
Fica
para trás o movimento das ruas, o andar apressado para o emprego, a preocupação em chegar a tempo de apanhar o barco ou o
comboio… Fica para trás tudo isso porque, em cada um das dezenas de stands, se
te oferece, pelos mais variados caminhos, «tudo o que precisas para uma vida
mais saudável, em que o equilíbrio é a palavra-chave», a «oportunidade única de
aprender a viver o presente e de fazer uma pausa». Há quem convide para uma
corrida à beira-Tejo, para «desfrutar da incrível envolvente ribeirinha». Há
quem te proponha uma hipnose clínica, um chá quase mila groso,
olorosas essências que te ajudam a respirar suavemente… E quem nos diga que
temos uma «criança interior» e se disponha a colaborar connosco numa «regressão
a vidas passadas, para libertar bloqueios».

Aqui,
a taróloga mediúnica propõe-te que poderá consultar para ti o «baralho cigano»,
o «oráculo dos anjos», e, entre outros, «o oráculo das vidas passadas»…
São,
de facto, os outros lados da nossa vida comum.
E
paramos, não sem algum pasmo, diante da tenda onde alguém (só vemos os pés…),
sob um manto e numa maca, foi levado a abstrair-se de tudo e a navegar por
outras galáxias.
A
baiana, vestida a rigor, no seu amplo vestido rodado, ouve com atenção quem a veio consultar. Deita os búzios e, pela
posição em que ficam, desvenda a
mensagem a transmitir.
E
vi quem nos fotografasse a aura. Se bem entendi, aquela zona que nos envolve a
cabeça e cuja cor, na fotografia, contará muito de nós e nos ajudará a viver
melhor. Estamos habituados a vê-la concretizada naquele ‘araminho’ circular ou
na circunferência em volta das imagens dos santinhos. Pois ficamos a saber que
cada uma de nós também a tem; e há que descobri-la!
De
tatuagens nem se fala! Um mundo! Já tivera oportunidade de ver, na praia, a
infinidade de opções de assim se manifestarem crenças, emoções, ternuras,
paixões ou, simplesmente, o gosto estético nem sempre avesso a alguma rebelde
malícia ou acintosa ironia… Mensagens – a que, em corpo alheio, só alguns
poderão ter acesso. E, na Feira Alternativa, senhores, tatuagens não faltavam!
Quem as ostentava e quem se propunha fazê-las, inclusive como terapia.
Contudo,
perdoem-me, o que eu também apreciei deveras, confesso, foi a sugestão da
recepcionista, quando me entregava o convite de imprensa: «Aproveite, que ele
há aí bons restaurantes!...». Não sei se falava de comida espiritual ou da
outra; creio bem que… era da outra! Malandra!...
José d’Encarnação
Publicado em Costa do Sol Jornal (Cascais), nº 249, 2018-09-12, p. 6.
Gratidão amigo José D'Encarnação por um texto tão lindo, enquanto o lia fiz uma viagem fantástica pela feira alternativa novamente ... Registado em palavras as diferentes viagens que podemos fazer em busca de autoconhecimento para aprendermos o lado feliz e simples da vida. Todo o desenvolvimento pessoal começa de dentro para fora...Beijos de Luz no coração e muitas Bênçãos em todas as areár da vida ��❤️
ResponderEliminarFico grato por este eco tão auspicioso! Beijos retribuídos!
EliminarEstava eu a pensar ir dormir quando fui alertado para a leitura desta brilhante narrativa. Para mim nada surpreendente nao fosse o seu autor um brilhante ser iluminado (passe a redundancia) de uma luz radiante, fazendo inclusive corar o astro rei. É por estas e por outras que, cada vez que tenho oportunidade de ler algo escrito por ti ou conseguir uma amena cavaqueira contigo, sinto-me como se estivesse a alimentar-me do melhor repasto acompanhado do melhor vinho.
EliminarObrigado José por mais uma refeição literária, superiormente cozinhada por ti.
Bem hajas.
Gostei da 'refeição literária', após se ter falado de refeições espirituais e doutras mais... quotidianas e tão obrigatórias como as demais para a nossa boa subsistência. Abraço, grato, meu caro Luís!
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