sexta-feira, 15 de julho de 2022

Cada um nasce... (A propósito de António Salvado)

            «Cada um nasce para o que é fadado» – tema de fado, seguramente, a reflectir ideia generalizada. E é verdade, por mais excepções apresentadas.

Vejam-se os músicos: quantos não começaram a tocar aos 3 anos, alguns a compor antes dos 10!
Desses fiéis seguidores das pisadas previstas, alguns, chegados ao tempo de as revisitar, ousam mostrar como haviam sido os primeiros passos, titubeantes embora.
Foi o caso de António Salvado, poeta. Após dezenas de livros publicados, muitos milhares de versos escritos, decidiu voltar a publicar agora poemas vindos a lume em 1951 (do opúsculo «Poemas da Alma») e 1952 (de «Imensidade») no livro Primeiros poemas, edição de 2021 de RVJ – Editores, Castelo Branco, 200 exemplares, 40 páginas, propriedade da Junta de Freguesia de Castelo Branco. Terão sido esses os primeiros e não «A Flor e Noite» que se mencionou “como o primeiro livro publicado pelo poeta”.
Intitulou António Salvado “Para ser lido” o prólogo deste livrinho. Explicita, aí, as recordações do jovem sonhador e, embora termine a concordar com a frase do crítico de 1952, “a precocidade nem sempre revela um génio para o futuro”, há a secreta esperança de que, não podendo, por modéstia, considerar-se um génio, António Salvado quis este regresso, quase numa obediência ao vaticínio de António Machado, “são tuas pegadas o caminho e nada mais”.
Longo caminho, esse, sem dúvida. A aplaudir.
Cumpria analisar, agora, poemas e deles inferir do caminho. Tarefa, porém, que se deixa ao leitor, ainda que se não resista a agarrar num desses passos da caminhada, arbitrariamente colhido. Esse, da pág. 15, convite a que se dê às crianças a liberdade de correr, mesmo que se possa ficar temeroso de que alguma passada a mais lhes possa vir a ser prejudicial. Escrito em 1951 e lido agora, em 2022, em clima completamente diverso, o apelo ganha ainda maior relevância, todavia: a liberdade de correr, num tempo em que surgem por toda a parte bons espaços para isso e, amiúde, o que falta é a vontade. “Deixa-as correr como o vento!” – saboreando a alegria de viver!
A Poesia, sempre, a desvendar caminhos!
Primeiros Poemas faz-se acompanhar de Nunca Ali o Azul (Sirgo, MMXXI, 12 p
áginas), a Poesia a comentar argutamente a Pintura de Cruzeiro Seixas, Artur Bual, Costa Camelo, Noronha da Costa, Júlio,  Álvaro Perdigão e Cargaleiro. Uma iniciativa de Cadernos de Quarto Minguante.

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Reconquista [Castelo Branco] nº 3982, 07-07-2022, p. 35.

 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Os nossos bordões

            – Não sei se sabes, mas no começo do século XX…

A frase chocou-me.
Inesperadamente.
Não me apercebera ainda de que, na boca de um entrevistado para um entrevistador, ela poderia significar de algum menosprezo. Inconsciente, claro!
Se o entrevistador fora pessoa sensível, teria razão para se melindrar e dar, até, uma resposta menos cordata. Não deu. E a conversa prosseguiu naturalmente.
Eu é que, enquanto saboreava a torrada com manteiga, dei comigo a pensar na quantidade de frases proferidas no quotidiano, susceptíveis de poderem ofender ou desagradar ao nosso interlocutor.
Não, já não falo do hã?! tão frequente em alguns dos  nossos locutores a quem não houve o cuidado de ensinar os mecanismos da boa respiração radiofónica. Chateia-me ouvir; desculpo, embora não compreenda.
Também não refiro «O quê?» com que amiúde somos bombardeados. Está um grupo na conversa; chega alguém, e quer logo entrar: «O quê?». Como quem pergunta: «O que é que vocês estão para aí a dizer?». Apetece-me sempre responder: «Espera aí, homem, já compreendes!».
Volto à frase inicial, para referir duas outras passíveis de ofender.
Bordões lhes chamamos nós em linguagem. «Palavra ou frase que se repete inconscientemente na conversa ou na escrita», explica-me um dos meus dicionários e aponta, até, como etimologia, a palavra latina burdo, que significa ‘mula’, quiçá (informa-me outro) por ser outrora o muar o bordão habitual do peregrino… «Não sei se estás a ver», «Estás a perceber?...» – aí estão eles!
E, como se vê, a ignomínia da incapacidade de compreensão é atirada para o interlocutor, quando o mais cordato seria, por exemplo: «Estou a explicar-me bem?».
E agora pergunto eu: será que me expliquei?

                José d’Encarnação

    Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 825, 01-07-2022, p. 12.

sábado, 25 de junho de 2022

Vida conjugal desvendável numa inscrição romana

         

        Sempre me causou perplexidade aquele singelo rol de nomes, sem explicação plausível. Placa de jazigo de família romana seria, sem dúvida; mas… que relação teria havido entre as pessoas ali citadas?

A placa
            Ostentando o número de inventário B-144, está no Museu Regional de Beja Rainha D. Leonor uma placa romana com inscrição. Foi achada em Setembro de 1941 na Herdade da Amendoeira e oferecida por José Baptista Crujo, conforme se lê na p. 45 do livrinho Museu Regional de Beja, datado de 1946, da autoria de Abel Viana. É, aí, o nº 54 dos monumentos epigrafados que constituíam, à altura, a colecção do museu.
            Tive oportunidade de confirmar que está completa e é de mármore do tipo Estremoz / Vila Viçosa (e não de Trigaches, como o são a maioria dos monumentos romanos de Beja). Mede 48 cm de alto, 93 de largura e apenas 6,5 de espessura. Não tem qualquer molduração e, por esse motivo, não custa a crer que se terá destinado a ser incrustada num edifício. O mais normal, embora – como de seguida se verá – não apresente qualquer das habituais fórmulas funerárias, é que fosse letreiro a colocar no frontispício de um jazigo.
            É bem simples esse letreiro. Redigido em latim, diz o seguinte:

            Décimo Júlio Navo, filho de Décimo, da tribo Galéria; Júlia Arbura, filha de Tito; Corânia; Décimo Júlio Saturnino, filho de Décimo, da tribo Galéria; Octávia.

O que se sabe da herdade
            Numa das suas bem oportunas “notas históricas, arqueológicas e etnográficas do Baixo Alentejo” que, no Arquivo de Beja, foi publicando em meados da década de 50, referiu-se Abel Viana (nº 12, 1955, p. 30) à existência, numa Herdade da Amendoeira da freguesia das Neves, de vestígios arqueológicos que não especificou. Por esse motivo, uma Herdade da Amendoeira da freguesia das Neves figura, com o número 7163, no inventário oficial dos sítios arqueológicos de Portugal e aí se escreve: «Uma inscrição funerária, provavelmente procedente de um jazigo familiar; outros vestígios romanos não especificados». Nada mais. Aliás, o topónimo Herdade das Amendoeiras pertence à União das Freguesias de Santiago Maior e S. João Baptista.
            O que se poderá dizer, então?
O que se considera, hoje, como um dado adquirido, ainda que possa estar contaminado com as nossas ideias actuais: na villa, ou seja, a casa senhorial existente nessa herdade dos arredores da colónia, viveu a família de que a placa nos dá mui singela notícia. Apenas nomes nela vêm referidos, o que pode ter-se por normal, porquanto se tratava de domínio privado e somente importava fazer menção, para os familiares, de quem ali fora sepultado. Mas… será sempre aliciante pensar que um dos defuntos possa ter sido o Décimo Júlio Saturnino, a quem os libertos públicos de Pax Iulia homenagearam com um busto (edição de 22-10-2021). Família importante seria!...
 
O que esta placa não diz
            Estamos habituados a ver no frontispício dos jazigos de família dos nossos cemitérios, lateralmente, uma série de espaços rectangulares destinados a virem a ser aí inscritos os nomes dos entes queridos, à medida que nele forem sendo sepultados e pela ordem estabelecida. Sabe-se também que raramente essa intenção inicial é cumprida e, por isso, raro será o jazigo em que as placas inscritas correspondam aos defuntos nele depositados.
                Na actualidade, porém, as datas e os apelidos ajudarão a estabelecer genealogias: o pai, a mãe, o irmão… Tal não acontece na placa da Herdade da Amendoeira e, por conseguinte, ocorre perguntar: como foi? Que relação familiar – sim, relação familiar terá havido! – se poderá apontar, na medida em que nada se diz e há nomes de senhores e de senhoras?
            Há, todavia, um pormenor que não é de somenos e não poderia passar despercebido ao epigrafista: a paginação, ou seja, a posição que cada identificação ocupa no espaço epigrafado. Teve, por isso, o meu prezado amigo Marc Mayer, da Universidade de Barcelona, a seguinte explicação, que partilho inteiramente:
«Em princípio, parece que dois irmãos, ou melhor, o pai e o filho aí estão sepultados com suas respectivas esposas. O primeiro deles casado, em segundas núpcias, com uma Corânia, itálica, e, em primeiras, com uma mulher das suas relações, seguramente uma parente relativamente próxima. O segundo personagem casa-se com uma Octávia, seguramente também itálica».
Na verdade, o segundo nome de Júlia é Albura, que se enquadra na onomástica pré-romana, horizonte linguístico que, aliás, o nome Navus também poderá sugerir, na medida em que, embora latino, detém um significado bem concreto: diligente, activo. E tanto Corania como Octavia são nomes de família bem romanos.
Não há dúvida que, pela identidade dos nomes – quer o primeiro, Décimo, quer o da família, Júlio –, os dois personagens masculinos serão irmãos ou pai e filho. Adianta Marc Mayer uma sugestão que não deixa de ser deveras aliciante: «Seria interessante conseguir-se saber se, no tempo em que esta inscrição se insere, terá havido uma nova chegada de imigrantes ou de veteranos» a Beja. Nós, que estamos já habituados a ver chegar levas de imigrantes e a sentir o efeito que novos rostos femininos podem provocar no relacionamento social e familiar, até não nos custa pensar que, há dois mil anos, isso possa ter acontecido em Pax Iulia… Menos ardilosa será a hipótese de Albura ter falecido e Corânia ter vindo a ocupar, naturalmente, o seu lugar.
Certo é que se nos afigura bem credível – até, repita-se, pelo modo como a paginação se apresenta – que os familiares destes dois cidadãos romanos de Beja, o Navo e o Saturnino, decidiram juntar no mesmo jazigo os seus restos mortais e os das mulheres que eles amaram.

                                                           José d’Encarnação

Publicado em Diário do Alentejo [Beja], 24-06-2022, p. 19.

Encher a guerra de moscas!

Passou na RTP 1, na quinta-feira, 16, «Uma Noite no Parque Mayer», homenagem de Filipe La Féria à revista à portuguesa. Ocasião houve, portanto, para recordar a rábula celebrizada por Raul Solnado, «A história da minha ida à guerra de 1908». Tendo-se posto a hipótese de comprarem, para o efeito, uma cavalgadura, que só se vendiam «com as carroças e com as moscas», a mãe apressou-se a recusar:  “O meu filho não vai agora para a guerra encher a guerra de moscas!… O meu filho vai a pé mas vai limpo!”.

A crónica sobre a mosca

Tendo publicado uma crónica sobre a mosca, recebi os mais diversos comentários, uns de repulsa perante o nojento animal, portador privilegiado de doenças infecciosas, outros de admiração por saberem que, afinal, também a mosca consubstanciava em si inúmeros saberes: a espantosa velocidade a que movimentava as asas; a incomensurável capacidade de se reproduzir; a excepcional visão permitida pela extraordinária ‘arquitectura’ dos seus olhos, que deixam a léguas de distância o olhar humano, pois cada olho dispõe de… 4000 (quatro mil!) lentes hexagonais!…

                                

Mosca-assassina ou mosca‑predadora (Asilidae sp., de seu nome científico). O registo foi feito em Canidelo (Vila do Conde) a 21 de Julho de 2017, por Fernando Ferreira.

            E doutras características não falei. Por exemplo, torna-se difícil apanhar uma mosca, porque dispõe de antenas-barómetros, que actuam por mecanismos sensíveis à pressão. Para se manter no tecto de cabeça para baixo, segrega automaticamente, na parte membranosa das suas asas, uma pequeníssima quantidade de um líquido viscoso, que lhe serve de cola. Também não referi que, se as pusermos debaixo de água, dificilmente se afogam, porque têm o corpo, as asas e as patas revestidos de uma rede serrada de pelos, e é o ar que neles está que lhes permite sobreviver durante muito tempo.
Enfim, o que mais se sabe comummente é que são ‘meninas’ capazes de inocular nos humanos os germes do tifo, das febres paratifóides, da cólera, da disenteria, da lepra, da poliomielite… Na barriga de uma mosca, o vírus da pólio pode conservar a sua capacidade de actuar durante 48 horas!…
Estaremos também todos recordados de que foram as moscas os agentes da 4ª praga do Egipto, conforme se lê no livro do Êxodo (VIII, 26):
«E vieram moscas molestíssimas sobre as casas do Faraó e dos seus servos e sobre toda a terra do Egipto; e a terra foi devastada por tais moscas».

Uma campanha, em Cascais, contra moscas e mosquitos

Se, em circunstâncias normais, é grande o incómodo provocado pela abundância de moscas e mosquitos, que dizer de uma zona turística?
Publicara o Governo Português, a 22 de Abril de 1929, a Portaria 6114 (Diário do Governo, I série, nº 92, p. 1028-1029), assinada pelo ministro do Interior, José Vicente de Freitas, com o fim de se incrementarem por todo o País medidas sanitárias contra as moscas e mosquitos. Nela constavam, bem explícitas, minuciosas instruções a pôr em prática – por exemplo, «os açucareiros a adoptar deverão ser os de modelo estudado pela Repartição de Turismo» – designadamente para evitar as poças de água.
Não teve, todavia, os imediatos efeitos pretendidos e, por isso, após a execução de medidas avulso, como a fiscalização de cocheiras, capoeiras, fossas, estrumeiras, etc., decidiu-se a Câmara Municipal de Cascais, em 1932, de mãos dadas com a Comissão de Iniciativa e Turismo, meter ombros a uma campanha devidamente organizada, que incluía, desde logo, a afixação de cartazes alusivos por todas as povoações do concelho.
Este primeiro impulso teve extraordinário eco, de tal modo que, em Coimbra, Bissaia Barreto «fez publicar na íntegra os ensinamentos que os cartazes continham, no jornal de propaganda contra a tuberculose».
Retirei este dado da apresentação «Um pouco de história», com que o então capitão José Roberto Raposo Pessoa abre o livro Moscas e Mosquitos – Campanha da Câmara Municipal de Cascais, edição da Junta de Turismo de Cascais, datada de 1939.

Tem esta publicação (de quase 250 páginas) prefácio do Prof. Ricardo Jorge, que começa assim:
«Vem-me à ideia a frase mordente de Garrett – Em paz e às moscas. Há nela alguma coisa de contraditório – ninguém pode estar em paz, se está às moscas. Doméstica apelidam por nosso mal a esta inimiga íntima que nos fisga a pele pela casa toda num ímpeto insaciável de mortificação que pela sua teimosia nos arrelia e enfurece». Louva, por isso, a «benemérita iniciativa, graças ao aporfiado apostolado do seu médico sanitário, o dr. Marques da Mata e do seu presidente da Câmara, coronel Carlos de Passos Pereira de Castro».
Apresentou o Dr. Marques da Mata um relatório à Comissão Municipal de Higiene e foi aprovado o seu plano de luta contra as moscas e mosquitos no ano de 1938.
Narra o volume – excelente repositório das medidas adoptadas – o enorme eco que a iniciativa despertou nas emissoras (mormente Emissora Nacional e Rádio Clube Português); a propaganda que se fez nas escolas e, para nosso regozijo, os ecos que teve no plano humorístico quer na rádio, no teatro, na pintura e até – pasme-se! – José de Oliveira Cosme escreveu o Fado Moscatel, que tem como um dos estribilhos:
                                              Mosquitos a assobiar
                                              Ninguém ouvirá jamais!
                                              Já podemos ressonar!
                                              Viva a Câm'ra de Cascais!

                                         José d'Encarnação

 Publicado em Duas Linhas, 22-06-2022:https://duaslinhas.pt/2022/06/encher-a-guerra-de-moscas/

............

Comentário de Fernando Ferreira (23-06-2002):

As moscas também são muito importantes para o nosso ecossistema...😉
Temos moscas predadoras e parasitóides (que ajudam a controlar outras espécies de insetos e até mesmo as próprias moscas), moscas detritívoras (ajudam na limpeza dos nossos terrenos, animais mortos, dejetos, etc...), moscas polinizadoras (muito importantes, por exemplo, sem elas não tínhamos chocolate (cacau), etc...
António Keating (entomólogo forense) diz: "As moscas limpam o mundo. Bastam as moscas para limpar a carcaça de um elefante".