Vinha
bem embrulhada em plástico, a realçar-lhe o carmesim da capa. Preso com
elástico, na quarta capa, um pendente de porcelana branca ostentava a legenda byfly e, na outra face, duas asas.
Retirado, mostrava como que numa janela dois anjinhos tocadores. O tema do
volume lá estava, numa outra janela recortada, assim que se abria: ANJOS. E escrevera-se: «um anjo caiu para
dentro das páginas de um segredo».
Armara-se
o sarilho: como é que vou safar-me desta, agora que me preparava para – folheando
duas revistas bem diferentes, dirigidas ambas por grandes amigos meus – falar
de cultura e temáticas afins, com uns anjinhos, ainda que músicos, pelo meio?
E
comecei a folhear este nº 53 da Egoísta.
Folhas grossas, das mais diversas cores, textos em letras de grandes módulos.
Ou não. E ilustrações que nos espantam. E fotos. Não será possível ver sem emoção – digo bem, emoção
e nada mais! – a beleza da sequência em que, sob o título «Poussière
d’étoiles», como se das estrelas caísse uma poeira ténue e linda, Ludovic
Florent retratou, em delicadeza suma, esse corpo quase angélico de uma
bailarina. A fotografia, como a escrita, como os anjos – a guindarem-nos acima de
uma realidade em que vivemos mas que necessidade hemos de sublimar.
Que
é de Natal esta Egoísta. E, por isso,
o Director, Assis Ferreira, no editorial, evoca o que aprendeu de sua mãe
(ainda me lembro dela, da sua serena ternura, meu caro Mário!), o seu
Anjo-da-Guarda. Que «do Natal, sobrevivem os embrulhos de presentes, a euforia
dos lojistas, a reunião das famílias, as memórias do passado, esparsas
evocações humanistas…»; mas – importa retê-lo – «sobrevivem os Anjos, os nossos
Anjos-da-Guarda que, por desígnio divino, não têm nome de baptismo», e são eles
que, afinal, insistem em lembrar que, afinal, o Natal pode e deve ser algo
mais: «É o riso das crianças, é a prece de viver, é a elevação da alma, é a compaixão do próximo, é o apelo da
paz, é o sorriso a quem se ama!». Isso aprendeu do seu Anjo-da-Guarda. Isso
importava que todos recordássemos nos «Natais de todos os dias».
E
pronto! Não resisto, porém, a folhear de novo. E a fixar-me demoradamente agora
nas diáfanas roupagens brancas esvoaçantes da menina que Zena Holloway
fotografou. Uns poetas estes fotógrafos, a maravilhar-nos!
Não
sei se minha neta mais velha quererá usar o pendente de porcelana branca com a
frase by fly, «pelo voo». Tentarei,
porém, nessa linha de pensamento, ensinar-lhe também que diariamente é preciso
abrir asas e voar!...
A estrangeirada D. Marionela e a miopia da
governação
Mais complicado
será passear-me agora por entre a beleza destas mane quins
a envergarem o que de melhor os costureiros mundiais lograram confeccionar quer
para realçar a beleza dos humanos quer para, através dela, mais alegremente
podermos saborear o quotidiano. Afinal, Marionela Gusmão, à sua mane ira, traz, na Moda & Moda de Dezembro, a mesma mensagem de Assis Ferreira – caminhamos
entre amigos! – há que emprestar ao dia-a-dia outra dimensão!

Mas,
D. Marionela, a menina só fala de exposições nos museus estrangeiros? Não há
nada de importante nos museus portugueses? Ah! Já sei. Há, mas iníqua lei da míope
governação portuguesa não disponibiliza gratuitamente imagens dessas iniciativas,
como prazenteiramente o fazem os museus estrangeiros. Queres imagens? ‒ pagas com língua de palmo! Por isso, é
preferível omitir. Nada se passa de importante nos museus portugueses!
Espere.
Leu até ao fim? Sabia que era na cauda que estava o veneno, hein? Pronto, se
leu, afinal já também me safei desta!...
José d’Encarnação
Publicado em Costa do Sol – Jornal Regional dos Concelhos de Oeiras e Cascais,
nº 81, 25-02-2015, p. 6.
Guilherme Cardoso, 28/2 às 11:07:
ResponderEliminar«Essa dos museus, uma grande verdade. Muitos particulares, por acreditarem que a cultura é de todos, doam acervos próprios aos museus ou aos governantes, que por sua vez criam empresas para serem geridas por pessoas de sua confiança (?) que mais não fazem do que gerir economicamente os acervos que receberam graciosamente transformando-os em fonte de rendimento para o qual não contribuíram nada...».