sábado, 7 de março de 2020

Os brancos e os pretos

          Lembro-me como se fora hoje: sempre que acontecia estarmos por perto de um garoto ou garota de cor, meu pai punha-se de voz infantil e imitava o diálogo:     
            – Ó mãe! O branco chama-me preto!
            – Pois chama-lhe tu branco!
            – Mas o branco não se rala!...
            E ríamo-nos!
            O certo é que a mensagem ficou e agora dela me lembro, quando a questão do racismo voltou à baila. Uma educação singela, sem alardes, sem filosofias por detrás, mas eficiente para o dia-a-dia.
            Uma das colecções de cromos que mais me marcou na meninice foi a das Raças Humanas. Sei que fiz muita questão em a completar e guardei a caderneta durante muitos anos. Deve ter desaparecido numa qualquer mudança ou entreguei-a a algum dos filhotes; o certo é que dela me recordo muito bem. E como eu me deliciava a ver aquela enorme diversidade de trajos, costumes, caras, enfeites!...
            Um dos cromos ficou na minha memória para sempre: o do indígena de uma tribo africana que pusera um prato nos lábios. A confusão que aquilo me causou! Era um ritual de lá, explicaram-me, e eu compreendi, porque cada terra tem seu uso! Fui agora pesquisar na Internet e identifiquei: é a etnia mursi, do Sudoeste da Etiópia. Havia um outro que me deslumbrava, mas por outro motivo; creio que mostrava uma indígena da Samoa, não garanto; cativava-me pela serenidade e pela beleza; apaixonei-me por aquela imagem!

            Perdoar-se-me-á se vejo toda esta questão apenas pela aparência. Achei piada – passe a publicidade – ao anúncio da united colours of benetton que mostrava jovens de todas as cores. Fiquei encantado quando fui pela primeira vez a Londres e deparei, na rua, com todos aqueles trajos indianos, africanos, árabes… um caleidoscópio digno de se ver! Cometo, porventura, um erro, mas tenho ideia de que, num dos seus romances, Eça de Queiroz também acha ‘folclórico’ (certamente a palavra era outra) ver pelas ruas de Lisboa frades, freiras, sacerdotes vestidos segundo a sua praxe. Nada tem a ver com racismo, bem no sei; contudo, estamos irmanados num hino à diversidade, em que o que deve contar não é o exterior mas sim a competência, a dignidade. Insiste-se muito na diversidade vegetal e animal e pugna-se pela preservação da identidade – uma identidade que é local, diversa da do nosso vizinho do lado.

 

                                                     José d’Encarnação


Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 772, 01-03-2020, p. 11-12.

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