segunda-feira, 20 de maio de 2024

Classificar? – Não!

           Há, com muita frequência, a ideia de que promover a classificação de um sítio ou monumento como de «interesse público» ou «de interesse nacional» ou, mesmo, como «monumento nacional» constitui a forma mais adequada e certeira de esse sítio ou edifício virem a ser, de facto, mais bem preservados e até venham a obter-se para o efeito, alguns desses fundos largamente publicitados e nem sempre aplicados (pensa-se!...) por não haver espírito de iniciativa.
            Errado!
            Primeiro, porque o caminho até à classificação é mais longo que a légua da Póvoa; depois, porque, classificação conseguida, mais longo ainda é o caminho para se lograr obter algum proveito.
Na verdade, importa não esquecer que as várias secções dum ministério – qualquer que ele seja! – estão atafulhadas de processos até ao tecto e as secretárias, se não estão vazias por falta de pessoal, têm lá um senhor ou uma senhora postados diante de uma rima de processos que não sabem por onde é que hão de começar!
            Depois, há a legislação! Decretos, portarias, despachos, complementos a despachos, decretos regulamentares… Alto, que ‘decretos regulamentares’ é o que menos há e, sem eles, as determinações do decreto correspondente não se conseguem concretizar. Uma floresta virgem ou um velho castelo cheio de alçapões e portas estreitas e portas disfarçadas em paredes…
            Conclusão: não caia na esparrela, não proponha a classificação de coisa nenhuma.
            Dou dois exemplos das centenas que poderiam aduzir-se e estou certo que cada um de nós é conhecedor de dois ou três casos.
Uma colega minha herdou um mosteiro; caiu na asneira de propor a sua classificação, na esperança de que o Estado corroboraria na sua preservação. Errou! Nem o Estado corrobora nem ela pode mexer uma palha sem colher pareceres e mais pareceres dos técnicos ministeriais. Sim, daqueles que têm a tal rima de processos à frente. E o mosteiro vai-se arruinando. E a minha colega a perder a esperança.
Em Cascais, também alguém sugeriu a classificação do parque envolvente do Museu Verdades de Faria. Conseguiu. Agora o que a Câmara não consegue é que o Ministério do Ambiente gize um plano (sim, têm que ser os técnicos do Ministério a gizar!) para acudir às muitas mazelas há anos ali acumuladas. O presidente da autarquia já ameaçou e ele é bem capaz disso: «Demoram? Eu arrisco!». Abençoado!

                                               José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 329, 20-04-2024, p. 13.

terça-feira, 7 de maio de 2024

As bicadas de Camilo

            Houve um sábio que escreveu: “Temo o homem dum só livro". Já se não sabe bem quem foi; a máxima não deixa, contudo, de ser válida, independentemente de quem a concebeu. Plasma a frase a convicção de que se tratará de alguém cabeçudo, avesso à pluralidade.
Gosto, porém, de pensar que tem cada um de nós um livro de cabeceira, de leitura frequente, ainda que não única.
Aconteceu-me que, ao dar uma vista de olhos pela estante, Noites de Lamego me chamou a atenção e decidi voltar a ler, agora, evidentemente, com olhos bem diferentes dos que eu tinha em Julho de 83.
          Interessaram-me, sobretudo, as bicadas de Camilo Castelo Branco. E de duas delas, de carácter político, ora se dá conta, ainda que sabendo ser A Queda dum Anjo, o suprassumo da sua sagacidade.
Sagrara-se vitorioso o Duque de Saldanha, arauto da Regeneração. E logo “todos os talentos e capacidades se identificaram com a regeneração; triunfaram em 1851 às ideias de 1846”. Gonçalves Basto, porém, que, no seu jornal, tanto apoiara o  “dadivoso duque”, foi esquecido pelas suas mãos-rotas, ele que até já fora cônsul em Vigo e condecorado na Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa!
Do comendador Inácio José Leituga, do concelho de Cinfães, “pessoa abastada, bom vizinho e de mui sãos costumes e notória cristandade” conta Camilo que, após ter dobrado, em doze anos, a sua fortuna, “a consideração pública no seu concelho tocou o apogeu. Foi juiz ordinário em 1841, administrador em 1844, presidente da Câmara em 1845 […], foi comendador da Conceição em 1852 e eleito deputado […] em 1854”.
Nessa condição, acreditado “pela modéstia e sisudeza do silêncio”, “conseguiu empregar uns dezanove parentes que tinha em dezanove lugares. Virtude rara! Porque há deputados que fazem despachar dezanove parentes para trinta e oito lugares.”

Estava-se em meados do século XIX.

 

José d’Encarnação

Publicado em Renascimento (Mangualde), nº 864, 01-05-2024, p. 10.

 

domingo, 21 de abril de 2024

Palavras e expressões

            Recordo amiúde a história que Laborinho Lúcio nos contou, aquando da visita do Curso de Conservador de Museus ao Centro de Estudos Judiciários, que na altura dirigia, sobre a necessidade de os juízes se inteirarem dos significados locasis das palavras e expressões.
            O juiz recém-chegado a Vila Real de Trás-os-Montes manifestou a sua perplexidade por o queixoso ter posto processo por difamação contra um vizinho, por este lhe ter chamado «minhoto»:
            – Eu não percebo! O nosso escrivão também é minhoto e não se rala nada com isso!
            O Minho é, como se sabe, uma região onde abunda o gado bovino…
            – Está bem, eu ponho no jacó!
            Também esta resposta pode causar surpresa ao recém-chegado a Coimbra. Jacó é o nome popular dado ao caixote do lixo e ao cesto dos papéis, desde que, em Outubro de 1929, o presidente da Câmara, João dos Santos Jacob, propôs a criação dos recipientes para o lixo, que o povo logo começou a chamar «jacós».
Mantendo-nos em Coimbra, igualmente surpreenderá ouvir «depois tens uma cortada à esquerda e vais por aí». Cortada é travessa, atalho, na nomenclatura da Lusa Atenas; quiçá, uma boa alternativa ao estrangeirismo «link» dos computadores…
– Amanhã, dás-me boleia?
Poucos saberão, porventura, a origem da expressão. Boleia era, nas antigas carruagens, o pequeno assento ao lado do condutor, amiúde usado para levar quem não tinha outro transporte e, por isso, ‘apanhava uma boleia». Já no Brasil, o termo é carona. Poderá ter origem parecida à da boleia em Portugal, porque aí se chama de carona uma peça do arreio que se coloca por baixo do lombo do animal. Creio, pois, sem lógica a hipótese de a palavra vir do castelhano e, este, do latim «caro», que significa carne, como os dicionaristas sustentam.
– Levas-me aí um sopapo, que até vais a nove!

Foi numa visita de estudo do Curso de Museologia ao Museu do Eléctrico, no Porto, que percebi o verdadeiro significado da palavra: no volante do guarda-freio, 9 é a velocidade máxima que o eléctrico dá!

                                                                       José d’Encarnação

Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 863, 15/4/2024, p. 10.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Os nossos termos vernáculos

             Não baixamos os braços, nós, os defensores da língua portuguesa. Diariamente pugnamos contra a avassaladora invasão de termos estrangeiros, aceites amiúde sob o pretexto de que melhor exprimem o que se pretende dizer.
            Sim, é difícil resistir, por exemplo, ao uso da palavra email, em vez de ‘correio electrónico’. E até já sabemos: pronuncia-se ‘imeil’ – e toda a gente compreende. Aceita-se, aqui, a derrota. Contudo, novas e aguerridas frentes de batalha se abrem.
            Assim, João Lourenço Roque, refugiado no lugar de Calvos da remota freguesia beirã de Sarzedas, não tem hesitado dar a conhecer nas suas crónicas (publicadas depois em livro sob o título de «Digressões Interiores») termos e expressões da «linguagem à moda antiga»: estraboucher = rebolar com dores e espasmos, «prendi o burro a uma estaca, mas ele comido com moscardos tanto estrafouchou que partiu o cabresto, largou os atafais e abalou desinfriado ós fanicos lombas acima…».

            A propósito da fotografia dos cestos à venda na feira, escreve Alberto Correia («Ruralidades» 2023, p. 35): «E o cesteiro que logo de manhã se senta no seu banco armado com o ferro de lavrar no preparo das corras, as delgadas tiras de madeira de castanho, de mimosa, de sanguinho ou os vimes do ribeiro»… Quem há aí que use no quotidiano essas palavras?
            Maria Mícaela Soares, etnóloga que fez a sua vida na Assembleia Distrital de Lisboa e percorreu, por isso, todo o distrito, mormente a região saloia, legou-nos o livro «Glossário de Linguagem Popular – Apontamentos», volume de quase 400 páginas, agora postumamente editado pela Câmara Municipal de Cascais. Esse longo e mui atento contacto com o povo, por um lado, e, por outro, a miúda leitura dos nossos clássicos, sobretudo aqueles que à linguagem dedicaram largas páginas, deu-lhe azo a compendiar centenas de expressões que, essas sim, fazem parte do nosso quotidiano e são, por isso, inacessíveis aos estrangeiros e, cada vez menos, às gentes da cidade embalsamadas em vocábulos da estranja: «esticar o pernil», «essa nem lembrava ao diabo», «daí, menino, eu lavo as minhas mãos», «pareces, homem, uma tábua de engomar», «ah! esses, cuidado com eles, fazem mão baixa de tudo, chiça, penico, chapéu de coco!»…
            Dar baixa devíamos nós das palavras inglesas que grassam como peste malina e pôr em alta, ao invés, os termos que nosso falar tanto enobrece.
 
                                                                José d'Encarnação

            Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 862, 1/4/2024, p. 10.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Molhem as cordas!

            Reza a história que, a dado momento da operação de se erguer, no meio da Praça de S. Pedro, o obelisco vindo do Egipto, no ano 37 d. C., o pânico se apossou dos operários, porque as cordas começaram a ranger e se corria sério risco de partirem e, caindo, o obelisco partir-se, além de poder ferir gravemente alguém. O que é que se faz, que não se faz…
            De repente, há um grito na multidão silenciosa:
            Aqua alle funni! Molhem as cordas!
            Assim se fez, numa pressa. O obelisco, de 350 toneladas, mantém-se, pois, na Praça de S. Pedro desde esse dia, quase fatídico, de 10 de Setembro de 1589. E o capitão Bresca, que ousara quebrar o silêncio a todos imposto durante a operação sob pena de morte, acabou por ser agraciado pelo Papa Sisto V e o seu grito assume-se, hoje, como símbolo da luta contra a prepotência.
           Ao investigar a prática da caça nos começos do século XX em Cascais, apercebi-me, nas narrativas, da maior preocupação dos caçadores: a água para os cães! Deveriam organizar o seu périplo de modo a passarem, no tempo oportuno, por um chafariz ou um charco onde os animais pudessem dessedentar-se. Compreendo isso, hoje, claramente, porque o meu labrador, antes e depois dos passeios diários, nunca se esquece de beber.
        A importância da água não carece de argumentação, até porque há uma espécie de norma vulgarmente aceite (quiçá cientificamente documentada) de que devemos beber litro e meio de água por dia. Meu urologista torceu o nariz, há dias, quando, cheio de vergonha, eu lhe confessei o pecado de negligenciar essa norma; percebi, pelo seu ar, que merecia penitência.
            A questão põe-se também – e cada vez mais – em relação à qualidade da água, mormente da água que nos é fornecida pela «companhia», palavra que serve para identificar o organismo oficial encarregado desse fornecimento. Somos, por vezes, surpreendidos por depósitos estranhos ou por um sabor «a cloro» e aumenta a tentação de consumirmos água engarrafada (preconiza-se que não seja sempre da mesma origem). Lembro-me que, em pequeno, ouvia dizer que meu padrinho Garcia, de Olhão, era o distribuidor-mor da água de Monchique, uma das que, na verdade, quiçá pelo seu alto teor alcalino (9,5 de ph) ou em homenagem ao meu padrinho, eu também tenho em casa habitualmente.
Direi, porém, que fiquei mui agradavelmente surpreendido quando, em Maio do ano passado, me foi apresentada à mesa, na cantina da Universidade do Algarve, uma garrafa que dizia «Água da Torneira». Congratulei-me. Até enviei mensagem ao nosso ex-presidente António Eusébio, o que ora preside às Águas do Algarve, S. A., a congratular-me com a iniciativa.
      Nesta aflição em que estamos aqui no Sul, na iminência de racionamento do precioso líquido, duas medidas se preconizam, como toda a gente sabe: poupar e não desperdiçar. Poupança a nível individual e familiar; poupança, de modo especial, a nível das estruturas, para evitar fugas na canalização. A reabilitação de poços insere-se igualmente – deveria inserir-se – nessa preocupação. S. Brás de Alportel, pela sua localização em vale tem, como se sabe, potencialidades a nível freático. Lembro-me sempre das bicas dos Vilarinhos ou do poço do Corotelo, que era público e hoje se encontra, ao que parece, inoperacional – e importará saber porquê). Tudo o que contribua para diminuir os lençóis subterrâneos ou os contaminar deve ser prioritário impedir.

                                               José d’Encarnação

Publicado em Notícias de S. Braz [S. Brás de Alportel], nº 328, 20-03-2024, p. 13.

Ruralidades

            Aceitou a Freguesia de Viseu o desafio de publicar em livro de prestígio, excelente apresentação gráfica, capa cartonada, o álbum intitulado Ruralidades, da autoria do Dr. Alberto Correia. Fotografias do Arquivo Foto Germano, de Viseu; design de Sónia Ferreira. 2023, 500 exemplares, 64 páginas.
            Louve-se a sensibilidade do seu presidente, Diamantino Amaral dos Santos, que salienta, na Nota Introdutória, este «discurso simples e delicioso, que matiza e faz persistir as memórias de gentes pitorescas»; louve-se a disponibilização de  verba para a edição; louve-se a forma original como o Autor legendou, na página da direita, a foto inserida na da esquerda, fazendo-a falar, levando-nos, em clave poética, a melhor a contemplar e a entrar, de mansinho, na existência antiga do que ali se apresenta como que apanhado em fragrante…
            Optou-se – e bem! – por magníficas fotos a preto e branco, que mui adequadamente realçam o instantâneo captado. Nada de poses, de artifícios! É mesmo o instantâneo natural, susceptível de transmitir o viver quotidiano. Acontece, porém, que o Dr. Alberto Correia não se limita à mera evocação dos seus tempos de menino, mas evoca sobretudo – e isso é que importa realçar – o halo poético que deles inevitavelmente dimana, com o objectivo de preservar a memória, fautor de manutenção de identidade!
 

            Não resisto a exemplificar usando a imagem (mui difícil, muito difícil mesmo a minha opção, confesso!) escolhida para a capa: a das lavadeiras na Ponte da Azenha, no rio Pavia. Aí cumpriam elas «a arregimentada tarefa do lavar da roupa de uma abonada burguesia (…)» e «de uma residual e caprichosa fidalguia». A burguesia a viver em «solenes mansões»; os fidalgos, nos «últimos solares que resistiam à ruína».
            Tarefa acabada, roupa corada, enxaguada e seca «na suspensão festiva do cordame», dobrados «os lençóis de linho, as roupas de uma não desvelada intimidade, toalhas de mesa e  peças de enxoval», o poeta anota:
            «Um filho ao colo, um filho pela mão, os passos marcados no subir da calçada e o cheiro a sol que as lavadeiras deixavam à porta de um lar. E a roupa delas que ficar por lavar!...».
             Ouvimos-lhes os passos, sentimos-lhes o cansaço, deixamo-nos ficar. Maravilha!

                                                                José d’Encarnação

Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 861, 15/03/2024, p. 10.

 

terça-feira, 5 de março de 2024

Miosótis

             Uma luz diferente quis envolver o raminho. Chamou por mim. Cativou-me – a recordar a frase d’O Principezinho:

«Quando se ama uma flor plantada numa estrela, é um encanto, à noite, olhar para o céu: todas as estrelas estão floridas».

Assim o miosótis.

Florinhas de corolas hexapétalas de um azul cerúleo, estames amarelos ao centro envolvidos de branco; folhas lanceoladas, só de nervura central de um verde mais carregado. Beleza! Vistas assim, de parede cinza ao fundo: maravilha!
            Dir-se-ia artificial arranjo de ikebana, mas não é: rendo-me ao Criador!
            Não resisti. Fotografei a serenidade bela do meu miosótis. E mais pasmado fiquei quando vim a saber do seu nome popular: não-me-esqueças!
            Irresistível a vontade de o começar a partilhar. De Portugal voou, por exemplo, para Roma. Recebeu-o Eugenia Serafini com particular carinho e, num repente, quis dedicar este haiga:

                        Piccoli fiori

  Sorridono alle

                S t e l l e

    Volo di Colibrì

As flores bem pequeninas
Sorriem para as estrelas
Qual voo de colibri

Ikebana, arranjo floral japonês; haiga, desenho simples, com traços singelos, a complementar o haikai, poema conciso. A delicada simplicidade japonesa, imagem e poesia, a sublimar a admiração, a concretizar a comunhão entre a Arte divina captada por uma objectiva e catapultada – pela Poesia – para um horizonte superior.

Imaginamos o sereno esvoaçar do colibri a tentar sugar mui saboroso néctar – e quedamo-nos, alfim, em mui contemplativo silêncio, alheados, completamente alheados do vertiginoso corrupio em que se nos escoam os dias…

José d’Encarnação

Publicado em Renascimento [Mangualde], nº 860, 01/03/2024, p. 10.