória») – constitui para todos nós motivo de redobrado orgulho!

                                                           José d’Encarnação

Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 353, 20-04-2026, p. 13.