Agora e no tempo dos Romanos reveste-se de particular importância a temperatura no balneário. Temperatura em sentido físico – e tivemos, recentemente, um clube a protestar por isso; temperatura em sentido psicológico – «Este jogador constitui peça fundamental no ambiente do balneário».
Porventura por mera curiosidade, pensou-se, um dia, em
sondar arqueologicamente o pavimento da casa que fora do proprietário da
herdade onde se situa a villa romana de Milreu, em Estoi.
Por sentimento de respeito e também porque servia às mil
maravilhas para arrecadar as ferramentas, não se havia ainda pensado nisso. E a
maior surpresa surgiu: intacto, estava por baixo um hipocausto!… Como a
etimologia da palavra indica: ‘hipo’ (a palavra grega υπό) quer dizer «debaixo
de»; causto vem do latim caustum, ‘quente’. Ou seja, os senhores romanos
queriam servir-se desta sala, a deles, mas… aquecida!
Imaginou-se, de imediato, que se tratava do espaço de um
balneário, pois o hipocausto constituía, de facto, uma das partes principais
dos balneários romanos, juntamente com o frigidarium (área dos banhos
frios), o tepidarium (a zona morna), a palestra (ginásio e área
de convívio) e, naturalmente, a fornalha (o praefurnium), onde se
queimava a lenha para o aquecimento da zona privilegiada para a sauna, o caldarium.
Só que, feitas sondagens nas imediações e para espanto dos
arqueólogos, nada havia, no sítio da casa, susceptível de indiciar a
existência, aí, de balneário com as suas habituais partes constitutivas.
Não podia ser balneário! Era, sim, uma confortável sala de
estar aquecida, um triclinium! (ver
a figura abaixo)
Em Milreu, a abertura no canto direito mostra parte do hipocausto
Também a etimologia desta palavra merece atenção, para nos
apercebermos quanto um romano sabia apreciar a vida, tanto a familiar como a
social: tri- é prefixo que significa ‘três’; clinium sugere
‘reclinar’. À letra, portanto, lugar para se colocarem três móveis ou três
leitos para as pessoas neles se reclinarem.
Ora é sobejamente sabido – porque há muitas imagens que o
mostram (ver figura abaixo) – os romanos tomavam as suas refeições reclinados.
Era, por conseguinte, uma sala de jantar.
Triclinium de Milreu, na perspetiva de Felix Teichner
Partimos do balneário, estamos na sala de jantar. Ontem,
como hoje, dependências onde se deve privilegiar o conforto, para facultar
clima convivial e, com ele, a troca de impressões, o “negócio” em sentido lato.
Convém não esquecer que negotium, em latim, significa
exatamente o contrário de otium, ócio, repouso. ¿E quem disse aí que
ambos não possam coincidir? O balneário de uma equipa de futebol é para a pausa
e também para a definição das estratégias da segunda parte do jogo. Não rezam
as Escrituras que o primeiro milagre de Jesus teve umas bodas como cenário e
que a Sua mensagem maior foi apresentada na última ceia? Não constam
obrigatoriamente jantares entre as iniciativas de uma campanha eleitoral?!
Outros horizontes
Vamos deixar o senhor da villa (o dominus) em
amena cavaqueira com os seus familiares e amigos, no doce quentinho do
triclínio, e aproveitamos para, em jeito de viagem para outras amenas paragens,
recordar semelhanças com o que se acaba de referir.
No regulamento das minas romanas de Aljustrel (Vipasca) estão
bem claras as obrigações do arrendatário do balneário: a água deve estar sempre
a bom nível e a temperatura adequada.
Num mosaico da villa romana de Santa Vitória do
Ameixial (Estremoz) vê-se um homem de tanga (será o dominus?) a agredir
com um vassoiro uma mulher desnudada (ver figura abaixo). A inscrição diz que
ele está «escaldado» e daí que se comporte “como um carroceiro”, sem educação.
Que poderia ter acontecido? Provavelmente, a serva não teve cuidado e a
temperatura da água estava elevada demais e o senhor não gostou!
Cena do mosaico de Santa
Vitória do Ameixial
A existência de mananciais de água quente jamais deixou os
romanos indiferentes. Por isso, edificaram a cidade de Aquae Flaviae –
«Aguas Flávias», a futura Chaves, por aí se ter descoberto uma nascente.
Essa a razão pela qual se instalaram em São Pedro do Sul, localidade que poderá
ter estado sob a proteção da deusa Sulis, que é também a padroeira da
mais notável cidade balnear romana de Inglaterra, Bath, a cerca de uma centena
de quilómetros de Londres. Ainda hoje, Bath vive do seu enorme e muito bem conservado
balneário romano.
Água a jorrar no balneário de Bath
Não houve, que se saiba, importante nascente em Milreu. Também não era precisa – que o mar dali se avista e a Ria Formosa está ali mesmo à mão de semear!…
Publicado em Sul Informação, Março 20, 2026
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