Há carrascos no Bairro da Pampilheira, em Cascais. Na Rua Fernão Lopes.
Poderia considerar-se estranho falar disso, mas não é, porque, de facto, esse bairro nasceu, a partir de meados do século passado, numa zona que era, na verdade, de mato. Hoje, detém todas as características de bairro suburbano; mas nessa rua foi deixada parte da vegetação original – e já se vai explicar a razão do seu interesse.
É conhecido que, no concelho de
Cascais, existem várias povoações chamadas Carrascal (Carrascal de Manique, por
exemplo, Carrascal de Alvide…), a dar ideia de que o carrasco era aí uma das
espécies dominantes na vegetação original do concelho, designadamente nesta sua
zona ocidental.
| Bolotas do carrasco |
Ora porque é que terá
importância, do ponto de vista histórico, além da importância do ponto de vista botânico,
manter uma vegetação que é original?
É que vive associado ao
carrasco (Quercus coccifera, de seu nome científico) um pequeno insecto,
a cochonilha-do-carrasco, também chamada o quermes (Kermes vermilio).
Ora, a cochonilha introduz-se nos tecidos vegetais e alimenta-se da seiva. Reage
a planta à sua presença produzindo uma espécie de tumefacção. Essa estrutura
acaba por envolver o insecto, que fica praticamente imóvel. O corpo da fêmea,
sobretudo quando cheio de ovos, já os romanos o recolhiam, secavam e obtinham
assim um corante vermelho-carmesim que, sub-repticiamente, adicionavam à
púrpura verdadeira com que se tingiam os
mantos imperiais e as togas dos senadores.
A púrpura era obtida através do
que se retirava da «purpura haemastoma», o molusco marinho também chamado «stramonita
haemastoma». Dele foram encontradas muitas conchas no povoado romano dos Casais
Velhos, perto da Praia do Guincho; e daí se considerar que Casais Velhos, até
por aí também se terem encontrado tinas, tenha sido um centro de produção de púrpura.
Ora, juntar ao líquido extraído do molusco o resultado da maceração da
cochonilha era um bom negócio, porque se vendia o resultado como se fosse púrpura
verdadeira!…
Por isso se pugna em manter os
carrascais onde eles ainda existem: preserva-se um revestimento vegetal antigo,
ligado, neste caso concreto, a uma história antiga também.
Duas Linhas, 23 de Agosto, 2026: https://duaslinhas.pt/2026/08/ha-carrascos-no-bairro/




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