quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Reviver os anos 50

            A leitura de Histórias a Amarelo e Preto (Humor à moda de Soure), de Jorge Varanda, edição de By the Book (Lisboa, 2010), com o apoio da Câmara Municipal de Soure, sugeriram-me duas ou três reflexões de índole histórico-cultural.
            Na verdade, sob pretexto de contar histórias em que o humor desempenha primordial papel, Jorge Varanda acaba por evocar toda uma vivência dos anos 50 do século passado, que não é apenas a de Soure, mas, em muitos aspectos, a de todo um País, como, aliás, o próprio autor não hesita em consagrar. E esse é um aspecto deveras interessante, pois que existe sempre, por parte dos historiadores, algum pejo em fazerem história de tempos ainda recentes. Não é que Jorge Varanda tenha manifestado intenção de ser historiador, apenas um «contador de histórias»; certo é, porém, que essas histórias retratam uma sociedade, um modo de viver, um ambiente físico, edificado, geográfico, que, hoje, sem esse testemunho passado a escrito, acabaria por correr sério risco de se perder.
            Os jogos das crianças desse tempo em Soure eram os das crianças de Portugal. A evolução dos meios de transporte foi essa em toda a parte: «tracção animal, bicicleta, motorizada e automóvel»; «também meu pai seguiu essa lógica evolutiva: da bicicleta passou ao Cucciolo, do Cucciolo a uma Sachs e desta a um automóvel Fiat» (p. 57). Todos jogámos com bola de trapos («uma meia desirmanada, enchida com trapos ou uma quantidade apropriada de papel de jornal amassado e tornado consistente à custa de cordel de muitas voltas» – p. 112) ou «com a bexiga do animal [o porco] no cimentado da eira» (p. 80); alguns de nós comemos cobra por enguia ou lampreia e tivemos ânsias quando nos disseram da maldade (p. 118); todos falámos das «janelas tipo fenêtre» (p. 105) e chamámos à GNR «Grande Ninhada de Ratos» (p. 113); toda a gente nascia em casa, com a ajuda de uma ‘curiosa’ que já fizera os partos das mulheres da aldeia (p. 80-81); rimo-nos dos erros do pessoal dos registos que prantavam às crianças nomes estranhos, porque não percebiam a pronúncia; ser gordo era, por toda a parte, «uma raridade» (p. 110); as orelhas de burro e as palmatoadas constituíam os expedientes mais usados para castigar menino traquina ou preguiçoso; as botijas eram aquelas garrafas de grés acastanhado, do anis da Holanda (p. 93); as tabernas (p. 123), por toda a parte, os locais privilegiados de convívio (e hoje, felizmente, estão a ser recuperadas); todos seríamos capazes de, por desconhecermos como funcionava a luz eléctrica, pegar da naifa e cortar o cordão, arriscando-nos a apanhar um choque (p. 21); nos bailes, «damas ao bufete» (p. 100) era certeiro estratagema pelo País de norte a sul…
            Diríamos que estamos perante autênticos quadros de revista, prontos a ser encenados no teatro local ou em centro de convívio da chamada «terceira idade». De facto, este é livro que estará a fazer, não tenho dúvidas, as delícias dos que andam agora na casa dos 60 anos, até porque o autor sabiamente enquadra cada narrativa com um breve e assaz oportuno excurso histórico.
            Bem fez, pois, o município local em dar o seu apoio a esta publicação. Aliás, frisa-o bem a senhora vereadora, Ana Maria Treno, na abertura: «a magia das histórias que ouvimos na nossa infância», «com pessoas e acções vivenciadas em Soure». Outros municípios e freguesias estão, felizmente, a enveredar pelo mesmo caminho, cientes de que essas memórias – património imaterial! – contribuem eficazmente para cimentar comunidade e enraizar a população.

Publicado em Cyberjornal, edição de 9-10-2013:

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