sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Salpicos de Verão…

             A todos nos acontece. Dias há, em que, após a azáfama, sentimos a necessidade de mergulharmos no nosso jardim interior, de preferência acariciados pela brisa da noite (eu sei que a frase é «lugar-comum», mas eu gosto dela e gosto da frescura da brisa…). E deixamo-nos enlevar na onda de pensamentos despertados. Partilho-os. Dá-me licença?
            Gosto de me deixar inebriar por este mar calmo, mosqueado pelas luzes paradas das chatas. Sinto a esperança do pescador.
            «Todos os regimes têm os seus ladrões, mas só são tolerados os que sabem governar» – proclamou Cossiga, quando presidente, já em apuros, de uma Itália sempre turbada e imprevisível.
            A diferença entre governar e… governar-se!
            Assisto à exumação de um ente querido. Meio apodrecidas já as tábuas do caixão. O coveiro agarra na caveira com cuidado. Retira tíbias e perónios de dentro das calças meio rotas. Despeja no alguidar os ossinhos guardados nos sapatos…
            Pelo caminho sereno do regresso, vi tantos corpos aperaltados, na perspectiva de uma ‘eternidade’ bem diferente daquela que eu acabara de viver junto à cova reaberta.
            Encontram-se de seis em seis meses, no mesmo dia, à mesma hora. No rosto, a mesma interrogação: será que o pacemaker continua operacional? E sempre a mesma pergunta: porque será que as consultas começam impreterivelmente muito para além da hora prevista?
            Os olhos brilhavam-lhe e toda ela parecia vibrar nos seus 60 e tal anos. Conversava entusiasmada com uma amiga, na sala de espera do hospital, espera ritmada pelo toque descompassado do besouro da «sua vez». Falava do Espírito Santo.
 
                                              José d'Encarnação
                                                                      

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