
Sirgo IV beneficiou, mui justamente, do
apoio da Câmara Municipal de Castelo Branco e do Instituto Politécnico de
Castelo Branco. Uma publicação com a chancela albicastrense de RVJ-Editores,
ISBN 978-989-54396-8-3, 500 exemplares.
Sirgo
é outro nome do bicho-da-seda e, por isso, antigamente, sirgo era o nome da
seda também. Além disso, explica o dicionário que com esse vocábulo se designa
a seriguilha, ‘pano grosso de lã, sem pêlo’.
E
o leitor, de repente, antes mesmo de abrir o livro e quedando-se na imagem da
capa, congeminada a partir de uma pintura de Costa Camelo, pergunta-se pela
razão do título. Será que o autor a dá algures? Ou preferirá que nós o
imaginemos na gestação tranquila das
metamorfoses, ao longo dos seus dias e anos? Ou, modestamente, preferirá dizer
que é lã grosseira o que escreve, ainda que lhe possa, a ele próprio, trazer
aconchego o escrever, tecido mal amanhado?
Sim,
pode interessar-nos a opinião do autor acerca
do que exarou no papel. Uma opinião de agrado, certamente, doutra forma não se
exporia de novo e preferiria a atitude de Bocage: «Rasgo os meus versos!». Não
rasga. Mostra-os de novo. Há quem não goste de se ouvir e deteste ler o que
outrora escreveu. É claro que, 50 anos passados, não se voltaria a escrever
assim, outro é o pensamento, outra a visão da realidade envolvente. Nesse caso,
porque não rasgar? Compreende-se porquê: o Homem – e, por maior razão, o Poeta!
– passou por essas diversas fases e delas foi deixando testemunho através da escrita.
E
António Salvado nunca pôde viver sem escrever! Sem poetar. Sem olhar para a
realidade com olhos críticos, interventivos, semeando de Beleza os seus dias,
por mais amargos que se lhe antojassem. E disso urge dar testemunho. Um volume
como este marca o caminho que se fez
andando, como quis um outro António, o António Machado, «Caminante, non hay
camino, se hace camino al andar!». Mais do que uma antologia, Sirgo IV é, de facto, uma demonstração de vidas. Não uma vida só, a do seu autor, mas
do conjunto de vidas que, ao longo dos anos, junto de si estiveram. Que o Poeta
sente-se, é bem de ver; sente, porém, os outros também.
Não
resisto e abro. Sem preocupação de
páginas nem de datas. Na tentação de
me surgir logo um motivo de sedução.
E
surgiu.
Na
página 205, o poema chama-se «Após o combate» e tem dois tercetos. Não sei que
combate foi, se duma guerra nossa, no Ultramar, se a da Coreia ou Vietname. Vejo
o retrato e (que o Poeta me perdoe!) e reproduzo-o em forma de prosa:
«De
olhos fechados, eles vigiavam-se, desfeitos quase em pó; e, lado a lado,
sucumbidos ao fogo da metralha, difícil distinguir ali, estendidos naquela
solidão, feroz, terrível, quais os amigos, quais os inimigos».
Nesta
prosa fica-se um pouco sem jeito; mas, para mim, que sou prosaico, assim com
vírgulas, o texto sacode-me ainda mais e revela-se claro anátema contra as
guerras, contra todas as guerras: o redemoinho do combate cego, a morte mesmo
antes de o ser, o silêncio mortal que tudo reduz a cadáver, inútil o combate,
afeições desfeitas, sentimentos perdidos… Para quê?
Poeta
é assim. Em palavras poucas, espaçadas por vezes para nos quebrar o ritmo e nos
obrigar a parar, em palavras poucas, um mundo de emoções, mancheia de alertas a
gritar!...
A reedição impunha-se – que a Poesia é para se beber. A
longos haustos!
José d’Encarnação
Publicado em Reconquista
[Castelo Branco], nº 3841, 24-10-2019, p. 34.
Quando alguém que escreve tão bem, e pensa de forma tão ágil, discorre sobre o significado do título de um livro, SIRGO, de António Salvado, apetece ir na onda, talvez pela veleidade de julgarmos assim pertencer à mesma tribo.
ResponderEliminarGrande poeta é o António Salvado, grande mesmo. Do título passei à revisão do trabalho da larva do bicho-da-seda que, a partir de uma baba, suponho, vai construindo o seu casulo. Tal como faz o poeta, que das vivências e memórias, nem sempre atraentes ou gratas, consegue produzir finíssimos os de seda, os seus poemas. Mas isto é divagar. Importante mesmo é ler este belíssimo texto e aprender.