Fora gravado após a cozedura, em gesto corrido, no bojo de uma pequena tigela de loiça fina (a que os arqueólogos dão o nome de terra sigillata), cor alaranjada, 140 milímetros de diâmetro. Peça graciosa, portanto, e de uso doméstico.


Pareceu-nos que se poderia ler OCELLI, ainda que do C apenas restasse a terminação superior, uma vez que dois dos três fragmentos da tigela colavam precisamente aí.
Claro que, tendo em conta o que já aqui se disse acerca do modo como se identificavam os lotes de cerâmica no momento em que se colocavam no forno, o mais normal seria interpretar a palavra como o genitivo de um antropónimo e traduzir «de Océlio», uma vez que se regista, de facto, esse nome, embora muito raro. Contudo, aqui o grafito foi feito após a cozedura! Tinha, por conseguinte, uma intenção bem diferente, sobretudo se pensarmos que estamos perante… uma tigelinha, mesmo a jeito de ser usada como presente!...
Assim o interpretámos, pois. Em latim, a palavra ocellus é o diminutivo de oculus, «olho»; e nas vezes em que o seu uso está documentado envolve-o uma atmosfera de ternura: o Oxford Latin Dictionary aponta-o “in tender or emotional language”, «darling», «pupila dos meus olhos», aplicado «to things that are particularly precious or beautiful». E uma das passagens de Plauto mais citadas neste contexto é: Sine tuos ocellos deosculer, voluptas mea, «Deixa-me beijar ternamente os teus olhinhos, volúpia minha!»…
Daí até à nossa imaginação de um gesto foi pequeno o passo: o amante pegara na taça, nela gravara a palavra e… à amada a entregara: «É tua, pupila dos meus olhos!».
Publicado no quinzenário Renascimento [Mangualde], nº 577, 15-09-2011, p. 13.
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Post-scriptum
Permita-se-me que registe, agradecendo-o, novo comentário enviado pelo Doutor Azevedo e Silva:
«Achei engenhosa a interpretação dada ao referido grafito, inscrito numa taça por um anónimo enamorado para depois a oferecer com ternura à sua amada. Fecunda imaginação com sólido lastro do saber específico! Para dizer a verdade, fascinou-me a interpretação. Parabéns.»
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